Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de paciência

Prece para o novo ano

Senhor, eu sei que está um pouco tarde para pedir alguma coisa. O ano já se encontra quase no fim, e durante os doze meses que se passaram não me lembro quantas vezes me voltei a Você para pedir ou agradecer por qualquer coisa. Mas peço que me entenda, os tempos são de muita precisão, e passo então a recorrer à Sua generosidade e bondade com a minha fraqueza e inconstância.

A verdade é que o ano termina e estou aqui, encolhida de medo do próximo que já se anuncia. Senhor, tantas pessoas fizeram tantas coisas: venceram, progrediram, ganharam, e fico aqui pensando nos verbos que posso utilizar para qualificar o ano que se passou. Não, eu não ganhei nada. Eu não consegui nada. Eu fui pequena. Eu me calei. Eu me afastei de tanto. Eu fui pra longe. Eu enterrei tantos tesouros. E ainda, eu tive raiva dos que ganharam, eu detestei as festas e comemorações, eu tive inveja dos que pareciam muito felizes.

E se o Senhor está achando que vim aqui pedir para trocar os verbos para o ano seguinte, inverter as posições, o Senhor se engana. Não quero. Não quero ganhar nada. Continuo não querendo. Uma vida cheia de vitórias não é o que me interessa. Mas me interessa, Senhor, um coração mais generoso. Eu quero, sim, ser maior que sou. Mas quero ser grande para vencer minha própria impaciência, minha falta de cuidado com o ser humano. Eu quero ser grande para enxergar o ser humano que existe na pessoa que atira uma lata de cerveja pela janela do carro. Eu quero ser grande para suportar àqueles que me pedem para ser menos cuidadosa no meu trabalho. Eu quero ser grande para amar crianças pequenas e já tão mal educadas. Eu quero ser grande para não desejar esganar pais de crianças mal educadas.

Senhor, eu não quero aceitar nada disso, mas quero ser maior. Me ajuda, Senhor, a olhar para as pessoas como dizem que Você olha. Não sei bem o que o Senhor vê no sujeito que atira a lata pela janela. Nem o que o vê na criança mal educada. Mas, se formos levar o pensamento mais adiante… não, melhor não perguntar o que o Senhor vê quando olha pra mim. Deixa pra lá. Fiquemos com o meu pedido e o meu medo frente ao ano que se anuncia. Me ajuda, se possível, a ser maior. Maior comiga mesma, maior com meu próximo. É pedir muito?

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Para deixar de comer chocolate

A guerra parece perdida antes mesmo de iniciada. Todos os dias a velha promessa de, só por hoje, não comer chocolate. Só por hoje. Não se parece com uma promessa tola exatamente porque começa com a humildade de não prometer o que não é possível cumprir. Não me proponho a nunca mais comer chocolate. Me proponho a não comer chocolate por hoje, apenas por hoje.

E sei que não estou sozinha. No mesmo instante que olho para a caixa de bombons ao lado da mesa do trabalho, alguém em outro andar do mesmo prédio olha para a carteira de cigarros, outra, no apartamento em frente, luta contra o desejo de subir na balança mais uma única vez, outros olham para o celular e se debatem com o desejo compulsivo de enviar mais uma mensagem para alguém, outro se segura na cadeira do escritório para não ir ao banheiro lavar a mão mais uma vez, apenas mais uma vez.

E eu e tantos outros sucumbimos. Perdemos a guerra. Rompemos a promessa. Comemos chocolate, fumamos um e outro cigarro, subimos na balança três, quatro vezes ao dia, esfregamos a mão até sangrar, procuramos mais e uma última vez o amor errado que prometemos nunca mais amar. Perdemos.

Mas se a promessa era só por hoje, a derrota também vale apenas por hoje. Com olhar de cachorro sem vergonha dizemos pra nós mesmos que perdemos mais uma vez, mas vamos continuar tentando. Mesmo que todos os dias sejamos subjugados, mesmo que o vício e o desejo se mostre impetuoso, mesmo que nos sintamos fracos e envergonhados, continuaremos tentando.

Porque ao final, se não vencermos nada, pelo menos não seremos derrotados de todo. E nos resta o dia de amanhã, e depois, e depois. E sempre permanecerá um resquício de desejo, uma lembrança de um gosto doce na boca, um restinho de sujeira na mão, a memória de uma rua, de um beijo, a calça jeans que não serve mais mas não nos desfizemos dela, uma última carteira de cigarros guardada no fundo do armário…

Convite para o baile

Um presidente foi deposto. A bolsa de valores caiu no Japão. Um banco internacional foi vendido. Uma amiga mudou de casa. Um bebê saiu do hospital. Uma festa aconteceu. O resultado de um concurso saiu. Outra festa vai acontecer. Foi inaugurado um posto de saúde no novo bairro da cidade. Duplas foram definidas para as próximas eleições municipais. Um amigo escreve dizendo que não estará presente à minha comemoração. Outro estará. Mais outro. Engravida-se. Nasce-se. Morre-se.

Tudo, tudo povoa minha cabeça, tudo faz bater mais forte o coração. Meus olhos fixos na tela do computador, notícias e notícias sendo atualizadas, o mundo girando, acontecendo, fervilhando, girando, girando. E meus olhos atentos, buscando novas atualizações, novas notícias, novidades dos amigos. Novidades. Novidades.

E quando meus olhos descansam da tela percebo a sala ao meu redor. A cortina não saiu do lugar. O pinóquio ainda está sentado, como há meses, no umbral acima da porta. Os quadros e as fotografias representam os mesmos lugares que representavam desde que foram colocados ali. As lembranças trazidas por cada objeto ainda são as mesmas. Dois porquinhos de barro em cima lareira. Galinhas de madeira ciscando uma sujeira que não existe. Uma luminária iluminando cotidianamente meus estudos. Uma cadeira ainda com o pé quebrado. Uma lâmpada ainda queimada.

Não. Nada é tão veloz. Não há notícias e atualizações e novidades e promoções capazes de modificar um milímetro o que acontece no lugar exato onde estou agora. Nada muda. O tempo não passa. Até as flores parecem não murchar nem envelhecer. Eu mesma não envelheço. Mentira que o tempo passa. É só ilusão. Ilusão de movimento.

Porque assim como eu, o mundo uma hora desconecta, desliga o computador, acaba a bateria, dá apagão. E nessa hora o que resta é mundo, esse mundo mesmo que conhecemos, com seus pinóquios e beija-flores e hortências e lâmpadas queimadas e porquinhos de barro sobre a lareira. O que resta é a gente olhando para as estrelas, lembrando do tempo em que apontar para estrela cadente fazia crescer verruga no dedo. O que resta é a gente mesmo, de carne e osso, sem novidades, sem mudanças, sem notificações. O que resta sou e você. E bem que poderíamos fazer um bom baile com isso tudo.

Soluço

A gritaria é enorme e não se sabe mais quem ofende, quem defende. Aos berros ela arranca as roupas do varal, aperta no punho fechado uma camiseta do marido e diz que está tudo duro, cheirando a bife, dias e dias esquecida na lavanderia. O marido lembra que ela tratou mal seus amigos no último encontro, que ela não se esforça, que se acha melhor que todos os outros, que menospreza sua família e que todos percebem isso. Ela pergunta se tem cara de empregada, se ele acha que é isso que uma mulher deve fazer, passar o dia arrumando a bagunça que ele faz, tentando adivinhar o que ele quer para o almoço. É isso?

Ela pega as roupas dele recém passadas sobre a cama e joga no chão. Embaralha, amassa, pisoteia, pergunta se ele quer uma passadeira. Ele sai. Ela corre atrás dele, grita, diz que ninguém a deixa falando sozinha.

Ele pega a chave do carro, bate a porta, canta o pneu. Ela pega um copo, joga no chão. A raiva não passa. Ela joga tudo o que vê no chão. A raiva não passa. Vai até a varanda e espera. Espera o marido, espera a raiva. Espera. O marido volta. Se senta ao lado dela. Ele a abraça, ela tenta se desvencilhar. Ele é mais forte, segura a mulher. Ele a abraça forte. Ele diz no ouvido dela em tom decidido: eu te amo. Ela solta o corpo, se envolve naquele abraço. Ele a aperta mais e sussurra que ela é a mulher mais linda do mundo, a mais linda de todo o mundo. Ela devolve o abraço, soluça.

Eles entram em casa, ela recolhe as roupas no chão, ele busca a vassoura e varre os cacos, ela pergunta o que ele vai querer para o almoço, ele diz que mais tarde vai levá-la para tomar um café. Passeiam, namoram etc.

Conselhos para menina

Abre o peito, menina! Abre bem o peito que é com o peito aberto que se lida com a vida! Esconde esse seu medo de menina, essa sua timidez. Levanta esses seus olhos baixos, e acima de tudo, ama. Ama sem medo.

Você ainda se lembra de quando o mocinho mais bonito da escola paquerava a sua melhor amiga. Ainda se lembra de quando esperava uma carta e ela não chegava. Você ainda se lembra da alegria que passava ao largo, da festa no interior da vitrine, dos seus passos solitários na calçada. Você ainda se lembra do segredo que sua melhor amiga não te contou. Ainda se lembra do resultado daquele concurso, em que você fazia parte do pequeno grupo não selecionado.

Abre o peito, menina! Não pense que essas lembranças são suficientes, que outras mais não virão. Pessoas queridas irão embora. Você perderá dinheiro e sentirá, talvez, a dignidade te escapando. Perderá ainda a beleza. Um dia já não será jovem mais. Não desanime, não se entristeça. Mesmo que a dor não te faça em nada melhor.

Abre o peito. Espera. Ama. Ama com o coração simples aqueles que te agradam. Ama. Mesmo que eles não te respondam, mesmo que eles não se interessem. Ama e espera. Porque é com o peito aberto que se reconhece a beleza do mundo, e só com paciência será possível perceber a pequena folha crescendo naquela haste seca – quase morta. Seus cuidados não foram em vão. Espera.

Por isso, menina, abre o peito! Não tenha medo da dor, não tenha medo da espera, ama com o coração aberto. O mundo há de perceber o seu amor, e há de te recompensar. Não se envergonhe da sua tristeza, nem do seu amor. E principalmente, não se envergonhe da sua alegria. Ela é folha que cresce enquanto você cuida de hastes aparentemente estéreis. Abre o peito, menina, e ama. Ama sempre.

Os quitutes de Dona Flora

Para Juliana Vinuto

Já era a quinta vez que chamava a mocinha em sua mesa: não conseguia se lembrar o que tinha mesmo que fazer para as letrinhas mudarem de cor. Ela até já tinha se acostumado com aquele jeito de escrever – afinal o teclado do computador lembrava um pouco as máquinas de escrever que usava quando foi secretária do Dr. Borges, lá em Santa Cecília. Mas o estranho mesmo era mexer com aqueles botõezinhos de uma peça que ficava separada do computador, com um nome em inglês que ela também não conseguia guardar, e mais se parecia com uma bolinha achatada que ela levava de um lado para o outro.

A mocinha que dava as aulas de informática lembrava a neta de sua vizinha. Aqueles cachinhos cor de fogo na verdade lhe enchiam de tristeza: ela, que nunca teve filhos, vivia a se afeiçoar pelos filhos dos outros, e se envergonhava, bem dentro de si, pelo afeto maternal que devotava por parentes que nem eram seus. E nessa mistura de afeto e vergonha, às vezes era rude com a mocinha, ralhava com ela, dizendo que não, ela não tinha explicado isso assim não, na verdade, você nunca me disse que é preciso marcar primeiro a palavra com o mauze para depois ir no pincelzinho lá em cima para mudar a cor. Mauze! Era isso! Era esse o nome da bolinha achatada! Como eu pude me esquecer?

E num esforço enorme para não esquecer o nome da tal bolinha já se esquecia da receita toda. Como é mesmo? Ai, céus! Será que eu devo chamar a mocinha de novo? Na certa ela já está com raiva de mim… mas também, quem mandou ela vir dar aulas para esse bando de velhos? Ouvi dizer ontem que ela arrumou um novo emprego, lá no centro de São Paulo, que sai daqui e mal almoça, para chegar lá e trabalhar com coisas que ninguém entende o que é. Suspirou. Se não a chamasse, não conseguiria fazer a tarefa do dia, voltaria para casa triste, sem ter aprendido nada novo, ela, que a vida toda se orgulhou em aprender uma coisa diferente a cada dia.

Precisa de alguma coisa, Dona Flora? Era a voz da mocinha sobre seus ombros. Antes de perguntar à professora pela terceira vez o que ela deveria fazer para colorir a letra, quis saber onde era mesmo o outro lugar que ela estava trabalhando? O nome do lugar era cumprido, Dona Flora mal conseguiu entender a primeira palavra, mas sorriu satisfeita, afinal, qualquer coisa parecia melhor do que ficar ensinando informática para aqueles velhinhos cheios de dificuldade. Mas… você não vai abandonar a gente, vai? A mocinha sorriu, deu um beijo na testa da Dona Flora, e disse apenas que não, por enquanto não.

Dona Flora se voltou mais uma vez para o computador, e ainda sem saber bem como colorir as palavras, pensou que amanhã iria trazer um lanche para a mocinha, afinal, agora ela precisaria ir para São Paulo todos os dias, mais ou menos como ela mesma fazia quando era jovem, aquele caminho todo dentro do trem, o tempo curto para comer qualquer coisa, a ansiedade em conseguir alguma coisa a mais do que o que ganhava com as aulas de informática.

Quando ainda pensava no quitute que traria para a mocinha a aula terminou, e suas palavras ficaram todas sem colorir. Tudo bem, amanhã eu pergunto de novo como faz, e se ela estiver aqui, vai me dizer tudo de novo, com aqueles olhinhos pacientes, que eu não sei mais quem me fazem lembrar.