Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Março, 2012

O sorriso de Maria

“Ontem eu saí com a Maria!”, me conta, alegre, minha colega de trabalho. Quem? Eu pergunto. Ela explica que é a Maria, aquela menina calada da seção ao lado. “Você nunca reparou nela? É uma menina magrinha, cabelo liso, quietinha, ela trabalha na coleta de dados”. Não, nunca notei. E quando tento entender porque raios minha amiga resolveu sair com a tal menina, ela me conta, feliz, que a Maria é uma menina excelente, doce, mora com a avó, cuida dela, inclusive. Se formou alguns anos depois da nossa turma, adora estórias infantis e até escreve poemas. Ela lhe mostrou alguns. A Maria precisou de alguns dados da nossa seção e foi então que começou a conversar com a minha amiga. Agora, é amiga dela também.

Passei, então, a reparar em Maria. Mas não havia jeito, nada nela me despertava o mínimo interesse. Ela era lenta, apagada, calada, trazia o corpo retraído, uma roupa sem nenhum apelo visual. O cabelo sempre preso no meio da cabeça, não usava brincos, olhava para o chão. Como alguém como ela poderia escrever poemas? No que ela prestaria atenção?

Diferente de mim, Maria não se incomodava em ser anônima. Em seis meses na empresa, trabalhando na seção ao lado, eu nem a percebera. Pedi à minha amiga para me mostrar alguns dos seus poemas. De forma forma silenciosa, os poemas chegaram à minha mão. Eles falavam da alegria da vida divida com a avó, da esperança trazida pela companhia daqueles que ela amava, do poder da amizade, dos detalhes da rua onde ela morava, das flores que ela cultivava em seu pequeno apartamento, dos olhos da pessoa amada.

Seus poemas me golpearam. Ela dizia muito do que eu mesma queria ser capaz de dizer, ao perceber o mundo de maneira doce, e ainda, silenciosa. Como uma pessoa como ela podia passar de forma tão despercebida neste mundo? Por que ela se escondia quando na verdade deveria entregar aos outros esse dom que carregava em si?

Munida de seus poemas me dirigi à seção ao lado, procurei por Maria, e só pude perceber sua silhueta escondida atrás do computador onde trabalhava. Chamei por ela, disse que gostaria de conversar um pouco, podemos tomar um café? Claro, e num instante ela estava ao meu lado, preparando duas xícaras de café, com açúcar? Disse a ela que não precisava de açúcar, ela sorriu e contou que também não adoça o café, fica melhor para sentir o sabor.

Naquele momento olhei para Maria, e enquanto ela me entregava o café já preparado, eu procurava nela algum traço de toda genialidade contida nos poemas. Ela olhou para mim, tímida, perguntou o que eu gostaria de conversar com ela. Eu hesitei. Então seus olhos encontraram os meus. Ela sorriu. Baixou novamente a cabeça, e eu, desconcertada, perguntei a ela se os dados que ela precisava estavam todos corretos. Ela sorriu de novo, disse que sim, agradeceu a atenção, e se foi.

O sorriso de Maria ao olhar os meus olhos foi o mais poético que já encontrei. Um sorriso e um olhar para uma estranha. Essa era a sua poesia. Essa era a sua ferramenta. Maria não precisava ser conhecida para distribuir sorrisos, nem precisava ser notada para escrever poemas. Para ela lhe bastava a existência, desde que essa existência fosse repleta de sorrisos, tímidos, mas sorrisos.

A mulher de Ló

Num susto eu sentia os dedos da minha mãe sobre meus olhos. Eu já sabia o que acontecia: era certo que no outro lado da calçada havia uma oficina, e dentro dela um homem de máscara manuseava um maçarico e lançava faíscas ao ar. Segundo minha mãe, era perigoso olhar direto para a chama, podia cegar. Por isso o homem usava aquela máscara, por isso ela tapava meus olhos curiosos.

Também não era bom olhar direto para o sol, podia machucar o olho. Eu olhava. Olhava até não aguentar. Depois descobri que poderia olhar melhor através do plástico azul da minha tiara. Dava para ver uma bolinha branca, redondinha, que eu não conseguia perceber olhando diretamente.

Não podia, e eu fazia. E não podia porque fazia mal. Eu insistia. Não era que eu estava sendo desobediente, nem geniosa. Era curiosidade, era desejo, era vontade de ver o mal, ver essa coisa que machuca mas que nunca me machucava. Machucava mesmo?

Eu não aprendi muito com as histórias em quadrinhos: nunca dei bola para o super-homem e sua recusa em se aproximar da criptonita. Ele se afastava daquilo que o enfraquecia, daquilo que o machucava. Em seu lugar, é a mulher de Ló, olhando para trás e se transformando em uma estátua de sal, desobedencedo a ordem de Deus ao contemplar com saudades a cidade que ela abandonava às pressas, o que marcou os meus desejos.

A diferença entre o super-homem e a mulher de Ló é que o grande herói não duvida do mal. Ele acredita que a criptonita pode lhe enfraquecer. Essa mulher sublime, no entanto, não tem nada de heroína. Ela é feita toda de desejo. O mesmo desejo que me faz comer uma panela inteira de brigadeiro, me faz esquecer que carne seca me cai mal, desejo que alimenta meus vícios, que me faz fazer promessas de nunca mais beber mais que dois copos de cerveja, que me põe a virar noites trabalhando, que toca quinze vezes o cd novo até que eu decore, na mesma noite, a minha música favorita.

E eu não viro sal. Tenho uma dor de barriga, um cansaço crônico, uma culpa leve. Uma pedrinha pequena de sal se forma no dedo mindinho. Não incomoda. Não sinto. Dias depois, são duas pedrinhas, mas a gente vai levando, tenho ainda a vida toda pela frente e, no final, a morte vem mesmo. Sendo estátua ou não. Com pedrinhas pela altura da perna ou do pescoço.

O que não vale é nunca olhar a criptonita nos olhos, não encarar o inimigo, deixar de acolher o desejo, não se encantar jamais com o espetáculo de faíscas que jorram do maçarico do serralheiro, não olhar o sol de soslaio e deixar de se perturbar com seu brilho. Isso não vale. Mesmo que seja para ser mais fraca. Mesmo que seja para morrer atolada em vícios, olhando para trás e se matando de saudades de tudo o que foi vivido na cidade que está  sendo destruída pela ira de Deus ou pela ira do tempo. Prefiro assim. Prefiro a mulher de Ló.

O amor não é suficiente

Mais amor, por favor. É o pedido sincero de esquinas, muros, bilhetes lançados ao ar, bombas de gasolina, chafarizes ou qualquer objeto anônimo espalhado pela cidade. É o pedido dos grafites, das pixações, da arte urbana que se esconde em lugares inesperados. Mais amor, por favor.

E o amor cai bem em tudo. Família, política, escola, ordens bancárias, consultórios médicos, filas do INSS, listas de espera para concurso público, engarrafamento, linhas ocupadas nas maquinhas Cielo depois da meia noite, coleta seletiva de lixo, a procura por uma vaga no estacionamento, o esforço cotidiano no treino da natação para ganhar a próxima competição aquática. Mais amor, por favor.

Mas o amor, agora, para mim, não adianta muito. Mais amor, então, só piora. Não adianta mais amor quando na verdade preciso é de ânimo para encarar o tédio cotidiano. Não adianta mais amor quando tenho medo de esperar dias e dias por uma resposta que não chega. Não adianta mais amor quando todo o amor que tenho não é capaz de enxugar os baldes de lágrimas que derramo diariamente por puro medo da vida.

Quando o amor já é grande e suficiente, mais amor não serve. E às vezes o medo vem, mesmo quando o amor é farto e generoso. É nesse momento em que muitas vezes se vê crescer o desentendimento. O namorado abraça forte e mesmo assim ela o rejeita. Diz a ele que ele não a entende. E ele se esforça. O amor, nessas horas, pode não ser suficiente.

E quando o amor não é suficiente, o remédio é um só: a colher raspando o fundo de uma panela de brigadeiro. Não há melhor remédio. Mesmo que se atire de um abismo: uma colher que se transforma em duas, duas logo serão três, e depois da panela limpa, a culpa infindável por tanta gula. E é aí que acontece o milagre: enquanto se despenca pela ladeira da culpa e do prazer, esquece-se de tudo o mais que atormentava a vida. Fica apenas a lembrança do sabor sublime, e a culpa. O sabor passa, a culpa, bem, a culpa fica.

Não há amor capaz de tamanha façanha. Nada pode mudar o foco de uma dor como uma panela de brigadeiro comida às escondidas, para evitar qualquer tipo de compartilhamento. Nada dá mais ânimo para os exercícios diários, nada empurra mais em direção à vida e ao trabalho do que a culpa trazida pela gula não controlada.

Diante do amor, portanto, completo o pedido dos anônimos da cidade, e digo “e mais brigadeiro também, obrigada!”.

Curvas perigosas

Para Júnior Marques

O risco era evidente, mas era isso mesmo o que nos atraía. Na fila da montanha russa de um parque na beira da praia, olhei pro meu amigo, perguntando se ele tinha certeza que queria ir. Sincero, ele sorriu o mesmo sorriso de quando tínhamos 10 anos. Certeza a gente nunca tem.

Entramos no vagão, apertamos um cinto frouxo e velho, ele pegou na minha mão e sorriu de novo. Eu ainda duvidava se o risco valia a pena. Ele não, ele se jogava, e me levava junto. A subida era devagar, o trem ia sendo puxado por um trilho, estalava a cada segundo. Assim que chegou no topo, o motor não era preciso mais: o vagão sai às pressas por curvas e curvas caindo e subindo, revirando meu estômago, me jogando para longe em cada volta.

Nada me garantia que aquele vagão não ia mesmo sair dos trilhos, ser atirado para fora do caminho na primeira curva. Um parafuso solto, uma trava não travada, um óleo esquecido e envelhecido. O que valia, no entanto, era o risco. O que valia era o sorriso do meu amigo, seus olhos sedentos de aventura, de perigo, o que valia era ele gritando para mim que se morrêssemos, morreríamos juntos, e felizes.

Quando o brinquedo parou, eu prometi nunca mais entrar num parque de diversão. Eu não queria correr riscos. Meu amigo, no entanto, não compartilhava do mesmo desejo, comprou mais fichas e foi em todos os brinquedos daquele parque chinfrim.

Findada as férias, eu voltei para as aulas da faculdade, cumpri os créditos, me formei, comecei a trabalhar, me casei. Meu amigo abandonou a faculdade, começou outra, foi para a Espanha, foi para a Nova Zelândia, voltou sem um centavo no bolso, arrumou emprego, mandou o chefe às favas, fez consórcio de carro, pediu dinheiro emprestado, ganhou dinheiro, perdeu dinheiro, abriu negócio, brigou com sócio.

Às vezes o salto pode ser fatal, e talvez por isso, pela certeza da fatalidade, eu nunca tenha assumido os riscos, e minha vida tenha sido assim, previsível. Contas pagas em dia, curso de inglês e francês feitos ainda na faculdade. Roupas sérias para trabalhar. Empréstimo em último caso. Carro comprado à vista. Plano de saúde. Previdência privada desde os 18 anos.

Frente a uma cotidiano tão correto, com um perfil tão conservador, sempre que vejo uma montanha russa com trilhos enferrujados na entrada de uma cidade qualquer, me lembro do meu amigo, que na pior curva, na mais perigosa, gritava ao meu lado: “Solta as mãos, Dri, se joga!”. Diante das incertezas, ele sorri: certeza a gente nunca tem. Na montanha russa e quem sabe também na vida, ele sempre soltou as mãos, enquanto eu procurava mãos para segurar.

Bancarrota

Reunião de amigos. Velhos amigos conhecidos desde a infância, ou a adolescência, ou qualquer tempo distante que justifique a amizade antiga. Os trinta anos estão próximos: ou chegaram há pouco, ou virão em breve. Em todos existe a mesma preocupação: o sucesso ou, pelo menos, a propaganda do sucesso.

Um chega de carro importado, outro acaba de voltar da Europa. Um se mudou para a casa nova, outro se prepara para um intercâmbio em uma universidade americana mundialmente reconhecida. Um fotografa o encontro com uma câmera profissional, outro conta sobre os lucros mensais da empresa recém aberta. Há ainda aquele que passou em segundo lugar em um concurso disputadíssimo, e o outro, que foi premiado com a melhor pesquisa em sua área de estudo.

Em um instante  me sinto completamente incompetente. Um fracasso. Diante de tanto sucesso, de tantos feitos, de tanto dinheiro ganho e gasto, o que eu faço com meus parcos escritos? O que faço com meu desejo de conhecer paisagens e heróis presos em páginas de livros no alto da minha estante? O que faço com o pimenteiro que secou porque eu não consegui cuidar bem dele? Como reverter o prazo que perdi para a publicação de um artigo científico? Como lidar com a sensação cotidiana de estar fora do lugar, fora do prazo e do contexto?

É verdade que me alegro com as conquistas de meus amigos, o que me entristece é o pouco espaço para os fracassos, para as tristezas, para os sonhos que não conseguimos realizar. A procura por um emprego, a promoção que foi dada ao colega da mesa ao lado, o não de uma entrevista, o salário baixo, a doença que ronda, a morte que se aproxima.

Queria mesmo era uma história com heróis modernos, em que meus amigos contam seus sucessos e depois descobrimos, pela voz de outros os fracassos, a bancarrota, o carro que teve que ser devolvido, o emprego que era uma farsa. Desconfio dos heróis clássicos, que lavam a honra de um povo ou nação, cheios de caráter e honestidade, disputas acirradas e vitórias gloriosas – histórias redondinhas, heróis e mocinhas, finais felizes.

E na minha estória, os meus amigos – heróis modernos – tocariam a campanhia de madrugada, pedindo abrigo, envergonhados da casa hipotecada, abandonados pela esposa, deixados aos gritos e às palavras mais chulas. E eu, para consolá-los, falaria sobre os fracassos, os medos que me tiram o sono, a dívida no banco, as dúvidas que me atormentam diariamente e a carreira que eu gostaria de ter. Eu faria um café, ou tomaríamos um pileque, e adormeceríamos rindo e chorando, e seríamos então heróis do nosso tempo. Humanos, muito humanos. Quando o dia nascesse voltaríamos, quem sabe, a pensar em alcançar algum sucesso, faríamos planos, para sermos ainda os heróis do nosso tempo. Humanos, muito humanos.