Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Cartas

Por um mundo melhor

Prezada Sílvia,

Pode parecer estranho a você estar recebendo uma carta escrita por mim, mas para mim, acostumada com certos desentendimentos em minha casa, percebi que escrever cartas é um meio eficaz de lidar com alguns conflitos. Tendo em vista sua agressividade recente frente a minha presença, acredito que uma conversa cara a cara seria praticamente impossível, para não dizer um pouco perigosa para a minha integridade física. Preferi, então, escrever.

 Em primeiro lugar gostaria de dizer que respeito profundamente seu estado físico de pós parto. Apesar de não ser mãe, eu posso imaginar o cansaço e o nervosismo de ter de cuidar de dois bebês tão pequenos e já tão exigentes: abandonar momentaneamente os filhos para buscar comida para sustentá-los deve ser algo devastador. Posso imaginar também sua alegria ao retornar e encontrá-los em segurança, com a suas bocas escancaradas à espera daquilo que você buscou para eles.

Acredito que esteja passando por um momento delicado, já que seus filhotes cresceram um pouco, o que faz com que não haja mais espaço para você no meio deles, te colocando ao largo, velando por eles de longe, cuidando para que ninguém se aproxime. Talvez seja por isso que você se coloca na árvore em frente, e pia como uma louca quando nos aproximamos da garagem onde o ninho foi construído.

E é por isso que estou te escrevendo, Sílvia, para te dizer que não pretendemos machucar os seus filhotes, e que você pode piar loucamente, mas por favor, pare de nos atacar. Eu me sinto extremamente desconfortável ao pensar que você pode me ferir com seu bico enorme, bico de mãe zelosa que usa as armas que tem para defender uma das poucas coisas que realmente importam na vida. Sei que você é apenas uma beija flor, mas deve de julgar que os filhos são umas das poucas coisas que importam na vida.

No fundo, acho difícil você acreditar em mim. Quando eu digo que não irei machucar seus filhotes, nem destruir o ninho que você construiu com tanto zelo, tenho uma quase certeza de que o que digo não importa. Você me vê ao longe, olha pros seus filhotes, avalia o risco e prefere atacar. E investe contra mim. E tenta me machucar. Mesmo que seja eu quem ofereça toda a possibilidade de um lugar para você gerar seus filhos, mesmo que seja eu quem forneça água para o jardim, garantindo uma vida melhor para vocês. Desconfio que na verdade isso tudo não importa: você se torna cega toda vez que alguém se aproxima das suas crias.

Se nada importa, essa carta é, na certa, inútil. Mas eu, Sílvia, sou uma pessoa apegada às palavras, acredito nelas, acredito no poder que elas carregam em si. Por isso, ainda assim, prefiro te entregar esses dizeres, fazendo a promessa de que não vou machucar os seus filhos. Se te importar, te peço também que pare de nos amedrontar com seus voos rasantes e seu bico afiado. Talvez pudéssemos, assim, viver em maior harmonia, garantindo um mundo melhor para os seus filhos e para todos os moradores desta casa.

Atenciosamente.

Boas vindas

Prezada Nara,

Só hoje me dei conta de que você é mais uma moradora de nossa casa. De todas as outras vezes que nos encontramos, no susto que levava, eu não percebia que eram sempre os mesmos olhos a me encarar. Eu não percebia que era sempre você. E hoje, enquanto eu aguava o tomilho, você não pulou na minha direção – o que me colocaria, mais uma vez, em estado de pânico – mas me olhou quieta enquanto eu despejava borbotões de água sobre você.

Meu primeiro intuito foi te enxotar da horta a vassouradas, mas você me olhava com olhos tão fixos, tão certos. Hesitei. Você teve a coragem que me falta: olhou o inimigo nos olhos e não recuou enquanto não reconheceu naquele olhar a piedade e a bondade de quem escolhe não liquidar uma pequena perereca que lhe incomoda. Eu era infinitamente maior do que você, mas o seu olhar me encarou com coragem até reconhecer uma fisga de esperança nos meus olhos. Foi quando decidi recuar e deixar de lado minhas estratégias de guerra contra você.

E já que agora sei onde você mora e posso te reconhecer transitando pela minha casa – não são inúmeras pererecas, é apenas você – é necessário, em primeiro lugar, que você ganhe um nome. E ao te dar um nome, Nara, eu te aceito e te reconheço como única. Não que todas as pererecas do mundo possam se aproximar de mim a partir de agora, mas você, com o seu olhar, abriu fendas no meu universo até então interditado para as pererecas.

Em segundo lugar, é preciso estabelecer algumas regras. Eu sei onde você mora – no tomilho – e você também deve saber onde eu moro. Eu, sinceramente, não gostaria de te encontrar no meu quarto ou no meu banheiro. Se assim acontecer, desconfio que nem sequer seu olhar será capaz de abrandar a minha fúria.

A casa é grande, eu sei, mas eu também não gostaria que você fizesse festas e nem recebesse visitas. É preciso, antes de tudo, manter a ordem e a intimidade do nosso lar. Se você se sentir muito sozinha, te peço encarecidamente que saia um pouco, vá dar uma volta, passear pela cidade. Sabe, Nara, a cidade é bonita, cheia de gente, muitos carros, as possibilidades são enormes.

Por fim, reconheço que foi com alívio que te encontrei hoje. Não por saber agora que não são muitas as pererecas, mas porque de certa forma você me faz companhia. Você ama o jardim e suas flores tanto quanto eu. Você se regozija com a água caindo sobre a terra, e sente, como eu, o perfume que ela exala ao ser regada.

Espero que a convivência possa ser boa, e te peço que, sempre que preciso, antes de sair pulando por aí, me entregue sempre esse seu olhar.

Atenciosamente

RE: Carta Recolhida

A sua última carta chegou há mais de um ano. Não posso dizer que não tive tempo de respondê-la, na verdade eu não teria o que dizer. Até porque na sua carta você me contava, em poucas linhas, que tinha recolhido uma outra carta, quedada perdida na cidade. Como eu não li essa outra carta, não sei do que ela trata, não posso dizer nada sobre o que estava escrito nela.

Depois do seu comunicado, dizendo que havia recolhido a tal carta, fui, finalmente, no restaurante que você tinha me indicado. Procurei o vaso de flor perto do banheiro, e vi que na verdade não era um vaso de flor, e sim um pequeno arbusto. Não importa. Não importa mais. Pensei então que foi ali, naquele arbusto, que a tal carta ficou esquecida por quase dois anos. Ninguém a viu. Ninguém notou. Ninguém se interessou. Seu conteúdo certamente envelheceu, não importava mais contá-lo a ninguém, nem a mim, sua destinatária desinteressada em seu conteúdo.

E nesse um ano, desde que sua última carta chegou, ensaiei várias visitas: pensei em te levar doces mineiros, com um naco de queijo. Mas te visitar seria dizer que você tinha razão – tinha razão em recolher a carta que era minha, que era pra mim – e talvez você entendesse a visita e os doces como um pedido de desculpas. Eu não lhe devo desculpas.

Não foi só a carta esquecida no arbusto que envelheceu. Nós envelhecemos. Não foi só ela que passou despercebida por tanto tempo naquele restaurante. Nós não percebemos. Foi só na sua última carta, com suas três linhas diretas, secas, estaladas que entendi você. A sua mágoa não vinha do conteúdo da carta que eu não li. Eu não percebi – e você se entristeceu.

Eu poderia aqui dizer de tantas coisas que você também não percebeu. Mas prefiro falar daquelas que você não teria como saber, se eu não te contasse: o maracujá que plantei no quintal da minha casa finalmente deu flor, e acredito que em alguns dias dará frutos também. A flor é linda, parece uma bailarina, com uma saia rodada, e o corpo apertado em um corpete roxo, só de olhar para ela sinto vontade de dançar. Queria que ela ficasse sempre assim, em flor, em dança, em movimento. Mas sei que logo a flor vai dar espaço para a fruta, e se eu quiser comer a fruta ela vai precisar murchar e ficar toda envelhecida. Envelhecida como nós.

A bailarina no meu quintal ainda espera cartas suas. Mesmo que elas estejam escondidas em lugares que ela não tenha como buscar.

Com o meu carinho.