Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de chuva

Dias a fio

De todos os seus talentos, era a sua capacidade mágica de fazer chover nos dias secos o que mais me acalmava o coração. Sereno que vinha do céu e de seus olhos cansados, cansados de velar, dias a fio, a terra seca e o meu amor sem direção.

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A chuva molhou meu queijo

Chovia muito durante a tarde. Corri para fechar as janelas e vi que tinha esquecido um queijo descoberto na pia da cozinha. O vitral sobre a pia também estava aberto. A chuva molhou o meu queijo. Olhei para o queijo molhado, e enquanto tentava secá-lo e guardá-lo rapidamente, pensei na frase “a chuva molhou o meu queijo” e me lembrei de um certo livro que me parece que vendeu horrores, com o nome parecido “Quem mexeu no meu queijo?”.

Sucesso de vendas. Vi uma tia comprando o livro para seus sobrinhos adolescentes. Ouvi alguém dizendo que se tratava de um livro de autoajuda para negócios. De tudo, só não ouvi rumores de que era uma peça de teatro. Eu não sei dizer. Não li o livro. Não peguei o livro na mão, não folhei suas páginas. Não faço ideia do que se trate.

Mas minha recusa não termina por aí. Também não assisti à Paixão de Cristo, não sei qual é a trama do Harry Porter, não conheço o Avatar e desconheço seu significado. Na minha lista de não-lidos e não-assistidos o pior dos crimes parece ter sido não assistir à trilogia do Matrix. Pronto, falei.

Não. Não termina por aí. Há anos atrás eu assistia a uma aula na Escola de Comunicação e Artes da USP, junto com a turma de comunicação, e o assunto era a repercussão internacional sobre os hábitos etílicos do presidente Lula. Eu virei para a minha colega do lado, discretamente, e perguntei: “o que aconteceu com o Lula?”. É evidente que ela se ofendeu, e antes de me contar, indignada, o caso do jornalista que havia dito que o Lula era um pinguço, me repreendeu seriamente por ser tão desligada.

Para terminar, na última feira do livro que aconteceu na USP, onde havia um número incrível de editoras vendendo tudo pela metade do preço, com um número mais incrível de pessoas ávidas comprando e comprando e comprando todos os tipos de livro, eu parei na banca da Biruta. E parei porque a ilustração de um livro infantil, com uma menina com um nariz enorme e as bochechas completamente vermelhas, me chamou a atenção. Evidente que a ilustração me chamou atenção porque a banca estava vazia, e era possível ver tranquilamente todos os livros em exposição. Parei e ali fiquei. Enquanto folheava alguns dos livros, seus vendedores me contavam estórias e estórias infantis, seus olhos brilhavam, e eu no intuito de possuir aquele brilho no olhar, comprei quase a banca inteira.

Não passei na banca que vendia livros de antropologia – minha área de pesquisa. Nem quis visitar o espaço onde se encontrava a Companhia das Letras: tudo estava muito cheio. Corri para casa para devorar meus livros novos e a cada livro eu ia descobrindo um novo segredo. Quando me viram saindo com a sacola da Biruta, perguntaram se eu estava planejando ter filhos e por isso já estava equipando sua pequena biblioteca. Talvez.

As notícias cotidianas não me contam segredos, apenas me dão repertório para conversar com os adultos. Sem dúvida alguma Avatar, 300, Matrix e outras grandes produções falam muito sobre a nossa época e podem até ensinar alguma coisa a alguém. Assim como ler o jornal. Mas ainda prefiro os segredos dos livros infantis, seus castelos cheios de mistérios, a conversa entre a dona baratinha e o seu baratão. E quando penso de novo na frase “a chuva molhou o meu queijo” já me embrenho por possíveis estórias de ratinhos bêbados, terras distantes onde a chuva lava a louça e tudo o que há perto dela, queijos milagrosos que curam dor de barriga, dor de cotovelo e dor de amor. E nisso, sem dúvidas, há muito pouco espaço para o que acontece com o presidente da república. Sinto muito.

Crônica premiada no concurso Literacidade.

Prece à Chuva

Senhora Chuva,

Eu não sou católica e nem moro na floresta, por isso não vejo outra maneira de me dirigir a você a não ser pelo seu próprio nome e em tom grave. Não posso rogar a São Pedro, nem à deusa da floresta, nem sei mesmo se você é uma deusa, se é espírito, ou se algum santo zela pelas suas atividades.

Por isso me dirijo à senhora e te imploro que se atrase um pouco, que não caia sobre nós agora, nem no fim da tarde, nem ainda essa noite. Se segure, saboreie seus tanques cheios, esse seu quase transbordamento. Se esbalde dessa sua amplitude só um pouco mais, se delicie com a nossa espera, com o nosso anseio.

E se te peço que se atrase não é  porque tenho medo de trovões, nem mesmo porque esqueci meu guarda chuva – eu não me importo em nada de chegar em casa repleta da sua água. Meu pedido também não se deve às roupas no varal, quase sequinhas quando saí de casa, e nem me preocupo agora com as muitas casas com tetos de papel que abarrotoam essa cidade.

Senhora Chuva, o que te peço é que tenha piedade da minha solidão. Estou longe de muito do que amo, e as tempestades de verão só fazem piorar a minha saudade. Saudade daqueles anos em que eu e meu irmão esperávamos impacientes o final do temporal, pegávamos escondidos nossas bicicletas e saíamos às pressas pelo bairro inundado, à procura de alagamentos, correntezas, lamas, e voltávamos para casa orgulhosos, com a camiseta tingida de barro, como um troféu. Minha mãe nem se zangava: nossas almas infantis já purificadas pela alegria de uma jornada encharcada.

Saudades da piscina da fazenda, com sua água gélida que se tornava morna assim que chovia, e minha avó tocava a chamar as crianças para sair da água: um raio podia cair e nos acertar a qualquer momento! Fora da piscina, na varanda da casa, ficávamos meus primos e eu, a boca roxa, os dedos engruvinhados, esperando, olhando para a chuva, olhando para a piscina. Olha ali um sapo! Onde? Ali! Onde? E eu, a criança mais nova, a mais infantil, quando dava por mim, já tinham tomado todo o meu refresco. Refresco sabor de chuva.

Esses tempos, Senhora Chuva, já ficaram longe, mas é no verão que sinto mais saudades. E as sinto também porque geralmente quando chove eu estou dentro de um carro, no meio de uma multidão de carros, e estamos todos sozinhos, e o barulho da chuva é tanto que eu nem mesmo consigo ouvir a rádio, nem mesmo consigo falar ao telefone. E não sei mais ficar ficar em silêncio, me calar frente ao espetáculo de sua tempestade. E isso, Senhora Chuva, porque estou sozinha. Porque estamos todos sozinhos.

Por isso te peço que se atrase, que espere um pouco. Preciso, antes de mais nada, de um remédio para a solidão. Quem sabe amanhã, Senhora Chuva, eu já tenha encontrado uma solução, alguma distração para essa saudade, e talvez eu consiga debruçar meu corpo na janela aberta, observando calmamente cada pingo, contando cada gota que cai da soleira. Por hoje, Dona Chuva, infelizmente, eu não consigo.

Espere, por favor, espere.