Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Livros que eu leio

Satanás, de Mário Mendoza

Satanás, Mário Mendoza

MENDOZA, Mário. Satanás. Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2009. 279 páginas.

Quando terminei de ler o livro Satanás, de Mário Mendoza, achei que a vida não prestava. Fiquei desanimada, abatida. Tive que sair de casa, tomar um ar. Mas ao sair,encontrava com gente, e a gente toda me desanimava ainda mais. Voltei pra casa. Me fechei. Melhor ficar sozinha, tentando pensar que o mundo não existe, que não há maldade, não há violência, não há medo. Há apenas a segurança do meu lar, aqueles que amo, o cheiro do aconchego, a vida sem conflitos, sem dores, sem doenças.

O livro de Mendoza é diferente de outros colombianos que já li. É diferente, ainda, de outros livros que tratam a temática da violência, tanto colombianos quanto não colombianos. Primeiro, porque trata não da violência, mas da existência do mal. Por isso o nome, Satanás. O que rege a trama do livro são as histórias em que cotidianamente o mal trinfa, e triunfa em todas as esferas: na vida cotidiana de um padre caridoso, nas relações confusas de um pintor jovem e talentoso com sua ex namorada, nos sonhos de uma moça órfã que procura sobreviver na selva da sociedade colombiana. O mal triunfa na vingança, na culpa, na luxúria, nos ciúmes. O livro é uma falta completa de qualquer esperança.

Ler o livro de Mendoza me ajudou, no entanto, a compreender um pouco mais a natureza humana, ao tratar da ambiguidade do mal que existe em cada um. A vítima que se torna agressor, e que noutro momento se torna vítima novamente. Ninguém está a salvo. Nem de um lado, nem de outro. O agressor que implora para não ser torturado. A vítima que ri da covardia de seu agressor.

Todas essas questões se encontram mescladas nas diversas tramas presentes no livro Satanás. São três histórias aparentemente diferentes que culminam num único desastre: o livro de Mendoza se reporta a um acontecimento real na Bogotá dos anos 1980. Campo Elías, um reformado da Guerra do Vietnã, numa noite sai de seu apartamento, onde assassinou a mãe e pôs fogo no cadáver e se dirige a um restaurante de alto luxo num bairro de Bogotá. Lá, depois de jantar, ele saca seu revólver já armado e dispara contra os demais clientes. Quase 30 pessoas morreram neste massacre e quando a polícia chegou, o atirador supostamente se matou.

Essa história pode ser encontrada nos jornais da época. Mendoza conheceu o atirador, foi seu colega na faculdade. Ele afirmou em entrevistas que Campo Elías era um homem estranho, como todos eram na faculdade naquele tempo. Um pouco solitário demais, apenas isso. Mendoza levou mais de quinze anos para escrever o livro e conseguir resolver a história que ficou dentro de si. A narrativa, portanto, é o resultado de um esforço de Mendoza por contar a história que lhe coube, da maneira como a imaginou. Mendoza recriou as vítimas do massacre a partir de diversas personagens.

O incrível do livro de Mendoza, no entanto, é exatamente as personagens que ele recria e que transitam ao largo de Campo Elías, aparentemente a personagem principal do livro. Campo Elías seria um psicopata, um agressor definitivo. Não há nada de ambíguo nele, não se duvida do que ele seria capaz, ainda que o final do livro surpreenda pela capacidade do mal. As demais personagens, no entanto, vivem um cotidiano trespassado pela violência, transitando entre o bem e o mal, a certeza e a culpa, o amor e o ódio. Uma moça que foi violentada e que manda executar seus agressores, sente alívio com a morte deles e em seguida vai se confessar com um padre católico. Um pai de família que se encontra frente à mais vil miséria e executa suas filhas e esposa por não suportar mais vê-las em total sofrimento. Um padre caridoso que se encontra em constante conflito com sua sexualidade.

Apesar do final desastroso, do massacre no restaurante Pozzetto, são as personagens e seu cotidiano no decorrer da trama que experimentam o mal que ronda, que sussurra, que se apodera das pessoas. São essas personagens que vivenciam a falta de esperança, que lutam para sobreviver e para resistir ao mal.

Não é possível ler Satanás sem se sentir desanimado com a raça humana, sem se questionar sobre esse mal que ronda, que espreita. E depois, bom, aí é melhor tomar uma boa dose de cachaça, procurar ouvir uma música do Tom, ler Vinícius, pedir proteção a qualquer santo, acender uma vela, tomar um banho demorado e tentar pensar que a vida, pelo menos por alguns instantes, pode sim ser boa, e desejar, de coração, que ela o seja para o maior número de pessoas possível. 

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Putas assassinas, de Roberto Bolaño

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BOLAÑO, Roberto. Putas assassinas. São Paulo, Companhia das Letras, 2008, 219 páginas.

Pode parecer grosseiro para alguns, mas para mim, este livro de Bolaño me fez lembrar Doze Contos Peregrinos, de Gabriel García Marquez. Pode ser grosseiro para o Bolaño. Pode ser grosseiro para García Marquez. Talvez se sentissem ofendidos. Não sei. Nada mais distinto que a matéria sobre a qual escrevem. A questão é que a abertura do livro de García Marquez, quando ele explica os motivos de serem doze, de serem contos e de serem peregrinos me parece que caberia também aqui neste livro de contos de Bolaño. Me explico. Não são doze, mas treze contos. Todos eles, no entanto, apontam para paisagens diferentes mas parecidas: o narrador se vê entre o Chile, o México e Barcelona. Poderiam, talvez, ser peregrinos. Cabe ao leitor agora verificar se as explicações de García Marquez para a opção de serem contos caberia também no caso de Bolaño. Fica a critério.

O olhar do narrador – e claro, sempre o narrador personagem B., que nos faz indagar se seria ele mesmo o autor, Bolaño, se seria esse seu alter ego, seu personagem preferido etc – difere em quase tudo dos olhares de García Marquez. As paisagens de Bolaño são marcadas pela desesperança, pelo assombro, pelo susto de se contemplar a natureza humana, a vida humana, o mundo, ao final. Os personagens dos contos de Bolaño transitam por cidades perdidas na poeira do deserto mexicano, por bares duvidosos no DF ou em Barcelona, por povoados miseráveis na Índia, por trens em trânsito pela Europa. Mas não há nada, absolutamente nada de vulgar nos contos de Bolaño. As putas que assassinam ou os filhos de atrizes pornô não estão presentes para montar um cenário carregado de sexualidade ou sensualidade. Não. Os personagens de Bolaño jamais são sorridentes. São personagens assombrados e que desvelam o assombro da existência. Apesar de transitar por lugares tão chulos, tão marginais, nenhum dos personagens do livro pode receber o mesmo adjetivo.

De todas as paisagens do livro, o Chile aparece como o lugar privilegiado de estupefação. O livro se parece como uma evocação dos lugares chilenos, dos eventos passados, da ditadura, da tortura vivida por tantos dali, da história irracional deste país. O narrador dos contos não parece sentir saudades do Chile. Sua casa já não é mais ali. Por isso, talvez, o trânsito contínuo, o assombro do que no México é o Chile, do que em Barcelona é o Chile, do que na Bélgica é Chile. Talvez por isso a recusa a compreender o Chile a partir de Pablo Neruda. Pablo Neruda jamais representou ou representará o Chile, é o que nos diz o narrador do conto Carnê de Baile. Enquanto o nome de Neruda brilhar sobre a rubrica de literatura chilena, todos os poetas, entre eles ele mesmo, o narrador, B., estarão encarcerados em prisões ou manicômios.

Não. Pensando bem, em nada Bolaño se aproxima de García Marquez. E essa pode ser uma das lições de Putas Assassinas.

Roberto Bolaño: Estrela Distante

Bolano estrela distante

Roberto Bolaño, Estrela distante. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, 143 páginas.

 

Já fazia um tempo que eu estava interessada em ler algo do Bolaño, só tinha ouvido coisas boas dele e sabia que, de certo modo, ele trabalhava em seus livros um tema que me interessa, que é a violência. Na última feira do livro na USP comprei um livro chamado 2666, mas, meu pai surrupiou meu exemplar antes que eu pudesse lê-lo. Tudo bem, as mais de oitocentas páginas do livro me assustaram, e pensei então a começar a ler o Bolaño por outro livro, mais curto, enquanto espero meu pai ler o exemplar de 2666.

Que o Bolaño era bom, eu já imaginava, bons críticos já diziam isso. Mas, como diria minha vó, ele é danado. Em primeiro lugar, porque ele brinca com a narrativa como Garrincha brincava com a bola, acho que podemos colocar as coisas assim. Ele diz o que não é, depois não diz o que é, depois diz que acha que pode ser, mas não tem certeza, depois diz que sim, agora ele tem certeza… O narrador conta uma longa história, dá detalhes, exemplifica, e no fim, diz: “mas talvez nada disso tenha acontecido”. Que raios! E aí, ele continua: “Pode ter acontecido ao contrário, dessa outra maneira”. E por aí vai, nos levando a crer e a duvidar o tempo todo daquilo que está sendo dito. Numa certa altura, ele diz que essa história sim, essa aconteceu dessa mesma maneira exatamente como está contando. Por quê? Oras, por quê, porque ele leu num livro e o livro dizia que foi exatamente assim!

E assim Bolaño vai bricando com o estatudo da narrativa, fazendo o leitor acreditar que aquilo é verdade, depois colocando tudo aquilo em xeque, convidando o leitor a imaginar, do jeito que puder, o que poderia ter acontecido. Danado ele, eu disse.

Bem, e ainda mais danado é que o livro parece um filme de suspense. Pela narrativa você sabe que algo muito sério está para acontecer. Mas ele enrola, te envolve primeiro, cria a cena, faz um intervalo, e você – o leitor – você lá, esperando a cena principal, prevendo que virá sangue, morte, assassinato, alguma coisa que ainda não dá para saber o que é. E aí você lê uma página, precisa parar, ir no banheiro, atender ao telefone, qualquer coisa, e não consegue largar o livro.

E aí, quando a cena vem, o choque é maior do que esperado. Ele te prepara mas, meu amigo, você não está preparado. O estômago revira, o coração acelera. Você fecha o livro e fica com medo de estar sozinho em casa. Não, não tem fantasma, não tem assombração. Tem a violência do homem na sua face mais cínica, mais camuflada, tratada como um meio para o seu fim: a violência como obra de arte.

E é disso que o livro trata, afinal: da arte, da literatura e da forma como tudo isso também pode ter o seu lado sombrio, de como um sistema político violento permite que homens violentos alcancem notoriedade e passem pelo público de forma totalmente impune. Os limites entre arte e violência são peças chave da trama do livro, mas sempre com o pano de funda da ditadura militar chilena, da violência do Estado e da tortura como algo cotidiano e banal em regimes políticos como esse.

Estrela Distante nos coloca face a face com os problemas mais sérios do homem, da humanidade, falando apenas e simplesmente de literatura. Danado, o Bolaño.

Valter Hugo Mãe: A máquina de fazer espanhóis

_maquina_espanhoisValter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis.  São Paulo, Cosac Naify, 2011. 254 páginas.

Não. O livro de Valter Hugo Mãe não fala de espanhóis. Ele fala dos portugueses, e os espanhóis, quando aparecem, é apenas para falar, apontar, refletir os portugueses. Mas também não se engane o leitor. Não é dos portugueses que se trata o livro, mesmo que seja o Fernando Pessoa, ou melhor, o Esteves sem metafísica do poema do Pessoa quem dê o ritmo e o tom do livro. O livro nem é mesmo sobre o Esteves. O livro fala sobre a velhice e, antes ainda disso, fala sobre a amizade na velhice.

Quem narra o livro é antônio jorge da silva, assim mesmo, um antônio em minúsculas, ou melhor ainda, um silva em minúscula, como é a vida de todos os silva. Depois da morte da esposa, silva é internado num lar para idosos e é lá que se passa toda a trama do livro. Num primeiro momento, silva se fecha, se ressente, sente a morte e a ausência da esposa, volta-se contra a filha, contra o diretor, contra o enfermeiro.

Aos poucos, silva conhece um companheiro do lar, depois outro, depois outro. Em todas as histórias e conversas, é a morte quem ronda, o abandono, o desejo de que a vida se encerre como se encerra o dia. Nada a fazer, nada a contar, nada mais a desejar. A vida no lar se mistura com as memórias e saudades do passado com a impotência onipresente do presente. E é nessa mistura, nesse entremeio que silva nos conta suas lembranças, as de agora e as de antes. Histórias de ontem, histórias de muito antigamente.

Se no momento em que chegou no lar silva não queria falar com nenhum de seus semelhantes, no decorrer da trama é no quarto de seus companheiros, nas conversas noturnas, na cama compartilhada de madrugada que silva encontra um sentido para a velhice. Numa das passagens mais lindas e surpreendentes que já li nos últimos anos, silva confessa ao enfermeiro: “precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre tudo na laura e nos miúdos. esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz, não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério.”

Fecha-se o livro com um desejo grave de encontrar os outros. Esse outro que o silva fala, esse outro que justifica a vida, esse outro que não está suficientemente perto, esse outro que por vezes não percebemos ou não queremos perceber, ocupados que estamos da laura e dos miúdos.

O livro de Mãe foi uma homenagem dele a seu pai, que não viveu a terceira idade. O seu legado se parece, no entanto, com uma oração de quem não acredita na vida após a morte, mas acredita no valor do outro, em qualquer idade que seja.

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. 111 páginas.

Nada mais atual que este livro de Fernando Vallejo. Se de noite eu lia algumas páginas do livro, em que o narrador vai contando os mortos na cidade de Medellin, pela manhã, ao abrir os jornais, eu lia os mortos da noite anterior na cidade de São Paulo. A Medellin contada pelo narrador me lembrava a cada instante o horror que se tem vivido nos últimos dias na cidade que já foi louvada pela queda brusca dos homicídios em poucos anos. Mas não estou aqui para falar de São Paulo. Estou para falar de Medellín, não a Medellín atual, que não conheço, mas essa que Fernando, o narrador do livro de Fernando Vallejo, nos conta.

Fernando é um gramático que voltou para a cidade de Medellín depois de muitos anos morando no exterior. A cidade que deixou na infância se apresenta agora como um lugar em que o ódio é sentido até mesmo na chuva que cai raivosa e faz transbordar o lixo do esgoto. Em meio a esse cenário, Fernando, já velho, conhece Alexis, um adolescente que trabalha como sicário, o nome dado para os matadores de aluguel. É Fernando, no entanto, que passa a nos contar os assassinatos cometidos por Alexis. Enquanto os dois caminham a via sacra em que Fernando busca conhecer as mais de cem igrejas católicas de Medellín, muitos vão sendo os mortos no meio do caminho, todos pelas mãos alvas e inocentes de Alexis, o menino anjo de Fernando.

As mortes causadas por Alexis são banais, como todas as mortes em Medellín. Um taxista que não abaixa o volume do rádio, um mendigo folgado, um menininho que desafia o guarda local, uma garçonete que se recusa a servir um café. Todos morrem pelas balas do revólver de Alexis enquanto eles caminham em direção às igrejas. E não há nada a fazer. Ninguém reclama seus mortos, nenhuma polícia aparece para investigá-los. E se segue, então, a caminho da igreja.

É Fernando, no entanto, quem conta os mortos e tenta justificá-los. Alexis não precisa justificar nada, é sua profissão, matar é a única coisa que sabe fazer, não é preciso pensar sobre isso. Mas as justificativas para tanta morte ou tão pouca vida não valem a pena. Morreu porque merecia. Melhor morrer do que viver reclamando. Pelo menos agora o primeiro inferno passou, agora só lhe resta o segundo. E assim Fernando vai nos dizendo que a vida, essa vida humana, vale mesmo muito pouco, e o melhor que se faz a um ser humano é lhe oferecer a morte.

Esse cenário de violência nos é apresentado juntamente com uma miséria completa que ronda Medellín. As comunas, algo como as favelas brasileiras, rodeiam a cidade e a vigiam com seus olhos de morte. Ali a vida vale nada, a morte é o que se espera, a vingança é o que movimenta o cotidiano, e os mortos vão sendo jogados em terrenos baldios em que urubus se encarregam de levar a alma para outro lugar.

Fernando, no entanto, é quem nos conta a história e por meio dele sabemos que poucos sobrevivem e chegam à velhice. Ele é um deles, velho que caminha sobre os mortos de sua cidade. A morte não lhe enlaça e ele vai também contando seus próprios mortos. Morre Alexis, morre Wílmar, morre outro. Sua sina é viver e pensar e tentar justificar aquilo que não ocupa a cabeça dos jovens de Medellín, que trocam a vida por um par de tênis, por um café mal servido.

A narrativa ácida de Fernando nos atinge em cheio. Ao mesmo tempo em que a ironia fina com que justifica as mortes nos prende na narrativa, as mortes contadas aos quilos em cada página nos fazem fechar o livro. O livro é um sufoco, uma falta de ar, uma raiva que contagia, ao mesmo tempo em que clareia um tanto da miséria cotidiana do dia a dia. Ainda bem que o livro é curto e nos livra rapidamente de olhar de frente para a culatra estampada em sua capa.

Resta agora voltar ao noticiário e pensar na nossa realidade cotidiana, na São Paulo contando seus mortos, na culatra que nos assombra e afirma que a vida, também por aqui, vale pouco, muito pouco.

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa

 

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa. Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 460 páginas.

Em qualquer resenha sobre o livro Trem noturno para Lisboa é possível saber que se trata da história de Gregorius, um professor de filologia de Berna que se apaixona pela sonoridade da palavra “português” e parte, então, para uma viagem rumo a Lisboa onde procura aprender essa nova língua.

Há dias terminei a leitura deste livro e desde então fico me rebatendo, tentando encontrar o que dizer sobre ele. O básico já foi dito em todos os lugares: se trata da história de um homem que abandona sua vida regrada num liceu de Berna e parte para o improvável em sua busca por uma nova língua.

O que mais, então, pode ser dito? Certa vez, um amigo antigo me falou, em voz baixa, que não se deve contar o seu poema favorito a ninguém. Seu poema favorito é o seu maior segredo. O que dizer então do livro que te tirou o conforto diário, te jogou na tempestade, arrancou as raízes calmas do cotidiano?

Não, eu não teria muito a dizer sobre Trem Noturno para Lisboa. A não ser que se é fisgado pelo livro no momento exato em que Gregorius se apaixona pela sonoridade da palavra “português” cantado pela voz de uma estrangeira desconhecido numa ponte de Berna. E isso acontece nas primeiras dez páginas. Da estrangeira que entregou essa bela palavra a Gregorius não sabemos mais nada, só a devastação que ela causou na vida dele. Depois deste encontro, Gregorius decide aprender português, vai até uma livraria e o livreiro lhe apresenta um livro nesta língua, de um médico de um livro só, Amadeu Prado. Gregorius, já apaixonado pela palavra português, se apaixona uma segunda vez por tudo aquilo que é dito no livro daquele autor desconhecido. Num impulso, ele abadona sua vida e parte para Lisboa, numa tentativa de conhecer esse médico que diz coisas sublimes num idioma sublime.

O livro nos leva, então, a conhecer diversos personagens. Adriana, Mariana, Mélodie, João Eça, Silveira, Jorge, Cecília, Maria João, Estefânia, todos eles acompanham, de algum modo, Gregorius em sua tentativa de conhecer a história de Amadeu.  Há uma semana terminei o livro e ainda me espanto com a vivacidade de cada um desses personagens na minha memória. Ainda me assusto com eles, com a profundidade com que são desenhados, é como se estivessem do outro lado da sala, me observando enquanto vou desvendando aquilo que eles sabem sobre Amadeu.

De todos os personagens, no entanto, é Amadeu, o médico das palavras de ouro, quem conduz toda a trama do livro. É por Amadeu que Gregorius modifica sua vida, avança, tropeça, muda, por fim. O livro possuiu três tramas narrativas: o livro de Amadeu, a língua portuguesa e o xadrez. Eles estão presentes em quase todas as páginas. Os personagens transitam por esses lugares, as conversas versam sobre os três temas. As escolhas são feitas a partir deles. As partidas de xadrez aparecem como um descanso na trama pesada, um alívio para a fumaça que é levantada em cada página. A língua portuguesa traz a beleza e a sonoridade da história, as últimas letras comidas, o chiado no final das palavras. E o livro de Amadeu, com seus questionamentos intermináveis, lança Gregorius e a nós, leitores, num redemoinho de perguntas e sensações e descobertas que nos levam quase ao torpor.

Entre um e outro tema encontramos ainda resquícios da ditadura de Salazar, mãos trêmulas após anos de tortura, desaparecidos, doentes, velhos moribundos, estratégias de combate, resistência entremeados na memória de agora e na memória de antes. Nenhuma página é escrita com ares de espetáculos, antes, cada evento – o de agora e o de antes – é narrado por palavras exatas, tranquilas de estarem no lugar exato onde deveriam, sem exagero nem excesso.

É tudo que posso falar sobre Trem Noturno para Lisboa. Todo o resto ainda está preso em mim, ou eu nele. Esse livro que deveria trazer na capa um aviso: “CUIDADO, PRECIPÍCIO!”.

María Dueñas, O tempo entre costuras

María Dueñas, O tempo entre costuras, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2010, 477 páginas.

 

São muitas as histórias em “O tempo entre costuras”. Não se trata de um livro de contos, e sim de um romance, mas neste romance, em que conhecemos a história de Sira Quiroga, conhecemos, também, a de personagens históricos que tiveram papel importante na Espanha durante a Guerra Civil e também na Segunda Guerra Mundial. Nas últimas páginas do livro entendemos que ele se trata, de fato, da Espanha entre guerras, se trata de saber quem está a favor ou contra a Alemanha no período anterior à Segunda Guerra.

 

Entre agentes secretos, negociações escusas de políticos do alto governo, informações sigilosas sendo enviadas de um país a outro, conhecemos Sira Quiroga, uma jovem humilde que foi jogada, pelos reveses do destino, para dentro do Serviço Secreto Britânico, e trabalhava como espiã enquanto mantinha um ateliê de alta costura na Madri devastada pela Guerra Civil.

 

A história do livro nos é contada pelos olhos de Sira. É da sua história que se trata, é do seu olhar sobre o mundo. O que carrega o livro de uma sensibilidade delicada: a frieza da guerra e das negociações de armamento pesado são nos contadas pela voz de uma mulher doce, que não apenas percebe o que acontece à sua volta, mas sente o universo ao seu redor.

 

Sira foge da Espanha pouco antes da Guerra Civil e se estabelece em Marrocos. Ali, sozinha, abandonada por aquele que ela acreditava que era o seu grande amor, sem nenhum dinheiro e com uma dívida enorme deixada pelo homem que amava, ela precisa se restabelecer. E para isso, Sira inventa uma nova mulher: uma mulher independente, elegante, decida, firme nos seus propósitos de dona de um ateliê de alta costura. Quando as portas de seu ateliê se fecham, o que sobra é uma Sira solitária, fragilizada, ainda despedeçada pelos sustos que tomou na vida.

 

A vida de Sira se trata, no final das contas, de uma grande mentira que ela aprendeu a contar sobre si mesma para os outros. Uma costureira que ela não é, uma elegância que ela não tem, uma certeza que lhe falta, uma independência carregada de solidão. Nesta mentira, no etanto, Sira coloca todas as forças que tem para não voltar a ser o que era, para se desvencilhar do passado cheio de abandono que viveu. O que nos apaixona na história de Sira é exatamente essa mentira, e a forma como ela nos conta, a todo momento, os esforços brutais para fazer com que ela se torne verdade. Somos seus cúmplices, no final de tudo, já que é a nós que ela conta a sua história, e nos revela todos os segredos que foram só seus por tanto tempo, enquanto costureira e enquanto espiã nos anos anteriores à Segunda Guerra. Só nós sabemos que Sira é uma farsa, e mesmo assim, nos apaixonamos por ela.

 

“O tempo entre costuras” é, sem dúvida, um livro magnífico, não apenas pela trama de Sira Quiroga, mas pela capacidade do romance em contar a história da Espanha no período entre guerras a partir de um olhar comum, de uma pessoa comum, que pode ter existido como pode não ter existido, mas que esteve próxima das grandes personagens que marcaram este momento tão importante da vida de um país, e que, estes sim, foram registrados pela história. Sira Quiroga e outras pessoas, outras personagens, certamente ficaram esquecidas entre as costuras.