Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Novembro, 2011

Sexta-feira

Era sexta-feira, e como todas as sextas-feiras, ela começou a se arrumar às sete da noite. Como de costume, se demorou vinte minutos no banho, gastando mais vinte para se vestir. No cabelo, já arrumado de véspera, ela colocou uma flor, e se perfumou com o perfume de sempre. Partiu. Chegou no cinema às oito e quinze, a sessão era as oito e quarenta, como todas as sextas-feiras. Comprou dois bilhetes, um refresco e se sentou em um dos bancos na entrada do cinema, para esperar o namorado, como toda sexta-feira.

Sexta-feira costumava ser o dia de maior movimento no cinema, enquanto ela esperava, a fila da bilheteria se encheu e se esvaziou, pessoas entraram e saíram do cinema, casais abraçados, casais não abraçados, grupos de amigos, pessoas sozinhas, mulheres arrumadas, adolescentes falando alto. Ela observava o movimento, sentada no banco do cinema com o refresco na mão e a flor no cabelo. Às vezes se perdia ouvindo alguma conversa por perto dela, as pessoas se afastavam e ela voltava a si, esperando o namorado, como toda sexta-feira.

A bilheteria já estava vazia de novo, as pessoas já entraram para o filme, algumas sairiam de outra sala dentro de quinze minutos. O refresco demorava para acabar e ela se deliciava percebendo a ansiedade das pessoas antes de entrar na sessão, ou tentava decifrar o olhares saindo da sessão: teriam gostado do filme? Teriam se surpreendido? Teriam namorado dentro do cinema? Teriam descoberto algo de novo dentro de si?

Por fim, o refresco acabou, já se passava das nove da noite e ela perdera a sessão. Como toda sexta-feira, ela percebeu que já era tarde, que o namorado não tinha vindo, e que era hora de voltar para casa.

Anúncios

Celebridades – A Cor Amarela

Estar cara a cara com celebridades é um privilégio. E foi pensando nesse privilégio que o Pequena Flor de Laranjeira idealizou uma série de entrevistas, tendo em mente as curiosidades do leitor, aquilo que ele gostaria de saber da intimidade de tais pessoas – detalhes da infância e adolescência que a mídia, de alguma forma, deixou de perceber, e deixou de contar.

Foi a Cor Amarela a escolhida para inaugurar essa série de entrevistas. Em uma conversa singela, ela nos contou detalhes de sua vida amorosa, da história de sua família, dos anos da adolescência, dos sonhos de menina. Chegamos em sua casa – onde ela mesmo escolheu para nos conceder a entrevista – no meio da tarde, e no momento em que finalizávamos nosso roteiro, a Cor Amarela se retirou. Em poucos minutos éramos banhados pelo entardecer. Frente a tal espetáculo entendemos que a Cor Amarela nos dizia adeus. Foi então que fomos embora sem mais uma única palavra.

Pequena Flor de Laranjeira:  Por muito tempo você foi casada com a Cor Azul, com quem teve um filho, a Cor Verde. Como é se relacionar com uma cor primária, sendo você também uma cor primária?

Cor Amarela: Existe uma lenda de que as cores primárias não gostam de se relacionar com as outras – nenhuma das outras. Dizem que prezamos pela pureza. Isso não é verdade. Desde muito criança sempre gostei de brincar com as outras cores, e íamos sempre experimentando, nos colocando umas sobre as outras, até perceber qual a nova cor sairia dali – mesmo que fizéssemos isso escondido. A diferença é que quando adultas, as misturas eram pra valer, e criavam, de fato, novas cores. Foi assim que aconteceu comigo e com a Cor Azul. Nos apaixonamos ainda jovens, casamos e planejamos ter um filho, apenas um: não queríamos que o mundo fosse povoado de uma imensidão de cores impuras. Foi assim que a Cor Verde nasceu. Quando ela ainda era criança, estávamos sempre juntos, mas como todo filho, ela cresceu, saiu de casa e foi então que perdemos alguma coisa… a minha relação com a Cor Azul já estava abalada, e foi quando nos separamos.

Pequena Flor de Laranjeira: Mas o que se disse na época é que vocês se separaram porque a Cor Azul estava tendo um caso com a Cor Vermelha.

Cor Amarela: Vocês jornalistas não costumam ser discretos! Apesar de nos relacionarmos com outras cores, as cores primárias são muito solitárias. Mesmo entre nós, há sempre o risco da contaminação, da perda da pureza. Uma relação entre mim e a Cor Azul é uma relação que pode dar bons frutos. Poderíamos ter tido uma imensidão de filhos, muitos tons de verde, mais escuros, mais claros, azul piscina, azul pijama, verde bandeira, verde musgo, verde quartel… Mas entre a Cor Azul e a Cor Vermelha… ninguém sabe o que pode acontecer. Então, nesse sentido, me chateia um pouco saber que eles, de alguma forma, se relacionam, mas entendo, por outro lado, já que nós três, a três cores primárias, nos sentimos muito solitárias.

Pequena Flor de Laranjeira: Mesmo que a gente leve em conta as possibilidades de mistura, é a sua pureza que chama mais atenção se formos comparar com a Cor Azul e a Cor Vermelha. Esse fato chegou a gerar problemas entre você e a Cor Azul enquanto vocês eram casados?

Cor Amarela: De fato, não. Quando era pequena, fui educada para a realeza. Estudei em colégios de príncipes e princesas. Tudo ao meu redor era banhado a ouro. Mas minha mente de criança fugia, sonhava com outros lugares, povoados de cores, muitas cores. Me lembro das histórias que a ama contava para mim: princesas que fugiam com meninos azuis e cinzas montados em cavalos alaranjados, e conheciam, em um cidadela muito distante, flores roxas, rosas, frutas cor de carmim… a cidadela era protegida por cavaleiros envoltos em capas de veludo marrom, com botas negras e bigodes castanhos. Apesar da educação que recebi e dos sonhos de meus pais, sempre desejei estar perto de outras cores. E foi em uma viagem que fiz quando era jovem, para uma dessas terras distantes, que conheci a Cor Azul. Me apaixonei de imediato pela sua imensidão. Nem mesmo a pureza da minha família, toda a linhagem real que eu trazia acima de mim seria capaz de sobrepor à beleza daquela imensidão. Não me importava em nada a sua tendência para a impureza. Eu desejava apenas a sua grandeza, meu coração ardia pela capacidade da Cor Azul de ser maior e mais ampla que a própria terra.

Pequena Flor de Laranjeira: Mesmo que a Cor Azul seja grandiosa, ela não é capaz de tingir a terra assim como você faz todos os dias ao entardecer…

Cor Amarela: Sim… mas foi apenas muito tempo depois que descobri que, assim como a Cor Azul, eu poderia também ser grandiosa, não pela imensidão, pela profundidade, mas pela possibilidade de envolver o mundo como em um abraço por apenas alguns minutos, mesmo que o mundo não queira, mesmo que ele não perceba. O entardecer é a coroação de toda cor amarela, é o momento sublime em que dizemos, de forma calada, que a realeza de nossa cor está na capacidade de, todos os dias, envolver a tudo quanto existe na nossa frente, por alguns minutos, e depois nos despedirmos, deixando ao mundo nossa ausência, nossa falta, para retornar depois, de novo e de novo, e banharmos, a cada dia, a terra com a nossa mais pura beleza do entardecer. E isso eu só descobri já bastante madura, e foi então que percebi que eu não precisava ser dependente da Cor Azul, e que nós dois poderíamos ser grandes e inteiros. E é assim que somos hoje. Felizes, imensos e inteiros.

Lutando contra a balança

Toda mulher quer ter, no mínimo, dois quilos a menos. Eu também. Com dois quilos a menos eu me sentiria uma magrela, sem graça, mas ainda assim, gostaria de emagrecer, mesmo que fosse apenas pelo prazer de ter espaço para engordar de novo sem peso na consciência. Os brigadeiros seriam, no mínimo, duplamente mais saborosos.

Eu queria mais. Queria ter tempo e disposição para ler todos os livros que me enchem de curiosidade, para além daqueles que preciso, de alguma forma, ler: tenho por profissão estudar, e leio muito, o tempo todo. Mas eu queria, de fato, ler mais. O que faço não me parece suficiente.

Queria ter mais amigos. Não que os que eu tenho não sejam bons, mas ter muitos amigos certamente é melhor, haja vista que pessoas bravas, carrancudas, mal humoradas são logo julgadas como solitárias. Quem tem pouco amigo certamente tem algum problema. E eu, que encontro sérias dificuldades em me relacionar com grupos, privilegiando os amigos individuais – onde desenvolvo intimidade, pessoalidade, essas coisas bestas – me pego desejando ter mais amigos, certamente para tirar mais fotos e mostrar, com uma satisfação escondida, o quanto sou querida. Odeio a multidão, mas gostaria, de coração, que ela me amasse.

E perdida entre tantos desejos percebo que vou mudando de lugar. Perco um quilo, me torno mais magra, compro calças menores. Depois engordo de novo, compro novas calças e aumento o guarda roupa. Mudo de lugar. Compro mais livros, leio dois, acho que exagero e depois volto a assistir à novela das sete. Fui e voltei e aprendi alguma coisa no caminho. Procuro novos amigos, me distancio dos velhos, conheço pessoas e valorizo o que já tenho construído. Saí do lugar – de mim e dos outros.

O querer mais – sempre mais – ganha sentido de mudança. E mudar é bom. Desejar a mudança parece um bom começo para compreender o meu lugar no mundo: um lugar onde os outros gostam de mim, me apreciam e me acolhem, me respeitam e precisam de mim até um certo ponto. E a cada quilo perdido ou ganhado vou percebendo que não é isso que me faz mais querida, mas que a capacidade de mudar pode me fazer querer mais as pessoas que estão por perto. E isso me parece bom, muito bom.

Esperando a segunda feira

Hoje é sexta feira e eu gostaria de cantar o dia. E gostaira de cantá-lo por todas as suas promessas de descanso, encontros, surpresas, conversas, tempo livre para o dia de amanhã. Queria cantá-lo por tudo que ele nos faz desejar. Mas não consigo desenvolver meu canto porque não suporto esperar, e não consigo esperar porque duvido. E se amanhã, mesmo sendo manhã de sábado, eu despertar tão cedo como se fosse obrigada a trabalhar? E se a noite for repleta de insônia e, mesmo sendo domingo, eu despertar cheia de cansaço? E se, apesar das promessas de encontro e felicidades que o final de semana carrega em si, o meu dia for acompanhado da mais sincera solidão?

Não canto, portanto, a sexta feira porque titubeio frente ao sábado que se aproxima. Porque me compadeço daqueles que dormem durante todo o final de semana em uma espera ansiosa pela segunda feira. Porque me sinto em comunhão de alma com aqueles que caminham sozinhos pela Avenida Paulista no domingo à tarde. Porque duvido da alegria fácil dos encontros de turma, das rodadas e mais rodadas de bebida e saideiras das tardes de sábado. Porque desconfio que todos se sentem muito sozinhos.

Sozinhos como eu me sinto nessa sexta-feira, escrevendo um texto inacabado com ares de cansaço, de solidão, de desconfiança, de desejo que a noite acabe logo e o sono chegue depressa. Solitária como a mensagem de uma amiga, dizendo que irá trabalhar até o último minuto da sexta feira, adiando assim a chegada do monstro do final de semana.

Para aqueles, no entanto, cheios de planos e compromissos, e alegrias exatas e bem definidas para o final de semana, desejo, com sinceridade, que espalhem sua alegria pela cidade, pelas ruas, abençoando os caminhos com a leveza de quem se senta à mesa com dignidade e não tem hora para levantar.

Apesar da sexta-feira, desejo a todos um ótimo final de semana.