Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Março, 2013

A distância de duas xícaras de café

Fazia meses que eu não o encontrava. Era preciso dizer algumas coisas, ajeitar os sentimentos, falar de nós. Nós? Eu nem sabia mais se era possível falar em nós. Eu sentia saudades, eu morria de saudades, meu corpo doía a cada dia a sua ausência, a sua distância. E agora ele ali, à minha frente, duas xícaras de café e uma distância de milhares de quilômetros.

Era preciso falar de nós. Comecei, então, a falar de mim.

Comecei um curso semana passada, de escrita criativa, a professora é uma escritora, meio famosa, meio estranha. Também fui no cinema e vi um filme que me lembrou você. É. O filme era com aquele ator que você gosta, ele estava deslumbrante, misterioso, a trama era fantástica, deixava a gente submerso do começo ao fim. O filme é baseado num livro, acho que você conhece esse livro, me lembro uma vez você falando que queria ler esse escritor. O nome do escritor? Puxa, era um alemão, acho que era alemão. Você não se lembra? Não tem problema, eu vou procurar na internet e te mando por e-mail. Falando nisso, você viu o último e-mail que te mandei? Não viu? Será que foi pro spam? Estranho… bom, não era nada, era pra te falar sobre uma peça que estreiou dia desses, pensei que a gente podia tentar ir juntos.

Ele afastou as xícaras e pegou minha mão. Os milhares de quilômetros diminuiram para centenas. Nesse instante eu parei de desfiar a ladainha vazia sobre minha vida vazia. Ele procurou os meus olhos e eu tive a certeza que ele falaria mais uma vez que era por isso, que era exatamente por isso que não dava certo, que a gente não dava certo. Mas não disse. Dessa vez ele não disse. Em silêncio ele aproximou o dorso da minha mão de seus lábios, beijando-o com toda a delicadeza e afeto que lhe eram tão comuns. Afastou novamente minha mão, olhou-a e disse que minha mão era uma das coisas lindas de todas as coisas lindas que eu trazia na vida.

Enquanto ele devolvia minha mão à mesa se construía em mim a certeza dolorosa que era por isso que eu amava aquele homem, por ele saber o momento exato de segurar a minha mão e me fazer calar diante do falatório alucinante que nos afasta de qualquer pessoa que esteja sentada à nossa frente.

Eu seguia seus movimentos vagarosos, suas mãos agora na xícara de café, a xícara entre seus lábios, suas mãos pousando a xícara de volta à mesa, como há pouco fizera com minhas mãos, o guardanapo sobre seus lábios, os lábios que há pouco tocaram minha pele. E então, ele disse, o que você mais gostou nesse filme?

Foi quando finalmente entramos nessa esfera em que o nós existe, em que não havia mais nenhuma distância nos separando, em que as xícaras nos eram intimidade e segurança. Esse lugar em que eu me permitia também tocar a sua mão, olhar seus olhos, dizer que tenho saudades etc.

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Uma economia dos segredos

Apenas mais três passos e o homem vê a sua frente uma multidão que o ovaciona. Ele espera um momento para que o barulho diminua e ele possa, então, dizer umas poucas palavras de alegria, agradecimento, encorajamento, generosidade. Palavras que todos precisam. O homem vê milhares de pessoas, lentes de transmissão ao vivo, sabe bem que cada palavra correrá o mundo naquele mesmo segundo. Desce, então, os três degraus que o levaram à fama e se lembra de seus segredos.

No mesmo dia, numa sala de um Tribunal de Júri qualquer, o réu nega todas as acusações que lhe foram feitas. As provas indicam que ele estava presente no local do crime. Ele nega. Onde estava, então? É o que o Juíz lhe pergunta. O réu pensa no namorado, o maior amor de sua vida e sabe que não pode dizer ao Magistrado que estava com um homem que amava. Se o fizesse, esse mesmo homem perderia o posto de Senador, seria expulso de casa e humilhado pela família, os nomes de ambos seriam estampados nos jornais e, para além de uma vida sexual e amorosa conturbada, o Senador também seria acusado de ser bichinha. O réu aguentaria tudo, menos ter que ouvir que seu amor era bichinha.

No mesmo momento, em outro lugar qualquer do mundo que nos acolhe, um deputado sai escoltado de uma reunião no Congresso Federal, seus muitos segredos foram devastados e não há mais aceitação para sua atuação política. Mais do que saber que precisa fazer malabarismos para permanecer no cargo que almejou por tanto tempo, ele descobre que há algo muito mais importante para se preocupar: o lugar onde guarda os seus segredos.

Se o novo Papa realmente teve parte na ditadura argentina, ele bem o sabe. Assim como bem sabe de seus preconceitos aquele que se assenta na cadeira de maior representante dos direitos humanos no congresso brasileiro. O que nós não sabemos é o que se passa na cabeça de um réu que nega a acusação que lhe é feita, de uma criança que afirma que não roubou um pacote de balas, de um adolescente que não admite seu envolvimento com drogas.

Se a nossa vida é uma eterna economia dos segredos, por que o escândalo alheio nos tira dos prumos, nos faz levantar a voz, transformando-nos nos maiores guardiões da verdade e da moral? Por que, geralmente, condenamos as pessoas que mentem e não as instituições que preparam o caminho e acolhem todos os nossos sigilos? Se a trava no olho do outro é maior que aquela que nos cega, ainda assim nos achamos no direito de levantar a voz para o nosso semelhante.

E quão semelhante ele nos é. Eu, carregada de segredos, faço esforços brutais para que nada do que escondo me core as faces. Digo sim tantas vezes quando meu coração está repleto de não – não sei seguir a máxima de fazer do sim, sim, e do não, não. Escondo escombros, velharias, pinto minha cara com boa maquiagem. Sorrio para disfarçar a tristeza. Choro de sem vergonhice. Minto. Sou tantas vezes desleal aos meus próprios princípios. Ando ancorada na contradição. E ainda assim, acredito que posso ser boa pessoa. Algumas pessoas gostam de mim, e, se elas mentem, eu acredito.

Talvez não seja a mentira o nosso principal inimigo, muitas vezes ela nos é abrigo. O problema talvez seja tudo aquilo que esperamos dos outros, e mais ainda daquele outro poderoso que de alguma forma nos representa. Ele não nos é semelhante, não queremos que o seja, pois só assim ele poderia nos salvar da nossa miséria cotidiana.