Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de presente

Um presente de casamento

Dias desses – já faz uns anos, é verdade – visitei a casa de uma amiga pela primeira vez. Era minha visita nova em uma casa nova e tudo me enchia os olhos. Feito criança, eu olhava cada detalhe. Perto da janela, um vaso grande com uma planta linda. É a arvore da felicidade, ela disse, minha avó me deu de presente. Fora seu presente de casamento. E fora a avó que lhe dera, não uma muda, mas uma árvore. A avó havia cultivado a felicidade por anos e ofereceu à neta. E lá estava a felicidade, banhada pela luz que entrava da janela.

E eu que não sabia que felicidade dava em árvore, menos ainda que era possível oferecê-la de presente, corri até uma floricultura e comecei a cultivar minha própria felicidade. Diferente de minha amiga, a minha felicidade veio em duas mudas, frágeis e pequenas. Aos poucos foram crescendo, mais rápido do que cresciam meus filhos.

Num certo dia, sem mais, elas estagnaram. Outra amiga, em minha casa, quando lhe confessei que andava preocupada com a felicidade, me disse que a planta só cresceria se houvesse uma muda macho e outra fêmea. As minhas, pelo que parecia, eram as duas fêmeas. Felicidade, pelo que parece, só vem do diferente.

As folhas caíram, todas. Quando um pequeno galho novo despontava eu me enchia de esperanças, era a minha chance de ser feliz de novo, e enchia a planta de cuidados, regava, podava, logo as novas folhas caíam. Parecia o fim da felicidade.

Por tempos a felicidade ficou ali, à beira da porta, no canto da sala, calada, sem folhas, sem galhos novos, sem esperanças. Até que comprei um novo vaso, maior, uma terra nova – com adubos e aditivos e tudo aquilo que a moça da floricultura me garantiu fazer a felicidade brotar novamente – replantei minha felicidade e troquei seu lugar na sala. Distante do vento, distante do sol direto. Continuei a velar por ela, colocava água diariamente, dizia-lhe que admirava sua beleza, mesmo sem folhas mais, mesmo quase sem galhos. Aos poucos, um broto novo surgiu bem ao alto do velho galho. No seu pé, quase junto à terra, inúmeros pequenos galhos começaram a nascer. E deram folhas, e, ainda pequenas, mudaram a cara da felicidade que eu tinha antes.

E é nos dias tristes, escuros, que percebo que a felicidade está aqui, dentro de casa, abrigada do sol, do vento, das bolas que as crianças insistem em jogar na sala. No canto, para que ninguém perceba sua presença, ainda que esteja sempre perto de nós. E se um dia ela estiver grande e forte, cheia de galhos e folhas, talvez, só talvez, eu tenha coragem de presentear alguém com a minha felicidade. Quem sabe minha neta, quando se casar, se um dia ela vier, e se um dia ela se casar.

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De presentes e parábolas

Há muitos e muitos anos, viveu um homem que dizia coisas enigmáticas. Um, porque no lugar de falar claramente, ele contava estórias. Dois, porque a moral da estória que contava era tão enigmática quanto à própria estória. De tão enigmático o que dizia, aquilo ficava na mente. E a gente ficava matutando, matutando. E às vezes, assim, andando na rua, chutando uma pedra, eis que uma ou outra coisa faziam sentido.

Dia desses aconteceu isso, isso de uma coisa enigmática que esse senhor dizia fazer sentido. Ele falava para as pessoas que estavam perto dele que quando fizessem o bem a alguém, ninguém deveria ficar sabendo. Mas ele falava assim: “não deixe que sua mão esquerda saiba o bem que sua mão direta fez”. Enigmático por demais. Não deixar que os outros saibam é uma coisa. Mas e as mãos que, certamente, fizeram trabalho conjunto? Só um maneta é capaz de esconder algo de uma das mãos, pelo simples fato de uma delas não existir.

Pois ontem eu ganhei um presente. Presente mesmo: com embrulho, laço de fita e dizeres singelos me desejando felicidades com o bebê que está quase a nascer. Quem me deu o presente foi uma aluna, uma aluna entre setenta de uma sala que acabei de conhecer. Não sei o seu nome. Nunca a cumprimentei. Antes que eu a agradecesse ela escapou, foi embora, não me deixou dizer nada. É claro que irei encontrá-la nas próximas semanas, vou procurar por ela, dizer que gostei muito do presente e que fiquei tocada com o seu cuidado. Perguntarei seu nome, guardarei este nome na gaveta, passarei a cumprimentá-la com um sorriso todas as vezes que trombar com ela pela faculdade.

Mas se por algum motivo ela abandonar o curso hoje, véspera de prova, véspera de desespero para todos os alunos, eu nunca mais saberei quem me ofertou aquele cuidado singelo de quem esconde o próprio fato de cuidar. Não saberei e não terei como agradecer, não poderei lembrar seu nome, sorrir para ela, oferecer algo, pequeno que seja, em troca de seu gesto grandioso.

Por que dar um presente a quem nunca te deu nada? Ou foi ela ou fui eu que ouvimos demais as estórias daquele homem que viveu há muitos e muitos anos e dizia coisas enigmáticas. Ela, ao me oferecer um presente sem me dar a chance de agradecer ou ao menos saber seu nome, eu, no meu desejo de entender o que não se há para entender. Eu, mão esquerda, querendo agradecer o bem que a mão direita fez. Mas a mão direita nem existe, ela já bateu asas, foi embora, me deixou sozinha, pensando numa bondade que só existe na prática, e não no pensamento. Pensamento ao qual me apego e por isso me afasto cada vez mais das estórias simples que contava aquele homem enigmático que viveu há muitos e muitos anos atrás.

Dos riscos da terapia

Foi na terceira ou quarta seção que ele me disse o que faria comigo: seguraria o espelho para que eu pudesse me enxergar melhor. O problema é que era ele quem escolhia o ângulo e aquilo que gostaria de ver refletido. Eu apenas iria observar. Quieta, de preferência. E por anos foi isso que meu terapeuta fez. Segurou o espelho. Vasculhou os cantos que gostaria que eu enxergasse. Apontou para o passado, apontou para o presente. Sorria bastante, o que me incomodava. Ficava sério quando eu esbravejava. Empurrava a caixinha de lenços quando eu chorava.

Mas terapeuta é bicho estranho, e se mete às vezes por caminhos obscuros. De tanto segurar o espelho – o que deve às vezes cansar o braço – ele resolve, como por descuido, apontar para o futuro. Não, ele se recusa a dar conselhos ou dizer o que pensa, mas assim, quase sem querer, começ a a prever o que vai acontecer com você daqui uns anos. Ele nunca vai dizer o que vai acontecer amanhã, nem vai afirmar se você deve ou não terminar o namoro, sair ou não do emprego. Essas escolhas são suas. Mas às vezes, sem quase mais, ele vê o futuro, profetiza, adivinha, ou qualquer ação parecida, a depender do gosto ou da religião.

Foi assim na última vez que falei com meu terapeuta. Depois de uma longa conversa em que ele me parabenizava por meu imenso progresso em diversas áreas da minha vida, ele termina dizendo que acreditava que eu continuaria assim, madura e confiante enquanto ainda fosse jovem. Quando a juventude passasse, outras questões viriam, mas, segundo ele, não era o momento de se preocupar com isso. O tempo mesmo se encarregaria quando chegasse a hora.

Mas que raios ele quis dizer com “enquanto eu ainda fosse jovem”? A juventude passa? Como assim, passa? Que outras questões são essas? O que vai acontecer comigo quando essa fase, longa, segundo ele, acabar? Ei! Volta aqui, me diz, me explica!

E ele já se foi. Até a próxima seção. E as palavras a elogiarem meu progresso e minha maturidade ficaram esquecidas. Ele apontou seu seu espelho de condão para o futuro por um segundo, e no seguinte, se foi. As coisas mudarão daqui uns anos. Palavras de cartomante sobre o futuro. Eu serei feliz? Certamente, minha filha. Eu vou estar casada? Sim, vejo um homem que te ama nas cartas. Ele é o meu marido? Sim, é seu marido. Mas ele é o mesmo ou é outro? Minha filha, isso as cartas não dizem, dizem apenas que você estará com o homem que ama. Eu terei filhos? Vejo muitas crianças na sua vida.  Mas são meus filhos ou sobrinhos? Há uma sombra sobre essa questão, não posso te dizer, mas vejo que você ama profundamente essas crianças.

Saio da terapia como quem sai da cartomante. Penso no futuro e suspiro desesperançada. Meu progresso tem um prazo de validade. Depois, segundo o terapeuta, terei começar tudo de novo. O que aprendi hoje não vai valer para a vida toda. As questões da juventude certamente morrerão junto com ela. E hoje, que aprendi a duras penas a ser uma mulher de vinte e tantos anos, terei que aprender a ser, mais adiante, uma mulher de quarenta, depois, uma mulher de cinquenta, e assim por diante.

Custava o terapeuta segurar o espelho apontando só para o passado? Custava se focar nas questões presentes e elogiar meu progresso incrível dos últimos tempos? Custava se controlar e não me deixar saber dos seus poderes de adivinho?Logo eu, que morro de medo do que Bíblia proíbe, que me lembro a cada minuto de Saul perdendo seu reino por uma reles perguntinha a um adivinho qualquer. Eu não quero saber do futuro. É o futuro que nos faz perder reinos, é o futuro que nos faz perder o sono, é o futuro que nos faz esquecer da longa lista de elogios e se por a morrer de medo do que virá amanhã. Amanhã terei trinta, depois, logo depois, quarenta. Se a juventude passa, a terapia há também de passar. E assim ficamos combinados.

 

 

Coração de Papai Noel

Eu ainda era pequena quando duvidei da existência do Papai Noel. Certo Natal ele simplesmente não apareceu e não se falou nada mais a respeito. A janela continuava com a pontinha aberta que eu havia deixado no dia anterior, mesmo assim ele não veio e ficou por isso mesmo.

Por algum tempo, já crescida, tinha certa raiva no velhinho a tirar a atenção do bebê que nascia no estábulo e nos trazia boas novas. Se ele existia mesmo, eu não me importava muito.

Aos poucos fui percebendo, porém, que muita coisa boa acontecia por causa do tal velhinho, ou para que se garantisse a lenda, a boa história. A mais bonita delas, pra mim, foi a campanha dos correios, em que pretensos papais noeis podem ir até uma agência, retirar uma carta com um pedido de uma criança e realizar seu sonho. O papai noel se multiplicou, distribuiu bicicletas, computadores, bolas, cadernos, video games, calçados, raquetes de tênis, livros, caixas de bombom, tudo, tudo o que se imaginar, tudo chegou às mãos daquelas crianças que acreditaram na existência do bom velhinho.

Existem aquelas crianças, no entanto, que desconfiam que o papai noel mora em casas de bairros de classe média das cidades, e por isso, não levam suas cartinhas até uma agência do correio, mas poupam o trabalho do velhinho de ter de ir buscá-las e já deixam seus pedidos nas próprias residências. Foi assim que encontrei a carta de Fabiana jogada no meu quintal.

A carta, evidente, era dirigida ao Papai Noel, mas como estava em minha casa, me furtei a lê-la – quem sabe eu pudesse alcaçar o pedido de uma criança de 12 anos. Já me via saindo da inércia do mês de dezembro, entrando às pressas em uma loja de brinquedos, procurando por algo certamente novo no mercado, que eu logicamente ainda não conhecia.  Mas a carta guardava surpresas para o meu coração já cansado dos primeiros dias de dezembro.

Nas primeiras linhas, escritas ainda com letra de criança – formato arredondado, esmero no desenho de cada letra – Fabiana se apresentava, contava a sua idade e dizia que gostaria de ganhar uma cesta básica de Natal. Um susto. Não continuei a leitura. Nó na garganta. Uma cesta básica era o que a Fabiana me pedia de Natal. E eu, já disposta a dar-lhe o mundo dos briquedos inúteis, pronta a qualquer tipo de esforço, quedei paralisada. Uma cesta básica.

Tomo novo fôlego e continuo a leitura da carta. A letra da Fabiana, a partir de então, muda, seu esmero no desenho se transforma em garranchos e ela começa a me explicar que a mãe, sozinha, tem muita dificuldade em sustentar seis filhos, que há seis anos se separou do marido e por isso ela ficaria muitíssimo feliz se eu pudesse dar a ela uma cesta básica de natal. Muitíssimo feliz foi o termo que a Fabiana, de doze anos, usou. Por fim, me desejou um Feliz Natal e indicou abaixo o seu endereço.

  A carta ficou sobre minha mesa, não sei o que fazer com ela. Foi se desenhando na minha mente a imagem triste da mãe sentada na esquina, com um nenem no colo, as outras crianças correndo pela rua pedindo dinheiro, e levando depois o dinheiro para a mãe, sentada, gritando, xingando os filhos. Os filhos implorando por algo para levar para a mãe, pode ser comida, moça. E a maçã que a criança ganha primeiro ela leva para a mãe, que joga ao largo, da próxima vez vê se me traz dinheiro, moleque. Da próxima vez a criança aprende que se ganhar comida deve de comer antes que a mãe veja.

Essa cena triste pode, no entanto, não ser verdade. Imagino então a Fabiana dizendo à mãe que quer pedir um notebook para o Papai Noel, para poder fazer os trabalhos da escola, a Carol, sua colega, ganhou um usado no último Natal, deixou a cartinha no correio e enviaram para ela. A mãe sorri um sorriso triste mas iluminado, e diz à Fabiana que elas poderiam fazer melhor, poderiam pedir ao Papai Noel no correio um notebook, e poderiam também pedir ali naquele bairro algumas cestas básicas, que as pessoas que moram lá costumam ser muito boas, e assim elas poderiam ficar tranquilas por um mês inteiro se conseguissem pelo menos umas cinco cestas. A mãe de Fabiana tem então a brilhante ideia de escreverem várias cartas, pedindo ao papai noel uma cesta em cada uma. Uma linha de produção. Na décima carta, no entanto, a Fabiana diz para a mãe que a mão dói, que ela não aguenta mais escrever, e fica sonhando, calada, com o notebook do verdadeiro Papai Noel.

A mãe termina assim a última carta, com sua própria letra, com suas próprias razões. Coloca no envelope já preparado pela filha, com a letra da filha, e sai no dia seguinte meia hora mais cedo para o trabalho. Distribui dez cartas em dez casas de boa aparência, com grandes quintais na frente, dando preferência para aquelas que já possuem algum enfeite de Natal. Certamente nesse lares o espíriro natalino fará com que o papai noel presente no coração de cada um lhe ofereça uma cesta básica. Afinal, é tão pouco, minha filha só pede ao uma cesta básica de Natal.

A carta ainda está em cima da minha mesa. E eu cheia de curiosidade em saber o que de fato a Fabiana pediu ao Papai Noel.