Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de culpa

Acerto de contas

Não, meu amor, eu não tenho culpa. Você sabe que foi você quem entendeu errado. Você sempre entende tudo errado, e eu, bem, eu sempre tenho que explicar tudo de novo. Às vezes eu consigo exercitar de forma magnânima minha paciência, mas às vezes eu estouro mesmo, e então, se você ouve mais do que deveria por um simples deslize, você sabe, a culpa, no fundo, no fundo, foi sua.

Eu não tenho culpa de ser disciplicente às vezes, aliás, eu jamais sou displicente, mais uma vez foi você quem entendeu errado. Eu estava ocupada, ocupada com os nossos sonhos, os nossos compromissos, eu tive que me ausentar, meu amor. Era para o nosso bem. Você sabe disso e ainda assim me cobra. E outra vez eu exercito minha paciência para te explicar que você entendeu errado, que na verdade tudo o que parece ausência é pura demonstração de amor da minha parte.

Mas você cobra. Você cobra amor, atenção, carinho. Quando é que deixei de ser carinhosa com você? Ah, mas naquele dia você provocou, não lembra? Você não lembra que eu fiquei irritada porque você começou a criticar, sem o menor argumento, aquele diretor de cinema que eu adoro? Você provocou! Você provocou tudo e depois ficou reclamando que eu não sou carinhosa com você. Percebe como você se engana nas avaliações que faz ao meu respeito?

Sem contar o tanto, o tanto que você erra e eu relevo. Eu relevo as roupas jogadas, os telefonemas não atendidos, as noites silenciosas, eu relevo seus esquecimentos, as datas importantes que você ignora, relevo suas piadas sem graça, seu comportamento às vezes inadequado, relevo suas opiniões rasas, relevo, acima de tudo, o quanto eu gostaria que você fosse e simplesmente você não é. Eu relevo.

Por isso, meu amor, eu não tenho culpa. Eu te amo e é você quem não entende nada. Sei que você às vezes procura remendar o tanto que me falta: você tenta me agradar exatamente por saber que eu, meu amor, não tenho culpa. Nessas horas só há um remédio: assuma que sou eu quem tem razão, sou eu quem segura as pontas dessa nossa relação, sou eu que sei o rumo. E por fim, assuma que foi você quem errou, me abrace e deixe que as coisas voltem ao seu lugar. Assim, meu amor, continuaremos felizes, como sempre fomos.

Uma economia dos segredos

Apenas mais três passos e o homem vê a sua frente uma multidão que o ovaciona. Ele espera um momento para que o barulho diminua e ele possa, então, dizer umas poucas palavras de alegria, agradecimento, encorajamento, generosidade. Palavras que todos precisam. O homem vê milhares de pessoas, lentes de transmissão ao vivo, sabe bem que cada palavra correrá o mundo naquele mesmo segundo. Desce, então, os três degraus que o levaram à fama e se lembra de seus segredos.

No mesmo dia, numa sala de um Tribunal de Júri qualquer, o réu nega todas as acusações que lhe foram feitas. As provas indicam que ele estava presente no local do crime. Ele nega. Onde estava, então? É o que o Juíz lhe pergunta. O réu pensa no namorado, o maior amor de sua vida e sabe que não pode dizer ao Magistrado que estava com um homem que amava. Se o fizesse, esse mesmo homem perderia o posto de Senador, seria expulso de casa e humilhado pela família, os nomes de ambos seriam estampados nos jornais e, para além de uma vida sexual e amorosa conturbada, o Senador também seria acusado de ser bichinha. O réu aguentaria tudo, menos ter que ouvir que seu amor era bichinha.

No mesmo momento, em outro lugar qualquer do mundo que nos acolhe, um deputado sai escoltado de uma reunião no Congresso Federal, seus muitos segredos foram devastados e não há mais aceitação para sua atuação política. Mais do que saber que precisa fazer malabarismos para permanecer no cargo que almejou por tanto tempo, ele descobre que há algo muito mais importante para se preocupar: o lugar onde guarda os seus segredos.

Se o novo Papa realmente teve parte na ditadura argentina, ele bem o sabe. Assim como bem sabe de seus preconceitos aquele que se assenta na cadeira de maior representante dos direitos humanos no congresso brasileiro. O que nós não sabemos é o que se passa na cabeça de um réu que nega a acusação que lhe é feita, de uma criança que afirma que não roubou um pacote de balas, de um adolescente que não admite seu envolvimento com drogas.

Se a nossa vida é uma eterna economia dos segredos, por que o escândalo alheio nos tira dos prumos, nos faz levantar a voz, transformando-nos nos maiores guardiões da verdade e da moral? Por que, geralmente, condenamos as pessoas que mentem e não as instituições que preparam o caminho e acolhem todos os nossos sigilos? Se a trava no olho do outro é maior que aquela que nos cega, ainda assim nos achamos no direito de levantar a voz para o nosso semelhante.

E quão semelhante ele nos é. Eu, carregada de segredos, faço esforços brutais para que nada do que escondo me core as faces. Digo sim tantas vezes quando meu coração está repleto de não – não sei seguir a máxima de fazer do sim, sim, e do não, não. Escondo escombros, velharias, pinto minha cara com boa maquiagem. Sorrio para disfarçar a tristeza. Choro de sem vergonhice. Minto. Sou tantas vezes desleal aos meus próprios princípios. Ando ancorada na contradição. E ainda assim, acredito que posso ser boa pessoa. Algumas pessoas gostam de mim, e, se elas mentem, eu acredito.

Talvez não seja a mentira o nosso principal inimigo, muitas vezes ela nos é abrigo. O problema talvez seja tudo aquilo que esperamos dos outros, e mais ainda daquele outro poderoso que de alguma forma nos representa. Ele não nos é semelhante, não queremos que o seja, pois só assim ele poderia nos salvar da nossa miséria cotidiana.

Quem tem medo dos tempos verbais?

A etapa mais difícil de aprendizagem de uma nova língua são os tempos verbais. No básico um aprendemos, geralmente, os pronomes, um pouco de vocabulário, os números, aprendemos a nomear as coisas. No básico dois  falamos tudo no presente. Eu sou. Você é. Eles são. Tudo é certeza e, mesmo quando duvidamos da nossa capacidade de nos expressar na nova língua, ainda assim seguimos afirmando tudo o que aparece à frente: a casa é amarela, eu sou feliz, o livro está sobre a mesa, eu amo você.

No nível intermediário as coisas começam a complicar e o mundo fica mais incerto. Quando se passa a olhar para o passado as certezas se vão. Eu fui. Eu era. Eu teria sido. Eu fui e ainda sou. Eu fui mas não sou mais. É quando começamos a pensar naqueles que amamos e o coração bate num soluço. Eu amei. E eles, me amaram? Me amaram e ainda me amam? Ou não amam mais? Olhando para o passado, nos enchemos de dúvidas. Há o passado perfeito, o mais que perfeito, o imperfeito. O que já terminou, o que perdura, aquele pelo qual não há mais nada a se fazer. E ficamos ali, diante da nova língua, angustiados, o peito repleto de dores passadas, gritando para que sejam expressas no presente, aquele presente convicto de nível básico, presente do indicativo. Eu te odeio. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu quero ir embora. Eu preciso respirar.  Eu gosto de chocolate. Você gosta de mim. Eu tenho saudades. Eu acredito em Deus.

No presente do indicativo tudo volta à normalidade. Nos lembramos de quem somos, do que gostamos, nomeamos as pessoas que estão por perto. É no nível básico que encontramos essa segurança preciosa do cotidiano que nos ajuda a continuar vivendo o que vivemos até aqui.

Avançar é preciso. Se o nível intermediário nos lança nessa areia movediça do passado, arrancando aos poucos nossas lembranças e dores e culpas esquecidas, é no nível avançado, no entanto, que somos jogados no precipício: é hora de aprender sobre o futuro. Num primeiro momento, o futuro do indicativo, ingênuo como no nível básico, carregado de ares de certeza: eu serei feliz, você será rico, nós venceremos, a casa será construída em dez meses, sua família terá saúde. Nesse momento chegamos até a esquecer as agruras do intermediário, deixando para trás as tristezas do passado.

Mas a língua, essa língua que ansiamos aprender, não dá tregas ao coração. Depois da aparente certeza do futuro do indicativo, abre-se à nossa frente um abismo de novas incertezas, nomeado das mais diversas formas: futuro do pretérito, futuro do presente, futuro composto, futuro do subjuntivo. Frente a tamanha dificuldade, nossa crença em qualquer futuro se esvai. Mesmo esfraquecidos, no entanto, nos esforçamos para continuar o aprendizado daquela língua, temerosos do que esse futuro pode nos reservar.

O maior de todos os problemas se dá quando percebemos que o futuro está irremediavelmente ligado ao passado. Futuro do pretérito. Se eu tivesse prestado mais atenção, se tivesse sido mais presente, se tivesse trabalhado menos, se tivesse sido menos egoista, se tivesse me importado menos com meus sonhos e sonhado junto, ah, se tivesse feito tudo diferente, certamente eu seria mais feliz.  Seria, num futuro que não existe, poderia ter sido, mas não sou, não serei. Não há mais certezas, não estamos no reino do indicativo.

E o coração de novo soluça, se aperta no peito, odiamos aquela língua que nos lembra fracos e impotentes frente ao passado e ao futuro. Desejamos ardemente o simples do nível básico, o presente cheio de certezas, mesmo que seja para ser triste, mesmo que seja para ser sozinho. Mesmo que seja para viver caindo num precipício, mesmo que seja para fazer do abismo o nosso cotidiano. O que importa é a certeza do presente. Talvez por isso gostemos tanto do nível básico e nos acovardemos frente ao avançar do estudo de novas línguas. Os tempos verbais nos assombram, de forma completamente definitiva. De forma indicativa.

Pretérito perfeito ou mais que perfeito

É sempre em assaltos que ela se apresenta. Dirigindo na mesma estrada de sempre, sem mais nem menos, nos lembramos de um olhar amado que pedia para a gente ficar, e, simplesmente não ficamos. Sem explicação. Sem porquê. Anos depois, diante de nossa antiga recusa, olhando a mesma paisagem de sempre, a culpa nos golpeia, nos faz esquecer o destino, nos aperta contra o volante, sufoca, nos faz implorar para voltar àquele momento e mudar o que foi feito. Não dá. Não dá mais. A culpa não nos permite nenhuma mudança.

Às vezes ela insiste em nos acordar no meio do noite. Um sonho estranho, um susto, uma sede e lá está ela, sentada na poltrona em frente à cama, pernas cruzadas, cigarrilha na mão, discorrendo sobre o passado. “Por que mesmo você deixou de viajar com seus pais naquele inverno de 2001?”, ela pergunta. Você, então, ainda sonolento, pensa no pai, pensa na mãe, já idosos, desejosos da sua presença, e você, sei lá, pensava numa garota, pensava no trabalho, pensava em qualquer coisa. Agora os pais não podem mais viajar. Você acordado, quer ligar para a mãe, será que ela também está acordada? Talvez, ela também tem insônia, ela é como eu. E a culpa te observando, fumando seu longo cigarro enquanto você revira na cama, e nada muda, não dá para mudar.

Lendo um livro, um livro banal, ou quase banal, a culpa vem, senta do nosso lado, sussura algo que não compreendemos. Lemos mais um parágrafo, as palavras clareiam, e então percebemos a sua presença. O personagem mau humorado e rude do romance nos lembra quantas e quantas vezes tratamos mal aqueles que estavam do nosso lado. Por quanto tempo essas pessoas permaneceram por perto? Não lembramos. Um dia, simplesmente, elas se foram, e a gente fez que não percebeu. Dá para voltar? Dá para ser mais gentil agora? “Não, meu caro, não dá”, sussura mais uma vez a senhora sentada ao nosso lado. Não dá.

A culpa se apresenta sempre no passado, passado mais que perfeito, em que nada, nenhum um milímetro de nossa história pode ser modificado. Não dá mais para oferecer o beijo que recusamos, não dá mais para ser gentil quando deixamos de ser. Não dá para apagar as palavras rudes que ficaram no ar. Não dá para fazer de novo. E a culpa sabe disso, e ri, às gargalhadas, de nosso esforço infantil em prometer fazer tudo diferente. De manhã, quando acordamos, tudo não passa de um sonho ruim, esquecemos da senhora sentada na poltrona e tocamos a vida. O relógio já despertou atrasado, o jornal avisa que o dólar vai subir, é preciso pagar o colégio das crianças, não se esqueça da consulta hoje no meio da tarde etc, etc, etc.