Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de tempo

Redemoinho

Não, não. É mentira que o tempo voa. Não para quem tem saudades. Não para quem tece, diariamente, fios de espera. Há anos observo minha cerejeira, nos fundo de casa, sozinha no jardim. Levou tempos para fazer brotar uma flor. Uma única flor, pequenina. Nada passa depressa demais. O que envelhece é o seu celular, o modelo do seu carro novo. Minha vida não envelhece.

Encontro velhos conhecidos e ouço que eles me conheceram quando eu era assim, desse tamaninho. Sussuram então, no meu ouvido, que estão ficando velhos. Eu respondo que não. Eu respondo que somos todos, ainda, desse tamaninho. E a vida é tão lenta, e a vida é tão boa. E eu me contorço de saudades, e eu me preencho de espera.

Encontro, também, aqueles que sempre foram menores que eu. Eles eram os pequeninos. Estão hoje maiores, no tamanho e na coragem. Nos abraçamos e lembramos de quando eles eram apenas meus alunos. Agora não são mais. Estamos todos no meio do furacão, carregando sonhos e saudades. Tecendo a espera por aqueles que sempre serão mais pequeninos que a gente.

Não. O tempo não voa. O tempo, mesmo, ele nem existe. O que existe somos nós, corajosos e valentes frente à velocidade com que o mundo se movimenta, frente aos desejos imperiosos de estar aqui e estar lá, de ser um e ser mil. O que existe são pequeninos que crescem e nos ultrapassam, sorriem para nós, nos acenam de longe. E nos fazem lembrar que a vida, essa vida que nos cabe, é assim mesmo, cheia de movimento, cheia de alegria. Cheia de desejos de presença e carregada desses buracos da ausência. E a ausência é essa saudade. Não, o tempo não voa. É só o seu celular que envelhece depressa demais.

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Álbum de fotografias

Foi aos dezoito anos que comecei a contar a minha história. No lugar da antiga agenda de menina, cheia de clips coloridos, tickets de cinema, canetas fosforescentes, dei início à escrita de um diário. Com certo receio de ser tida como menina ainda, a dizer as coisas bobas e boas de menina, contando ao diário sobre o menino que lhe ofereceu uma flor.

Dia desses ouvi que pessoas tiram fotos para se lembrarem, um dia, do que foram. Medo do tempo. As fotografias seriam um bálsamo a nos lembrar que nem sempre fomos velhos, que nem sempre fomos cansados, que nem sempre fomos sozinhos. Medo do tempo. Medo daquilo que a vida vai nos tirar, medo do que seremos quando restarmos sem beleza, sem energia, sem coragem. Tiramos fotos de tanto e de tudo para nos convencer que fomos felizes e que a vida foi, sim, muito boa.

Eu não sei de fotografias mas sei do medo do tempo. Me faltam álbuns de foto mas minhas estantes estão cheias de meus diários a me contar o que um dia eu fui. São meus diários que me contam. E me contam de um jeito diferente. No lugar da foto da menina um pouco ingênua e sonhadora, leio sobre alguém que foi aos poucos perdendo a fé e encontrando as certezas que de certa forma procurava. No lugar do linha do tempo que conta os amigos que tive, as festas, as comemorações, leio aqui e ali sobre as dores de ter ao longe as pessoas que amei e que não me amaram, não do jeito que eu gostaria então.

Ao ver fotografias minhas de dez anos atrás sinto um pontada de tristeza, um medo do que virá, e acredito às vezes que o tempo é mesmo cruel. Mas meus diários me dizem coisa diversa. Eles me lembram que eu amadureci e que hoje, essa que escreve hoje, é sem dúvidas melhor e mais forte e mais Adriana do que aquela que escrevia no início do presente século. É a voz da Adélia ressoando que vinte anos a menos só fariam dela uma mulher mais jovem, nunca mais amorável. Nunca mais amorável.

Pelas fotos eu não sou capaz de reconhecer quem eu era, nunca sei bem quais tristezas o sorriso para a objetiva escondia. São meus diários que me relembram os meus segredos, são eles que me dizem quem eu fui e indicam, às vezes, caminhos para entender quem eu sou hoje, essa de hoje, mais amorável, sem dúvida.

Dez anos a mais certamente me farão ainda mais bem do que esses já vividos.  Poderei escrever melhor, sem dúvida. Poderei estudar mais aquilo que me intessa tanto. Terei conhecido ainda mais lugares e possivelmente serei um pouco mais generosa comigo e com os que me rondam. Porque tudo isso é movimento, e para haver movimento é preciso tempo. E é isso que a fotografia não permite. E é por isso que continuo pedindo câmeras fotográficas emprestadas, já que prefiro desenhar com as palavras aquilo que a imagem na frente dos meus olhos me reserva. E os meus diários continuam sendo, para mim, como um precioso álbum de fotografias a contar os dias e as belezas da minha vida, a contar sobre o menino que um dia me ofereceu uma flor.

Calendário escolar

Sou secretária de mim mesma. Na falta de alguém mais competente, logo de manhã repasso comigo os afazeres do dia. É preciso montar aula, é preciso ir ao mercado, é preciso não esquecer a entrega dos doces, é preciso passar no banco, ir buscar a roupa que ficou para passar. É preciso não esquecer a consulta médica, é preciso pagar o pedreiro. É preciso comprar algo para o almoço, é preciso não se esquecer de comer frutas. É preciso enviar aquele e-mail, aquele não, aqueles: há dias tenho enrolado para responder as mensagens que recebo. É preciso fazer a inscrição naquele curso, é preciso escrever um projeto para aquele edital.

Como boa secretária de mim mesma, lembro que preciso, urgente, comprar filtro de café. Preciso encontrar um encanador que resolva o problema da torneira do banheiro. Preciso podar a hera que cresce grande no muro do quintal. Lembro, ainda cedo na cama, que preciso ganhar dinheiro, e que pra isso tenho que fazer uma enormidade de coisas. Tantas que é preciso enumerá-las, nomeá-las, namorá-las e, acima de tudo, desejá-las.

E de tanto desejá-las deixo de lado o papel de secretária de mim mesma e começo a me dar ordens. E as ordens são tantas que por vezes perco o sono, perco a fome. E ao tentar cumpri-las todas, perco o encanto. É quando me percebo triste. É quando descubro que o desejo foi tanto que foi capaz de matar o próprio desejo. E é nesse momento que sinto as costas envergadas das tantas ordens que recebo de mim mesma.

E o dia que começou veloz encontra-se de repente paralisado. Volto à minha lista e não encontro um item sequer que seja urgente. Um item sequer que seja necessário. Respiro fundo, procuro um horizonte para pousar os olhos. É preciso esperança. Em vermelho. Esperança de que eu seja mais que uma lista de afazeres, mais que uma lista exasperada de afazeres. Só assim é possível voltar ao orçamento do portão, aos custos da pesquisa, aos contratos de serviços a serem prestados e ao calendário escolar para o próximo semestre.

Convite para o baile

Um presidente foi deposto. A bolsa de valores caiu no Japão. Um banco internacional foi vendido. Uma amiga mudou de casa. Um bebê saiu do hospital. Uma festa aconteceu. O resultado de um concurso saiu. Outra festa vai acontecer. Foi inaugurado um posto de saúde no novo bairro da cidade. Duplas foram definidas para as próximas eleições municipais. Um amigo escreve dizendo que não estará presente à minha comemoração. Outro estará. Mais outro. Engravida-se. Nasce-se. Morre-se.

Tudo, tudo povoa minha cabeça, tudo faz bater mais forte o coração. Meus olhos fixos na tela do computador, notícias e notícias sendo atualizadas, o mundo girando, acontecendo, fervilhando, girando, girando. E meus olhos atentos, buscando novas atualizações, novas notícias, novidades dos amigos. Novidades. Novidades.

E quando meus olhos descansam da tela percebo a sala ao meu redor. A cortina não saiu do lugar. O pinóquio ainda está sentado, como há meses, no umbral acima da porta. Os quadros e as fotografias representam os mesmos lugares que representavam desde que foram colocados ali. As lembranças trazidas por cada objeto ainda são as mesmas. Dois porquinhos de barro em cima lareira. Galinhas de madeira ciscando uma sujeira que não existe. Uma luminária iluminando cotidianamente meus estudos. Uma cadeira ainda com o pé quebrado. Uma lâmpada ainda queimada.

Não. Nada é tão veloz. Não há notícias e atualizações e novidades e promoções capazes de modificar um milímetro o que acontece no lugar exato onde estou agora. Nada muda. O tempo não passa. Até as flores parecem não murchar nem envelhecer. Eu mesma não envelheço. Mentira que o tempo passa. É só ilusão. Ilusão de movimento.

Porque assim como eu, o mundo uma hora desconecta, desliga o computador, acaba a bateria, dá apagão. E nessa hora o que resta é mundo, esse mundo mesmo que conhecemos, com seus pinóquios e beija-flores e hortências e lâmpadas queimadas e porquinhos de barro sobre a lareira. O que resta é a gente olhando para as estrelas, lembrando do tempo em que apontar para estrela cadente fazia crescer verruga no dedo. O que resta é a gente mesmo, de carne e osso, sem novidades, sem mudanças, sem notificações. O que resta sou e você. E bem que poderíamos fazer um bom baile com isso tudo.