Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de sonho

A amante que eu gostaria de ser

É inútil pensar no que eu gostaria que você fosse. Você simplesmente é. Às vezes realiza meus desejos, às vezes me deixa à mingua. Por vezes te amo inteiro, por vezes te odeio por completo. Num segundo e noutro. É inútil pensar em qualquer coisa em você que fosse um milímetro diferente. Em mim, no entanto, percebo uma eternidade de vários quilômetros repletos de desejos de mudança.

Se eu pudesse, por pelo menos um instante, duvidaria menos. Você então não precisaria lidar cotidianamente com a minha constante variação de humor. Eu te amaria, simplesmente, e isso bastaria. Você dormiria e acordaria todos os dias na certeza do meu amor. Quando então você me perguntasse se eu ainda te amo, eu não veria nos seus olhos uma tristeza de quem brinca com toda a seriedade.

Há muito que poderia ser mudado. Para ser a amante que eu gostaria de ser eu deveria aprender a controlar menos. Não se trata de ciúmes, mas de algo muito mais devastador. Eu deveria não arquear as sombrancelhas num olhar explicitamente superior quando você expõe uma opinião radicalmente contrária à minha. Eu seria uma amante melhor se te deixasse livre para ser e para querer ser quem você quisesse.

Há, ainda, as pequenas mudanças no dia a dia. A amante que eu gostaria de ser é carinhosa, implora seu amor e carinho a cada minuto ao invés de se calar num canto e se ressentir, silenciosamente, da sua falta de atenção. Ela é daquelas que te abraça de noite e não desgruda. Faça calor, frio, ventania.  Ela manda mensagens dizendo que sente saudades e que espera de um jeito ansioso o seu retorno. Ela toma cinco banhos ao dia só para estar fresca e cheirosa toda vez que você se aproxima.

A amante que eu gostaria de ser não tem medo de gastar dinheiro, não vasculha seus pensamentos para descobrir a sua próxima surpresa, não se cala quando você ainda quer conversar, não apaga a luz enquanto você ainda está chorando.

Essa amante, certamente, é mais verdadeira. Não diz que sente o que não sente, nem diz que não sente o que lhe arranca pedaços. Ela espalha seus presentes pela casa para que em cada canto possa encontrar a sua lembrança. Ela cuida dos seus pertences como se pertencessem a ela mesma.

A amante que eu gostaria de ser não vive alheia, distante num mundo negado a você. Ela te convida a cada instante a entrar na sua história, mostra os caminhos, te conta segredos, inventa passagens secretas, te oferece o cargo de general.

Não faço ideia se um dia você já sonhou com essa amante que eu sonho cotidianamente. Talvez você não queira mudar um milímetro do que eu sou. Talvez você me queira, às vezes, tão distante quanto distante estou desta que eu gostaria de ser. Talvez você me queira apenas pequena enquanto nos seus braços eu sonho sonhos cheios de grandiosidade.

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Óleo de girassol

Eram duas e meia da manhã quando ouço tocar o interfone. É certo que eu estava dormindo, logo, imaginei mesmo que era sonho. A campanhia toca novamente e entendo que não era sonho. Acordo. Acordo com preguiça de levantar. O olho pesado, a vontade de ignorar qualquer novidade, o desejo de voltar àquele sonho, com o que é que eu sonhava mesmo?

De novo o interfone. É quando percebo que a campanhia continuará tocando até as sete e trinta se eu não me levantar e verificar o que está acontecendo. Quem chamaria a uma hora dessas? O marido dorme pesado do outro lado. Não há filhos em outros quartos. Lembro-me de que não há filhos.

Se não há filhos, não há motivos para me preocupar. Nada aconteceu. Antes mesmo de colocar o pé direito no chão volto pra cima da cama e me envolvo no lençol. Se não há filhos não há pressa. Que se espere as sete e trinta da manhã.

O dedo que aperta a campanhia, no entanto, não acompanha meu exímio raciocínio. Insiste. Coloco os dois pés no chão, juntos, aos mesmo tempo. Me dirijo à cozinha e atendo ao interfone.

– Pois não?

Silêncio.

– Pois não?

Silêncio.

– Eu vou perguntar pela última vez: pois não?

Com uma voz fraca, quase inaudível, como quem quer velar pelo sono alheio, o outro lado começa:

– Boa noite, senhora. Desculpe te acordar a essa hora da madrugada, é que eu faço parte de uma equipe na faculdade, estamos participando de um campeonato, e eu preciso muito conseguir, até às 5 da manhã, cem latas de óleo para a gente doar para a Casa de Auxílio ao Idoso.

– Casa do quê?

– Casa de Auxílio ao Idoso, é o asilo de nossa cidade, e nós, da faculdade de agronomia, estamos realizando um campeonato, um dos desafios é beneficiar as entidades carentes.

– E você quer o quê mesmo?

– Uma lata de óleo.

– Pode ser de girassol? Só tenho óleo de girassol.

– Pode ser de qualquer um, senhora, eu agradeço muito a sua compreensão e a sua ajuda.

Me dirijo à cozinha tentando lembrar o nome da faculdade da cidade. Estranho essa coisa de agronomia. Nunca ouvi falar de faculdade de agronomia. Será que abriram o curso esse ano? Será que era economia? Economia eu sei que tem, o Luiz dá aulas pro curso de economia.

Com uma garrafa de óleo na mão, volto ao interfone.

– Oi!

Nada.

– Ei!

– Oi senhora.
– Você disse economia ou agronomia?

– Economia, senhora. Economia.

– Ah, bom, já estou indo aí.

Antes de me dirigir ao portão, olho pela janela e vejo um rapaz encostado na grade. Boné e bermuda. Dentro de um carro, vejo mais três vultos. Por que esses jovens resolvem fazer isso a essa hora da madrugada? Antes de abrir a porta ouço o silvo da polícia, o rapaz entra correndo no carro, bate a porta e o veículo sai em disparada.

Quando percebo, são sete e trinta da manhã e eu adormeci no sofá, com uma garrafa de óleo de girassol abraçada ao peito. De qualquer forma, vou levá-la eu mesma à Casa de Auxílio aos Idosos, e vou também dizer ao Luiz para orientar esses rapazes a não irem pedir donativos no meio da madrugada. É preciso ter mais respeito com o sono alheio.

Conto publicado no site Mundo Mundano.

 

Coração de Papai Noel

Eu ainda era pequena quando duvidei da existência do Papai Noel. Certo Natal ele simplesmente não apareceu e não se falou nada mais a respeito. A janela continuava com a pontinha aberta que eu havia deixado no dia anterior, mesmo assim ele não veio e ficou por isso mesmo.

Por algum tempo, já crescida, tinha certa raiva no velhinho a tirar a atenção do bebê que nascia no estábulo e nos trazia boas novas. Se ele existia mesmo, eu não me importava muito.

Aos poucos fui percebendo, porém, que muita coisa boa acontecia por causa do tal velhinho, ou para que se garantisse a lenda, a boa história. A mais bonita delas, pra mim, foi a campanha dos correios, em que pretensos papais noeis podem ir até uma agência, retirar uma carta com um pedido de uma criança e realizar seu sonho. O papai noel se multiplicou, distribuiu bicicletas, computadores, bolas, cadernos, video games, calçados, raquetes de tênis, livros, caixas de bombom, tudo, tudo o que se imaginar, tudo chegou às mãos daquelas crianças que acreditaram na existência do bom velhinho.

Existem aquelas crianças, no entanto, que desconfiam que o papai noel mora em casas de bairros de classe média das cidades, e por isso, não levam suas cartinhas até uma agência do correio, mas poupam o trabalho do velhinho de ter de ir buscá-las e já deixam seus pedidos nas próprias residências. Foi assim que encontrei a carta de Fabiana jogada no meu quintal.

A carta, evidente, era dirigida ao Papai Noel, mas como estava em minha casa, me furtei a lê-la – quem sabe eu pudesse alcaçar o pedido de uma criança de 12 anos. Já me via saindo da inércia do mês de dezembro, entrando às pressas em uma loja de brinquedos, procurando por algo certamente novo no mercado, que eu logicamente ainda não conhecia.  Mas a carta guardava surpresas para o meu coração já cansado dos primeiros dias de dezembro.

Nas primeiras linhas, escritas ainda com letra de criança – formato arredondado, esmero no desenho de cada letra – Fabiana se apresentava, contava a sua idade e dizia que gostaria de ganhar uma cesta básica de Natal. Um susto. Não continuei a leitura. Nó na garganta. Uma cesta básica era o que a Fabiana me pedia de Natal. E eu, já disposta a dar-lhe o mundo dos briquedos inúteis, pronta a qualquer tipo de esforço, quedei paralisada. Uma cesta básica.

Tomo novo fôlego e continuo a leitura da carta. A letra da Fabiana, a partir de então, muda, seu esmero no desenho se transforma em garranchos e ela começa a me explicar que a mãe, sozinha, tem muita dificuldade em sustentar seis filhos, que há seis anos se separou do marido e por isso ela ficaria muitíssimo feliz se eu pudesse dar a ela uma cesta básica de natal. Muitíssimo feliz foi o termo que a Fabiana, de doze anos, usou. Por fim, me desejou um Feliz Natal e indicou abaixo o seu endereço.

  A carta ficou sobre minha mesa, não sei o que fazer com ela. Foi se desenhando na minha mente a imagem triste da mãe sentada na esquina, com um nenem no colo, as outras crianças correndo pela rua pedindo dinheiro, e levando depois o dinheiro para a mãe, sentada, gritando, xingando os filhos. Os filhos implorando por algo para levar para a mãe, pode ser comida, moça. E a maçã que a criança ganha primeiro ela leva para a mãe, que joga ao largo, da próxima vez vê se me traz dinheiro, moleque. Da próxima vez a criança aprende que se ganhar comida deve de comer antes que a mãe veja.

Essa cena triste pode, no entanto, não ser verdade. Imagino então a Fabiana dizendo à mãe que quer pedir um notebook para o Papai Noel, para poder fazer os trabalhos da escola, a Carol, sua colega, ganhou um usado no último Natal, deixou a cartinha no correio e enviaram para ela. A mãe sorri um sorriso triste mas iluminado, e diz à Fabiana que elas poderiam fazer melhor, poderiam pedir ao Papai Noel no correio um notebook, e poderiam também pedir ali naquele bairro algumas cestas básicas, que as pessoas que moram lá costumam ser muito boas, e assim elas poderiam ficar tranquilas por um mês inteiro se conseguissem pelo menos umas cinco cestas. A mãe de Fabiana tem então a brilhante ideia de escreverem várias cartas, pedindo ao papai noel uma cesta em cada uma. Uma linha de produção. Na décima carta, no entanto, a Fabiana diz para a mãe que a mão dói, que ela não aguenta mais escrever, e fica sonhando, calada, com o notebook do verdadeiro Papai Noel.

A mãe termina assim a última carta, com sua própria letra, com suas próprias razões. Coloca no envelope já preparado pela filha, com a letra da filha, e sai no dia seguinte meia hora mais cedo para o trabalho. Distribui dez cartas em dez casas de boa aparência, com grandes quintais na frente, dando preferência para aquelas que já possuem algum enfeite de Natal. Certamente nesse lares o espíriro natalino fará com que o papai noel presente no coração de cada um lhe ofereça uma cesta básica. Afinal, é tão pouco, minha filha só pede ao uma cesta básica de Natal.

A carta ainda está em cima da minha mesa. E eu cheia de curiosidade em saber o que de fato a Fabiana pediu ao Papai Noel.

 

Caminhão de mudança

Lembro-me da primeira vez que me mudei para esta casa: mal descemos do caminhão de mudança, meu irmão olhou para mim com os olhos grandes, brilhando naquele dia já quase noite, e propôs um acordo – não comigo que eu não tinha poderes para decidir sobre aquilo – mas com o próprio destino: iríamos escrever qualquer coisa na porta de entrada da casa – ainda meio construção – com uma lasca de tijolo: se no dia seguinte o escrito ainda estivesse ali, teríamos certeza de que não estávamos sonhando.

Eu já tinha completado dez anos e era a primeira vez que eu morava em uma casa. Meu irmão, com um ano a mais, certamente com mais experiência que eu nessa vida de apartamento, bem sabia que era melhor negociar com o destino para garantir nossa estadia naquele sonho. O escrito foi feito na parte da casa que ainda não estava pronta e que levou anos para terminar. Durante muito tempo passávamos por aquele umbral marcado pelo acordo que fizemos naquela noite de mudança.

Não me lembro exatamente quando foi que colocaram o batente na entrada e finalmente instalaram a porta, encobrindo o nosso trato. Certamente eu e meu irmão já andávamos esquecidos do sonho e não sabíamos mais dos olhos grandes e brilhantes um do outro. E provavelmente, logo depois disso, partimos para outros lugares, passando diariamente por portas que não estavam mais marcadas pelo nosso acordo com o destino.

Da segunda vez que me mudei para esta casa eu completava dez anos moradora de apartamento. (Lembro-me de tantas vezes que fechei a porta de um apartamento pela última vez, com um olhar derradeiro sobre o lugar que me acolheu por certo tempo para no instante seguinte chegar a um outro ponto, outro lar). E foi no meio da arrumação das caixas, toca a correr trazendo a geladeira para não descongelar as coisas do freezer, desocupa o quarto para caber mais uma cama, ajeita essa montoeira de livros da menina – foi como um estalo, eu passei por aquela porta e me lembrei do trato que fizemos, meu irmão e eu, com o destino.

Quando acordei, no dia seguinte, percebi que ainda estava ali, na mesma casa de 18 anos atrás, agora diferentes, a casa e eu, mas ainda apegadas uma à outra. Assim que acordei abri a porta do quarto que dá para a varanda, e a varanda que dá para o jardim. O mesmo jardim onde eu e meu irmão brincávamos na piscina de plástico nos dias quentes de verão, ou nos escondíamos de nossos primos nas noites de mia-gato. O jardim é outro hoje, não carrega mais as marcas da molecada que viveu ali, mas eu ainda posso ouvir os nossos gritos e brigas de criança.

Para me certificar que isso tudo não é sonho, sempre que passo pelo umbral de entrada toco de leve no batente, lembrando do acordo que fizemos com o destino, que está cravado ali, em algum lugar, debaixo daquela madeira, daquela tintura. E sim, ele cumpriu a sua parte do trato, e sempre tenho a certeza de que não estou sonhando, quando chego ou quando saio partindo.

Vestido branco e lamparina

Eu estava dormindo, mas posso afirmar com toda certeza que cavalos-fantasmas vieram me visitar essa noite. Não sei dizer quantos eram: mais de um, não mais que dois. No meio do meu sono, ouvi lá longe os passos de alguns deles, aquelas patas duras fazendo barulho no asfalto da rua. Eu dormia e mesmo assim me perguntava que raios aqueles cavalos faziam ali, àquela hora, no meio da cidade, em uma rua movimentada que me dá tanto trabalho para dormir à noite. Meio-acordada-meio dormindo, concluí que eram cavalos-fantasmas – cavalos reais nunca apareceriam na minha rua, na minha noite, nos meus sonhos.

Os tais cavalos eram fantasmas e se aproximavam, aquele barulho das patas no asfalto aumentando cada vez mais: pararam bem embaixo da minha janela. Foi o momento em que pensei adivinhar a xarada: eles vieram comer a grama na frente de casa! O som das patas se transformou em som de grama sendo arrancada por aquelas bocas enormes que os cavalos-fantasmas têm. É claro! Só podia ser isso! Eles vieram atormentar meu sono em busca de grama fresca para continuarem a jornada dos cavalos-fantasmas.

Se o barulho fosse só o da grama, tudo bem, mas eles pareciam um pouco ansiosos, comiam, andavam, comiam de novo, andavam, e aquilo tudo atrapalhava o meu sono: quando eu estava quase dormindo ou quase acordando, lá vinha a pata do cavalo-fantasma contra o asfalto e eu levantava num susto. O jeito era acordar de vez e ir espantar os cavalos que insistiam em pastar na calçada em frente de casa. Mas aí, no meio do meu sono, veio outro pensamento: se os cavalos eram de fato fantasmas, como eu já havia provado por meio da minha própria argumentação, como espantá-los da frente de casa? Foi quando me senti ridícula, me imaginei saindo na rua de roupão branco, uma lamparina na mão, gritando eia! eia! sozinha, para o nada.

Mas aí estava de fato a xarada: se eu saísse na rua, àquela hora da noite, vestida de branco com uma lamparina na mão, em busca de cavalos-fantasmas, meus vizinhos certamente acordariam também, com um grito de eia! eia! na rua, olhariam pela a janela, veriam uma louca vestida de branco até os pés, e teriam a mesma certeza que eu tive – eu seria uma mulher-fantasma a lhes atrapalhar o sono. Agora tudo estava claro: os cavalos-fantasmas vieram me chamar, na certeza de que eu me uniria a eles a importunar os sonos e os sonhos dos moradores da minha cidade.

Eu resisti bravamente, fiz que não ouvi aquelas patas estalando no asfalto, nem o barulho da grama sendo triturada por aqueles dentes enormes. Repeti cinco vezes que aquilo era um sonho e acho que voltei a dormir e sonhar com qualquer outra coisa. Na mesa do café, na manha seguinte, meu marido pede para eu passar o leite, e pergunta, como quem não quer nada, se eu ouvi de noite o barulho de cavalos andando na nossa rua. Eu disse não, não ouvi nada não, devia de ser impressão dele.