Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de ansiedade

Calendário escolar

Sou secretária de mim mesma. Na falta de alguém mais competente, logo de manhã repasso comigo os afazeres do dia. É preciso montar aula, é preciso ir ao mercado, é preciso não esquecer a entrega dos doces, é preciso passar no banco, ir buscar a roupa que ficou para passar. É preciso não esquecer a consulta médica, é preciso pagar o pedreiro. É preciso comprar algo para o almoço, é preciso não se esquecer de comer frutas. É preciso enviar aquele e-mail, aquele não, aqueles: há dias tenho enrolado para responder as mensagens que recebo. É preciso fazer a inscrição naquele curso, é preciso escrever um projeto para aquele edital.

Como boa secretária de mim mesma, lembro que preciso, urgente, comprar filtro de café. Preciso encontrar um encanador que resolva o problema da torneira do banheiro. Preciso podar a hera que cresce grande no muro do quintal. Lembro, ainda cedo na cama, que preciso ganhar dinheiro, e que pra isso tenho que fazer uma enormidade de coisas. Tantas que é preciso enumerá-las, nomeá-las, namorá-las e, acima de tudo, desejá-las.

E de tanto desejá-las deixo de lado o papel de secretária de mim mesma e começo a me dar ordens. E as ordens são tantas que por vezes perco o sono, perco a fome. E ao tentar cumpri-las todas, perco o encanto. É quando me percebo triste. É quando descubro que o desejo foi tanto que foi capaz de matar o próprio desejo. E é nesse momento que sinto as costas envergadas das tantas ordens que recebo de mim mesma.

E o dia que começou veloz encontra-se de repente paralisado. Volto à minha lista e não encontro um item sequer que seja urgente. Um item sequer que seja necessário. Respiro fundo, procuro um horizonte para pousar os olhos. É preciso esperança. Em vermelho. Esperança de que eu seja mais que uma lista de afazeres, mais que uma lista exasperada de afazeres. Só assim é possível voltar ao orçamento do portão, aos custos da pesquisa, aos contratos de serviços a serem prestados e ao calendário escolar para o próximo semestre.

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Enquanto te espero

Prefiro não olhar o relógio. Fico antes com o presságio. Só mais uns instantes e você vai dobrar a esquina, fazer soar a buzina, baixar o vidro do carro e sorrir para mim, um sorriso inteiro só para mim. Não é preciso olhar o relógio, eu posso adivinhar os minutos.

A esquina permanece. A mão adivinha o feixe da bolsa, tateia, separa caixa de óculos, carteira, batom, chaves, analgésico, chicletes e então agarra o celular no mesmo instante que um carro prata dobra a esquina. A mão larga o celular. Apesar da cor, o modelo não confere. A esquina permanece e a mão volta a tatear até encontrar novamente o celular. Eu não iria te ligar, queria apenas ver as horas. Desisto. Prefiro o presságio.

Devolvo o telefone na bolsa e libero minhas mãos da procura. O dedão da mão direita começa a esmagar as falanges dos outros dedos. Estalam. A mão esquerda copia. Estalam todos os dedos. Olho para o fim da rua só para poder olhar de novo a esquina e me surpreender com a sua chegada. Você não chega.

Reparo nos meus sapatos. Um pouco arranhados. Esfrego a planta do pé na panturrilha. Melhora um pouco. Me dobro sobre as minhas pernas e esfrego com as mãos o bico do sapato. Agora sim, agora tá novo. Olho para a esquina e nada. Volto para o bico do sapato e percebo uma moeda caída na calçada. Não gosto de me baixar para pegar moedas. É constrangedor. Mas a moeda é graúda, dá para comprar um café. Olho para a esquina, olho para a moeda. Olho para os lados, não vem ninguém. Abaixo e agarro a moeda.

Você não chega. Não quero olhar o relógio, mas, pelo meu presságio, você está bem atrasado. Quanto? Dez minutos? Quinze? Não tem problema. Eu sei esperar, não sou ansiosa. Não sou ansiosa. Será que você entendeu errado o lugar que a gente combinou? Melhor ligar. Não vou ligar. Não sou ansiosa. Eu sei esperar. E se aconteceu algum acidente? Será? Melhor ligar. De novo a mão, o feixe da bolsa, a caixa de óculos, a carteira, o batom, as chaves, o chicletes e por fim, o celular. Espera só mais um pouco, lembra? Você não é ansiosa. Você não é ansiosa.

Do outro lado da rua vem vindo uma senhora acompanhada de uma menina pequena, segurando uma boneca numa mão e um saco de pão na outra. As duas conversam. A menina faz perguntas para a senhora, a senhora responde, as duas sorriem sem diminuir o passo. A menina usa sapatos vermelhos, parecidos com o meu. A senhora usa chinelo de couro. Elas passam por mim, a senhora sorri e por um instante eu me esqueço da sua espera.

Quando me volto para a rua, lá está você, o vidro aberto, um sorriso inteiro só pra mim. Entro no carro e ouço você me perguntar se eu não tinha te visto. Não, não vi. Esperou muito? Não, acho que não, nem sei. Você acelera e me leva para algum lugar onde não importam mais nem os minutos nem os presságios.

Depois dos 90

– E esse, pra que serve?

– Esse é para suavizar as linhas de expressão.

– Aqui não diz que é para mulheres com mais de trinta?

Dizia. Mas ela já usava. Faltava pouco para os trinta, já tinha deixado para trás os vinte e cinco. Preferia, ainda assim, os cosméticos mais fortes, acreditava que eles teriam mais efeito. Olhava para ele de soslaio.

– Esses dois são para suavizar linhas de expressão, mas um é para o dia, outro é para a noite. Eu nunca soube porquê. Por que será? Você faz ideia?

– Não sei. Será que o da noite não fixa mais, não pode ser?

– Como assim?

– Bem, de noite, você fica com a cara no travesseiro, vai se esfregando, o creme da noite deve ser mais gosmento, não é não?

– É, acho que é. Você deve ter razão.

Era a primeira vez que ele a via passando cremes noturnos. Sempre se encontravam em restaurantes, bares. Às vezes iam caminhar, fugiam até à praia. Ela sempre linda. Maquiada ou não. De salto, havaiana, cabelo marcado de tanto deixar preso, cabelo liso ou ondulado, de escova, bobs, coque.

E naquele momento, em que ele confabulava para ela sobre as diferenças entre o creme diurno e noturno, sentia dentro de si uma alegria amarelada, todo o ambiente se amarelava, e aquela intimidade, pela primeira vez. Aquela intimidade pela primeira vez. E ele nem mesmo se sentia mais ridículo ao dizer tantas coisas ridículas sobre os cremes que ela usava. Ele falava, falava qualquer coisa, perguntava os detalhes de um, de outro, por que esse? E esse? Mas por que tantos? O dos olhos é diferente do que você usa para o pescoço?

Ela achava engraçado. Nunca imaginou que ele se interessaria tanto por cosméticos. Será que ele acredita que eu não sou mesmo bonita, e que realmente preciso de tudo isso? Jesus. Ele acredita. Eu estou sendo ridícula. Ou será que ele é gay? Se calou.

Em silêncio, ele ainda olhava para ela. Amarelada. Tudo amarelado. Era a primeira vez que ele a via, assim, amarelada. Usando seus cremes cotidianos, se preparando para ir dormir. Dormir com ele, que estava ali, do seu lado. Nunca dormira antes ao seu lado. E ela se preparava.

Ela duvidava. Ele a amava. Ela guardou os cremes, apertou o laço do roupão. Entimideceu. Ele, confiante, disse que ela era a mulher mais linda do mundo. Ela disse que logo faria trinta. Ele disse que a amaria até os 90. Depois disso, iria embora, ah, iria embora. Ela sorriu. Ele a beijou.

 

Conto publicado em Mundo Mundano.

Sexta-feira

Era sexta-feira, e como todas as sextas-feiras, ela começou a se arrumar às sete da noite. Como de costume, se demorou vinte minutos no banho, gastando mais vinte para se vestir. No cabelo, já arrumado de véspera, ela colocou uma flor, e se perfumou com o perfume de sempre. Partiu. Chegou no cinema às oito e quinze, a sessão era as oito e quarenta, como todas as sextas-feiras. Comprou dois bilhetes, um refresco e se sentou em um dos bancos na entrada do cinema, para esperar o namorado, como toda sexta-feira.

Sexta-feira costumava ser o dia de maior movimento no cinema, enquanto ela esperava, a fila da bilheteria se encheu e se esvaziou, pessoas entraram e saíram do cinema, casais abraçados, casais não abraçados, grupos de amigos, pessoas sozinhas, mulheres arrumadas, adolescentes falando alto. Ela observava o movimento, sentada no banco do cinema com o refresco na mão e a flor no cabelo. Às vezes se perdia ouvindo alguma conversa por perto dela, as pessoas se afastavam e ela voltava a si, esperando o namorado, como toda sexta-feira.

A bilheteria já estava vazia de novo, as pessoas já entraram para o filme, algumas sairiam de outra sala dentro de quinze minutos. O refresco demorava para acabar e ela se deliciava percebendo a ansiedade das pessoas antes de entrar na sessão, ou tentava decifrar o olhares saindo da sessão: teriam gostado do filme? Teriam se surpreendido? Teriam namorado dentro do cinema? Teriam descoberto algo de novo dentro de si?

Por fim, o refresco acabou, já se passava das nove da noite e ela perdera a sessão. Como toda sexta-feira, ela percebeu que já era tarde, que o namorado não tinha vindo, e que era hora de voltar para casa.

Cerejeiras pela rua

Enquanto as pessoas na mesa conversavam com vigor sobre suas vidas, Carolina sentia medo. Calada ao canto, ouvindo histórias magníficas, ela se sentia pequena diante de um arsenal de proezas e falas e vitórias e derrotas e tristezas tristíssimas de pessoas que ela pouco conhecia. Buscando na memória algum resto de acontecimento, alguma máxima popular, Carolina se acabrunhava: podia contribuir muito pouco com aquele cenário em que as pessoas narravam feitos e se engradeciam diante dela, que se apequenava, que se amedrontava, que se emudecia a cada minuto.

Pagou a conta do restaurante e pôs-se a correr pela cidade. Sozinha. Ainda ouvia restos de conversa, de histórias, vozes cheias de certezas afirmando que ela era covarde, que ela era pior, que era feia, que ela era quase imperceptível. Lembrava-se de vozes antigas que diziam fortemente que ela era indefinível: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem loira, nem morena. Indefinível.

Em meio a caminhada as vozes foram silenciando e Carolina passou a perceber árvores rosadas colorindo a rua de uma cidade que ela pouco conhecia. Ela sabia o nome da árvore e ignorava o nome da rua. E num estalo lembrou-se de tantas flores que cultivava no seu quintal – pensou no nome de cada uma delas. Tentou lembrar os nomes das ruas de sua cidade e percebeu que entende mais de flores e plantas do que da situação política e econômica de seu país. Sorriu. Flores e plantas e árvores e frutos ainda lhe interessam mais que as notícias cotidianas, cotidianamente repetidas sobre economia repetida e a vida pessoal repetida dos políticos e celebridades.

É na solidão que Carolina se sente segura. A indefinição que marca sua presença entre as pessoas se transforma em certeza, em doçura, em coragem. Ao estar sozinha Carolina sabe bem o que é que ela é. Entre as pessoas Carolina se perde, e é só quando encontra um lugar vazio que possa ocupar é que ela volta a ser Carolina de novo. Sem adjetivos, apenas Carolina.