Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de amor

alquimia

e se a gente transformasse

raiva em beleza

tristeza em amor

cansaço em compaixão

 

e se a gente transformasse

armas em flores

gritos em silêncio

silêncio em amor

 

e se o amor fosse suficiente,

bastaria?

Filosofia matinal: aprendendo Parmênides

Na cama, ainda pela manhã, mãe e filha brincam de opostos:

Mãe: Quente!

Filha: Frio!

Mãe: Grande!

Filha: Pequeno!

Mãe: Alto!

Filha: Baixo!

Mãe: Bonito!

Filha: Feio!

A mãe para por um segundo, pensa em outras formas de pensamento, certa de que pegaria a menina:

Mãe: Bicicleta!

Filha: Não-bicicleta!

Se fosse sua aluna, a filha ganharia estrelinha para colar no peito, seria ajudante do dia e ensinaria aos coleguinhas a grande lição do ser, do não ser e do nada.

Amor, amor, amor

Há ainda a roupa estendida no varal, mas isso não é importante, meu amor. Esqueça. Esqueça também a alta dos tributos. Já há vozes em demasia a bradar por soluções: as propostas escorrem pelo ladrão. Não se preocupe. Aquele boleto em cima do balcão da cozinha, ainda no início das centenas de parcelas, esqueça. Ele será pago a seu tempo e nada há que fazer. É preciso buscar as roupas na passadeira, ligaram hoje dizendo que está tudo pronto. Está pronto, como tudo fica a seu tempo. Não se preocupe. Amanhã buscaremos. O prazo final para entrega daquele seu projeto se aproxima. Não é preciso lembrar. Mas é preciso dizer não se preocupe. As linhas e as palavras foram construídas ao longo do tempo. Não se preocupe.

É preciso, porém, estudar com urgência novas línguas, e descobrirmos novas maneiras de dizer “eu te amo”. E dizê-las todos os dias, pelo menos uma vez ao dia. É preciso guardar, de maneira solene e sagrada, o entardecer, para percebermos, juntos, o canto que cantam os pássaros ao voltarem para suas casas, o barulho que fazem os bichos que revolvem a terra ao se prepararem para a chegada do orvalho, o vento que entra em casa e nos convida a passear.

Não se esqueça, no entanto, de arrumar a cama todos os dias, para que ao anoitecer ela esteja pronta para receber os nossos corpos cansados, e nos abrace, como nos abraçamos todas as noites. Não se esqueça também de vigiar meu sono, para que não se percam as palavras que digo quando não tenho controle de meus segredos: posso ter esquecido, ao longo do dia, uma nova expressão de amor.

Lembre-se que é preciso, todos os dias, aguar a horta. E ao se curvar, meu amor, sobre o canteiro, não se esqueça que devemos essa mesma reverência a tudo o que é pequeno, a tudo o que é lento, àquilo que passa despercebido: uma lágrima sozinha, um suspiro distraído, um olhar cheio de medo. E como fartamos a terra de água, que possamos também nos fartar de cada detalhe, preenchendo, assim, nossa eterna necessidade de amor.

Não é de bom tom, meu amor, desperdiçarmos o tempo. Que as mãos estejam sempre entrelaçadas. Que o pressentimento chegue antes da voz que clama por carinho. Que os olhares se cruzem e não se afastem. Que o abraço não termine antes do final do choro. Que haja sempre chocolate à mesa, casado ao cheiro de café coado. Como eu e você. Como eu e você.

Vira lata

Ainda me lembro de nosso último encontro. Suas sombrancelhas arqueadas. Sua voz áspera. Suas costas para mim. Ainda era inverno, ainda fazia frio. Suas costas para mim. Você na sala de jantar, você no centro, você gargalhando. Eu ao longe, de longe, sem saber o que te alegrava tanto, o que te alegra tanto. Eu ao longe.

Aos poucos, vão trazendo notícias suas. Um novo emprego. Casa nova. Nova namorada. Pergunto por detalhes, não por curiosidade, mais para manter o assunto e chegar, talvez, ao que meu coração deseja saber. Mas nunca sei, nunca sei se você perguntou por mim. Nunca sei se você quer saber de mim.

E eu com tantas notícias, o coração repleto de novidades. Voltou a chover e o jardim de minha casa ganhou novamente a cor de seus olhos. Abriu uma loja de queijos no quarteirão de baixo de casa, parece que os sócios são mineiros, mineiros como nós. Descobri um novo cantor, desses que a letra corre antes da música, mas que fala muito do mais do mar que das montanhas que preenchem cotidianamente a nossa respiração.

Não. Não te direi nada disso. Não te direi ainda que Maria Eduarda já estica os pés e os força para ficar em pé. Ela, que ainda precisa tanto de nós, já dá sinais de querer o mundo, assim como nós o queremos. Não te direi que sinto saudades, nem que sofro pela sua ausência declarada. Não deixarei você saber que minha raiva é cortina sobre o palco, que se abre e some ao dar lugar a cada novo espetáculo.

É melhor que você não saiba do meu amor vira lata, é melhor que você não desconfie que eu conto os dias em que não te vejo, que cronometro os metros que nos distanciam. Que as coisas fiquem assim, que você também se lembre da minha voz áspera e não saiba da doçura que ela traz por detrás. Que você também pense que meu amor é devotado a outros, e que eu pouco pergunto de você. Que você não saiba do quarto sempre arrumado que tenho em minha casa, esperando pelo dia em que você vai chegar. E nesse dia, mesmo que eu ainda me lembre de suas costas voltadas para mim, vamos nos sentar à mesa, vou te pedir para passar o café, você vai me perguntar se a jaboticabeira já começou a florescer etc etc etc.

O amor nos torna patéticos

O amor nos torna patéticos. E não pelas frases ditas em idioma infantil. Não pelas cartas ridículas que Pessoa nos ensina a escrever para falar de amor. Não pelo dinheiro gasto com coisas efêmeras que se esfumaçam em segundos. Não pela necessidade obsessiva que toma aqueles amam de ver um sorriso no rosto da pessoa amada.

O amor nos patéticos porque nos permite ver coisas que só os que amam vêem. Aqueles que não amam se perguntam o que aquele rapaz tão inteligente e bonito viu numa moça tão sem atributos. O rapaz vê. Ninguém mais vê. E aí o jogo se torna patético porque essas perguntas são, por natureza, patéticas. O rapaz afinal vê algo que existe na moça ou algo que ele deseja que exista nela? O amor é criatividade ou ilusão? Outra pergunta patética, porque se realidade ou ilusão, o amor faz do rapaz um moço diferente, ele caminha leve na rua, chuta pedrinhas, não reclama do esbarrão que levou de outro moço que passava, moço que não ama, certamente.

E o amor se torna patético porque pode se prolongar por toda uma vida. Sessenta anos vividos ao lado de um crápula, odiado por todos mas amado por alguém que viu nele algo que ninguém via. A viúva, ao lado do caixão, chora lágrimas verdadeiras enquanto outros agradecem o favor dos deuses por levar embora alma tão nebulosa. O segredo da viúva é esse amor que cega e que faz ver algo que só ela vê.

O amor também pode acabar num segundo: momento em que se abre um abismo entre aquilo que víamos ou achávamos que víamos, e uma realidade cinzenta, comum, cotidiana. Não vemos mais. Não conseguimos mais ver o que víamos antes. Os pais deixam de ser nossos superheróis e se tornam pessoas comuns, cheias de vícios, cheias de fraquezas. A mulher amada, tão diferente de todas as outras que já conhecemos, de repente se perde na multidão, não distinguimos mais suas qualidades, a maneira como escondia o cabelo atrás da orelha, como levantava a sobrancelha enquanto tomava sua xícara de café. Seu gestos agora se parecem iguais aos de toda a humanidade. O amor saiu pela porta dos fundos e levou consigo nossa capacidade de ver as coisas de um jeito diferente, de um jeito que só a gente via.

E quando o amor se vai, patético, ficamos nós, perdidos, olhando para o mundo e não o reconhecendo mais. O que fazer agora com esses pais, os únicos que temos, que são comuns, fracos, injustos às vezes, que envelhecem, que recusam os nossos cuidados? O que fazer com essa mulher que ainda está à nossa frente, tomando café da mesma xícara cotidiana, igual a todas as outras xícaras e a todas as outras mulheres cotidianas?

O amor nos torna patéticos. Cria ilusões. Muda a realidade. Constrói abismos. Nos faz ter saudades. Formula idiomas. Inventa países. E nada nos salva. Nada nos salva de sua eternidade e de tudo aquilo que lhe é efêmero.

Bem aventurados todos aqueles que um dia encontraram o amor, e se tornaram, como todos os outros, patéticos. Patéticos e felizes, por instantes ou por toda a eternidade.

Catador de lixo

Bastava as pessoas se afastarem e logo ele corria para perto do lixo. Vasculhava, vasculhava, e nada. Carregava consigo uma pequena sacola, vazia, sempre vazia. Os poucos que o percebiam – quem olha para aqueles que vasculham o lixo? – se intrigavam com sua audácia em enfiar a cara inteira no lixo que fosse. Mas ninguém percebia que ele nunca catava nada, nunca achava nada.

Um dia, no entanto, ele encontrou algo num lixo de esquina, pegou o objeto como quem segurava um bebê recém nascido. Colocou na sacola com cuidado de amante. Chegou em casa, depositou o pacote sobre a mesa, se banhou, vestiu roupas limpas, se perfumou, ascendeu o abajour. Abriu o pacote e retirou com o maior amor que podia um coração que fora descartado. Cuidou de suas feridas, envolveu-o em seu colo, chorou sobre as dores que nem imaginava a quem perteciam.

Passado um mês, ele se pôs de vigília sobre o mesmo lixo da esquina. Trazia consigo o coração já saudável, batente, forte. Procurava o dono ou a dona daquele coração. Depois de horas e de uma multidão de pessoas que passaram ali, ele avistou um senhor calvo, idoso, triste. Aproximou-se do homem e lhe entregou o pacote dizendo que aquilo pertencia a ele. O senhor se espantou, abriu o embrulho e viu ali seu próprio coração, recomposto, fortalecido. Já não precisaria mais sofrer. Quando levantou os olhos no intuito de agradecer à alma bondosa que cuidara de seu coração, o homem já não estava mais lá. Ele estava longe, vasculhando outros lixos, à procura de novos corações.

Desnecessidade

Eu não preciso que você goste de mim. Já precisei, hoje não preciso mais. Já fiz de tudo para conseguir um sorriso seu, perdia noites interpretando seus gestos, buscando compreender se você estava zangado comigo, ou se aquilo não passava da minha imaginação. Se você andava triste, eu achava que a culpa era minha. Se estava feliz, era certo que eu não fazia parte da sua felicidade. Você era o centro da minha vida, e eu andava às voltas, próxima ou distante, mendigando carinho e atenção.

Às vezes você partia para tão longe que eu te perdia de vista. Às vezes, estando do meu lado, fazia questão de demonstrar que eu não era o centro de nada. Eu te amava e você deixava claro que não se importava. Você me acudia, mas só quando era completamente necessário. E nessas horas eu acreditava que você me amava. E nessas horas eu te amava, mais.

Hoje não sei bem por onde você anda. Mas te percebo numa cara fechada, num bom dia não correspondido. Numa recusa a ir comigo ao cinema. Te percebo no falatório cotidiano que diz e diz e nem se preocupa em perguntar como estou me sentindo. Te percebo no silêncio do telefone, que por dias e dias não toca, não chama.

Te percebo, mas não me importo mais. Não preciso mais que você goste de mim. Nem mesmo penso que não preciso, mas seria bom se você gostasse. Não me importo mais. Eu continuo podendo amar a quem eu quiser. E amo. Amo muito. Amo a muitos. E minha sina continua sendo amar, mesmo que os outros não me amem de volta. Mas não sofro mais. Não preciso mais. Hoje aprendi que o amor é bênção para quem o tem, para quem o cultiva. E que sempre haverá um sorriso inesperado, um convite no meio da tarde, um abraço que acolhe naquele lugar que a gente pouco espera.

Hoje não preciso mais que você goste de mim, porque aprendi a perceber que não amo sozinha e que sempre há uma mão estendida, que de tanto olhar para você eu não percebia. Hoje aprendi que há sempre alguém à espera, que deseja me transformar no seu objeto de amor. E são essas pessoas que hoje recebem os meus sorrisos e desejos de bom dia. E então, eu não preciso mais que você goste de mim.