Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Dezembro, 2011

Procura-se

Procura-se um sócio, ou sócia, se existir tal palavra. Alguém que se disponha a adentrar comigo em aventuras criativas, em longos períodos de observação, em conversas que são como círculos em que a gente circula e circula e se confunde e se aproxima. Procuro um parceiro ou parceira que acredite que vale a pena perder tempo olhando para as cerejeiras.

O que almejo hoje é diferente dos planos de quando eu tinha apenas 15 anos: um parceiro no amor não é suficiente para todos os planos e projetos que pretendo realizar na vida. Para realizar tais sonhos preciso de mais: mais amigos, mais parceiros, mais amores indefinidos.

Há inúmeras vagas para inúmeros sócios: sócio no amor, sócio no trabalho, sócio na poesia, sócio na culinária, sócio nos sonhos humanitários de paz e justiça, sócio nas taças de vinho, sócio nos prazeres da arte, sócio nas corridas de bicicleta, sócio no cultivo de azeitonas, sócio nas reclamações gerais da vida, sócio na religião, sócio no prazer da leitura e da escrita, etc, etc, etc.

Mesmo que algumas destas vagas se encontrem preenchidas, há espaço para mais, sempre há espaço. Há espaço para uma nova parceria, para uma nova empreitada, para uma nova conversa. Há espaço, sempre, para aqueles que se dispoem a observar as cerejeiras.

Peço a todos que divulguem as vagas. São muitas. Os critérios, apesar de rígidos, são poucos. Basta desejar, com desejo singelo, dividir um projeto, almejar algo para além do parco cotidiano que nos rodeia. Basta, apenas, desejar ser sócio na vida. Não precisa enviar fotografia três por quatro. Basta dizer qual é a sua cor preferida.

Os benefícios da função serão construídos conjuntamente, mas há garantias de que trarão alegrias inesperadas, surpresas cotidianas de uma vida compartilhada, de amor e amizade e companheirismo. Procura-se.

 

 

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Aquilo que não vivi

Para Bruno Faria e Flora Tahan

E se eu tivesse sido menos tímida? E se tivesse sentido menos medo? E se eu tivesse aceitado o convite para o encontro com aquelas amigas ainda tão pouco amigas?

E se eu tivesse escolhido outra profissão? E se tivesse me casado com outra pessoa? E se eu tivesse fugido de casa aos 17 anos?  E se tivesse trocado de religião?

E se eu tivesse me mudado para os Estados Unidos? E se tivesse escolhido aprender alemão? E se eu não tivesse faltado às aulas finais daquele curso chinfrim?

Se tudo tivesse sido tão diferente, se eu não tivesse me recusado a tantas alegrias por pura timidez, se eu não fosse tão preguiçosa certamente meu mundo seria radicalmente outro. Não seria para um certo número em Camboriú que eu ligaria nos dias mais difíceis, nem seria a quinta feira o dia escolhido para fazer preces e ouvir boas novas dos céus. Eu não teria sonhado em ter uma casa no alto da colina, nem teria decidido previamente os nomes de todos os filhos que um dia virão, certamente virão.

Se eu tivesse tido menos pressa, e demorado mais os anos da minha formação, se tivesse me quedado mais em silêncio e observado mais os que me rodeiam, certamente a mesa que se forma à minha frente seria outra: outros rostos, outro endereço, pratos certamente diferentes, receitas típicas de outras mães, não essa, não essa em especial.

O que vejo à minha frente, no entanto, são rostos queridos, velas ao lado dos pratos, comemoração, alegria de termos nos encontrado nesse mundo, amigos tão irmãos que em momento algum eu desejo poder fazer outras escolhas. Não há cadeiras na mesa para os amigos que não conheci. Não há espaço para as escolhas que não fiz.

Há, por sua vez, uma esperança enorme de que no ano que se aproxima a mesa se multiplique, que se atente a cada rosto aflito, que se perceba o sorriso que se abre para uma amizade, e que sempre se vele por tudo aquilo que foi escolhido, e que o escolhido seja sempre o mais desejado, e assim aquilo que não fomos não nos atormente, porque aprendemos a amar com desejo ardente aquilo que a vida nos proporcionou de forma tão generosa.

Coração de Papai Noel

Eu ainda era pequena quando duvidei da existência do Papai Noel. Certo Natal ele simplesmente não apareceu e não se falou nada mais a respeito. A janela continuava com a pontinha aberta que eu havia deixado no dia anterior, mesmo assim ele não veio e ficou por isso mesmo.

Por algum tempo, já crescida, tinha certa raiva no velhinho a tirar a atenção do bebê que nascia no estábulo e nos trazia boas novas. Se ele existia mesmo, eu não me importava muito.

Aos poucos fui percebendo, porém, que muita coisa boa acontecia por causa do tal velhinho, ou para que se garantisse a lenda, a boa história. A mais bonita delas, pra mim, foi a campanha dos correios, em que pretensos papais noeis podem ir até uma agência, retirar uma carta com um pedido de uma criança e realizar seu sonho. O papai noel se multiplicou, distribuiu bicicletas, computadores, bolas, cadernos, video games, calçados, raquetes de tênis, livros, caixas de bombom, tudo, tudo o que se imaginar, tudo chegou às mãos daquelas crianças que acreditaram na existência do bom velhinho.

Existem aquelas crianças, no entanto, que desconfiam que o papai noel mora em casas de bairros de classe média das cidades, e por isso, não levam suas cartinhas até uma agência do correio, mas poupam o trabalho do velhinho de ter de ir buscá-las e já deixam seus pedidos nas próprias residências. Foi assim que encontrei a carta de Fabiana jogada no meu quintal.

A carta, evidente, era dirigida ao Papai Noel, mas como estava em minha casa, me furtei a lê-la – quem sabe eu pudesse alcaçar o pedido de uma criança de 12 anos. Já me via saindo da inércia do mês de dezembro, entrando às pressas em uma loja de brinquedos, procurando por algo certamente novo no mercado, que eu logicamente ainda não conhecia.  Mas a carta guardava surpresas para o meu coração já cansado dos primeiros dias de dezembro.

Nas primeiras linhas, escritas ainda com letra de criança – formato arredondado, esmero no desenho de cada letra – Fabiana se apresentava, contava a sua idade e dizia que gostaria de ganhar uma cesta básica de Natal. Um susto. Não continuei a leitura. Nó na garganta. Uma cesta básica era o que a Fabiana me pedia de Natal. E eu, já disposta a dar-lhe o mundo dos briquedos inúteis, pronta a qualquer tipo de esforço, quedei paralisada. Uma cesta básica.

Tomo novo fôlego e continuo a leitura da carta. A letra da Fabiana, a partir de então, muda, seu esmero no desenho se transforma em garranchos e ela começa a me explicar que a mãe, sozinha, tem muita dificuldade em sustentar seis filhos, que há seis anos se separou do marido e por isso ela ficaria muitíssimo feliz se eu pudesse dar a ela uma cesta básica de natal. Muitíssimo feliz foi o termo que a Fabiana, de doze anos, usou. Por fim, me desejou um Feliz Natal e indicou abaixo o seu endereço.

  A carta ficou sobre minha mesa, não sei o que fazer com ela. Foi se desenhando na minha mente a imagem triste da mãe sentada na esquina, com um nenem no colo, as outras crianças correndo pela rua pedindo dinheiro, e levando depois o dinheiro para a mãe, sentada, gritando, xingando os filhos. Os filhos implorando por algo para levar para a mãe, pode ser comida, moça. E a maçã que a criança ganha primeiro ela leva para a mãe, que joga ao largo, da próxima vez vê se me traz dinheiro, moleque. Da próxima vez a criança aprende que se ganhar comida deve de comer antes que a mãe veja.

Essa cena triste pode, no entanto, não ser verdade. Imagino então a Fabiana dizendo à mãe que quer pedir um notebook para o Papai Noel, para poder fazer os trabalhos da escola, a Carol, sua colega, ganhou um usado no último Natal, deixou a cartinha no correio e enviaram para ela. A mãe sorri um sorriso triste mas iluminado, e diz à Fabiana que elas poderiam fazer melhor, poderiam pedir ao Papai Noel no correio um notebook, e poderiam também pedir ali naquele bairro algumas cestas básicas, que as pessoas que moram lá costumam ser muito boas, e assim elas poderiam ficar tranquilas por um mês inteiro se conseguissem pelo menos umas cinco cestas. A mãe de Fabiana tem então a brilhante ideia de escreverem várias cartas, pedindo ao papai noel uma cesta em cada uma. Uma linha de produção. Na décima carta, no entanto, a Fabiana diz para a mãe que a mão dói, que ela não aguenta mais escrever, e fica sonhando, calada, com o notebook do verdadeiro Papai Noel.

A mãe termina assim a última carta, com sua própria letra, com suas próprias razões. Coloca no envelope já preparado pela filha, com a letra da filha, e sai no dia seguinte meia hora mais cedo para o trabalho. Distribui dez cartas em dez casas de boa aparência, com grandes quintais na frente, dando preferência para aquelas que já possuem algum enfeite de Natal. Certamente nesse lares o espíriro natalino fará com que o papai noel presente no coração de cada um lhe ofereça uma cesta básica. Afinal, é tão pouco, minha filha só pede ao uma cesta básica de Natal.

A carta ainda está em cima da minha mesa. E eu cheia de curiosidade em saber o que de fato a Fabiana pediu ao Papai Noel.

 

Conselhos para menina

Abre o peito, menina! Abre bem o peito que é com o peito aberto que se lida com a vida! Esconde esse seu medo de menina, essa sua timidez. Levanta esses seus olhos baixos, e acima de tudo, ama. Ama sem medo.

Você ainda se lembra de quando o mocinho mais bonito da escola paquerava a sua melhor amiga. Ainda se lembra de quando esperava uma carta e ela não chegava. Você ainda se lembra da alegria que passava ao largo, da festa no interior da vitrine, dos seus passos solitários na calçada. Você ainda se lembra do segredo que sua melhor amiga não te contou. Ainda se lembra do resultado daquele concurso, em que você fazia parte do pequeno grupo não selecionado.

Abre o peito, menina! Não pense que essas lembranças são suficientes, que outras mais não virão. Pessoas queridas irão embora. Você perderá dinheiro e sentirá, talvez, a dignidade te escapando. Perderá ainda a beleza. Um dia já não será jovem mais. Não desanime, não se entristeça. Mesmo que a dor não te faça em nada melhor.

Abre o peito. Espera. Ama. Ama com o coração simples aqueles que te agradam. Ama. Mesmo que eles não te respondam, mesmo que eles não se interessem. Ama e espera. Porque é com o peito aberto que se reconhece a beleza do mundo, e só com paciência será possível perceber a pequena folha crescendo naquela haste seca – quase morta. Seus cuidados não foram em vão. Espera.

Por isso, menina, abre o peito! Não tenha medo da dor, não tenha medo da espera, ama com o coração aberto. O mundo há de perceber o seu amor, e há de te recompensar. Não se envergonhe da sua tristeza, nem do seu amor. E principalmente, não se envergonhe da sua alegria. Ela é folha que cresce enquanto você cuida de hastes aparentemente estéreis. Abre o peito, menina, e ama. Ama sempre.

Prece à Chuva

Senhora Chuva,

Eu não sou católica e nem moro na floresta, por isso não vejo outra maneira de me dirigir a você a não ser pelo seu próprio nome e em tom grave. Não posso rogar a São Pedro, nem à deusa da floresta, nem sei mesmo se você é uma deusa, se é espírito, ou se algum santo zela pelas suas atividades.

Por isso me dirijo à senhora e te imploro que se atrase um pouco, que não caia sobre nós agora, nem no fim da tarde, nem ainda essa noite. Se segure, saboreie seus tanques cheios, esse seu quase transbordamento. Se esbalde dessa sua amplitude só um pouco mais, se delicie com a nossa espera, com o nosso anseio.

E se te peço que se atrase não é  porque tenho medo de trovões, nem mesmo porque esqueci meu guarda chuva – eu não me importo em nada de chegar em casa repleta da sua água. Meu pedido também não se deve às roupas no varal, quase sequinhas quando saí de casa, e nem me preocupo agora com as muitas casas com tetos de papel que abarrotoam essa cidade.

Senhora Chuva, o que te peço é que tenha piedade da minha solidão. Estou longe de muito do que amo, e as tempestades de verão só fazem piorar a minha saudade. Saudade daqueles anos em que eu e meu irmão esperávamos impacientes o final do temporal, pegávamos escondidos nossas bicicletas e saíamos às pressas pelo bairro inundado, à procura de alagamentos, correntezas, lamas, e voltávamos para casa orgulhosos, com a camiseta tingida de barro, como um troféu. Minha mãe nem se zangava: nossas almas infantis já purificadas pela alegria de uma jornada encharcada.

Saudades da piscina da fazenda, com sua água gélida que se tornava morna assim que chovia, e minha avó tocava a chamar as crianças para sair da água: um raio podia cair e nos acertar a qualquer momento! Fora da piscina, na varanda da casa, ficávamos meus primos e eu, a boca roxa, os dedos engruvinhados, esperando, olhando para a chuva, olhando para a piscina. Olha ali um sapo! Onde? Ali! Onde? E eu, a criança mais nova, a mais infantil, quando dava por mim, já tinham tomado todo o meu refresco. Refresco sabor de chuva.

Esses tempos, Senhora Chuva, já ficaram longe, mas é no verão que sinto mais saudades. E as sinto também porque geralmente quando chove eu estou dentro de um carro, no meio de uma multidão de carros, e estamos todos sozinhos, e o barulho da chuva é tanto que eu nem mesmo consigo ouvir a rádio, nem mesmo consigo falar ao telefone. E não sei mais ficar ficar em silêncio, me calar frente ao espetáculo de sua tempestade. E isso, Senhora Chuva, porque estou sozinha. Porque estamos todos sozinhos.

Por isso te peço que se atrase, que espere um pouco. Preciso, antes de mais nada, de um remédio para a solidão. Quem sabe amanhã, Senhora Chuva, eu já tenha encontrado uma solução, alguma distração para essa saudade, e talvez eu consiga debruçar meu corpo na janela aberta, observando calmamente cada pingo, contando cada gota que cai da soleira. Por hoje, Dona Chuva, infelizmente, eu não consigo.

Espere, por favor, espere.