Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de alimento

Dos perigos de um bife à parmegiana

Aninha me ligou aos prantos, soluçava tanto que eu não era capaz de entender meia frase. Perguntei onde ela estava e entendi num grunhido que ela tinha se mudado para a casa da mãe. Fui visitar Aninha.

Quando entrei na casa encontrei Aninha desfigurada, descabelada, desconsolada. Aos poucos foi me contando que o marido tinha ido ontem almoçar em casa, e entre a salada e o bife à parmegiana, disse que havia se apaixonado. Aninha perguntou quem era ela. Ele disse que era a estagiária.

Com as palavras ainda soltas, Aninha me dava detalhes da estagiária: cabelo alisado, escova progressiva, decotes horrorosos, uma tal faculdade de caçar marido, abusadinha, se insinua pra qualquer um, usa a desculpa do pai alcólatra para se fazer de coitadinha. E eu ainda sem saber o principal: estavam juntos? Estavam tendo um caso?

Aos poucos fui entendendo que o almoço tinha ficado pela metade. Tão logo o marido confessou sua paixão, levantou e saiu. O bife quase intacto no prato. Nem mesmo a Aninha sabia se ele apenas se apaixonara, se se encontravam cotidianamente, se estavam juntos agora, nesse exato momento. Nada.

Aninha não teve tempo de perguntar se ele voltaria para o jantar, se voltaria para o aniversário de seus pais no final de semana, se voltaria, enfim. Com medo da resposta para a pergunta que ficou calada, Aninha juntou suas coisas e se mudou para a casa da mãe, não teria assim que enfrentar o vazio do apartamento no final do dia. Tampouco teria que encarar o marido chegando no entardecer, aquele cretino, apaixonado, cara de bobo, voltando para casa, para dormir comigo? Nem morta!

Como ainda não tinha planos, Aninha ficaria na casa da mãe por uns dias, iria até o apartamento no meio da tarde para buscar o resto das roupas, não queria encontrar o marido. E depois? Depois veria o que fazer.

Quando deixei a casa de Aninha eu tinha o peito repleto de raiva. Como o marido da Aninha foi capaz de uma cachorrada dessa? Como ele pode dizer para ela, assim, impunemente, entre um alface e um pedaço de bife, que se apaixonara pela estagiária? O que essa ordinária tem de tão especial, afinal? O que nela fez com que ele saísse daquele mundinho confortável de casamento, Aninha, trabalho e casa bem arrumada?

Enquanto dirigia para a casa, só trazia na mente a imagem da tal estagiária: cabelo alisado, decotes insinuantes, pai alcólatra, chorando as dores do mundo no cólo do marido da Aninha. Faculdade mediana, belas pernas, talvez. Mas no que essa tal estagiária seria melhor do que eu? Por que por mim ele não foi capaz de abandonar a Aninha? Por que por ela e não por mim? Ah, se eu encontro aquele ordinário do marido da Aninha, ah eu mato! Mato os dois, ele e a estagiária dele. Mato.

 

Conto publicado no site Mundo Mundano.

Um livro de receitas

Há dias em que se deve prestar bastante atenção aos sinais que nos avisam de é que perigoso se aproximar da cozinha. Certamente esses são os dias em que é mais difícil abrir a alma, se doar para alguma coisa. E cozinhar sem entrega é errar a receita, sempre. Para cozinhar é preciso desejar alimentar a si e a alguém. É preciso, antes de mais nada, desejar servir.

Às vezes, no entanto, é tempo de sentar à mesa à espera de que nos sirvam, como moça mimada, que em seus paparicos ainda assim reclama do detalhe que não saiu bem ao gosto. Nesses dias não adianta tentar. A mesma panela de sempre sobre o mesmo fogão de sempre vai, sem dúvida, queimar o arroz cotidiano. E depois do arroz vem o omelete grudado no fundo da frigideira – o omelete de sempre, no fogão de sempre. É tempo de sentar e apenas esperar. Esperar o amor do outro. Esperar a entrega do outro.

E talvez o olhar do outro possa, de alguma maneira, nos salvar dessa sede de receber, no lugar de oferecer algo. Há dias em que nossa alma resiste a entregar qualquer amor, qualquer que seja. E a cozinha escancara essa recusa, revela esse cenário que amanheceu árido, seco, duvidoso: ela tem alma feminina, pressente ao longe o interesse vil, a vontade feroz de apenas matar a fome no lugar de um desejo singelo de entrega e serviço.

Não adianta continuar tentando. Todos os utensílios parecem se voltar contra este que se tornou um intruso em lugar sagrado. Nem mesmo o livro de receitas com capa de couro vai ser capaz de desfazer o feitiço. É preciso saber perder. É preciso saber esperar.

E se ninguém aparecer, e se o outro não vier, se uma outra entrega não acontecer, não é de bom tom viver à mingua e passar fome. Mas é preciso olhar para si e reconhecer que este não é dia de entrega, que existe antes uma carência, uma ausência, e é grave o sentimento daquele que respeita, em silêncio, este vazio. Talvez amanhã o dia amanheça mais claro, e os sinais sugiram que é dia de entrega, e que não apenas a cozinha, mas um pedaço maior do universo espera com doçura todas as suas gentilezas.

Panela de pressão

O pai reconhece o número da filha chamando no celular e não resiste: “Desculpa, pessoal, é importante”. Sai às pressas da sala de reunião e quando ela pergunta se está ocupado ele responde que não, que pode falar. Fazia um mês que a filha tinha saído de casa. Até ontem ele tinha o controle – a menina nunca viajava sem permissão. Agora ela andava pela capital, pegava ônibus sozinha, devia de estar conhecendo gente estranha na faculdade.

“Pai, como eu faço purê de batata?”. Então era isso. O pai sorriu, lembrou-se que aquele era o prato predileto da filha. Tão simples. Tão fácil. Um caminhão de batatas em casa e a filha lá, lá longe. Tem panela de pressão aí na casa da sua tia? Tem. Já comprou as batatas? Já. São grandes? São, acho que são. Então coloca na panela e espera uns dez minutos. Quando você tirar elas já vão estar moles. Tem amassador de batatas? Tem. Então aí você amassa as batatas, volta elas para a panela, coloca um pouco de leite, um pouco de manteiga e sal. Um pouco quanto? Ah, um pouco! Não põe muito leite para não ficar muito mole.

O assistente aponta na porta da sala, pergunta se ele ainda vai demorar, ele faz gesto com a mão, só mais um minutinho. Filha, preciso voltar. Você vai fazer purê de batata com quê? Ovo cozido e bife. Ovo você também cozinha dez minutos. Tá. Beijo. Beijo.

Ele volta para a reunião – precisavam dele para saber a voltagem da linha de transmissão que precisaria ser realocada. Enquanto relatava a última conversa que teve com o dono da fazenda onde seria construída a nova torre ele ainda pensa na filha. Não era a imagem dela perdida com as panelas em uma cozinha desconhecida o que o desconcertava. O que ele via eram os olhos dela brilhando frente a um purê de batatas. Nunca foi preciso perguntar: aniversário, despedida, boas vindas, tudo, tudo era comemorado ao sabor de batatas amassadas.

O telefone toca de novo, ele de novo diz que é importante e sai. A filha do outro lado, aos soluços: “Pai, deu tudo errado!”. E começou a descrever o ovo quebrando ao cair na água fervente, as batatas na panela 30 minutos e ainda completamente duras, o bife salgado e endurecido. O pai se entristece. Olha para o relógio e sabe que não consegue pegar estrada a tempo de preparar um bom jantar para a filha, sabe que ela não pode voltar para a casa pois ainda tem aulas no dia seguinte.

O assistente o chama de novo, ele se enraivece, diz que volta em um minuto. A filha ainda soluçando no telefone, diz que tem fome e que agora não tem mais o que comer. Ele diz a ela para ir comer no shopping, ela retruca que quer purê de batatas. É nessa hora que o pai descobre com uma clareza dolorosa que, assim como ele, a filha também padece de saudades de casa, e só o seu prato predileto lhe evocaria o conforto de estar sentada à mesa com as pessoas que ela ama.