Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Casas Livros Músicas

Cheiro de geleia

Para Aline Izabel

Ando à procura de uma palavra bonita e cheia de alegria para
colocar em minha estante. Uma palavra-fotografia que me lembre, todas as vezes
que eu pronunciá-la, uma imagem que me acalme, que me farte, que me alivie do
peso da vida. Procuro uma palavra-senha, palavra-chave, que me permita adentrar
por lugares secretos, carregados de um perfume que me aqueça a alma nos dias
chuvosos.

Quero uma palavra que seja farta de significado, de memória,
de cor e de movimento. Uma palavra que traga a bênção para titubear menos
frente ao dia que nasce de novo azul. Palavra-amuleto que me acompanhe quando
sinto medo.

Entre tantas palavras, gostaria de encontrar uma que unisse
em si o amarelo, o entardecer, o cheiro de terra molhada da chuva, o sorriso de
quem amo, o sabor do salmão cru, a grama tocando meus pés descalços, a água
escorrendo pela boca depois da sede maior, o corpo descansado depois de uma
longa noite de sono profundo, a surpresa de encontrar um fruto ainda pequeno no
quintal de casa, a lágrima daquele que se emociona ao ler um escrito meu, o
sabor do brigadeiro assim que ele toca a língua.

Gostaria ainda que essa palavra-mantra fosse sonora e cheia
de movimento. Palavra-canção, que encha a boca de quem a pronuncia e convide
para uma passo de dança. Palavra-insinuação.

Procuro uma palavra que seduza, que prenda a atenção num
átimo, que enlace quem a escuta como um encantamento. Palavra que seja repleta
de paixão e recuse para sempre a monotonia. Palavra-veneno.

E como se fosse impossível encontrar uma palavra que tocasse
com leveza a minha alma, fazendo com que ela dance de forma suave, sorrindo
apesar da chuva, apesar do mundo sombrio que se apresenta lá fora, lá está ela,
sobre a minha estante: palavra-redonda, palavra-cor, palavra-doçura, palavra-memória,
palavra-explosão, palavra-segredo, palavra-convite. Jabuticaba.

Anúncios

Lápis de cor

Era época de Natal e fui até a Livraria Cultura da Avenida Paulista. Sempre tenho um certo calafrio quando vou a essa loja, e não é porque ela é a maior livraria da América Latina, mas porque, talvez exatamente por isso, é um lugar onde eventos estranhos acontecem vez ou outra. Diz-se de um rapaz que entrou certo dia na loja com um taco de beisebol e acertou a cabeça de um desconhecido que estava no caixa. O rapaz desavisado, que comprava livros certamente, veio a óbito. O outro, o do taco de beisebol, me parece que foi internado em algum sanatório.

Já de posse do calafrio de entrar na livraria com um histórico como esse, eu me dirigi diretamente à lojinha da Faber Castell, que fica na entrada. Queria comprar um estojinho de lápis de cor, para dar de presente para alguém. Certamente é simpático ganhar um estojo de lápis de cor, dá para circular no jornal dos classificados seguindo alguma codificação específica: círculo amarelo indica anúncio interessante; vermelho, anúncio desrespeitoso pelo preço (aqui o vermelho significaria indignação); círculo verde poderia indicar que é algo bem plausível de ser comprado ou adquirido ou alugado, seja lá o que for.

O estojinho poderia ainda servir para marcar as páginas de um livro de poesia, desses que a gente vai ler e depois dar de presente para alguém: assim o livro-presente já viria com uma marcaçãozinha bem pequena ao lado do número da página, quase imperceptível, e poderia também ter uma codificação secreta: amarelo indica que gostei da poesia, azul que eu não entendi muito bem, vermelho que o texto desperta sentimentos fortes, verde que existem frases ou idéias que poderiam ser aproveitados nas minhas crônicas, e por aí vai.

Enquanto eu olhava a vitrine e me espantava com o preço das caixinhas – variando de 40 a 500 reais – a atendente da Faber Castel conversava com um rapaz no balcão sobre as qualidades de uma certa caneta. Ela dizia que a caneta não ressecava, que era possível trocar a carga, que a madeira que cobria o tubo da tinta era tratada. E eu ali, rondando os dois, à procura de lápis de cores mais acessíveis. A conversa entre os dois ia longe, e foi então que a mulher disse o preço da caneta: algo como 800 reais. É claro que não contive o meu impulso e olhei para a cara do moço comprador. Afinal, quem é que compra uma caneta de 800 reais na lojinha em frente à livraria?

Acho que o moço percebeu meu espanto: tentei disfarçar, busquei alguma coisa dentro da bolsa e fui-me embora. Não quis saber se ele comprou ou não a tal caneta. Eu não comprei nenhum lápis de cor. Nem mesmo se eu ganhasse o prêmio Nobel eu gostaria de escrever com uma caneta dessas. Nem mesmo se eu assinasse um cheque bilionário eu usaria tal caneta. Uma caneta vai ser sempre solitária, e nunca vai poder colorir meus livros do jeito que eu gosto.

Dei uma espiada para dentro da loja, já melancólica: não era possível dar dois passos sem esbarrar em alguém. Achei melhor não arriscar, não queria correr o risco de eu mesma enlouquecer lá dentro e sair dando bolsadas em alguém e depois ser interditada por conta disso. Dei meia volta, fui-me embora de vez. Ainda sonhando com um estojinho de lápis de cor para colorir livros ou criar uma codificação secreta para cada sentimento e desejo que trago dentro de mim.

Caminhão de mudança

Lembro-me da primeira vez que me mudei para esta casa: mal descemos do caminhão de mudança, meu irmão olhou para mim com os olhos grandes, brilhando naquele dia já quase noite, e propôs um acordo – não comigo que eu não tinha poderes para decidir sobre aquilo – mas com o próprio destino: iríamos escrever qualquer coisa na porta de entrada da casa – ainda meio construção – com uma lasca de tijolo: se no dia seguinte o escrito ainda estivesse ali, teríamos certeza de que não estávamos sonhando.

Eu já tinha completado dez anos e era a primeira vez que eu morava em uma casa. Meu irmão, com um ano a mais, certamente com mais experiência que eu nessa vida de apartamento, bem sabia que era melhor negociar com o destino para garantir nossa estadia naquele sonho. O escrito foi feito na parte da casa que ainda não estava pronta e que levou anos para terminar. Durante muito tempo passávamos por aquele umbral marcado pelo acordo que fizemos naquela noite de mudança.

Não me lembro exatamente quando foi que colocaram o batente na entrada e finalmente instalaram a porta, encobrindo o nosso trato. Certamente eu e meu irmão já andávamos esquecidos do sonho e não sabíamos mais dos olhos grandes e brilhantes um do outro. E provavelmente, logo depois disso, partimos para outros lugares, passando diariamente por portas que não estavam mais marcadas pelo nosso acordo com o destino.

Da segunda vez que me mudei para esta casa eu completava dez anos moradora de apartamento. (Lembro-me de tantas vezes que fechei a porta de um apartamento pela última vez, com um olhar derradeiro sobre o lugar que me acolheu por certo tempo para no instante seguinte chegar a um outro ponto, outro lar). E foi no meio da arrumação das caixas, toca a correr trazendo a geladeira para não descongelar as coisas do freezer, desocupa o quarto para caber mais uma cama, ajeita essa montoeira de livros da menina – foi como um estalo, eu passei por aquela porta e me lembrei do trato que fizemos, meu irmão e eu, com o destino.

Quando acordei, no dia seguinte, percebi que ainda estava ali, na mesma casa de 18 anos atrás, agora diferentes, a casa e eu, mas ainda apegadas uma à outra. Assim que acordei abri a porta do quarto que dá para a varanda, e a varanda que dá para o jardim. O mesmo jardim onde eu e meu irmão brincávamos na piscina de plástico nos dias quentes de verão, ou nos escondíamos de nossos primos nas noites de mia-gato. O jardim é outro hoje, não carrega mais as marcas da molecada que viveu ali, mas eu ainda posso ouvir os nossos gritos e brigas de criança.

Para me certificar que isso tudo não é sonho, sempre que passo pelo umbral de entrada toco de leve no batente, lembrando do acordo que fizemos com o destino, que está cravado ali, em algum lugar, debaixo daquela madeira, daquela tintura. E sim, ele cumpriu a sua parte do trato, e sempre tenho a certeza de que não estou sonhando, quando chego ou quando saio partindo.

Vida dividida

Vida de retirante deve de ser assim: a mãe cata as roupas dos meninos, põe as tralhas num saco, e leva pra outro lado, pra outro canto, prum novo lugar que de certo vai ser por um tempo, tempinho curto, sua nova casa. A mãe pode ser mulher simples, com pouquinha coisa, os pertences todos da família toda num saco só. Pode também ser mulher rica, e viver a encaixotar quilos de roupas e cristais enrolados naqueles sacos com bolhas de ar que a gente adora estourar: vida de retirante não é privilégio de nenhuma classe social.

O pai de uma amiga trabalhou por anos como gerente de banco. Quando criança, ela mal sabia em que cidade morava – de tanto o pai ser transferido. Hoje, com casa fixa na capital, conhece meio mundo: cada cidade que vai é capaz de lembrar de um velho amigo e logo consegue companhia para os jantares solitários daqueles que viajam a trabalho. Passado de retirante faz crescer a agenda de contatos e diminuir a solidão de alguns compromissos.

Outra conhecida era filha de diplomata. Nasceu na França mas tinha nacionalidade brasileira. Nunca entendi como alguém nascido numa cidade francesa qualquer pode ser brasileiro. Antes mesmo de se alfabetizar, mudou-se para os Estados Unidos; já crescida, foi estudar na Suíça. Quando a conheci, tinha acabado de voltar de Londres, com alguma especialização na London School of Econimics. Seu currículo era notável, assim como eram notáveis suas dificuldades em se relacionar, articular bem as palavras ou traçar uma linha de raciocínio. Não sei bem se sua depressão tinha raízes em sua vida de retirante. O que sei é que ela parecia uma mulher solta, desamarrada, sendo levada pelo vento dentro do próprio coração.

De mim, desde que saí de casa pela primeira vez, com meus 18 anos a tiracolo, nunca mais criei raízes. Aprendi a carregar pouca coisa na mala, a ter duas casas, a dividir o quarto com diversas mulheres, a viver com muito pouco espaço. Percebi que aquilo que preciso num certo momento está sempre em outra cidade. Entendi que muitas vezes estou aqui enquanto o mundo acontece lá. Vivi, desde então, cheia de saudades. Vida dividida.

Hoje minha vida de retirante se resume a uma busca de espaço. Vivo em duas casas dividas por uma centena de metros. Em uma delas deixo apenas o que eu preciso para viver com dignidade o dia a dia: algumas panelas vermelhas, a chaleira de cerâmica, uma mesa pequena de madeira, assinada por minha mãe, a batedeira que me ajuda nas receitas de bolo, assim como as forminhas para fazer os muffins. Ali a biblioteca é pequena: dois livros de poesia, o último romance que comecei a ler há mais de ano, alguns livros de antropologia e a Mafalda da primeira à última tira. Existe um colchão atrás da porta, caso uma visita inesperada chegue no meio da noite, e tenha que dormir no chão da sala.

Na outra casa eu deixo o quintal, todo verde com o seu gazebo, os livros de fotografia, as três panelas de pressão que ganhei de casamento, os passos calmos de quem tem de atravessar toda a casa para chegar até o portão quando alguém toca o sino, minhas roupas de banho para tomar sol logo quando começa o dia, minhas lembranças e memórias de quem cresceu neste lugar.

Uma casa é oficial, a outra é invadida todas as vezes que meus pais saem para viajar. Mal eles viram a primeira curva da estrada, eu ponho meus trecos na sacola, junto restos de trabalho e de comida, me mudo para lá. Não atendo o telefone porque afinal a casa não é minha. Mas converso com as plantas, vigio a grama que cresce lá atrás, procuro pelos passarinhos que estão sempre na árvore da frente. E assim sigo a minha vida de retirante, carregando minha sacola por poucos metros, mas ainda assim marcada pela vida dividida, essa vida com uma coceira eterna de saudades.