Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Junho, 2012

Convite para o baile

Um presidente foi deposto. A bolsa de valores caiu no Japão. Um banco internacional foi vendido. Uma amiga mudou de casa. Um bebê saiu do hospital. Uma festa aconteceu. O resultado de um concurso saiu. Outra festa vai acontecer. Foi inaugurado um posto de saúde no novo bairro da cidade. Duplas foram definidas para as próximas eleições municipais. Um amigo escreve dizendo que não estará presente à minha comemoração. Outro estará. Mais outro. Engravida-se. Nasce-se. Morre-se.

Tudo, tudo povoa minha cabeça, tudo faz bater mais forte o coração. Meus olhos fixos na tela do computador, notícias e notícias sendo atualizadas, o mundo girando, acontecendo, fervilhando, girando, girando. E meus olhos atentos, buscando novas atualizações, novas notícias, novidades dos amigos. Novidades. Novidades.

E quando meus olhos descansam da tela percebo a sala ao meu redor. A cortina não saiu do lugar. O pinóquio ainda está sentado, como há meses, no umbral acima da porta. Os quadros e as fotografias representam os mesmos lugares que representavam desde que foram colocados ali. As lembranças trazidas por cada objeto ainda são as mesmas. Dois porquinhos de barro em cima lareira. Galinhas de madeira ciscando uma sujeira que não existe. Uma luminária iluminando cotidianamente meus estudos. Uma cadeira ainda com o pé quebrado. Uma lâmpada ainda queimada.

Não. Nada é tão veloz. Não há notícias e atualizações e novidades e promoções capazes de modificar um milímetro o que acontece no lugar exato onde estou agora. Nada muda. O tempo não passa. Até as flores parecem não murchar nem envelhecer. Eu mesma não envelheço. Mentira que o tempo passa. É só ilusão. Ilusão de movimento.

Porque assim como eu, o mundo uma hora desconecta, desliga o computador, acaba a bateria, dá apagão. E nessa hora o que resta é mundo, esse mundo mesmo que conhecemos, com seus pinóquios e beija-flores e hortências e lâmpadas queimadas e porquinhos de barro sobre a lareira. O que resta é a gente olhando para as estrelas, lembrando do tempo em que apontar para estrela cadente fazia crescer verruga no dedo. O que resta é a gente mesmo, de carne e osso, sem novidades, sem mudanças, sem notificações. O que resta sou e você. E bem que poderíamos fazer um bom baile com isso tudo.

Antônio de Ferraz

Para Natália Corazza

Prefiro corredores. Mesmo que ande desajeitada, mesmo que olhe para o chão. Melhor ter um espaço por onde caminhar, um caminho por onde fugir que ficar parada, perdida, sendo ninguém no meio de uma multidão. O problema é que a multidão sorri, a multidão conversa, troca telefones, inventa ideias. A multidão se conhece, e eu sou ninguém. Continuo sendo ninguém.

Contorno a multidão que se aglomera no saguão. Antes de chegar a novos corredores leio cartazes, anúncios. Vende-se, aluga-se, procura-se, compra-se, inaugura-se. Vende-se de novo, compra-se. Procura-se. Procuro. Procuro sempre. Procuro um corredor. Procuro um vendedor. Procuro um banheiro, um bebedouro. E a multidão ainda falante, ainda sorridente.

Como todos se conhecem? Como é possível conhecer tanta gente? Onde eu estava quando todas estas pessoas passaram a se conhecer e a se telefonar e a se procurar? Como elas sabem tanto de si e eu não sei nada?

Um graçom passa e oferece bebida. Pergunto a ele se sabe onde está sendo o lançamento do livro do Antônio de Ferraz. Ele pede desculpas, diz que não sabe informar mas aponta uma senhora que talvez possa me ajudar. Vou até ela, senhorinha já, pergunto pelo autor, ela responde que não o conhece, como ele se chama mesmo? Antônio de Ferraz. Sabe que meu filho também se chama Antônio? Eu queria muito que ele fosse escritor, assim como meu pai. Seria tão fácil, a editora ali, com tudo prontinho para publicar. No começo era mais dificil, mas aos poucos a editora foi crescendo, agora tudo é mais fácil. Mas ele cismou de ser pintor. Pintor? É, pintor. Agora está no estrangeiro. Meu neto nasceu dia desses, mas ainda não o conheci, acredita? Acredito.

A conversa foi longe. Me esqueci dos corredores, dos anúncios, dos livros, dos bebedouros, da multidão. Me esqueci do meu pânico de congressos e lançamentos e feiras. Não me importava mais como as pessoas se conheciam. As pessoas não me importavam mais. Nem me importava mais Antônio de Ferraz.

Quando me despedi da senhorinha foi que percebi que ela estava sentada na última mesa do saguão, no início de um corredor. Como eu, ela também era ninguém.

Serviço temporariamente indisponível

Antes mesmo de me sentar para escrever, já tenho tudo desenhado na mente: é preciso falar sobre o direito de não haver desejo da escrita, louvar a força do silêncio, dizer que hoje não, não quero escrever. Cínica, puramente cínica, sentada à frente da tela branca, do cursor que pisca. Se não quero escrever, não entendo porque minhas mãos estão tão limpas, tão ausentes de barro ou massa de pão de queijo ou tinta para pintar sapatos ou calda de chocolate. Cínica.

O desejo é, na verdade, uma vontade de burlar o dever, de recusar a escrita como tarefa, como necessidade de dizer algo a alguém, quem quer que seja. A necessidade desgastada de suprir o leitor, de mantê-lo cativo, de oferecer a ele, como quem oferece doces frescos, uma pitada de carinho, e fazê-lo retornar na semana seguinte, ávido por novos sonhos, micromomentos de alegria.

É frente a esse leitor que me sinto paralisada. E se o doce não agradar? E se ele perceber que o texto é velho, apenas uma versão meio melhorada daquilo que se disse há um ano? E se o que eu disser não tiver nada, nadinha de nada de interessante? E se depois do texto lido o leitor simplesmente mudar a página, indiferente, sem nenhuma lembrança do que foi dito, do que foi lido, do que foi construído assim, de jeito tão difícil?

Melhor dizer que não há texto. Ponto. Não há. Não há ideias, não há o que dividir, não há o que dizer. Sinto muito. Volte semana que vem, quem sabe. Quem sabe. Eu espero muito que semana que vem tudo volte a funcionar, por ora, sem previsão.

O problema com o leitor fica assim resolvido. Mas continuo frente à tela, branca, piscando. Não há o que dizer, não há para quem dizer. Nenhuma espera, nenhum desejo. Nem mesmo há cinismo. Há apenas eu mesma, parada, quase extática frente à tela, algo pulsando, pedindo, implorando para que seja escrito.

Alguns roteiros se colocam, possibilidades de alguma intriga, uma mensagem bonita, talvez. Nada. Só há o que pulsa por dentro e não diz o que é, nem como se chama, nada. Penso no meu dia, penso nos últimos dias. Chuvas eternas, leituras eternas, falta de sono, saudades sem contornos. Escrevo, então, para mim mesma. Sem verdades nem mistérios. E encontro, ali, na escrita, a calma dos meus desejos. Não importa o que seja. Importante é o que pulsa. Importante é que se escreva.

Soluço

A gritaria é enorme e não se sabe mais quem ofende, quem defende. Aos berros ela arranca as roupas do varal, aperta no punho fechado uma camiseta do marido e diz que está tudo duro, cheirando a bife, dias e dias esquecida na lavanderia. O marido lembra que ela tratou mal seus amigos no último encontro, que ela não se esforça, que se acha melhor que todos os outros, que menospreza sua família e que todos percebem isso. Ela pergunta se tem cara de empregada, se ele acha que é isso que uma mulher deve fazer, passar o dia arrumando a bagunça que ele faz, tentando adivinhar o que ele quer para o almoço. É isso?

Ela pega as roupas dele recém passadas sobre a cama e joga no chão. Embaralha, amassa, pisoteia, pergunta se ele quer uma passadeira. Ele sai. Ela corre atrás dele, grita, diz que ninguém a deixa falando sozinha.

Ele pega a chave do carro, bate a porta, canta o pneu. Ela pega um copo, joga no chão. A raiva não passa. Ela joga tudo o que vê no chão. A raiva não passa. Vai até a varanda e espera. Espera o marido, espera a raiva. Espera. O marido volta. Se senta ao lado dela. Ele a abraça, ela tenta se desvencilhar. Ele é mais forte, segura a mulher. Ele a abraça forte. Ele diz no ouvido dela em tom decidido: eu te amo. Ela solta o corpo, se envolve naquele abraço. Ele a aperta mais e sussurra que ela é a mulher mais linda do mundo, a mais linda de todo o mundo. Ela devolve o abraço, soluça.

Eles entram em casa, ela recolhe as roupas no chão, ele busca a vassoura e varre os cacos, ela pergunta o que ele vai querer para o almoço, ele diz que mais tarde vai levá-la para tomar um café. Passeiam, namoram etc.

O amor perdido na cidade

Enquanto a sirene da ambulância ressoava três ruas abaixo, os transeuntes levaram tudo que era dela. Sem vida, ela não era mais capaz de proteger seus pertences e ia se despredendo a cada momento. Não podia mais se agarrar ao ventilador que carregava quando um velho veio pegá-lo. Fazia muito calor naquele verão em São Paulo e ele faria melhor proveito que ela do eletrodoméstico. Ela já não tinha o que refrescar.

Levaram também seus colares. Nem eram joias, mas foram presente de uma amiga. Vieram do Pará, diz-se que eram capazes de proteger. Não havia mais o que proteger, talvez nem mesmo tivessem serventia, talvez não funcionassem. Levaram.

Passou por ali uma moça jovem, da idade dela, quase. Vendo o corpo, pensou que aquela seria a pessoa ideal para uma nova identidade. Era um pouco como ela, magra, cabelos castanhos lisos, rosto arredondado. Tão parecida poderia, ainda, ser bastante diferente. Talvez não tivesse o nome sujo, talvez trouxesse bons antecedentes criminais. Levou os documentos. Serviriam para alguma coisa.

Um malandro olhou para a moça estirada, num segundo notou a aliança na mão esquerda, lamentou a viuvez alheia, com um beijo sincero levou o anel e o resto de dinheiro que a moça trazia na carteira.

Quando já soava a sirene da ambulância, passou pela moça uma senhora, percebendo que ainda trazia os olhos abertos, se aproximou, olhou fundo seu olhar e tomou para si o resto de amor e felicidade da expressão ainda viva da moça morta. Passou a mão pelo seu rosto, fechou-lhe os olhos e se foi, levando sua alegria. Ela não precisa mais dela.

Já no IML o viúvo tentava reconhecer o corpo da mulher. Não reconhecia. Não via nada nela que lhe lembrasse aquela que tanto amava. Nada lhe lembrava o que tinham vivido, todo o amor, toda a alegria. As lembranças. Nada. Levaram tudo. Tudo.

Ele continuava procurando. Procurava por ela nas ruas, nos bares, nas escolas. Seguia sua vida procurando. Não sabia bem o que procurava. Não sabia mais como era seu rosto, seu cheiro, o sabor de seu corpo, sua risada. Não sabia mais. Ainda assim procurava.

Certo dia, num ponto de ônibus, pediu informações a uma senhora. Se assustou com a familiaridade de sua voz. Olhou em seus olhos e reconheceu toda a alegria que uma dia tinha vivido. Se apaixonou, em apenas um minuto ele se apaixonou. Era ela. Era ela a única mulher que ele amou e amaria na vida. Ainda ali, no ponto de ônibus, pediu em casamento a velha senhora. Ela sorriu, nervosa. Ele disse que tinha pressa, que não poderiam perder muito tempo mais.

A senhora, desacostumada ao amor, aceitou. Ele, ainda jovem, cuidou da senhora e a fez feliz por muito tempo. Morreram os dois, depois de muitos anos, velhos e felizes, agarrados na alegria que era a vida deles, que desde sempre havia sido a alegria dos dois.

Texto publicado em Mundo Mundano.