Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Julho, 2011

Litoral

Sua filha tinha sede e era à noite que ela era implacável: a menina levantava muitas vezes para beber água, e, depois, para ir ao banheiro. Durante o dia dormia nas aulas, tirava notas ruins, aprendia pouco e brincava pouco. O pai se preocupava, não era possível tanta sede, tanto desejo de se sentir saciada. Não era possível que a vontade de possuir a água atrapalhasse a filha a viver como uma criança normal: brincar na escola, aprender a tabuada, pular corda.

O jeito foi proibi-la de levantar à noite para beber água e ir ao banheiro. Ela, ainda menina, vivia uma fase em que as ordens dos pais eram razoavelmente bem executadas: bastava um olhar duro, uma ameaça de castigo – tirar a mesada, o passeio do domingo, a sobremesa – para que as crianças logo obedecessem sem muito trabalho.

Na primeira noite logo depois da proibição ele acordou com um barulho na cozinha. Não chegou a tempo de encontrar o visitante noturno – dos seis filhos, era pouco provável que fosse a caçula a desobedecer suas ordens. Na manhã seguinte ela amanheceu com a cama molhada, proibida que estava de se levantar para ir ao banheiro. Com o coração amolecido, o pai voltou a permitir-lhe que usasse o banheiro – mas que fosse apenas uma vez.

Durante a primeira semana ele não sentiu diferença no comportamento da filha: ainda sonolenta durante o dia, ainda ausente das peripécias das crianças de sua idade. Ele se entristecia. O coração de pai lhe doía todas as vezes que precisava lembrar à caçula a proibição: nada de levantar à noite para beber água, banheiro só uma vez durante o sono!

Foi na segunda semana da proibição que ele compreendeu, de uma forma dolorosa, a maneira avassaladora que a sede invadia o corpo da filha enquanto todos os outros dormiam: ao se dirigir à cozinha para buscar, ele mesmo, um copo d’água para a esposa, ele percebe a filha se arrastando pelo chão da cozinha na direção do bebedouro. Como um animal que rasteja, lá estava a filha em busca da única coisa que era capaz de lhe trazer tranquilidade para sobreviver o resto da noite enquanto esperava o amanhecer.

Estático, ele observava. Mal percebia as lágrimas que escorriam enquanto olhava para a filha com a barriga no cimento, sua proibição qual estaca martelando a mente, o desejo de arrancar a filha do chão, de lhe colocar no cólo e lhe oferecer um rio d’água, uma torrente, um manancial. Emudecido, viu a filha voltar para o quarto, rastejando, saciada. Se dissesse uma palavra sabia bem que filha se sentiria descoberta, envergonhada pela incapacidade de cumprir as ordens dadas pelo pai.

No dia seguinte acatou os conselhos da esposa: levou a caçula ao médico. Os exames apontaram uma dificuldade em quebrar os açúcares do sangue, e a alta concentração dessas substâncias lhe atacava a sede, que era a maneira que seu corpo encontrava de tentar equilibrar o desequilíbrio.

Começou a ministrar os remédios para a filha, que  passou a sentir menos sono durante o dia: melhoraram as notas na escola, melhoraram as brincadeiras, melhoraram as amizades. Mas a sede noturna já havia se transformado em hábito: jeito de viver e encarar a sede que tinha de vida, a sede que tinha do mundo. A água era o único remédio que lhe tranquilizava, que lhe acalmava, que lhe permitia dormir a noite e sonhar com as brincadeiras do dia.

Foi aos poucos que o pai entendeu o caso de amor que a filha tinha com a água: quando moça, largou as montanhas de Minas e foi morar no litoral, assim poderia ficar mais perto da única coisa que lhe aplacava a sede de viver. O pai tinha ciúmes, tinha saudades. Sua filha caçula havia encontrado, desde de cedo, uma paixão que lhe movia, enquanto ele, pai, era movido pela paixão que tinha pelos filhos.

Panela de pressão

O pai reconhece o número da filha chamando no celular e não resiste: “Desculpa, pessoal, é importante”. Sai às pressas da sala de reunião e quando ela pergunta se está ocupado ele responde que não, que pode falar. Fazia um mês que a filha tinha saído de casa. Até ontem ele tinha o controle – a menina nunca viajava sem permissão. Agora ela andava pela capital, pegava ônibus sozinha, devia de estar conhecendo gente estranha na faculdade.

“Pai, como eu faço purê de batata?”. Então era isso. O pai sorriu, lembrou-se que aquele era o prato predileto da filha. Tão simples. Tão fácil. Um caminhão de batatas em casa e a filha lá, lá longe. Tem panela de pressão aí na casa da sua tia? Tem. Já comprou as batatas? Já. São grandes? São, acho que são. Então coloca na panela e espera uns dez minutos. Quando você tirar elas já vão estar moles. Tem amassador de batatas? Tem. Então aí você amassa as batatas, volta elas para a panela, coloca um pouco de leite, um pouco de manteiga e sal. Um pouco quanto? Ah, um pouco! Não põe muito leite para não ficar muito mole.

O assistente aponta na porta da sala, pergunta se ele ainda vai demorar, ele faz gesto com a mão, só mais um minutinho. Filha, preciso voltar. Você vai fazer purê de batata com quê? Ovo cozido e bife. Ovo você também cozinha dez minutos. Tá. Beijo. Beijo.

Ele volta para a reunião – precisavam dele para saber a voltagem da linha de transmissão que precisaria ser realocada. Enquanto relatava a última conversa que teve com o dono da fazenda onde seria construída a nova torre ele ainda pensa na filha. Não era a imagem dela perdida com as panelas em uma cozinha desconhecida o que o desconcertava. O que ele via eram os olhos dela brilhando frente a um purê de batatas. Nunca foi preciso perguntar: aniversário, despedida, boas vindas, tudo, tudo era comemorado ao sabor de batatas amassadas.

O telefone toca de novo, ele de novo diz que é importante e sai. A filha do outro lado, aos soluços: “Pai, deu tudo errado!”. E começou a descrever o ovo quebrando ao cair na água fervente, as batatas na panela 30 minutos e ainda completamente duras, o bife salgado e endurecido. O pai se entristece. Olha para o relógio e sabe que não consegue pegar estrada a tempo de preparar um bom jantar para a filha, sabe que ela não pode voltar para a casa pois ainda tem aulas no dia seguinte.

O assistente o chama de novo, ele se enraivece, diz que volta em um minuto. A filha ainda soluçando no telefone, diz que tem fome e que agora não tem mais o que comer. Ele diz a ela para ir comer no shopping, ela retruca que quer purê de batatas. É nessa hora que o pai descobre com uma clareza dolorosa que, assim como ele, a filha também padece de saudades de casa, e só o seu prato predileto lhe evocaria o conforto de estar sentada à mesa com as pessoas que ela ama.

O nome do monstro

Foi quando eu ainda era criança que ouvi falar do monstro pela primeira vez: ele tinha um nome muito feio, e morava na lagoa. Dizia-se por aí que era grande e perigoso, que atraía as crianças para dentro d’água e pluft!, escondia cada uma delas no fundo da lagoa para sempre. Mas isso era o que se dizia por aí, a verdade era um pouco diferente.

A verdade era que o feio não era o monstro, e sim o seu nome. Ninguém falava o tal nome sem ficar corado de vergonha. Minha mãe, minha vó e minhas tias, preocupadas com a boa educação das crianças, nos diziam para não chegar perto do monstro, mas nós, crianças, morríamos de curiosidade: era preciso olhar nos olhos do bicho e ver o que é que ele tinha de tão monstruoso, afinal.

Lembro-me da primeiro vez que o vi: foram dias e dias planejando a visita à lagoa, num horário estratégico que meu avô não estivesse por ali, pescando lambaris. Meu irmão já tinha em mente cada detalhe: iríamos no entardecer, quando todo mundo no Vale do Girassol já estaria começando a se preocupar com a janta, com o banho, com a missa. Hora também que meu avô estaria subindo para a sede, e com isso poderíamos chamar o monstro sem que ninguém nos atrapalhasse. Meu irmão me alertou: era preciso ficar a uma distância segura da beira da lagoa, assim não correríamos o risco de sermos agarrados pelo monstro e levados para o fundo da água .

Chegamos na lagoa e eu ainda hesitava, cheia de pudor e vergonha em chamar o bicho. Foi meu irmão quem começou:

– @#$%& #@$% &%%$!!!!

Era a minha vez. Ele me cutucava, era preciso chamar o monstro. Eu ainda em silêncio. Ele continuava:

– *%$# $#@%!!!!

Até que enchi o pulmão e comecei a falar as palavras mais feias que eu conhecia:

– &%$#@ %$&*!!!!

Nada do monstro. Continuávamos:

– $%##@!!! &%#**&!!! &$#@!!!

De tão empenhados em lembrar todos os nomes feios que conhecíamos, esquecemos por completo o monstro. A cada palavra feia, caíamos numa enorme gargalhada. Gargalhada lambuzada de criança. Gargalhada de quem se sente livre por um minuto dos olhos vigilantes dos adultos. Ríamos, ríamos muito. E foi no meio de uma risada que percebi uma gargalhada diferente. Não era minha.  Não era do meu irmão. Era o monstro ao nosso lado, rindo muito, muito, mas muito mais do que a gente.

A gente não se assustou: era como se conhecêssemos o monstro há muito tempo. Ríamos com ele, ríamos dele: aquela coisa desengonçada, orelhuda, meio fedida, meio amarelada. Ele tinha pelos por todo o corpo, dentes enormes e escarados naquela boca que não parava de rir um minuto sequer. Continuávamos rindo, rindo, rindo. Foi então que percebi a água já no meu joelho. Estávamos entrando junto com o monstro dentro da lagoa. A sua risada nos atraía. Os planos de meu irmão tinham falhado: não adiantou em nada a distância segura na beira da lagoa.

Como não podia deixar de ser, meu avô tinha percebido nossos olhos curiosos naquele dia – olhos de criança que escondem alguma coisa. E ele estava lá, ao longe, rindo de nós, rindo da água que já batia na nossa cintura. Quando quase estávamos afundando ele veio e nos puxou pela camiseta. Sim, esse é o meu avô: ele não nos salvaria nem um minuto antes sequer.

Prontos para levar aquele sermão, ficar de castigo, nunca mais podendo voltar à lagoa, ouvimos apenas que na próxima vez que a gente quisesse chamar o monstro, deveríamos chamar antes meu avô. Disse ele que também queria ter o prazer de dizer todos aqueles nomes feios, ali na lagoa, no único lugar que era permitido fazer isso.

Depois disso, ainda fomos várias vezes, junto com o meu avô, pescar lambaris. Bem, essa era a história oficial. Íamos para chamar o monstro, para brincar com ele, para ouvir sua gargalhada e dizer a ele que ele era a coisa mais feia do mundo. Minha mãe, minha avó e minhas tias não desconfiavam. Acho que não desconfiavam. Longe da lagoa nunca dissemos o nome do monstro. Era muito feio.

Lápis de cor

Era época de Natal e fui até a Livraria Cultura da Avenida Paulista. Sempre tenho um certo calafrio quando vou a essa loja, e não é porque ela é a maior livraria da América Latina, mas porque, talvez exatamente por isso, é um lugar onde eventos estranhos acontecem vez ou outra. Diz-se de um rapaz que entrou certo dia na loja com um taco de beisebol e acertou a cabeça de um desconhecido que estava no caixa. O rapaz desavisado, que comprava livros certamente, veio a óbito. O outro, o do taco de beisebol, me parece que foi internado em algum sanatório.

Já de posse do calafrio de entrar na livraria com um histórico como esse, eu me dirigi diretamente à lojinha da Faber Castell, que fica na entrada. Queria comprar um estojinho de lápis de cor, para dar de presente para alguém. Certamente é simpático ganhar um estojo de lápis de cor, dá para circular no jornal dos classificados seguindo alguma codificação específica: círculo amarelo indica anúncio interessante; vermelho, anúncio desrespeitoso pelo preço (aqui o vermelho significaria indignação); círculo verde poderia indicar que é algo bem plausível de ser comprado ou adquirido ou alugado, seja lá o que for.

O estojinho poderia ainda servir para marcar as páginas de um livro de poesia, desses que a gente vai ler e depois dar de presente para alguém: assim o livro-presente já viria com uma marcaçãozinha bem pequena ao lado do número da página, quase imperceptível, e poderia também ter uma codificação secreta: amarelo indica que gostei da poesia, azul que eu não entendi muito bem, vermelho que o texto desperta sentimentos fortes, verde que existem frases ou idéias que poderiam ser aproveitados nas minhas crônicas, e por aí vai.

Enquanto eu olhava a vitrine e me espantava com o preço das caixinhas – variando de 40 a 500 reais – a atendente da Faber Castel conversava com um rapaz no balcão sobre as qualidades de uma certa caneta. Ela dizia que a caneta não ressecava, que era possível trocar a carga, que a madeira que cobria o tubo da tinta era tratada. E eu ali, rondando os dois, à procura de lápis de cores mais acessíveis. A conversa entre os dois ia longe, e foi então que a mulher disse o preço da caneta: algo como 800 reais. É claro que não contive o meu impulso e olhei para a cara do moço comprador. Afinal, quem é que compra uma caneta de 800 reais na lojinha em frente à livraria?

Acho que o moço percebeu meu espanto: tentei disfarçar, busquei alguma coisa dentro da bolsa e fui-me embora. Não quis saber se ele comprou ou não a tal caneta. Eu não comprei nenhum lápis de cor. Nem mesmo se eu ganhasse o prêmio Nobel eu gostaria de escrever com uma caneta dessas. Nem mesmo se eu assinasse um cheque bilionário eu usaria tal caneta. Uma caneta vai ser sempre solitária, e nunca vai poder colorir meus livros do jeito que eu gosto.

Dei uma espiada para dentro da loja, já melancólica: não era possível dar dois passos sem esbarrar em alguém. Achei melhor não arriscar, não queria correr o risco de eu mesma enlouquecer lá dentro e sair dando bolsadas em alguém e depois ser interditada por conta disso. Dei meia volta, fui-me embora de vez. Ainda sonhando com um estojinho de lápis de cor para colorir livros ou criar uma codificação secreta para cada sentimento e desejo que trago dentro de mim.

Alaranjado

Apesar de mal cheiroso, o cenário era encantador: em uma mesa enorme se viam peixes grandes, pequenos, esguios, gorduchos. Uns portavam bigodes estranhos, havia os curiosos, de olhos arregalados, uns eram coloridos, outros definitivamente não se importavam com a beleza exterior. Mas estavam todos ali, à espera de alguém que os escolhesse, que os desejasse, para que então pudessem sair da vitrina e se dirigir para as mãos do peixeiro – o grande mestre dos peixes do supermercado.

Influenciada que sou pelos hábitos de consumo, quis escolher um salmão, afinal, dizem que é um peixe bom, faz bem para o colesterol e para o coração, e mais afinal ainda, estava em promoção. A escolha não foi simples: eu procurava um peixe com aspectos alaranjados, talvez as escamas, ou os olhos. Mas o danado se esconde por traz de uma pele grosa, cinza, impenetrável. Depois de algumas dificuldades, lá se foi o salmão eleito para as mãos do peixeiro, que se pôs a realizar um doce trabalho.

Com uma escova grosa – de aço, certamente – ele alisava o corpo do peixe, no sentido contrário das escamas, e ia liberando meu salmão de um pouco daquela pele que o escondia. Nesse momento o peixe já era outro, mais brilhante, mais suave. Depois de limpar a mesa de trabalhos com uma mangueira de esguicho, o mestre dos peixes afiou o facão, seu olhar se alternando, com certa doçura, entre o brilho da lâmina e a crista do salmão. O corte foi certeiro: com apenas um movimento o salmão se viu livre da cabeleira que lhe pesava a nuca.

De todos, o momento seguinte foi o mais sublime: lâmina mais uma fez afiada, o peixeiro-coiffeur deitou a faca na direção do peixe, fez uma incisão suave na sua barriga, e com um movimento paralelo à mesa, foi tirando, aos poucos, a pele do salmão. E foi ali que meu coração tremeu: seu interior era inteirinho de um laranja forte, sensual, amolengado, sem sangue, sem nada. Quanto mais o peixeiro ia levando a faca da direita para a esquerda, mais o ambiente ia sendo inundado por aquela cor que eu só via nos desenhos da minha infância. Então é verdade, meu coração dizia, é verdade que o salmão é rei e senhor de todo o laranja que existe nesse mundo! Certamente eu não piscava, tamanha a falta de ar que senti diante do espetáculo. Só percebi meu espanto quando o peixeiro se voltou pra mim, já impaciente, perguntando se eu queria em postas ou em filé.

Eu queria dizer a ele que não importava, que era o peixe quem decidia, que era ele quem me dominava, que aquilo era todo o espetáculo da natureza, e que ele, o peixeiro, era, sem dúvida alguma, o profeta que trazia ao mundo a mensagem que eu queria. Disse a ele tanto faz, do jeito que você achar melhor.

Devo de ter esquecido minhas postas de salmão em alguma gôndola do supermercado. Cheguei em casa ainda estupefata, sem sacola nas mãos e com todo o laranja do mundo em meu coração.