Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Maio, 2011

Esquecido no meio fio

Não consigo me lembrar de quantas vezes montei naquele leão. Foram muitas, muitas mesmo. Ele não era grande, mas para mim, uma criança de no máximo dez anos, era o suficiente para parecer um leão enorme, cheio de garras que apontavam para a rua. A estátua era a alegria daquele jardim. Foi dia desses que descobri que há muito tempo algumas crianças da rua conseguiram a proeza de dominar o bicho, derrubando a estátua e escondendo seu corpo nalgum canto na frente da casa. Depois disso o leão restou bem preso, com cimento e brita na base, a salvo da molecada da rua.

Enquanto girava a colher na xícara com chá, com as pernas buscando o restinho do sol que entrava na varanda, a velha senhora me contava como o marido encontrou o tal leão, há mais de cinquenta anos. Descendo a rua, quase ali na esquina do quarteirão, existia um depósito com restos de entulhos, restos de construção, restos de casas. Foi ali que o seu Gêro avistou de longe o velho animal, encostado num canto, imponente ainda. Perguntou logo quanto valia o bicho e o vendedor disse que aquilo era lixo, que não valia nada não. Se não vale nada, eu levo de graça! Chegou em casa com o leão e outras quinquilharias catadas às pressas, sem saber o que fazer com tudo aquilo. A senhora se lembrava ainda da sua cara de espanto ao ver a estátua, ao ver os olhos enormes do marido enquanto contava como tinha conseguido o bicho real sem gastar um tostão.

Os tais olhos enormes eu também conheço. Dia desses minha mãe chegou esbaforida: “Me empresta a caminhonete?”. Eu ainda com um pedaço de pão na boca, dei uma golada de café com leite para ver se conseguia digerir aquilo e perguntar alguma coisa antes de indicar onde estavam as chaves do carro e vê-la sair correndo. Claro, mãe, mas por que a pressa? A pressa era uma treliça, avistada no meio de uma caçamba de lixo em uma rua qualquer da cidade. Era preciso usar a caminhonete para trazer aquele pedaço precioso de madeira que algum desconhecido havia recusado. Mal terminei o café, minha mãe e meu pai já tinham saído para fazer o resgate.

Assim como o leão, recebido como uma realeza na casa do seu Gêro, a treliça chegou em casa e ganhou logo lugar próprio. O dia mal clareou e uma trepadeira já tinha sido plantada aos pés do novo móvel, que em poucos dias já seria abraçado pela planta.

Certa vez, na faculdade, me ensinaram o que significa bricolagem: uma espécie de tarefa daquele que tenta criar coisas novas a partir de objetos velhos, me disseram ainda que era isso que eu deveria ser capaz de fazer um dia. Não sei se entendi bem, mas acho que minha mãe e meu pai – e o seu Gêro também – dariam bons bricoleurs, ou no mínimo deveriam ser saudados por algum poeta, por trazerem no peito a capacidade de amar aquilo que foi rejeitado, oferecendo nova vida, nova família, nova existência para aqueles corações partidos esquecidos no meio fio.

À espera do dentista

– Mãe!

– Oi, filha.

– Vai doer?

– Não, filha, não vai não!

– Mas a Duda usa aparelho e disse que dói!

– Mas a sua prima usa um outro tipo de aparelho, é daquele que não dá para tirar, por isso dói. O seu não, o seu você só vai usar à noite, e dá para tirar quando doer.

– Ah, tá… mas o meu vai ser colorido igual ao da Duda?

– Não, filha… o seu tem só um ferrinho liso que fica na frente do dente.

– Ah, tá… e hoje eu já vou colocar o aparelho?

– Não, hoje você vai colocar uma massa na boca, é como se fosse uma massinha, você vai morder essa massinha e aí o dentista vai saber direitinho como é o formato da sua boca. Depois ele vai montar o seu aparelho do tamanho certinho pra você.

– …

***

– Mãe!

– Oi, filha.

– O dentista falou que era pra usar aparelho pra arrumar os dentes que nasceram tortos, né?

– É, filha!

– Ah, tá.

***

– Mãe!

– Oi.

– Sabe a mãe da Lia?

– Claro que sei, filha! Quê que tem a mãe da Lia?

– Ela tem um olho diferente do outro, não tem?

– Tem sim.

– E o olho dela nasceu torto?

– Não, filha, a mãe da Lia sofreu um tipo de acidente, e por isso ficou com o olho torto.

– Acidente igual ao do Tio Jorge?

– É… não… o Tio Jorge sofreu um acidente de carro, lembra? Ele tava dirigindo na estrada, de noite, passou um bicho na rodovia e aí o carro dele capotou. Mas ele só quebrou o braço, lembra? Lembra que ele ficou usando gesso?

– Lembro.

– O acidente que a mãe da Lia sofreu foi diferente.

– Não foi de carro então?

– Não, o dela é um acidente que acontece dentro do corpo da gente. É como se dentro da gente existisse um monte de estradas, onde passa o o nosso sangue. Quando a gente é criança, como você, essas estradas são todas limpinhas, mas com o tempo, quando a pessoa vai ficando velha, essas estradas às vezes ficam com problemas, e aí o sangue não consegue passar direito. E quando o sangue que não consegue passar ele acaba estragando de vez a estrada. Quando acontece isso, a gente fala que a pessoa sofreu um acidente nas veias.

– Então a mãe da Lia sofreu um acidente dentro dela?

– É, filha, é mais ou menos isso. E aí, igual o Tio Jorge que ficou com o braço quebrado e teve que usar o gesso, a mãe da Lia teve um monte de problemas, ficou um tempão no hospital, foi no médico um montão de vezes. Agora ela já tá boa, já consegue andar, falar, fazer tudo.

– Ah, tá.

***

– Mãe.

– Oi.

– Mas se o dentista falou que eu tenho que usar aparelho para consertar o dente torto, por que a mãe da Lia não usa aparelho também para consertar o olho torto?

– Filha, tem coisas que a gente consegue consertar. O seu dente, por exemplo. Mas tem coisas que a gente não consegue. A mãe da Lia já fez um monte de cirurgias, já tentou um monte de coisas, ela conseguiu arrumar a vista, por exemplo. Antes ela quase não enxergava, agora ela já enxerga, com óculos, mas enxerga. Lembra que a boca dela era torta também? Hoje ela já tem a boca normal, fala normal. Mas o olho foi uma coisa que os médicos não conseguiram arrumar.

– Então não vai conseguir arrumar nunca?

– Não sei, filha, não sei. O importante é que igual ao Tio Jorge, a mãe da Lia tá bem. Ela consegue fazer tudo que todo mundo faz, e se ela quiser, é só colocar um óculos escuro, um chapéu bem bonito que ninguém nem percebe o olho dela. No fundo, acho que ela nem liga, você já viu ela reclamando do olho?

– Não, mãe.

– Então! Ela tá feliz porque tá junto com a Lia, tá junto com o Pedro, continua visitando a gente. Ela tá feliz! Não tem porquê ela colocar um aparelho no olho!

– Ah, tá.

***

– Mãe.

– Oi, filha.

– Se doer a noite você vai dormir comigo?

– Filha, eu tô pra conhecer uma pessoinha mais dorminhoca que você! Eu duvido que a senhorita vai acordar de noite por conta desse aparelho!

– Promete, vai… promete!

– Tá bom! Prometo.

Nove quilômetros

Há quase dez anos, quase todas as semanas, pego a estrada que me leva de Pouso Alegre a São Paulo, e me traz de volta a Pouso Alegre. Quando criança ficava entediada com as longas horas de viagem que a gente fazia entre Belo Horizonte e Brasópolis. As estratégias eram muitas: a cada carro vermelho que passava na pista contrária, eu fazia um ponto, a cada azul, meu irmão pontuava. Valia também a brincadeira de ir para a lua e adivinhar o que podia levar. Ou ainda cantar a sequência inteira, repetidas vezes, da velha que estava a fiar e veio a mosca lhe perturbar.

Ontem ganhei do meu pai um aparelho de som para instalar no carro. Agora minhas viagens não serão tão solitárias. Minhas estratégias são outras daquelas de quando era criança: invento histórias, me emociono com perdas, discuto relações com amigos de modo profundo. Me encanto quando percebo uma paisagem que não tinha notado antes: no caminho de volta de São Paulo a Pouso Alegre, assim que passa Bragança Paulista, há uma descida longa depois de um viaduto e quando se olha para a direita é possível avistar um lago enorme, enorme. Faz uns dois anos que percebi isso. Certamente abriram um clarão, derrubaram árvores. Não é possível que em mais de cinco anos passando por ali todas as semanas eu não tenha percebido tamanha grandiosidade. Prefiro achar mesmo que algo mudou na paisagem. Fico contando as curvas para chegar nesse trecho e por uns 5 segundos avistar o lago enorme, enorme.

A Fernão Dias é a estrada do trabalho: ela me leva para estudar, para trabalhar, e me traz de volta para casa. Mas a estrada que gosto mesmo é a que me leva para Brasópolis. São apenas 70 quilômetros, que dirijo no mais puro gozo. Lembro que quando a estrada ainda era muito ruim, vi uma propaganda do governo dizendo que a transformaria de queijo suíço em queijo minas. De fato aconteceu. A estrada é um tapete e a vista que a acompanha é mais bela que a dos Alpes. O ponto mais importante da estrada, no entanto, é o cruzamento em Piranguinho: ali tenho que escolher continuar e ir para Itajubá, Piquete, Lorena, Rio de Janeiro, ou virar à direita, andar mais 16 quilômetros e chegar até Brasópolis.

Nascida em Beagá, crescida em Pouso Alegre, feita moça em São Paulo, é para Brasópolis que volto quando quero me sentir em casa. Apesar de não ter amigos na cidade, são aquelas janelas olhando todas para a rodovia, é o sino da igreja da praça, é a entrada que dá para o Vale do Girassol que me faz lembrar quem eu sou ou ainda tenho esperanças de ser. A caminho de Brasópolis avisto uma placa que indica que ainda faltam nove quilômetros. Poderiam ser nove eternidades. E eu estaria sempre me dirigindo para Brasópolis, banhada  pelo amarelo que inunda o entardecer e colore aquelas montanhas. São esses nove quilômetros que enchem meus olhos e me dão coragem para todas as semanas voltar para a Fernão Dias e continuar vivendo no caminho entre Pouso Alegre e São Paulo.

Whisky duplo

Aconteceu no último verão a história que vou contar. Por uma dessas coincidências da vida, alguém bateu na minha porta. Meu apartamento é como esses de novela que, apesar de ficar dentro de um prédio, as pessoas não se anunciam pelo interfone e tocam direto a campainha. Pois eis que abro a porta, olho para os lados e não vejo ninguém. Fecho a porta e não percebo uma rã pequenina, toda prenha, que acabo de deixar entrar na minha casa. Passados uns dias, a rãnzinha pequenina dá à luz, e, apesar de saber que ela bota ovos, e que seus ovinhos primeiro se transformam em uns girinos minúsculos, tenho certeza que a minha hóspede deu à luz a outras rãs, idênticas a ela, em formato e tamanho. Num piscar de olhos minha casa estava infestada.

E eu digo que foi por uma dessas coincidências da vida porque se eu pudesse escolher certamente eu teria aberto a porta para qualquer outro animal prenho de vida, não para uma singela perereca. Nada contra tão amáveis bichinhos, apenas gostaria que eles ficassem a uma distância segura de mim. E não há distância segura dentro de um apartamento que não chega aos 40 metros quadrados. No segundo dia de convivência a questão foi facilmente resolvida: ou saíam as pererecas, ou saía eu.

Não gostaria de dizer aqui as artimanhas que usei para tentar expulsar as pererecas de minha casa, certamente eu seria processada por algum órgão do governo federal. O que posso dizer é que fui vencida, pois apesar de medirem não mais do que dois centímetros da minha régua escolar, elas eram capazes de me atacar por um ângulo inesperado, e eu andava sempre receosa por qualquer canto da casa.

O acordo foi simples: entreguei a elas as chaves da minha casa, peguei meus trecos e me mudei temporariamente. Enquanto estava ausente, sempre lembrava de meu apartamento, e sabia que as rãs estariam agora crescidas, sentadas com suas longas perninhas dobradas sobre o meu sofá, com uma cigarrilha numa das mãos, um double scotch na outra, ouvindo Madeleine Peyroux, arriscando um francês torto, levemente embriagadas.

Enquanto isso, as rãs menores, ainda adolescentes, estariam usando meu perfil no Facebook, MSN e Orkut, me fazendo passar por louca para meus amigos da internet, criando intrigas que certamente eu levaria meses para desfazer. E aquela outra, a ranzinha mais feinha e solitária, essa certamente estaria mexendo nos meus escritos, rabiscando meus livros de poesia, arriscando um verso meio anfíbio nas margens do meu Neruda favorito.

Por fim, os deuses se compadeceram do meu sofrimento, permitiram que o sol voltasse a brilhar, fez secar toda aquela água que caía já há semanas, e com isso minhas amáveis hóspedes se reuniram na sala e decidiram que era hora de voltar para o brejo que fica ao lado de minha casa. Quando cheguei no meu apartamento, ainda pude ver um ranzinha com a mochila do Ben10 nas costas, pulando o último degrau escada abaixo. Na entrada do apartamento, um bilhete: “Agradecidos”. Para minha tranquilidade, não disseram algo como “até a próxima”. De todo modo, não abro mais a porta para ninguém.

RE: Carta Recolhida

A sua última carta chegou há mais de um ano. Não posso dizer que não tive tempo de respondê-la, na verdade eu não teria o que dizer. Até porque na sua carta você me contava, em poucas linhas, que tinha recolhido uma outra carta, quedada perdida na cidade. Como eu não li essa outra carta, não sei do que ela trata, não posso dizer nada sobre o que estava escrito nela.

Depois do seu comunicado, dizendo que havia recolhido a tal carta, fui, finalmente, no restaurante que você tinha me indicado. Procurei o vaso de flor perto do banheiro, e vi que na verdade não era um vaso de flor, e sim um pequeno arbusto. Não importa. Não importa mais. Pensei então que foi ali, naquele arbusto, que a tal carta ficou esquecida por quase dois anos. Ninguém a viu. Ninguém notou. Ninguém se interessou. Seu conteúdo certamente envelheceu, não importava mais contá-lo a ninguém, nem a mim, sua destinatária desinteressada em seu conteúdo.

E nesse um ano, desde que sua última carta chegou, ensaiei várias visitas: pensei em te levar doces mineiros, com um naco de queijo. Mas te visitar seria dizer que você tinha razão – tinha razão em recolher a carta que era minha, que era pra mim – e talvez você entendesse a visita e os doces como um pedido de desculpas. Eu não lhe devo desculpas.

Não foi só a carta esquecida no arbusto que envelheceu. Nós envelhecemos. Não foi só ela que passou despercebida por tanto tempo naquele restaurante. Nós não percebemos. Foi só na sua última carta, com suas três linhas diretas, secas, estaladas que entendi você. A sua mágoa não vinha do conteúdo da carta que eu não li. Eu não percebi – e você se entristeceu.

Eu poderia aqui dizer de tantas coisas que você também não percebeu. Mas prefiro falar daquelas que você não teria como saber, se eu não te contasse: o maracujá que plantei no quintal da minha casa finalmente deu flor, e acredito que em alguns dias dará frutos também. A flor é linda, parece uma bailarina, com uma saia rodada, e o corpo apertado em um corpete roxo, só de olhar para ela sinto vontade de dançar. Queria que ela ficasse sempre assim, em flor, em dança, em movimento. Mas sei que logo a flor vai dar espaço para a fruta, e se eu quiser comer a fruta ela vai precisar murchar e ficar toda envelhecida. Envelhecida como nós.

A bailarina no meu quintal ainda espera cartas suas. Mesmo que elas estejam escondidas em lugares que ela não tenha como buscar.

Com o meu carinho.