Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Fevereiro, 2019

Pirata e Capitano

A televisão, na sala, exibe desenhos infantis: uma família de porcos ou uma sala de bebês e robôs músicos ou uma menina pirata e um menino piloto de avião desbravando ilhas desconhecidas. A mãe sentada no sofá, as crianças em volta, uma enrolada num braço, outra no outro. Enquanto a pirata briga com um papagaio caolho, a menina vira para a mãe e pergunta do que ela tem medo. Tenho medo de ficar doente, a mãe responde. A menina então diz que se a mãe ficar doente, ela a leva para o hospital. O menino, no outro braço, não termina ainda muito bem as frases e as palavras, é ele quem diz que tem medo de lobo, de lobo, não, do lobo. A menina, então, concorda. Ela também tem medo do lobo. “Só do lobo?” a mãe pergunta. É, só do lobo. E voltam a ver o desenho, quando o papagaio caolho empurra as crianças pela prancha até quase alcançarem o mar. E ficam em silêncio. A mãe acaricia as cabeças que se aconchegam no seu colo. Pensa no medo que tem. Medo de doença, medo de morte, medo de violência, medo do mal, medo do bem. Medo que esses filhos andem, um dia, por essa prancha que os empurra para a morte. Mas a pirata, quando atinge o mar, se transforma em sereia, em peixe, em pássaro, e nada acontece. A mãe pensa, então, que sim, tudo poderia ser assim. O desenho termina, é hora de dormir. A mãe beija os filhos e pede que seja assim, que de hoje para sempre a prancha não seja, jamais, o fim.

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