Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de criança

A caminho

Do banco de trás do carro, sentada, a Maria pergunta o que é “distrair”.

O pai, ao volante, responde que distrair é não prestar atenção.

O menino Francisco, ao lado da Maria, olha a estrada ao longe. Calado, não pergunta nada.

Meu coração soluça, cansado, tudo, menos distraído.

Perigo!

Era dia de semana e eu estava sentada no metrô. À minha frente, uma senhorinha, dessas de cabelos branquinhos, sentou no assento preferencial. Uma mulher, com uma menininha de uns quatro anos se sentou ao lado e as três se acomodaram no banco para duas pessoas. Mas a menininha estava incomodada, ela queria o assento só para ela. O quê fazer? A menina começou, então, a bater na velhinha. Claro, eram socos de criança, não doíam, e a velhinha, constrangida, nem reclamava. Mas a menina insistia, batia e gritava com a velhinha, que fazia que não via. E a mãe? Também constrangida, acredito, se levantou e deixou a menina sentar sozinha no assento que antes dividia com ela. Na estação seguinte a senhorinha se levantou e deixou o vagão.

No domingo seguinte ligo o noticiário e vejo cenas terríveis: num estádio de futebol duas torcidas se enfrentam e as câmeras de vídeo flagram uma enxurrada de socos e pontapés em vítimas já inconscientes. Quatro feridos vão para o hospital, se pergunta onde raios estava a Polícia Militar, que afirma que foi impedida pelo Ministério Público de fazer a segurança do jogo e etc. O país se revolta com a violência e aquelas cenas miseráveis rodam o mundo e depõem contra o país do futebol. Questiona-se se estamos diante de seres humanos ou de uma cena de extrema selvageria.

Diante da menina que dava socos infantis na senhorinha eu não fiz nada. Ninguém fez nada. A mãe não fez nada. Ninguém disse a ela que a violência é uma linguagem que não vale a pena. Ao contrário. Ela, tão pequena, conseguiu o queria com seus esforços físicos desmedidos: poucos segundos depois ela recebeu um assento só pra ela. A violência, para a nossa pequena protagonista, funcionou.

E a verdade é que a violência tem funcionado em nossa sociedade desde os tempos dos portugueses atracando nas praias brasileiras. Desde a catequese dos jesuístas que conquistavam milhares de indígenas para a fé cristã. Desde o primeiro passo do desenvolvimento econômico do Brasil, violentando pernas e braços negros. Desde o primeiro corpo policial criado para salvaguardar a ordem dos ricos e brancos. Desde nosso primeiro abecedário com o castigo que ardia nas mãos dos que erravam uma letra. Desde.

Desde o metrô até o estádio. E nos revoltamos apenas com o estádio. Ou também com o menino que leva um tiro de outro menino na porta do prédio. Ou. Mas não nos revoltamos com uma criança que já aprendeu a tratar o outro como ninguém. Não nos revoltamos com uma menina que já sabe usar a violência como meio de atingir seus desejos mais sinceros. Não nos revoltamos com o policial que espanca o bandido, afinal, bandido bom não existe, não é mesmo? Não nos revoltamos com pais que batem em filhos, afinal, um tapinha não dói, e a vara serve como ensinamento.

E por que mesmo nos revoltamos com a cena no estádio de futebol? A violência é eficaz, tendo sido para nós há tantos e tantos anos. E pensando bem, pra quê se revoltar, menininha esperta essa, não? Já sabe como alcançar o que quer. Essa sim, vai ser alguém na vida, tem personalidade e atitude. Só resta saber o mundo que a espera e que ela nos ajuda a construir. A vida é, sim, muito perigosa.

Grão de mostarda

Eu fui uma criança religiosa. Acreditava em Deus-Todo-Poderoso, ia à igreja, dava o dízimo de tudo o que recebia. Ainda assim, cometia um grande pecado: me faltava a fé. Eu acreditava com toda força de criança naquilo que a Bíblia dizia, confiava no amor generoso de Deus-Pai, repetia que Jesus era o Deus-Filho mas não era capaz de ter a fé que esperavam que eu tivesse. E quanto mais entendia que me faltava fé, mais me entranhava na igreja: fazia orações, pedia perdão por tudo, prometia a cada dia ser uma criança melhor, mesmo assim, minha fé parecia não aumentar.

Vez ou outra eu a testava: me colocava num lugar em que pudesse avistar uma montanha, qualquer que fosse. Fechava os olhos, dizia ao Deus-Todo-Poderoso que eu acreditava que ele era sim, Todo-Poderoso, e que por isso, poderia fazer aquela montanha mudar de lugar. Ainda de olhos fechados eu pedia perdão a Ele por minha fé tão miúda e repetia seguidas vezes que sabia que Ele compreenderia a minha carência, afinal, seria preciso tão pouco desta fé, era certo que Ele faria o que Lhe cabia – quem mudaria a montanha de lugar era Ele, e não a minha fé.

Eu ainda permanecia com os olhos fechados por um tempo. Titubeava. E se a montanha ainda estivesse lá? Se nada ao meu redor tivesse mudado? O que eu faria? Eu estaria derrotada, mais uma vez derrotada, apesar da leitura bíblica diária, das orações antes da sete da manhã, do dízimo, do perdão que pedi à coleguinha (mesmo que fosse ela a errada). Nada teria ajudado a aumentar a minha fé se a montanha ainda estivesse lá.

E estava. Intacta. Eu, mais uma vez, humilhada dentro de mim, envergonhada frente ao Todo-Poderoso. Ele me testava, pedia mais fé. Eu não sabia o que fazer. Fui então crescendo e passei a entender o que era dito na Bíblia como boas metáforas e não como verdades absolutas. Não era preciso, afinal, mover uma montanha para ser uma pessoa boa, amada, com bons sonhos e bons amigos. A questão das montanhas não me incomodou mais. Até semana passada, quando um novo fato veio derrotar de vez o que restava de minha fé.

Todas as semanas pego a estrada que me leva de Minas a São Paulo. Bem no meio do caminho há um lago enorme à direita, que só pode ser visto por cinco segundos a uma velocidade de 90km por hora. É quando piso no freio, dou seta para a direita, abro a janela e observo o meu lago predileto. Quando ele desaparece atrás de uma montanha eu sinto que estou sorrindo. Subo o vidro da janela e sigo viagem.

Nesta semana, no entanto, quando diminuí a velocidade ao me aproximar do lago, percebi que não era mais possível enxergá-lo: havia uma montanha na frente da paisagem. Uma montanha que não estava ali na semana anterior. Uma montanha que se moveu, me tirando a possibilidade de ver o lago e de acreditar que a fé seria apenas uma metáfora. Alguém muito mais fervoso que eu havia conseguido, afinal, mover uma montanha.

O que me derrotou foi perceber que essa pessoa fervorosa ainda estava em plena ação de fé: caminhões e mais caminhões de terra encontravam-se parados na pista, jogando toneladas de montanha na frente do meu lago. É certo que essa pessoa não fez uma oração, não fechou os olhos e pediu a Deus que Ele movesse aquela montanha. Não, ele chamou o engenheiro subchefe ao seu escritório, no vigésimo andar de um edifício na Avenida Berrini e lhe disse: “Por favor, construa um viaduto na altura do quilômetro 68 da Fernão Dias, preciso ter acesso fácil à fazenda de pedras e calcário que temos do outro lado do lago”. Ao que o subchefe, cauteloso, responde: “Seria mais fácil construir uma ponte, mais barato, seria preciso pouca estrutura”, ao que o homem cheio de fé responde não, prefere um viaduto, ele quer espaço e boa estrutura para transitar caminhões pesados. O subchefe, insiste, dizendo que seria preciso fazer uma elevação com um volume muito grande de terra para suportar a estrutura de um viaduto. Ao que o homem simplesmente diz: “Faça”.

E assim a montanha foi movida, e o nome do Todo-Poderoso nem mesmo foi citado. E assim ando à procura de algum religioso a quem possa confessar a minha falta crônica e irrecuperável de fé, e ter alívio para os dias de culpa que se seguiram ao ocorrido.

A chuva molhou meu queijo

Chovia muito durante a tarde. Corri para fechar as janelas e vi que tinha esquecido um queijo descoberto na pia da cozinha. O vitral sobre a pia também estava aberto. A chuva molhou o meu queijo. Olhei para o queijo molhado, e enquanto tentava secá-lo e guardá-lo rapidamente, pensei na frase “a chuva molhou o meu queijo” e me lembrei de um certo livro que me parece que vendeu horrores, com o nome parecido “Quem mexeu no meu queijo?”.

Sucesso de vendas. Vi uma tia comprando o livro para seus sobrinhos adolescentes. Ouvi alguém dizendo que se tratava de um livro de autoajuda para negócios. De tudo, só não ouvi rumores de que era uma peça de teatro. Eu não sei dizer. Não li o livro. Não peguei o livro na mão, não folhei suas páginas. Não faço ideia do que se trate.

Mas minha recusa não termina por aí. Também não assisti à Paixão de Cristo, não sei qual é a trama do Harry Porter, não conheço o Avatar e desconheço seu significado. Na minha lista de não-lidos e não-assistidos o pior dos crimes parece ter sido não assistir à trilogia do Matrix. Pronto, falei.

Não. Não termina por aí. Há anos atrás eu assistia a uma aula na Escola de Comunicação e Artes da USP, junto com a turma de comunicação, e o assunto era a repercussão internacional sobre os hábitos etílicos do presidente Lula. Eu virei para a minha colega do lado, discretamente, e perguntei: “o que aconteceu com o Lula?”. É evidente que ela se ofendeu, e antes de me contar, indignada, o caso do jornalista que havia dito que o Lula era um pinguço, me repreendeu seriamente por ser tão desligada.

Para terminar, na última feira do livro que aconteceu na USP, onde havia um número incrível de editoras vendendo tudo pela metade do preço, com um número mais incrível de pessoas ávidas comprando e comprando e comprando todos os tipos de livro, eu parei na banca da Biruta. E parei porque a ilustração de um livro infantil, com uma menina com um nariz enorme e as bochechas completamente vermelhas, me chamou a atenção. Evidente que a ilustração me chamou atenção porque a banca estava vazia, e era possível ver tranquilamente todos os livros em exposição. Parei e ali fiquei. Enquanto folheava alguns dos livros, seus vendedores me contavam estórias e estórias infantis, seus olhos brilhavam, e eu no intuito de possuir aquele brilho no olhar, comprei quase a banca inteira.

Não passei na banca que vendia livros de antropologia – minha área de pesquisa. Nem quis visitar o espaço onde se encontrava a Companhia das Letras: tudo estava muito cheio. Corri para casa para devorar meus livros novos e a cada livro eu ia descobrindo um novo segredo. Quando me viram saindo com a sacola da Biruta, perguntaram se eu estava planejando ter filhos e por isso já estava equipando sua pequena biblioteca. Talvez.

As notícias cotidianas não me contam segredos, apenas me dão repertório para conversar com os adultos. Sem dúvida alguma Avatar, 300, Matrix e outras grandes produções falam muito sobre a nossa época e podem até ensinar alguma coisa a alguém. Assim como ler o jornal. Mas ainda prefiro os segredos dos livros infantis, seus castelos cheios de mistérios, a conversa entre a dona baratinha e o seu baratão. E quando penso de novo na frase “a chuva molhou o meu queijo” já me embrenho por possíveis estórias de ratinhos bêbados, terras distantes onde a chuva lava a louça e tudo o que há perto dela, queijos milagrosos que curam dor de barriga, dor de cotovelo e dor de amor. E nisso, sem dúvidas, há muito pouco espaço para o que acontece com o presidente da república. Sinto muito.

Crônica premiada no concurso Literacidade.