Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de encanto

Por andar distraída

Era o primeiro dia de aula na quinta série, e diferente das meninas de sua idade, ela caminhava tranquila em direção ao colégio. Tudo tinha mudado: professores, colegas, horário e matérias, na mochila o cheiro do novo: sonhos, cadernos, lapiseiras. As outras meninas corriam apressadas para o colégio, queriam logo conhecer a nova classe, os novos amigos, as novas paqueras.

A movimentação começou cedo em todos os lares da quinta série. Com o novo horário, quase de madrugada, foi preciso acordar muito cedo para que nada saísse atrasado. Ela também fez assim. Acordou cedo, se arrumou, pegou a mochila já preparada de véspera, beijou o pai que lia na sala, e se foi a caminho do colégio. O caminho, no entanto, foi mais longo que nos outros dias. A sensação de estar se dirigindo a um mundo novo precisava ser aproveitada: ela chegaria ao colégio e conheceria tudo que era novo, o novo se tornaria velho, o velho se transformaria em tédio, e ela nunca mais teria a sensação de descoberta que aquele caminho lhe dava. Era preciso aproveitar o caminho, o velho caminho já conhecido mas que levava a lugares novos.

E ela aproveitou tanto o caminho que se esqueceu da escola. Parou para indicar a direção para uma senhora que passava, parou para ver um ninho de passarinho caído no caminho, parou para catar um jornal jogado na rua, parou para pegar a bola que rolou na sua direção. E o dia tão esperado durante as férias foi trocado por alguns instantes de surpresa.

Chegou atrasada e perdeu as boas vindas da diretora. Chegou atrasada e já no primeiro dia foi repreendida. Chegou atrasada e já lhe passaram a lição de que não se deve ter muitos sustos pela vida. Mas diferente das meninas da sua idade, ela não aprendeu a lição, e durante muitos anos de sua vida continuou recusando os prazeres calculados, os sonhos previsíveis, durante muito anos continou cultivando pequenas surpresas, e se encantando com os sustos que causava em pessoas ou lugares onde menos esperava.

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Alaranjado

Apesar de mal cheiroso, o cenário era encantador: em uma mesa enorme se viam peixes grandes, pequenos, esguios, gorduchos. Uns portavam bigodes estranhos, havia os curiosos, de olhos arregalados, uns eram coloridos, outros definitivamente não se importavam com a beleza exterior. Mas estavam todos ali, à espera de alguém que os escolhesse, que os desejasse, para que então pudessem sair da vitrina e se dirigir para as mãos do peixeiro – o grande mestre dos peixes do supermercado.

Influenciada que sou pelos hábitos de consumo, quis escolher um salmão, afinal, dizem que é um peixe bom, faz bem para o colesterol e para o coração, e mais afinal ainda, estava em promoção. A escolha não foi simples: eu procurava um peixe com aspectos alaranjados, talvez as escamas, ou os olhos. Mas o danado se esconde por traz de uma pele grosa, cinza, impenetrável. Depois de algumas dificuldades, lá se foi o salmão eleito para as mãos do peixeiro, que se pôs a realizar um doce trabalho.

Com uma escova grosa – de aço, certamente – ele alisava o corpo do peixe, no sentido contrário das escamas, e ia liberando meu salmão de um pouco daquela pele que o escondia. Nesse momento o peixe já era outro, mais brilhante, mais suave. Depois de limpar a mesa de trabalhos com uma mangueira de esguicho, o mestre dos peixes afiou o facão, seu olhar se alternando, com certa doçura, entre o brilho da lâmina e a crista do salmão. O corte foi certeiro: com apenas um movimento o salmão se viu livre da cabeleira que lhe pesava a nuca.

De todos, o momento seguinte foi o mais sublime: lâmina mais uma fez afiada, o peixeiro-coiffeur deitou a faca na direção do peixe, fez uma incisão suave na sua barriga, e com um movimento paralelo à mesa, foi tirando, aos poucos, a pele do salmão. E foi ali que meu coração tremeu: seu interior era inteirinho de um laranja forte, sensual, amolengado, sem sangue, sem nada. Quanto mais o peixeiro ia levando a faca da direita para a esquerda, mais o ambiente ia sendo inundado por aquela cor que eu só via nos desenhos da minha infância. Então é verdade, meu coração dizia, é verdade que o salmão é rei e senhor de todo o laranja que existe nesse mundo! Certamente eu não piscava, tamanha a falta de ar que senti diante do espetáculo. Só percebi meu espanto quando o peixeiro se voltou pra mim, já impaciente, perguntando se eu queria em postas ou em filé.

Eu queria dizer a ele que não importava, que era o peixe quem decidia, que era ele quem me dominava, que aquilo era todo o espetáculo da natureza, e que ele, o peixeiro, era, sem dúvida alguma, o profeta que trazia ao mundo a mensagem que eu queria. Disse a ele tanto faz, do jeito que você achar melhor.

Devo de ter esquecido minhas postas de salmão em alguma gôndola do supermercado. Cheguei em casa ainda estupefata, sem sacola nas mãos e com todo o laranja do mundo em meu coração.

O negrinho e o patinete

O que vou dizer agora é segredo, e é bom que meus amigos não saibam: não me importo em esperar alguém por alguns minutos se estou na rua. Esperar no carro, em um consultório, na sala de espera de algum escritório é certamente terrível, mas se estou na rua, e se a rua está cheia, bem, é segredo, mas me delicio.

Se a espera se der em uma esquina, melhor ainda: de uma rua vem uma moça cheia de sacolas – logo adivinho que ali por perto tem um supermercado; da outra rua vem um casal de bicicleta na contramão, param de susto no cruzamento quando se dão de encontro com um carro; um homem que usa gravatas caminha junto com uma senhora que usa shorts, os dois seguram, cada um, um saco de pão; três adolescentes cruzam a rua, minutos depois voltam na mesma direção de onde vieram, dali a pouco voltam de novo e falam alto quando param na esquina; uma menina gordinha passa do meu lado tentando esconder o resto da barriga que sem querer ficou para fora.

De todas as mil estórias que a gente poderia contar a partir de uma esquina qualquer, foi a de um negrinho de patinete a que mais me chamou a atenção. Ele era magrelo, de uns 10 anos, bermuda cinza e camiseta branca encardida. O patinete, ao contrário do que logo imaginaria o leitor, não era de madeira, improvisado, com rodas de rolimã. Não, era todo de metal, modernoso. O Natal já tinha se passado há meses, certamente era presente de aniversário, ou promessa de nota boa na prova de matemática. Em uma esquina perdida de uma rua qualquer no centro de São Paulo, o negrinho ia e voltava com seu patinete, descia o morrinho com embalo, sumia lá embaixo, dali a pouco voltava empurrando seu honorável veículo, pegava a outra rua, e eis que aparecia de novo, com o patinete aos empurros.

Ali parada, esperando um amigo qualquer, o negrinho me fazia lembrar tantas esquinas que já amei: aquela que eu olhava pela janela, à espera da pessoa querida, aquela onde eu sentava sozinha quando adolescente esperando ouvir o barulho do carro de minha mãe que vinha me buscar depois da aula de música, aquela que por tantos outonos virei as costas para poder diariamente trabalhar na frente de um computador. Naquela esquina, no centro de São Paulo, um negrinho andava de patinete, sem se assustar com os carros ou os ônibus que hoje atormentam a minha janela.

Foi nessa hora, em que eu pensava no negrinho e em todas as esquinas que amei, que meu amigo chegou, deu uma leve batina no vidro do carro e logo partimos para um outro lugar onde pudéssemos conversar com calma. Da próxima vez dou uma de louca e digo que quero ficar ali mesmo, digo que na verdade não quero conversar, quero é companhia para olhar para esquina, para adivinhar para onde vai virar aquele cidadão que vem falando ao telefone, para apostar se aquele velhinho volta ou não em cinco minutos, para adivinhar o ritmo da louca que dança aos berros na calçada do boteco da esquina.

Talvez se pudesse escolher um lugar para ser enterrada, e esse fosse o lugar de onde eternamente eu observaria o mundo dos vivos, certamente meu túmulo ficaria em uma esquina qualquer, e minha alma continuaria acompanhando o ir e vir do negrinho, que certamente também já seria alma penada a descer e subir o morrinho em seu patinete encantado.