Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Novembro, 2013

Catador de lixo

Bastava as pessoas se afastarem e logo ele corria para perto do lixo. Vasculhava, vasculhava, e nada. Carregava consigo uma pequena sacola, vazia, sempre vazia. Os poucos que o percebiam – quem olha para aqueles que vasculham o lixo? – se intrigavam com sua audácia em enfiar a cara inteira no lixo que fosse. Mas ninguém percebia que ele nunca catava nada, nunca achava nada.

Um dia, no entanto, ele encontrou algo num lixo de esquina, pegou o objeto como quem segurava um bebê recém nascido. Colocou na sacola com cuidado de amante. Chegou em casa, depositou o pacote sobre a mesa, se banhou, vestiu roupas limpas, se perfumou, ascendeu o abajour. Abriu o pacote e retirou com o maior amor que podia um coração que fora descartado. Cuidou de suas feridas, envolveu-o em seu colo, chorou sobre as dores que nem imaginava a quem perteciam.

Passado um mês, ele se pôs de vigília sobre o mesmo lixo da esquina. Trazia consigo o coração já saudável, batente, forte. Procurava o dono ou a dona daquele coração. Depois de horas e de uma multidão de pessoas que passaram ali, ele avistou um senhor calvo, idoso, triste. Aproximou-se do homem e lhe entregou o pacote dizendo que aquilo pertencia a ele. O senhor se espantou, abriu o embrulho e viu ali seu próprio coração, recomposto, fortalecido. Já não precisaria mais sofrer. Quando levantou os olhos no intuito de agradecer à alma bondosa que cuidara de seu coração, o homem já não estava mais lá. Ele estava longe, vasculhando outros lixos, à procura de novos corações.

Pedido diante de uma pilha de papéis

Por favor, me tragam a Maria Bethânia. Tenho dor nas costas e um profundo mau humor. Tragam a Maria Bethânia. A noite se promete longa, com muitos e muitos papéis à minha frente, um calor daqueles, os bichos que me mordem, me picam. Por favor, a Maria Bethânia. Não importa de qual época. Não importa o acompanhamento. Quero a Maria Bethânia cantando, cantando, cantando. Quero a Maria Bethânia fechando os olhos, apertando as mãos, alisando seu próprio cabelo. Tragam a Maria Bethânia.

Nada me pára no estômago. Não aguento mais beber água ou coca cola. Por isso, a Maria Bethânia. Preciso de algo forte, algo que embriague, que tonteie. Maria Bethânia. Preciso de estímulo e café não me serve. Preciso de carinho, de aconchego. Preciso alguém dizendo coisas que eu gostaria de dizer. Preciso alguém tocando a ferida, cutucando a ferida, dizendo coisas que eu não teria coragem de dizer.

Não adianta mais ninguém. Se não for a Maria Bethânia, quero que o mundo se exploda. Nada de Gal, nada de Mutantes, Vanessa da Matta, Cartola, Elza Soares. Não, nenhum me serve. Quero a Maria Bethânia. Não me venham com o Chico, não me venham com Simonal. Quero companhia, preciso de estar perto de gente, mas agora, justo agora, só quero a Maria Bethânia.

O dia já escureceu lá fora, a noite parece agradável, e aqui, diante de meus muitos papéis, uma sede que não passa, um calor que não cede, um sufoco que não esquenta. Vem, Maria Bethânia, vem me ajudar a vencer a mudice, essa falta de fala, essa falta de sono, essa falta de desejo. Vem me entoar cantigas, declamar poesias. Vem me lembrar de lugares que ando esquecida, paisagens encobertas por tantos e tantos papéis. Vem.

Vem.

Por favor, me tragam a Maria Bethânia.

Desnecessidade

Eu não preciso que você goste de mim. Já precisei, hoje não preciso mais. Já fiz de tudo para conseguir um sorriso seu, perdia noites interpretando seus gestos, buscando compreender se você estava zangado comigo, ou se aquilo não passava da minha imaginação. Se você andava triste, eu achava que a culpa era minha. Se estava feliz, era certo que eu não fazia parte da sua felicidade. Você era o centro da minha vida, e eu andava às voltas, próxima ou distante, mendigando carinho e atenção.

Às vezes você partia para tão longe que eu te perdia de vista. Às vezes, estando do meu lado, fazia questão de demonstrar que eu não era o centro de nada. Eu te amava e você deixava claro que não se importava. Você me acudia, mas só quando era completamente necessário. E nessas horas eu acreditava que você me amava. E nessas horas eu te amava, mais.

Hoje não sei bem por onde você anda. Mas te percebo numa cara fechada, num bom dia não correspondido. Numa recusa a ir comigo ao cinema. Te percebo no falatório cotidiano que diz e diz e nem se preocupa em perguntar como estou me sentindo. Te percebo no silêncio do telefone, que por dias e dias não toca, não chama.

Te percebo, mas não me importo mais. Não preciso mais que você goste de mim. Nem mesmo penso que não preciso, mas seria bom se você gostasse. Não me importo mais. Eu continuo podendo amar a quem eu quiser. E amo. Amo muito. Amo a muitos. E minha sina continua sendo amar, mesmo que os outros não me amem de volta. Mas não sofro mais. Não preciso mais. Hoje aprendi que o amor é bênção para quem o tem, para quem o cultiva. E que sempre haverá um sorriso inesperado, um convite no meio da tarde, um abraço que acolhe naquele lugar que a gente pouco espera.

Hoje não preciso mais que você goste de mim, porque aprendi a perceber que não amo sozinha e que sempre há uma mão estendida, que de tanto olhar para você eu não percebia. Hoje aprendi que há sempre alguém à espera, que deseja me transformar no seu objeto de amor. E são essas pessoas que hoje recebem os meus sorrisos e desejos de bom dia. E então, eu não preciso mais que você goste de mim.