Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de fotografia

A beleza que ninguém vê

Já estava claro quando seu Rubem chegou na praia. Foi direto até  onde costumava deixar sua jangada, ali, no alto da areia, longe do perigo da maré alta. O dia amanhecia claro, traria os turistas para a praia. Seu Rubem limpa a jangada, pensa que o dia vai ser bom, a maré baixa, o céu azul, os turistas.

Aos poucos a praia se movimenta, jangadeiros, pescadores, uns poucos turistas, vendedores começam a gritar seus cantos: passeios, cervejas, almoço, pedalinho, caiaque. Seu Rubem fica ao lado da jangada, aborda uns poucos que passam ao seu lado, oferece o passeio para os corais. Quanto? Eu faço por vinte e cinco. Mas todos fazem por vinte e cinto. Então te faço por vinte. Turista ganho.

Turista sobe na jangada, com mochila, óculos de sol, chinelos, relógio, câmera fotográfica, celular. Seu Rubem e um boné. Turista reclama, o passeio demora, ninguém vem ajudar a tirar a jangada da praia. Seu Rubem chama os amigos, os amigos não vêm. Ninguém vêm para ajudar a colocar a jangada no mar. Turista reclama.

Já no mar, Seu Rubem levanta a vela, amarra cordas, puxa o leme. Distribui coletes salva vidas e pergunta se alguém quer que ele tome fotografias. Seu Rubem toma fotografias. Toma fotografias e conduz a jangada até os corais.

A dois quilômetros da praia, lá onde existe o segundo maior coral de recifes do mundo, Seu Rubem atraca sua jangada, o turista desce junto a mais quinhentos outros turistas que vieram em centenas de outras jangadas, pagando cada qual seus vinte e cinco reais ao jangadeiro que puxa o leme e toma fotografias.

Os quinhentos turistas descem das jangadas, compram cervejas em outras jangadas flutuantes, tomam fotos e fotos e fotos, compram sorvetes, lagostas, comidas para peixe, alugam caiaques, jogam lixo no arrecife, cuidam das crianças que choram, machucam os pés nos ouriços do mar, fazem guerra com a comida do peixe, reclamam do horário do jangadeiro, compram mais cerveja, passam protetor solar nas costas uns dos outros.

Enquanto isso, Seu Rubem joga água na vela da jangada. E espera. Espera a hora de voltar ao continente, de voltar pra casa, de voltar pra Nêga. Espera que tudo acabe, que o dia termine, que a maré se encha disso tudo, se esbraveça e depois se acalme e tudo recomece, o dia claro, a jangada no lugar mais alto, os primeiros turistas, os primeiros comércios, é vinte e cinco, te faço por vinte, o ouriço, a cerveja, as fotos, a maré, a beleza que quase ninguém vê, o final do dia, a Nêga, o som do mar, os turistas, o som do mar.

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Álbum de fotografias

Foi aos dezoito anos que comecei a contar a minha história. No lugar da antiga agenda de menina, cheia de clips coloridos, tickets de cinema, canetas fosforescentes, dei início à escrita de um diário. Com certo receio de ser tida como menina ainda, a dizer as coisas bobas e boas de menina, contando ao diário sobre o menino que lhe ofereceu uma flor.

Dia desses ouvi que pessoas tiram fotos para se lembrarem, um dia, do que foram. Medo do tempo. As fotografias seriam um bálsamo a nos lembrar que nem sempre fomos velhos, que nem sempre fomos cansados, que nem sempre fomos sozinhos. Medo do tempo. Medo daquilo que a vida vai nos tirar, medo do que seremos quando restarmos sem beleza, sem energia, sem coragem. Tiramos fotos de tanto e de tudo para nos convencer que fomos felizes e que a vida foi, sim, muito boa.

Eu não sei de fotografias mas sei do medo do tempo. Me faltam álbuns de foto mas minhas estantes estão cheias de meus diários a me contar o que um dia eu fui. São meus diários que me contam. E me contam de um jeito diferente. No lugar da foto da menina um pouco ingênua e sonhadora, leio sobre alguém que foi aos poucos perdendo a fé e encontrando as certezas que de certa forma procurava. No lugar do linha do tempo que conta os amigos que tive, as festas, as comemorações, leio aqui e ali sobre as dores de ter ao longe as pessoas que amei e que não me amaram, não do jeito que eu gostaria então.

Ao ver fotografias minhas de dez anos atrás sinto um pontada de tristeza, um medo do que virá, e acredito às vezes que o tempo é mesmo cruel. Mas meus diários me dizem coisa diversa. Eles me lembram que eu amadureci e que hoje, essa que escreve hoje, é sem dúvidas melhor e mais forte e mais Adriana do que aquela que escrevia no início do presente século. É a voz da Adélia ressoando que vinte anos a menos só fariam dela uma mulher mais jovem, nunca mais amorável. Nunca mais amorável.

Pelas fotos eu não sou capaz de reconhecer quem eu era, nunca sei bem quais tristezas o sorriso para a objetiva escondia. São meus diários que me relembram os meus segredos, são eles que me dizem quem eu fui e indicam, às vezes, caminhos para entender quem eu sou hoje, essa de hoje, mais amorável, sem dúvida.

Dez anos a mais certamente me farão ainda mais bem do que esses já vividos.  Poderei escrever melhor, sem dúvida. Poderei estudar mais aquilo que me intessa tanto. Terei conhecido ainda mais lugares e possivelmente serei um pouco mais generosa comigo e com os que me rondam. Porque tudo isso é movimento, e para haver movimento é preciso tempo. E é isso que a fotografia não permite. E é por isso que continuo pedindo câmeras fotográficas emprestadas, já que prefiro desenhar com as palavras aquilo que a imagem na frente dos meus olhos me reserva. E os meus diários continuam sendo, para mim, como um precioso álbum de fotografias a contar os dias e as belezas da minha vida, a contar sobre o menino que um dia me ofereceu uma flor.