Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

A lembrança de sua voz

Tenho tantas lembranças suas que de todas não sei qual amo mais. E é estranha essa substância da memória, imagens que por vezes se formam cá dentro mas que eu não vejo mais. Às vezes me esqueço de seu rosto. Procuro, procuro, mas nada vem à mente. E me culpo por me esquecer de um rosto que mirei por toda a vida, que percebo os traços, que vejo envelhecer. Às vezes, por segundos, te perco, te esqueço. Mas basta estar distraída e num instante te vejo de novo, rosto limpo, sorrindo. Não sei do que é feito isso, não sei quais contas o coração realiza para lembrar num instante e no seguinte esquecer.

Se é estranha a memória de seu rosto, mais ainda é a de seu cheiro. O seu perfume predileto colado à pele de uma pessoa alheia me faz recordar lugares distantes que conheci ao seu lado, quando do lado de fora o mundo falava em línguas estranhas e você me dizia boa noite num idioma tão familiar.

Não são só os perfumes que me lembram você. O cheiro da sua roupa em outra roupa, o hálito forte que às vezes percebo em outras bocas. Há ainda os cheiros que não foram trazidos por ninguém, e que estão apenas escondidos na minha memória. Não sei quais mecanismos meu coração realiza para me fazer lembrar do cheiro da sua casa, que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Lembro, apenas.

De todas as lembranças, é a recordação de sua voz o que mais me assombra. Sou capaz de imaginar sua entonação, a voz sempre contida, nunca alta demais. Uma voz que pede licença para falar na própria melodia do que diz. O que meu coração faz para lembrar da sua voz se eu não a ouço em lugar algum? Qual é o timbre que não o trago reproduzido em nenhum aparelho digital? Qual rotação o coração usa para registrar cada uma das vibrações de sua voz?

De todas as lembranças que trago de você, só uma me falta: não me lembro de você dizendo o meu nome. Você não me chama. Você não me nomeia. E então percebo que por faltar a lembrança de você dizendo uma palavra tão pequena, me chamando de Dri, esse nome que gosto tanto, eu te perco de novo e irremediavelmente. Minhas lembranças de seu rosto, de seu cheiro, da sua voz, nenhuma delas te prendem a mim. Eu não tenho lembranças que me façam ter a certeza que você me ama. Eu creio no seu amor, mas minha memória duvida. E percebo então que amo todas as suas lembranças, esse material estranho que trago na memória. Mas percebo de novo, como tanto em minha vida, que estou do lado de fora, e as suas lembranças não pertencem a mim.

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2 comentários»

  Leidiane wrote @

Profundo isso….srsrsrs
Bem legal..

  Lino wrote @

Pequena Flor de Laranjeira…..
Adoro!!!


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