Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Março, 2011

O negrinho e o patinete

O que vou dizer agora é segredo, e é bom que meus amigos não saibam: não me importo em esperar alguém por alguns minutos se estou na rua. Esperar no carro, em um consultório, na sala de espera de algum escritório é certamente terrível, mas se estou na rua, e se a rua está cheia, bem, é segredo, mas me delicio.

Se a espera se der em uma esquina, melhor ainda: de uma rua vem uma moça cheia de sacolas – logo adivinho que ali por perto tem um supermercado; da outra rua vem um casal de bicicleta na contramão, param de susto no cruzamento quando se dão de encontro com um carro; um homem que usa gravatas caminha junto com uma senhora que usa shorts, os dois seguram, cada um, um saco de pão; três adolescentes cruzam a rua, minutos depois voltam na mesma direção de onde vieram, dali a pouco voltam de novo e falam alto quando param na esquina; uma menina gordinha passa do meu lado tentando esconder o resto da barriga que sem querer ficou para fora.

De todas as mil estórias que a gente poderia contar a partir de uma esquina qualquer, foi a de um negrinho de patinete a que mais me chamou a atenção. Ele era magrelo, de uns 10 anos, bermuda cinza e camiseta branca encardida. O patinete, ao contrário do que logo imaginaria o leitor, não era de madeira, improvisado, com rodas de rolimã. Não, era todo de metal, modernoso. O Natal já tinha se passado há meses, certamente era presente de aniversário, ou promessa de nota boa na prova de matemática. Em uma esquina perdida de uma rua qualquer no centro de São Paulo, o negrinho ia e voltava com seu patinete, descia o morrinho com embalo, sumia lá embaixo, dali a pouco voltava empurrando seu honorável veículo, pegava a outra rua, e eis que aparecia de novo, com o patinete aos empurros.

Ali parada, esperando um amigo qualquer, o negrinho me fazia lembrar tantas esquinas que já amei: aquela que eu olhava pela janela, à espera da pessoa querida, aquela onde eu sentava sozinha quando adolescente esperando ouvir o barulho do carro de minha mãe que vinha me buscar depois da aula de música, aquela que por tantos outonos virei as costas para poder diariamente trabalhar na frente de um computador. Naquela esquina, no centro de São Paulo, um negrinho andava de patinete, sem se assustar com os carros ou os ônibus que hoje atormentam a minha janela.

Foi nessa hora, em que eu pensava no negrinho e em todas as esquinas que amei, que meu amigo chegou, deu uma leve batina no vidro do carro e logo partimos para um outro lugar onde pudéssemos conversar com calma. Da próxima vez dou uma de louca e digo que quero ficar ali mesmo, digo que na verdade não quero conversar, quero é companhia para olhar para esquina, para adivinhar para onde vai virar aquele cidadão que vem falando ao telefone, para apostar se aquele velhinho volta ou não em cinco minutos, para adivinhar o ritmo da louca que dança aos berros na calçada do boteco da esquina.

Talvez se pudesse escolher um lugar para ser enterrada, e esse fosse o lugar de onde eternamente eu observaria o mundo dos vivos, certamente meu túmulo ficaria em uma esquina qualquer, e minha alma continuaria acompanhando o ir e vir do negrinho, que certamente também já seria alma penada a descer e subir o morrinho em seu patinete encantado.

 

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Folhas do meu quintal

Hoje acordei com um péssimo humor e logo adivinhei que o dia seria perdido. Seria em vão qualquer tentativa de produzir algo. Se tentasse escrever o que quer que fosse, o que me restaria seria uma tela em branco e o cursor piscando, piscando, piscando – o pânico de qualquer escritor. O fato é que, pelo menos um dia por mês, por conta desses mistérios que a natureza ofereceu ao corpo feminino para guardar, fico invalidada, ismilinguida, fragilizada pelos cantos.

Mas mulher é bicho teimoso, tentei logo escrever qualquer coisa, texto técnico ou poético – em vão dizer que tudo foi parar na lixeira do computador: não valia nem uma ideia. Foi quando me lembrei de um livro antigo que andava esquecido no canto da estante. Era o Rubem Alves falando de coisas cotidianas, dessas que a gente queria falar também e não sabe muito como. E como sempre me acontece com esses autores cotidianos, que eu sonho um dia ser, achei que ele falava futilidades. Ora, o tempo todo a dizer das flores e das crianças, será que ele não se cansa? A mesma narrativa, a mesma calma, o mesmo sossego. Não. Certamente ele não se cansa porque encontrou o seu jeito, o seu tempo, o seu gosto de falar sobre as coisas.

Pois bem: uma página, duas, e já estava eu de novo encantada com tudo aquilo que o Rubem diz. As paisagens, aquele barulho de água escorrendo pelas páginas. Fechei o livro e me lembrei que tinha um vasinho guardado ganhado de Natal. Era hora de cultivar qualquer coisa nele. Fui até o quintal, tirei um pouco de terra de um saco guardado há tempos, preparei o vaso e amanhã vou buscar mudinhas. Vai ser bom para ter esses temperos fresquinhos de cozinhar: manjericão, cebolinha, hortelã. Foi nessa hora que percebi que meu arbusto está com uma pequena muda. Não sei bem se deixo que ela cresça ali mesmo, se precisa de cuidados extras, se é preciso plantar noutro lugar.

A dor e o mau humor ficaram esquecidos em algum lugar. Voltei ao computador na tentativa de ainda produzir alguma coisa, afinal, os prazos dos trabalhos a serem entregues não podem esperar. Em vão. O cursor piscando, piscando, piscando. Mas percebi que nesses dias, em que o corpo se recusa a trabalhar, a alma tem grandes chances de ficar mais solta, voando por entre as folhas do meu quintal, que continuam crescendo mesmo quando, cotidianamente, eu me esqueço delas e me perco em folhas brancas dentro do meu computador.