Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Minas

“Você foi marcado em uma foto”

A câmera estava ligada, era preciso pensar rápido, o que, afinal, o repórter esperava que eu respondesse para uma pergunta tão sem propósito?  Enquanto tentava pensar sobre um assunto no qual eu nunca refletira, eu ouvia a respiração do câmera por trás das lentes. Ele, certamente, se deliciava com a minha angústia e estaria, irônico, sorrindo enquanto fechava a imagem sobre meu rosto aflito. Era preciso dizer à população mundial, posicionada atrás daquela câmera, o que eu esperava para o mundo para os próximos dez anos.

O tempo era diminuto e o repórter, cínico, me convidava a refletir sobre o mundo. E o mundo, naquele momento, me parecia minúsculo. Não eram os pobres da Índia ou os escravos bolivianos de São Paulo que apareciam na minha mente. Não eram as empresas farmacêuticas e seus testes em seres humanos que me visitavam. Nem mesmo era a política nacional, com seus escândalos, renúncias de ministros e cortes de orçamento o que me preocupava.

Eu lutava contra o meu egoísmo, mas só fazia pensar nas parcelas do financiamento da minha casa, nos prazos de entrega dos meus projetos, nos lugares do mundo que sonho em ainda conhecer. Eu espero que nos próximos dez anos eu não tenha envelhecido o suficiente para desejar fazer alguma plástica, espero que consiga comprar um carro com ar condicionado – o calor que tem feito na primavera é uma barbaridade. Espero que a malha do metrô de São Paulo triplique de tamanho e espero que o pedágio se torne mais barato no caminho para o litoral.

Perdida nos meus desejos, percebo os olhos do repórter, ainda ali ao lado, demandantes, esperando a resposta definitiva. Pensei então em Minas, pensei em São Paulo, pensei na Fernão Dias e disse, confiante, que gostaria que em dez anos os homens inventassem, finalmente, a máquina de teletransporte. Não era possível acreditar na nossa capacidade humana de desenvolvimento e ainda perder tanto tempo na estrada, no trânsito, no ponto de ônibus, na fila do metrô, na conexão São Paulo – Paris.

Os olhos do repórter sorriam. Eu havia passado no teste. O câmera, para meu alívio, disse corta!, desligou sua lente biônica, interrompeu a transmissão e voltei, então, ao meu lugar no mundo. Já na biblioteca – onde passo boa parte do meu dia – sentia meu telefone vibrando. Eram mensagens recebidas dizendo que haviam me visto na TV, lá no Rio de Janeiro; que eu havia sido marcada em uma foto no Facebook; que me ligariam de Minas na hora em que fossem cantar o parabéns para a bisavó para que eu pudesse, de alguma maneira, estar presente.

De dentro da biblioteca eu povoava o mundo. A minha incapacidade de estar presente em todos os lugares que eu gostaria se transformava em presença. Na hora marcada saí da sala de estudos e cantei parabéns para a bisa, comemorando com ela os seus 95 anos. No final da música, minha avó toma o telefone e diz que naquela hora iriam tirar a foto, e que eu estaria, junto com todos os meu primos, presente no registro daquele momento tão importante para a nossa família.

Ao desligar o telefone pensei nos olhos do repórter, e desejei que ele me abordasse mais uma vez, eu diria a ele que não era preciso inventar mais nada não, que tudo o que eu desejava para o mundo já estava ali: eu estava presente em todos os lugares em que eu desejava estar. E isso é suficiente.

Para Rebeca Campos

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Café com leite

Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não sinto cheiro de café coado vindo da cozinha. Em São Paulo nem mesmo existe um coador. Sinto saudades de Minas porque a cama em São Paulo é baixa – mentira dizer que tem cama: o colchão fica colado ao chão. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não existe um canto de silêncio: mesmo à noite sou acordada com buzinas e alarmes de carros. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não há cozinha grande que me acolha: não há como fazer bolos, risotos, omeletes.

Em Minas, sinto saudades de São Paulo. Em Minas, depois das seis da tarde, a cidade se encolhe, se recolhe, se refugia em um lugar qualquer que me escapa. Ninguém passeia pela Vila, pela avenida, pelo entardecer. Em Minas falta a padaria aberta, o armazém vinte e quatro horas, a possibilidade de ir a um bar sozinha e poucas pessoas, talvez, repararem na minha falta de companhia.

Em Minas me falta a livraria enorme, com uma infinitude de livros e o sonho de um dia ver meu nome num canto qualquer de uma estante. Em Minas me falta o chopp no final da tarde, o cinema quase no término da noite, o show que eu poderia ter ido na sexta à noite se não tivesse esticado até tão tarde aquela reunião.

Em São Paulo me falta a grama que eu piso todas as vezes que o trabalho me enfastia. Me falta a primavera no fundo do quintal, que insiste em forrar meu jardim de flores vermelhas que eu insisto em limpar com o meu rastelo. Em São Paulo me falta o espaço, apesar de toda sua amplitude. Em Minas me falta amplitude, com seus espaços sem fim.

Em Minas, minha voz sai anasalada. Em São Paulo, falo como quem canta e entoa cantigas da roça. Procuro em São Paulo o cheiro do café coado. Em Minas, procuro um chopp na calçada e uma conversa regada a sereno. E vivo, assim, semana após semana, dividida pela saudade, desejando o outro estado assim que atravesso a linha que separa o trabalho daquele lugar dominado pelo meu coração.

Litoral

Sua filha tinha sede e era à noite que ela era implacável: a menina levantava muitas vezes para beber água, e, depois, para ir ao banheiro. Durante o dia dormia nas aulas, tirava notas ruins, aprendia pouco e brincava pouco. O pai se preocupava, não era possível tanta sede, tanto desejo de se sentir saciada. Não era possível que a vontade de possuir a água atrapalhasse a filha a viver como uma criança normal: brincar na escola, aprender a tabuada, pular corda.

O jeito foi proibi-la de levantar à noite para beber água e ir ao banheiro. Ela, ainda menina, vivia uma fase em que as ordens dos pais eram razoavelmente bem executadas: bastava um olhar duro, uma ameaça de castigo – tirar a mesada, o passeio do domingo, a sobremesa – para que as crianças logo obedecessem sem muito trabalho.

Na primeira noite logo depois da proibição ele acordou com um barulho na cozinha. Não chegou a tempo de encontrar o visitante noturno – dos seis filhos, era pouco provável que fosse a caçula a desobedecer suas ordens. Na manhã seguinte ela amanheceu com a cama molhada, proibida que estava de se levantar para ir ao banheiro. Com o coração amolecido, o pai voltou a permitir-lhe que usasse o banheiro – mas que fosse apenas uma vez.

Durante a primeira semana ele não sentiu diferença no comportamento da filha: ainda sonolenta durante o dia, ainda ausente das peripécias das crianças de sua idade. Ele se entristecia. O coração de pai lhe doía todas as vezes que precisava lembrar à caçula a proibição: nada de levantar à noite para beber água, banheiro só uma vez durante o sono!

Foi na segunda semana da proibição que ele compreendeu, de uma forma dolorosa, a maneira avassaladora que a sede invadia o corpo da filha enquanto todos os outros dormiam: ao se dirigir à cozinha para buscar, ele mesmo, um copo d’água para a esposa, ele percebe a filha se arrastando pelo chão da cozinha na direção do bebedouro. Como um animal que rasteja, lá estava a filha em busca da única coisa que era capaz de lhe trazer tranquilidade para sobreviver o resto da noite enquanto esperava o amanhecer.

Estático, ele observava. Mal percebia as lágrimas que escorriam enquanto olhava para a filha com a barriga no cimento, sua proibição qual estaca martelando a mente, o desejo de arrancar a filha do chão, de lhe colocar no cólo e lhe oferecer um rio d’água, uma torrente, um manancial. Emudecido, viu a filha voltar para o quarto, rastejando, saciada. Se dissesse uma palavra sabia bem que filha se sentiria descoberta, envergonhada pela incapacidade de cumprir as ordens dadas pelo pai.

No dia seguinte acatou os conselhos da esposa: levou a caçula ao médico. Os exames apontaram uma dificuldade em quebrar os açúcares do sangue, e a alta concentração dessas substâncias lhe atacava a sede, que era a maneira que seu corpo encontrava de tentar equilibrar o desequilíbrio.

Começou a ministrar os remédios para a filha, que  passou a sentir menos sono durante o dia: melhoraram as notas na escola, melhoraram as brincadeiras, melhoraram as amizades. Mas a sede noturna já havia se transformado em hábito: jeito de viver e encarar a sede que tinha de vida, a sede que tinha do mundo. A água era o único remédio que lhe tranquilizava, que lhe acalmava, que lhe permitia dormir a noite e sonhar com as brincadeiras do dia.

Foi aos poucos que o pai entendeu o caso de amor que a filha tinha com a água: quando moça, largou as montanhas de Minas e foi morar no litoral, assim poderia ficar mais perto da única coisa que lhe aplacava a sede de viver. O pai tinha ciúmes, tinha saudades. Sua filha caçula havia encontrado, desde de cedo, uma paixão que lhe movia, enquanto ele, pai, era movido pela paixão que tinha pelos filhos.