Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de violência

Perigo!

Era dia de semana e eu estava sentada no metrô. À minha frente, uma senhorinha, dessas de cabelos branquinhos, sentou no assento preferencial. Uma mulher, com uma menininha de uns quatro anos se sentou ao lado e as três se acomodaram no banco para duas pessoas. Mas a menininha estava incomodada, ela queria o assento só para ela. O quê fazer? A menina começou, então, a bater na velhinha. Claro, eram socos de criança, não doíam, e a velhinha, constrangida, nem reclamava. Mas a menina insistia, batia e gritava com a velhinha, que fazia que não via. E a mãe? Também constrangida, acredito, se levantou e deixou a menina sentar sozinha no assento que antes dividia com ela. Na estação seguinte a senhorinha se levantou e deixou o vagão.

No domingo seguinte ligo o noticiário e vejo cenas terríveis: num estádio de futebol duas torcidas se enfrentam e as câmeras de vídeo flagram uma enxurrada de socos e pontapés em vítimas já inconscientes. Quatro feridos vão para o hospital, se pergunta onde raios estava a Polícia Militar, que afirma que foi impedida pelo Ministério Público de fazer a segurança do jogo e etc. O país se revolta com a violência e aquelas cenas miseráveis rodam o mundo e depõem contra o país do futebol. Questiona-se se estamos diante de seres humanos ou de uma cena de extrema selvageria.

Diante da menina que dava socos infantis na senhorinha eu não fiz nada. Ninguém fez nada. A mãe não fez nada. Ninguém disse a ela que a violência é uma linguagem que não vale a pena. Ao contrário. Ela, tão pequena, conseguiu o queria com seus esforços físicos desmedidos: poucos segundos depois ela recebeu um assento só pra ela. A violência, para a nossa pequena protagonista, funcionou.

E a verdade é que a violência tem funcionado em nossa sociedade desde os tempos dos portugueses atracando nas praias brasileiras. Desde a catequese dos jesuístas que conquistavam milhares de indígenas para a fé cristã. Desde o primeiro passo do desenvolvimento econômico do Brasil, violentando pernas e braços negros. Desde o primeiro corpo policial criado para salvaguardar a ordem dos ricos e brancos. Desde nosso primeiro abecedário com o castigo que ardia nas mãos dos que erravam uma letra. Desde.

Desde o metrô até o estádio. E nos revoltamos apenas com o estádio. Ou também com o menino que leva um tiro de outro menino na porta do prédio. Ou. Mas não nos revoltamos com uma criança que já aprendeu a tratar o outro como ninguém. Não nos revoltamos com uma menina que já sabe usar a violência como meio de atingir seus desejos mais sinceros. Não nos revoltamos com o policial que espanca o bandido, afinal, bandido bom não existe, não é mesmo? Não nos revoltamos com pais que batem em filhos, afinal, um tapinha não dói, e a vara serve como ensinamento.

E por que mesmo nos revoltamos com a cena no estádio de futebol? A violência é eficaz, tendo sido para nós há tantos e tantos anos. E pensando bem, pra quê se revoltar, menininha esperta essa, não? Já sabe como alcançar o que quer. Essa sim, vai ser alguém na vida, tem personalidade e atitude. Só resta saber o mundo que a espera e que ela nos ajuda a construir. A vida é, sim, muito perigosa.

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Satanás, de Mário Mendoza

Satanás, Mário Mendoza

MENDOZA, Mário. Satanás. Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2009. 279 páginas.

Quando terminei de ler o livro Satanás, de Mário Mendoza, achei que a vida não prestava. Fiquei desanimada, abatida. Tive que sair de casa, tomar um ar. Mas ao sair,encontrava com gente, e a gente toda me desanimava ainda mais. Voltei pra casa. Me fechei. Melhor ficar sozinha, tentando pensar que o mundo não existe, que não há maldade, não há violência, não há medo. Há apenas a segurança do meu lar, aqueles que amo, o cheiro do aconchego, a vida sem conflitos, sem dores, sem doenças.

O livro de Mendoza é diferente de outros colombianos que já li. É diferente, ainda, de outros livros que tratam a temática da violência, tanto colombianos quanto não colombianos. Primeiro, porque trata não da violência, mas da existência do mal. Por isso o nome, Satanás. O que rege a trama do livro são as histórias em que cotidianamente o mal trinfa, e triunfa em todas as esferas: na vida cotidiana de um padre caridoso, nas relações confusas de um pintor jovem e talentoso com sua ex namorada, nos sonhos de uma moça órfã que procura sobreviver na selva da sociedade colombiana. O mal triunfa na vingança, na culpa, na luxúria, nos ciúmes. O livro é uma falta completa de qualquer esperança.

Ler o livro de Mendoza me ajudou, no entanto, a compreender um pouco mais a natureza humana, ao tratar da ambiguidade do mal que existe em cada um. A vítima que se torna agressor, e que noutro momento se torna vítima novamente. Ninguém está a salvo. Nem de um lado, nem de outro. O agressor que implora para não ser torturado. A vítima que ri da covardia de seu agressor.

Todas essas questões se encontram mescladas nas diversas tramas presentes no livro Satanás. São três histórias aparentemente diferentes que culminam num único desastre: o livro de Mendoza se reporta a um acontecimento real na Bogotá dos anos 1980. Campo Elías, um reformado da Guerra do Vietnã, numa noite sai de seu apartamento, onde assassinou a mãe e pôs fogo no cadáver e se dirige a um restaurante de alto luxo num bairro de Bogotá. Lá, depois de jantar, ele saca seu revólver já armado e dispara contra os demais clientes. Quase 30 pessoas morreram neste massacre e quando a polícia chegou, o atirador supostamente se matou.

Essa história pode ser encontrada nos jornais da época. Mendoza conheceu o atirador, foi seu colega na faculdade. Ele afirmou em entrevistas que Campo Elías era um homem estranho, como todos eram na faculdade naquele tempo. Um pouco solitário demais, apenas isso. Mendoza levou mais de quinze anos para escrever o livro e conseguir resolver a história que ficou dentro de si. A narrativa, portanto, é o resultado de um esforço de Mendoza por contar a história que lhe coube, da maneira como a imaginou. Mendoza recriou as vítimas do massacre a partir de diversas personagens.

O incrível do livro de Mendoza, no entanto, é exatamente as personagens que ele recria e que transitam ao largo de Campo Elías, aparentemente a personagem principal do livro. Campo Elías seria um psicopata, um agressor definitivo. Não há nada de ambíguo nele, não se duvida do que ele seria capaz, ainda que o final do livro surpreenda pela capacidade do mal. As demais personagens, no entanto, vivem um cotidiano trespassado pela violência, transitando entre o bem e o mal, a certeza e a culpa, o amor e o ódio. Uma moça que foi violentada e que manda executar seus agressores, sente alívio com a morte deles e em seguida vai se confessar com um padre católico. Um pai de família que se encontra frente à mais vil miséria e executa suas filhas e esposa por não suportar mais vê-las em total sofrimento. Um padre caridoso que se encontra em constante conflito com sua sexualidade.

Apesar do final desastroso, do massacre no restaurante Pozzetto, são as personagens e seu cotidiano no decorrer da trama que experimentam o mal que ronda, que sussurra, que se apodera das pessoas. São essas personagens que vivenciam a falta de esperança, que lutam para sobreviver e para resistir ao mal.

Não é possível ler Satanás sem se sentir desanimado com a raça humana, sem se questionar sobre esse mal que ronda, que espreita. E depois, bom, aí é melhor tomar uma boa dose de cachaça, procurar ouvir uma música do Tom, ler Vinícius, pedir proteção a qualquer santo, acender uma vela, tomar um banho demorado e tentar pensar que a vida, pelo menos por alguns instantes, pode sim ser boa, e desejar, de coração, que ela o seja para o maior número de pessoas possível. 

Roberto Bolaño: Estrela Distante

Bolano estrela distante

Roberto Bolaño, Estrela distante. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, 143 páginas.

 

Já fazia um tempo que eu estava interessada em ler algo do Bolaño, só tinha ouvido coisas boas dele e sabia que, de certo modo, ele trabalhava em seus livros um tema que me interessa, que é a violência. Na última feira do livro na USP comprei um livro chamado 2666, mas, meu pai surrupiou meu exemplar antes que eu pudesse lê-lo. Tudo bem, as mais de oitocentas páginas do livro me assustaram, e pensei então a começar a ler o Bolaño por outro livro, mais curto, enquanto espero meu pai ler o exemplar de 2666.

Que o Bolaño era bom, eu já imaginava, bons críticos já diziam isso. Mas, como diria minha vó, ele é danado. Em primeiro lugar, porque ele brinca com a narrativa como Garrincha brincava com a bola, acho que podemos colocar as coisas assim. Ele diz o que não é, depois não diz o que é, depois diz que acha que pode ser, mas não tem certeza, depois diz que sim, agora ele tem certeza… O narrador conta uma longa história, dá detalhes, exemplifica, e no fim, diz: “mas talvez nada disso tenha acontecido”. Que raios! E aí, ele continua: “Pode ter acontecido ao contrário, dessa outra maneira”. E por aí vai, nos levando a crer e a duvidar o tempo todo daquilo que está sendo dito. Numa certa altura, ele diz que essa história sim, essa aconteceu dessa mesma maneira exatamente como está contando. Por quê? Oras, por quê, porque ele leu num livro e o livro dizia que foi exatamente assim!

E assim Bolaño vai bricando com o estatudo da narrativa, fazendo o leitor acreditar que aquilo é verdade, depois colocando tudo aquilo em xeque, convidando o leitor a imaginar, do jeito que puder, o que poderia ter acontecido. Danado ele, eu disse.

Bem, e ainda mais danado é que o livro parece um filme de suspense. Pela narrativa você sabe que algo muito sério está para acontecer. Mas ele enrola, te envolve primeiro, cria a cena, faz um intervalo, e você – o leitor – você lá, esperando a cena principal, prevendo que virá sangue, morte, assassinato, alguma coisa que ainda não dá para saber o que é. E aí você lê uma página, precisa parar, ir no banheiro, atender ao telefone, qualquer coisa, e não consegue largar o livro.

E aí, quando a cena vem, o choque é maior do que esperado. Ele te prepara mas, meu amigo, você não está preparado. O estômago revira, o coração acelera. Você fecha o livro e fica com medo de estar sozinho em casa. Não, não tem fantasma, não tem assombração. Tem a violência do homem na sua face mais cínica, mais camuflada, tratada como um meio para o seu fim: a violência como obra de arte.

E é disso que o livro trata, afinal: da arte, da literatura e da forma como tudo isso também pode ter o seu lado sombrio, de como um sistema político violento permite que homens violentos alcancem notoriedade e passem pelo público de forma totalmente impune. Os limites entre arte e violência são peças chave da trama do livro, mas sempre com o pano de funda da ditadura militar chilena, da violência do Estado e da tortura como algo cotidiano e banal em regimes políticos como esse.

Estrela Distante nos coloca face a face com os problemas mais sérios do homem, da humanidade, falando apenas e simplesmente de literatura. Danado, o Bolaño.

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. 111 páginas.

Nada mais atual que este livro de Fernando Vallejo. Se de noite eu lia algumas páginas do livro, em que o narrador vai contando os mortos na cidade de Medellin, pela manhã, ao abrir os jornais, eu lia os mortos da noite anterior na cidade de São Paulo. A Medellin contada pelo narrador me lembrava a cada instante o horror que se tem vivido nos últimos dias na cidade que já foi louvada pela queda brusca dos homicídios em poucos anos. Mas não estou aqui para falar de São Paulo. Estou para falar de Medellín, não a Medellín atual, que não conheço, mas essa que Fernando, o narrador do livro de Fernando Vallejo, nos conta.

Fernando é um gramático que voltou para a cidade de Medellín depois de muitos anos morando no exterior. A cidade que deixou na infância se apresenta agora como um lugar em que o ódio é sentido até mesmo na chuva que cai raivosa e faz transbordar o lixo do esgoto. Em meio a esse cenário, Fernando, já velho, conhece Alexis, um adolescente que trabalha como sicário, o nome dado para os matadores de aluguel. É Fernando, no entanto, que passa a nos contar os assassinatos cometidos por Alexis. Enquanto os dois caminham a via sacra em que Fernando busca conhecer as mais de cem igrejas católicas de Medellín, muitos vão sendo os mortos no meio do caminho, todos pelas mãos alvas e inocentes de Alexis, o menino anjo de Fernando.

As mortes causadas por Alexis são banais, como todas as mortes em Medellín. Um taxista que não abaixa o volume do rádio, um mendigo folgado, um menininho que desafia o guarda local, uma garçonete que se recusa a servir um café. Todos morrem pelas balas do revólver de Alexis enquanto eles caminham em direção às igrejas. E não há nada a fazer. Ninguém reclama seus mortos, nenhuma polícia aparece para investigá-los. E se segue, então, a caminho da igreja.

É Fernando, no entanto, quem conta os mortos e tenta justificá-los. Alexis não precisa justificar nada, é sua profissão, matar é a única coisa que sabe fazer, não é preciso pensar sobre isso. Mas as justificativas para tanta morte ou tão pouca vida não valem a pena. Morreu porque merecia. Melhor morrer do que viver reclamando. Pelo menos agora o primeiro inferno passou, agora só lhe resta o segundo. E assim Fernando vai nos dizendo que a vida, essa vida humana, vale mesmo muito pouco, e o melhor que se faz a um ser humano é lhe oferecer a morte.

Esse cenário de violência nos é apresentado juntamente com uma miséria completa que ronda Medellín. As comunas, algo como as favelas brasileiras, rodeiam a cidade e a vigiam com seus olhos de morte. Ali a vida vale nada, a morte é o que se espera, a vingança é o que movimenta o cotidiano, e os mortos vão sendo jogados em terrenos baldios em que urubus se encarregam de levar a alma para outro lugar.

Fernando, no entanto, é quem nos conta a história e por meio dele sabemos que poucos sobrevivem e chegam à velhice. Ele é um deles, velho que caminha sobre os mortos de sua cidade. A morte não lhe enlaça e ele vai também contando seus próprios mortos. Morre Alexis, morre Wílmar, morre outro. Sua sina é viver e pensar e tentar justificar aquilo que não ocupa a cabeça dos jovens de Medellín, que trocam a vida por um par de tênis, por um café mal servido.

A narrativa ácida de Fernando nos atinge em cheio. Ao mesmo tempo em que a ironia fina com que justifica as mortes nos prende na narrativa, as mortes contadas aos quilos em cada página nos fazem fechar o livro. O livro é um sufoco, uma falta de ar, uma raiva que contagia, ao mesmo tempo em que clareia um tanto da miséria cotidiana do dia a dia. Ainda bem que o livro é curto e nos livra rapidamente de olhar de frente para a culatra estampada em sua capa.

Resta agora voltar ao noticiário e pensar na nossa realidade cotidiana, na São Paulo contando seus mortos, na culatra que nos assombra e afirma que a vida, também por aqui, vale pouco, muito pouco.