Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de criança

Perigo!

Era dia de semana e eu estava sentada no metrô. À minha frente, uma senhorinha, dessas de cabelos branquinhos, sentou no assento preferencial. Uma mulher, com uma menininha de uns quatro anos se sentou ao lado e as três se acomodaram no banco para duas pessoas. Mas a menininha estava incomodada, ela queria o assento só para ela. O quê fazer? A menina começou, então, a bater na velhinha. Claro, eram socos de criança, não doíam, e a velhinha, constrangida, nem reclamava. Mas a menina insistia, batia e gritava com a velhinha, que fazia que não via. E a mãe? Também constrangida, acredito, se levantou e deixou a menina sentar sozinha no assento que antes dividia com ela. Na estação seguinte a senhorinha se levantou e deixou o vagão.

No domingo seguinte ligo o noticiário e vejo cenas terríveis: num estádio de futebol duas torcidas se enfrentam e as câmeras de vídeo flagram uma enxurrada de socos e pontapés em vítimas já inconscientes. Quatro feridos vão para o hospital, se pergunta onde raios estava a Polícia Militar, que afirma que foi impedida pelo Ministério Público de fazer a segurança do jogo e etc. O país se revolta com a violência e aquelas cenas miseráveis rodam o mundo e depõem contra o país do futebol. Questiona-se se estamos diante de seres humanos ou de uma cena de extrema selvageria.

Diante da menina que dava socos infantis na senhorinha eu não fiz nada. Ninguém fez nada. A mãe não fez nada. Ninguém disse a ela que a violência é uma linguagem que não vale a pena. Ao contrário. Ela, tão pequena, conseguiu o queria com seus esforços físicos desmedidos: poucos segundos depois ela recebeu um assento só pra ela. A violência, para a nossa pequena protagonista, funcionou.

E a verdade é que a violência tem funcionado em nossa sociedade desde os tempos dos portugueses atracando nas praias brasileiras. Desde a catequese dos jesuístas que conquistavam milhares de indígenas para a fé cristã. Desde o primeiro passo do desenvolvimento econômico do Brasil, violentando pernas e braços negros. Desde o primeiro corpo policial criado para salvaguardar a ordem dos ricos e brancos. Desde nosso primeiro abecedário com o castigo que ardia nas mãos dos que erravam uma letra. Desde.

Desde o metrô até o estádio. E nos revoltamos apenas com o estádio. Ou também com o menino que leva um tiro de outro menino na porta do prédio. Ou. Mas não nos revoltamos com uma criança que já aprendeu a tratar o outro como ninguém. Não nos revoltamos com uma menina que já sabe usar a violência como meio de atingir seus desejos mais sinceros. Não nos revoltamos com o policial que espanca o bandido, afinal, bandido bom não existe, não é mesmo? Não nos revoltamos com pais que batem em filhos, afinal, um tapinha não dói, e a vara serve como ensinamento.

E por que mesmo nos revoltamos com a cena no estádio de futebol? A violência é eficaz, tendo sido para nós há tantos e tantos anos. E pensando bem, pra quê se revoltar, menininha esperta essa, não? Já sabe como alcançar o que quer. Essa sim, vai ser alguém na vida, tem personalidade e atitude. Só resta saber o mundo que a espera e que ela nos ajuda a construir. A vida é, sim, muito perigosa.

Grão de mostarda

Eu fui uma criança religiosa. Acreditava em Deus-Todo-Poderoso, ia à igreja, dava o dízimo de tudo o que recebia. Ainda assim, cometia um grande pecado: me faltava a fé. Eu acreditava com toda força de criança naquilo que a Bíblia dizia, confiava no amor generoso de Deus-Pai, repetia que Jesus era o Deus-Filho mas não era capaz de ter a fé que esperavam que eu tivesse. E quanto mais entendia que me faltava fé, mais me entranhava na igreja: fazia orações, pedia perdão por tudo, prometia a cada dia ser uma criança melhor, mesmo assim, minha fé parecia não aumentar.

Vez ou outra eu a testava: me colocava num lugar em que pudesse avistar uma montanha, qualquer que fosse. Fechava os olhos, dizia ao Deus-Todo-Poderoso que eu acreditava que ele era sim, Todo-Poderoso, e que por isso, poderia fazer aquela montanha mudar de lugar. Ainda de olhos fechados eu pedia perdão a Ele por minha fé tão miúda e repetia seguidas vezes que sabia que Ele compreenderia a minha carência, afinal, seria preciso tão pouco desta fé, era certo que Ele faria o que Lhe cabia – quem mudaria a montanha de lugar era Ele, e não a minha fé.

Eu ainda permanecia com os olhos fechados por um tempo. Titubeava. E se a montanha ainda estivesse lá? Se nada ao meu redor tivesse mudado? O que eu faria? Eu estaria derrotada, mais uma vez derrotada, apesar da leitura bíblica diária, das orações antes da sete da manhã, do dízimo, do perdão que pedi à coleguinha (mesmo que fosse ela a errada). Nada teria ajudado a aumentar a minha fé se a montanha ainda estivesse lá.

E estava. Intacta. Eu, mais uma vez, humilhada dentro de mim, envergonhada frente ao Todo-Poderoso. Ele me testava, pedia mais fé. Eu não sabia o que fazer. Fui então crescendo e passei a entender o que era dito na Bíblia como boas metáforas e não como verdades absolutas. Não era preciso, afinal, mover uma montanha para ser uma pessoa boa, amada, com bons sonhos e bons amigos. A questão das montanhas não me incomodou mais. Até semana passada, quando um novo fato veio derrotar de vez o que restava de minha fé.

Todas as semanas pego a estrada que me leva de Minas a São Paulo. Bem no meio do caminho há um lago enorme à direita, que só pode ser visto por cinco segundos a uma velocidade de 90km por hora. É quando piso no freio, dou seta para a direita, abro a janela e observo o meu lago predileto. Quando ele desaparece atrás de uma montanha eu sinto que estou sorrindo. Subo o vidro da janela e sigo viagem.

Nesta semana, no entanto, quando diminuí a velocidade ao me aproximar do lago, percebi que não era mais possível enxergá-lo: havia uma montanha na frente da paisagem. Uma montanha que não estava ali na semana anterior. Uma montanha que se moveu, me tirando a possibilidade de ver o lago e de acreditar que a fé seria apenas uma metáfora. Alguém muito mais fervoso que eu havia conseguido, afinal, mover uma montanha.

O que me derrotou foi perceber que essa pessoa fervorosa ainda estava em plena ação de fé: caminhões e mais caminhões de terra encontravam-se parados na pista, jogando toneladas de montanha na frente do meu lago. É certo que essa pessoa não fez uma oração, não fechou os olhos e pediu a Deus que Ele movesse aquela montanha. Não, ele chamou o engenheiro subchefe ao seu escritório, no vigésimo andar de um edifício na Avenida Berrini e lhe disse: “Por favor, construa um viaduto na altura do quilômetro 68 da Fernão Dias, preciso ter acesso fácil à fazenda de pedras e calcário que temos do outro lado do lago”. Ao que o subchefe, cauteloso, responde: “Seria mais fácil construir uma ponte, mais barato, seria preciso pouca estrutura”, ao que o homem cheio de fé responde não, prefere um viaduto, ele quer espaço e boa estrutura para transitar caminhões pesados. O subchefe, insiste, dizendo que seria preciso fazer uma elevação com um volume muito grande de terra para suportar a estrutura de um viaduto. Ao que o homem simplesmente diz: “Faça”.

E assim a montanha foi movida, e o nome do Todo-Poderoso nem mesmo foi citado. E assim ando à procura de algum religioso a quem possa confessar a minha falta crônica e irrecuperável de fé, e ter alívio para os dias de culpa que se seguiram ao ocorrido.

A chuva molhou meu queijo

Chovia muito durante a tarde. Corri para fechar as janelas e vi que tinha esquecido um queijo descoberto na pia da cozinha. O vitral sobre a pia também estava aberto. A chuva molhou o meu queijo. Olhei para o queijo molhado, e enquanto tentava secá-lo e guardá-lo rapidamente, pensei na frase “a chuva molhou o meu queijo” e me lembrei de um certo livro que me parece que vendeu horrores, com o nome parecido “Quem mexeu no meu queijo?”.

Sucesso de vendas. Vi uma tia comprando o livro para seus sobrinhos adolescentes. Ouvi alguém dizendo que se tratava de um livro de autoajuda para negócios. De tudo, só não ouvi rumores de que era uma peça de teatro. Eu não sei dizer. Não li o livro. Não peguei o livro na mão, não folhei suas páginas. Não faço ideia do que se trate.

Mas minha recusa não termina por aí. Também não assisti à Paixão de Cristo, não sei qual é a trama do Harry Porter, não conheço o Avatar e desconheço seu significado. Na minha lista de não-lidos e não-assistidos o pior dos crimes parece ter sido não assistir à trilogia do Matrix. Pronto, falei.

Não. Não termina por aí. Há anos atrás eu assistia a uma aula na Escola de Comunicação e Artes da USP, junto com a turma de comunicação, e o assunto era a repercussão internacional sobre os hábitos etílicos do presidente Lula. Eu virei para a minha colega do lado, discretamente, e perguntei: “o que aconteceu com o Lula?”. É evidente que ela se ofendeu, e antes de me contar, indignada, o caso do jornalista que havia dito que o Lula era um pinguço, me repreendeu seriamente por ser tão desligada.

Para terminar, na última feira do livro que aconteceu na USP, onde havia um número incrível de editoras vendendo tudo pela metade do preço, com um número mais incrível de pessoas ávidas comprando e comprando e comprando todos os tipos de livro, eu parei na banca da Biruta. E parei porque a ilustração de um livro infantil, com uma menina com um nariz enorme e as bochechas completamente vermelhas, me chamou a atenção. Evidente que a ilustração me chamou atenção porque a banca estava vazia, e era possível ver tranquilamente todos os livros em exposição. Parei e ali fiquei. Enquanto folheava alguns dos livros, seus vendedores me contavam estórias e estórias infantis, seus olhos brilhavam, e eu no intuito de possuir aquele brilho no olhar, comprei quase a banca inteira.

Não passei na banca que vendia livros de antropologia – minha área de pesquisa. Nem quis visitar o espaço onde se encontrava a Companhia das Letras: tudo estava muito cheio. Corri para casa para devorar meus livros novos e a cada livro eu ia descobrindo um novo segredo. Quando me viram saindo com a sacola da Biruta, perguntaram se eu estava planejando ter filhos e por isso já estava equipando sua pequena biblioteca. Talvez.

As notícias cotidianas não me contam segredos, apenas me dão repertório para conversar com os adultos. Sem dúvida alguma Avatar, 300, Matrix e outras grandes produções falam muito sobre a nossa época e podem até ensinar alguma coisa a alguém. Assim como ler o jornal. Mas ainda prefiro os segredos dos livros infantis, seus castelos cheios de mistérios, a conversa entre a dona baratinha e o seu baratão. E quando penso de novo na frase “a chuva molhou o meu queijo” já me embrenho por possíveis estórias de ratinhos bêbados, terras distantes onde a chuva lava a louça e tudo o que há perto dela, queijos milagrosos que curam dor de barriga, dor de cotovelo e dor de amor. E nisso, sem dúvidas, há muito pouco espaço para o que acontece com o presidente da república. Sinto muito.

Crônica premiada no concurso Literacidade.

Coração de Papai Noel

Eu ainda era pequena quando duvidei da existência do Papai Noel. Certo Natal ele simplesmente não apareceu e não se falou nada mais a respeito. A janela continuava com a pontinha aberta que eu havia deixado no dia anterior, mesmo assim ele não veio e ficou por isso mesmo.

Por algum tempo, já crescida, tinha certa raiva no velhinho a tirar a atenção do bebê que nascia no estábulo e nos trazia boas novas. Se ele existia mesmo, eu não me importava muito.

Aos poucos fui percebendo, porém, que muita coisa boa acontecia por causa do tal velhinho, ou para que se garantisse a lenda, a boa história. A mais bonita delas, pra mim, foi a campanha dos correios, em que pretensos papais noeis podem ir até uma agência, retirar uma carta com um pedido de uma criança e realizar seu sonho. O papai noel se multiplicou, distribuiu bicicletas, computadores, bolas, cadernos, video games, calçados, raquetes de tênis, livros, caixas de bombom, tudo, tudo o que se imaginar, tudo chegou às mãos daquelas crianças que acreditaram na existência do bom velhinho.

Existem aquelas crianças, no entanto, que desconfiam que o papai noel mora em casas de bairros de classe média das cidades, e por isso, não levam suas cartinhas até uma agência do correio, mas poupam o trabalho do velhinho de ter de ir buscá-las e já deixam seus pedidos nas próprias residências. Foi assim que encontrei a carta de Fabiana jogada no meu quintal.

A carta, evidente, era dirigida ao Papai Noel, mas como estava em minha casa, me furtei a lê-la – quem sabe eu pudesse alcaçar o pedido de uma criança de 12 anos. Já me via saindo da inércia do mês de dezembro, entrando às pressas em uma loja de brinquedos, procurando por algo certamente novo no mercado, que eu logicamente ainda não conhecia.  Mas a carta guardava surpresas para o meu coração já cansado dos primeiros dias de dezembro.

Nas primeiras linhas, escritas ainda com letra de criança – formato arredondado, esmero no desenho de cada letra – Fabiana se apresentava, contava a sua idade e dizia que gostaria de ganhar uma cesta básica de Natal. Um susto. Não continuei a leitura. Nó na garganta. Uma cesta básica era o que a Fabiana me pedia de Natal. E eu, já disposta a dar-lhe o mundo dos briquedos inúteis, pronta a qualquer tipo de esforço, quedei paralisada. Uma cesta básica.

Tomo novo fôlego e continuo a leitura da carta. A letra da Fabiana, a partir de então, muda, seu esmero no desenho se transforma em garranchos e ela começa a me explicar que a mãe, sozinha, tem muita dificuldade em sustentar seis filhos, que há seis anos se separou do marido e por isso ela ficaria muitíssimo feliz se eu pudesse dar a ela uma cesta básica de natal. Muitíssimo feliz foi o termo que a Fabiana, de doze anos, usou. Por fim, me desejou um Feliz Natal e indicou abaixo o seu endereço.

  A carta ficou sobre minha mesa, não sei o que fazer com ela. Foi se desenhando na minha mente a imagem triste da mãe sentada na esquina, com um nenem no colo, as outras crianças correndo pela rua pedindo dinheiro, e levando depois o dinheiro para a mãe, sentada, gritando, xingando os filhos. Os filhos implorando por algo para levar para a mãe, pode ser comida, moça. E a maçã que a criança ganha primeiro ela leva para a mãe, que joga ao largo, da próxima vez vê se me traz dinheiro, moleque. Da próxima vez a criança aprende que se ganhar comida deve de comer antes que a mãe veja.

Essa cena triste pode, no entanto, não ser verdade. Imagino então a Fabiana dizendo à mãe que quer pedir um notebook para o Papai Noel, para poder fazer os trabalhos da escola, a Carol, sua colega, ganhou um usado no último Natal, deixou a cartinha no correio e enviaram para ela. A mãe sorri um sorriso triste mas iluminado, e diz à Fabiana que elas poderiam fazer melhor, poderiam pedir ao Papai Noel no correio um notebook, e poderiam também pedir ali naquele bairro algumas cestas básicas, que as pessoas que moram lá costumam ser muito boas, e assim elas poderiam ficar tranquilas por um mês inteiro se conseguissem pelo menos umas cinco cestas. A mãe de Fabiana tem então a brilhante ideia de escreverem várias cartas, pedindo ao papai noel uma cesta em cada uma. Uma linha de produção. Na décima carta, no entanto, a Fabiana diz para a mãe que a mão dói, que ela não aguenta mais escrever, e fica sonhando, calada, com o notebook do verdadeiro Papai Noel.

A mãe termina assim a última carta, com sua própria letra, com suas próprias razões. Coloca no envelope já preparado pela filha, com a letra da filha, e sai no dia seguinte meia hora mais cedo para o trabalho. Distribui dez cartas em dez casas de boa aparência, com grandes quintais na frente, dando preferência para aquelas que já possuem algum enfeite de Natal. Certamente nesse lares o espíriro natalino fará com que o papai noel presente no coração de cada um lhe ofereça uma cesta básica. Afinal, é tão pouco, minha filha só pede ao uma cesta básica de Natal.

A carta ainda está em cima da minha mesa. E eu cheia de curiosidade em saber o que de fato a Fabiana pediu ao Papai Noel.

 

Por andar distraída

Era o primeiro dia de aula na quinta série, e diferente das meninas de sua idade, ela caminhava tranquila em direção ao colégio. Tudo tinha mudado: professores, colegas, horário e matérias, na mochila o cheiro do novo: sonhos, cadernos, lapiseiras. As outras meninas corriam apressadas para o colégio, queriam logo conhecer a nova classe, os novos amigos, as novas paqueras.

A movimentação começou cedo em todos os lares da quinta série. Com o novo horário, quase de madrugada, foi preciso acordar muito cedo para que nada saísse atrasado. Ela também fez assim. Acordou cedo, se arrumou, pegou a mochila já preparada de véspera, beijou o pai que lia na sala, e se foi a caminho do colégio. O caminho, no entanto, foi mais longo que nos outros dias. A sensação de estar se dirigindo a um mundo novo precisava ser aproveitada: ela chegaria ao colégio e conheceria tudo que era novo, o novo se tornaria velho, o velho se transformaria em tédio, e ela nunca mais teria a sensação de descoberta que aquele caminho lhe dava. Era preciso aproveitar o caminho, o velho caminho já conhecido mas que levava a lugares novos.

E ela aproveitou tanto o caminho que se esqueceu da escola. Parou para indicar a direção para uma senhora que passava, parou para ver um ninho de passarinho caído no caminho, parou para catar um jornal jogado na rua, parou para pegar a bola que rolou na sua direção. E o dia tão esperado durante as férias foi trocado por alguns instantes de surpresa.

Chegou atrasada e perdeu as boas vindas da diretora. Chegou atrasada e já no primeiro dia foi repreendida. Chegou atrasada e já lhe passaram a lição de que não se deve ter muitos sustos pela vida. Mas diferente das meninas da sua idade, ela não aprendeu a lição, e durante muitos anos de sua vida continuou recusando os prazeres calculados, os sonhos previsíveis, durante muito anos continou cultivando pequenas surpresas, e se encantando com os sustos que causava em pessoas ou lugares onde menos esperava.

O nome do monstro

Foi quando eu ainda era criança que ouvi falar do monstro pela primeira vez: ele tinha um nome muito feio, e morava na lagoa. Dizia-se por aí que era grande e perigoso, que atraía as crianças para dentro d’água e pluft!, escondia cada uma delas no fundo da lagoa para sempre. Mas isso era o que se dizia por aí, a verdade era um pouco diferente.

A verdade era que o feio não era o monstro, e sim o seu nome. Ninguém falava o tal nome sem ficar corado de vergonha. Minha mãe, minha vó e minhas tias, preocupadas com a boa educação das crianças, nos diziam para não chegar perto do monstro, mas nós, crianças, morríamos de curiosidade: era preciso olhar nos olhos do bicho e ver o que é que ele tinha de tão monstruoso, afinal.

Lembro-me da primeiro vez que o vi: foram dias e dias planejando a visita à lagoa, num horário estratégico que meu avô não estivesse por ali, pescando lambaris. Meu irmão já tinha em mente cada detalhe: iríamos no entardecer, quando todo mundo no Vale do Girassol já estaria começando a se preocupar com a janta, com o banho, com a missa. Hora também que meu avô estaria subindo para a sede, e com isso poderíamos chamar o monstro sem que ninguém nos atrapalhasse. Meu irmão me alertou: era preciso ficar a uma distância segura da beira da lagoa, assim não correríamos o risco de sermos agarrados pelo monstro e levados para o fundo da água .

Chegamos na lagoa e eu ainda hesitava, cheia de pudor e vergonha em chamar o bicho. Foi meu irmão quem começou:

– @#$%& #@$% &%%$!!!!

Era a minha vez. Ele me cutucava, era preciso chamar o monstro. Eu ainda em silêncio. Ele continuava:

– *%$# $#@%!!!!

Até que enchi o pulmão e comecei a falar as palavras mais feias que eu conhecia:

– &%$#@ %$&*!!!!

Nada do monstro. Continuávamos:

– $%##@!!! &%#**&!!! &$#@!!!

De tão empenhados em lembrar todos os nomes feios que conhecíamos, esquecemos por completo o monstro. A cada palavra feia, caíamos numa enorme gargalhada. Gargalhada lambuzada de criança. Gargalhada de quem se sente livre por um minuto dos olhos vigilantes dos adultos. Ríamos, ríamos muito. E foi no meio de uma risada que percebi uma gargalhada diferente. Não era minha.  Não era do meu irmão. Era o monstro ao nosso lado, rindo muito, muito, mas muito mais do que a gente.

A gente não se assustou: era como se conhecêssemos o monstro há muito tempo. Ríamos com ele, ríamos dele: aquela coisa desengonçada, orelhuda, meio fedida, meio amarelada. Ele tinha pelos por todo o corpo, dentes enormes e escarados naquela boca que não parava de rir um minuto sequer. Continuávamos rindo, rindo, rindo. Foi então que percebi a água já no meu joelho. Estávamos entrando junto com o monstro dentro da lagoa. A sua risada nos atraía. Os planos de meu irmão tinham falhado: não adiantou em nada a distância segura na beira da lagoa.

Como não podia deixar de ser, meu avô tinha percebido nossos olhos curiosos naquele dia – olhos de criança que escondem alguma coisa. E ele estava lá, ao longe, rindo de nós, rindo da água que já batia na nossa cintura. Quando quase estávamos afundando ele veio e nos puxou pela camiseta. Sim, esse é o meu avô: ele não nos salvaria nem um minuto antes sequer.

Prontos para levar aquele sermão, ficar de castigo, nunca mais podendo voltar à lagoa, ouvimos apenas que na próxima vez que a gente quisesse chamar o monstro, deveríamos chamar antes meu avô. Disse ele que também queria ter o prazer de dizer todos aqueles nomes feios, ali na lagoa, no único lugar que era permitido fazer isso.

Depois disso, ainda fomos várias vezes, junto com o meu avô, pescar lambaris. Bem, essa era a história oficial. Íamos para chamar o monstro, para brincar com ele, para ouvir sua gargalhada e dizer a ele que ele era a coisa mais feia do mundo. Minha mãe, minha avó e minhas tias não desconfiavam. Acho que não desconfiavam. Longe da lagoa nunca dissemos o nome do monstro. Era muito feio.

À espera do dentista

– Mãe!

– Oi, filha.

– Vai doer?

– Não, filha, não vai não!

– Mas a Duda usa aparelho e disse que dói!

– Mas a sua prima usa um outro tipo de aparelho, é daquele que não dá para tirar, por isso dói. O seu não, o seu você só vai usar à noite, e dá para tirar quando doer.

– Ah, tá… mas o meu vai ser colorido igual ao da Duda?

– Não, filha… o seu tem só um ferrinho liso que fica na frente do dente.

– Ah, tá… e hoje eu já vou colocar o aparelho?

– Não, hoje você vai colocar uma massa na boca, é como se fosse uma massinha, você vai morder essa massinha e aí o dentista vai saber direitinho como é o formato da sua boca. Depois ele vai montar o seu aparelho do tamanho certinho pra você.

– …

***

– Mãe!

– Oi, filha.

– O dentista falou que era pra usar aparelho pra arrumar os dentes que nasceram tortos, né?

– É, filha!

– Ah, tá.

***

– Mãe!

– Oi.

– Sabe a mãe da Lia?

– Claro que sei, filha! Quê que tem a mãe da Lia?

– Ela tem um olho diferente do outro, não tem?

– Tem sim.

– E o olho dela nasceu torto?

– Não, filha, a mãe da Lia sofreu um tipo de acidente, e por isso ficou com o olho torto.

– Acidente igual ao do Tio Jorge?

– É… não… o Tio Jorge sofreu um acidente de carro, lembra? Ele tava dirigindo na estrada, de noite, passou um bicho na rodovia e aí o carro dele capotou. Mas ele só quebrou o braço, lembra? Lembra que ele ficou usando gesso?

– Lembro.

– O acidente que a mãe da Lia sofreu foi diferente.

– Não foi de carro então?

– Não, o dela é um acidente que acontece dentro do corpo da gente. É como se dentro da gente existisse um monte de estradas, onde passa o o nosso sangue. Quando a gente é criança, como você, essas estradas são todas limpinhas, mas com o tempo, quando a pessoa vai ficando velha, essas estradas às vezes ficam com problemas, e aí o sangue não consegue passar direito. E quando o sangue que não consegue passar ele acaba estragando de vez a estrada. Quando acontece isso, a gente fala que a pessoa sofreu um acidente nas veias.

– Então a mãe da Lia sofreu um acidente dentro dela?

– É, filha, é mais ou menos isso. E aí, igual o Tio Jorge que ficou com o braço quebrado e teve que usar o gesso, a mãe da Lia teve um monte de problemas, ficou um tempão no hospital, foi no médico um montão de vezes. Agora ela já tá boa, já consegue andar, falar, fazer tudo.

– Ah, tá.

***

– Mãe.

– Oi.

– Mas se o dentista falou que eu tenho que usar aparelho para consertar o dente torto, por que a mãe da Lia não usa aparelho também para consertar o olho torto?

– Filha, tem coisas que a gente consegue consertar. O seu dente, por exemplo. Mas tem coisas que a gente não consegue. A mãe da Lia já fez um monte de cirurgias, já tentou um monte de coisas, ela conseguiu arrumar a vista, por exemplo. Antes ela quase não enxergava, agora ela já enxerga, com óculos, mas enxerga. Lembra que a boca dela era torta também? Hoje ela já tem a boca normal, fala normal. Mas o olho foi uma coisa que os médicos não conseguiram arrumar.

– Então não vai conseguir arrumar nunca?

– Não sei, filha, não sei. O importante é que igual ao Tio Jorge, a mãe da Lia tá bem. Ela consegue fazer tudo que todo mundo faz, e se ela quiser, é só colocar um óculos escuro, um chapéu bem bonito que ninguém nem percebe o olho dela. No fundo, acho que ela nem liga, você já viu ela reclamando do olho?

– Não, mãe.

– Então! Ela tá feliz porque tá junto com a Lia, tá junto com o Pedro, continua visitando a gente. Ela tá feliz! Não tem porquê ela colocar um aparelho no olho!

– Ah, tá.

***

– Mãe.

– Oi, filha.

– Se doer a noite você vai dormir comigo?

– Filha, eu tô pra conhecer uma pessoinha mais dorminhoca que você! Eu duvido que a senhorita vai acordar de noite por conta desse aparelho!

– Promete, vai… promete!

– Tá bom! Prometo.