Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de cidade

Desamor

Uma cidade florida com rosas nos canteiros das praças só pode ser uma cidade doente. Seria preciso investimento maciço em novas unidades de saúde para tratar um povo tão perdidamente convalescente de falta de amor.

Óleo de girassol

Eram duas e meia da manhã quando ouço tocar o interfone. É certo que eu estava dormindo, logo, imaginei mesmo que era sonho. A campanhia toca novamente e entendo que não era sonho. Acordo. Acordo com preguiça de levantar. O olho pesado, a vontade de ignorar qualquer novidade, o desejo de voltar àquele sonho, com o que é que eu sonhava mesmo?

De novo o interfone. É quando percebo que a campanhia continuará tocando até as sete e trinta se eu não me levantar e verificar o que está acontecendo. Quem chamaria a uma hora dessas? O marido dorme pesado do outro lado. Não há filhos em outros quartos. Lembro-me de que não há filhos.

Se não há filhos, não há motivos para me preocupar. Nada aconteceu. Antes mesmo de colocar o pé direito no chão volto pra cima da cama e me envolvo no lençol. Se não há filhos não há pressa. Que se espere as sete e trinta da manhã.

O dedo que aperta a campanhia, no entanto, não acompanha meu exímio raciocínio. Insiste. Coloco os dois pés no chão, juntos, aos mesmo tempo. Me dirijo à cozinha e atendo ao interfone.

– Pois não?

Silêncio.

– Pois não?

Silêncio.

– Eu vou perguntar pela última vez: pois não?

Com uma voz fraca, quase inaudível, como quem quer velar pelo sono alheio, o outro lado começa:

– Boa noite, senhora. Desculpe te acordar a essa hora da madrugada, é que eu faço parte de uma equipe na faculdade, estamos participando de um campeonato, e eu preciso muito conseguir, até às 5 da manhã, cem latas de óleo para a gente doar para a Casa de Auxílio ao Idoso.

– Casa do quê?

– Casa de Auxílio ao Idoso, é o asilo de nossa cidade, e nós, da faculdade de agronomia, estamos realizando um campeonato, um dos desafios é beneficiar as entidades carentes.

– E você quer o quê mesmo?

– Uma lata de óleo.

– Pode ser de girassol? Só tenho óleo de girassol.

– Pode ser de qualquer um, senhora, eu agradeço muito a sua compreensão e a sua ajuda.

Me dirijo à cozinha tentando lembrar o nome da faculdade da cidade. Estranho essa coisa de agronomia. Nunca ouvi falar de faculdade de agronomia. Será que abriram o curso esse ano? Será que era economia? Economia eu sei que tem, o Luiz dá aulas pro curso de economia.

Com uma garrafa de óleo na mão, volto ao interfone.

– Oi!

Nada.

– Ei!

– Oi senhora.
– Você disse economia ou agronomia?

– Economia, senhora. Economia.

– Ah, bom, já estou indo aí.

Antes de me dirigir ao portão, olho pela janela e vejo um rapaz encostado na grade. Boné e bermuda. Dentro de um carro, vejo mais três vultos. Por que esses jovens resolvem fazer isso a essa hora da madrugada? Antes de abrir a porta ouço o silvo da polícia, o rapaz entra correndo no carro, bate a porta e o veículo sai em disparada.

Quando percebo, são sete e trinta da manhã e eu adormeci no sofá, com uma garrafa de óleo de girassol abraçada ao peito. De qualquer forma, vou levá-la eu mesma à Casa de Auxílio aos Idosos, e vou também dizer ao Luiz para orientar esses rapazes a não irem pedir donativos no meio da madrugada. É preciso ter mais respeito com o sono alheio.

Conto publicado no site Mundo Mundano.

 

Enquanto te espero

Prefiro não olhar o relógio. Fico antes com o presságio. Só mais uns instantes e você vai dobrar a esquina, fazer soar a buzina, baixar o vidro do carro e sorrir para mim, um sorriso inteiro só para mim. Não é preciso olhar o relógio, eu posso adivinhar os minutos.

A esquina permanece. A mão adivinha o feixe da bolsa, tateia, separa caixa de óculos, carteira, batom, chaves, analgésico, chicletes e então agarra o celular no mesmo instante que um carro prata dobra a esquina. A mão larga o celular. Apesar da cor, o modelo não confere. A esquina permanece e a mão volta a tatear até encontrar novamente o celular. Eu não iria te ligar, queria apenas ver as horas. Desisto. Prefiro o presságio.

Devolvo o telefone na bolsa e libero minhas mãos da procura. O dedão da mão direita começa a esmagar as falanges dos outros dedos. Estalam. A mão esquerda copia. Estalam todos os dedos. Olho para o fim da rua só para poder olhar de novo a esquina e me surpreender com a sua chegada. Você não chega.

Reparo nos meus sapatos. Um pouco arranhados. Esfrego a planta do pé na panturrilha. Melhora um pouco. Me dobro sobre as minhas pernas e esfrego com as mãos o bico do sapato. Agora sim, agora tá novo. Olho para a esquina e nada. Volto para o bico do sapato e percebo uma moeda caída na calçada. Não gosto de me baixar para pegar moedas. É constrangedor. Mas a moeda é graúda, dá para comprar um café. Olho para a esquina, olho para a moeda. Olho para os lados, não vem ninguém. Abaixo e agarro a moeda.

Você não chega. Não quero olhar o relógio, mas, pelo meu presságio, você está bem atrasado. Quanto? Dez minutos? Quinze? Não tem problema. Eu sei esperar, não sou ansiosa. Não sou ansiosa. Será que você entendeu errado o lugar que a gente combinou? Melhor ligar. Não vou ligar. Não sou ansiosa. Eu sei esperar. E se aconteceu algum acidente? Será? Melhor ligar. De novo a mão, o feixe da bolsa, a caixa de óculos, a carteira, o batom, as chaves, o chicletes e por fim, o celular. Espera só mais um pouco, lembra? Você não é ansiosa. Você não é ansiosa.

Do outro lado da rua vem vindo uma senhora acompanhada de uma menina pequena, segurando uma boneca numa mão e um saco de pão na outra. As duas conversam. A menina faz perguntas para a senhora, a senhora responde, as duas sorriem sem diminuir o passo. A menina usa sapatos vermelhos, parecidos com o meu. A senhora usa chinelo de couro. Elas passam por mim, a senhora sorri e por um instante eu me esqueço da sua espera.

Quando me volto para a rua, lá está você, o vidro aberto, um sorriso inteiro só pra mim. Entro no carro e ouço você me perguntar se eu não tinha te visto. Não, não vi. Esperou muito? Não, acho que não, nem sei. Você acelera e me leva para algum lugar onde não importam mais nem os minutos nem os presságios.

O amor não é suficiente

Mais amor, por favor. É o pedido sincero de esquinas, muros, bilhetes lançados ao ar, bombas de gasolina, chafarizes ou qualquer objeto anônimo espalhado pela cidade. É o pedido dos grafites, das pixações, da arte urbana que se esconde em lugares inesperados. Mais amor, por favor.

E o amor cai bem em tudo. Família, política, escola, ordens bancárias, consultórios médicos, filas do INSS, listas de espera para concurso público, engarrafamento, linhas ocupadas nas maquinhas Cielo depois da meia noite, coleta seletiva de lixo, a procura por uma vaga no estacionamento, o esforço cotidiano no treino da natação para ganhar a próxima competição aquática. Mais amor, por favor.

Mas o amor, agora, para mim, não adianta muito. Mais amor, então, só piora. Não adianta mais amor quando na verdade preciso é de ânimo para encarar o tédio cotidiano. Não adianta mais amor quando tenho medo de esperar dias e dias por uma resposta que não chega. Não adianta mais amor quando todo o amor que tenho não é capaz de enxugar os baldes de lágrimas que derramo diariamente por puro medo da vida.

Quando o amor já é grande e suficiente, mais amor não serve. E às vezes o medo vem, mesmo quando o amor é farto e generoso. É nesse momento em que muitas vezes se vê crescer o desentendimento. O namorado abraça forte e mesmo assim ela o rejeita. Diz a ele que ele não a entende. E ele se esforça. O amor, nessas horas, pode não ser suficiente.

E quando o amor não é suficiente, o remédio é um só: a colher raspando o fundo de uma panela de brigadeiro. Não há melhor remédio. Mesmo que se atire de um abismo: uma colher que se transforma em duas, duas logo serão três, e depois da panela limpa, a culpa infindável por tanta gula. E é aí que acontece o milagre: enquanto se despenca pela ladeira da culpa e do prazer, esquece-se de tudo o mais que atormentava a vida. Fica apenas a lembrança do sabor sublime, e a culpa. O sabor passa, a culpa, bem, a culpa fica.

Não há amor capaz de tamanha façanha. Nada pode mudar o foco de uma dor como uma panela de brigadeiro comida às escondidas, para evitar qualquer tipo de compartilhamento. Nada dá mais ânimo para os exercícios diários, nada empurra mais em direção à vida e ao trabalho do que a culpa trazida pela gula não controlada.

Diante do amor, portanto, completo o pedido dos anônimos da cidade, e digo “e mais brigadeiro também, obrigada!”.

Abraços grátis

Tenho inveja das pessoas que sorriem com facilidade. Tenho inveja também daquelas que são generosas por si mesmas. No tumulto de uma praça no centro da cidade avisto um menino gordinho, quase não adolescente mais, com uma placa no pescoço. Ele não oferecia vagas por uma hora em algum subsolo. Nem comprava ouro, nem vendia atestado médico. Ele oferecia abraços grátis. E sorria.

É certo que seria no mínimo duvidoso uma placa no sentido contrário: “Abraços por apenas 1 real!”. Abraço não se vende, pelo menos não explicitamente. Há quem venda carinho com o nome de sexo, há quem ofereça companhia a preço de uma diária, há ainda quem se faça de amigo, parceiro ou sobrinho querido para conseguir algum bem monetário.

Mas é certo que abraços não se vendem. Assim como é certo que não se oferecem abraços a  estranhos. Logo, o gordinho ali, no meio daquela praça, se parecia mais com um engano, um engodo, um erro de interpretação.

O problema é que ele sorria, e assim como os abraços que oferecia, seu sorriso também era gratuito. Poucas pessoas tinham coragem de se apropriar daquela oferta de abraço, desconfiadas, sem dúvida, do seu teor subversivo – quem garante que aquele não era, na verdade, um pivete a se aproveitar do momento derradeiro do abraço para se apropriar da carteira esquecida no bolso de um sujeito carente?

Se poucos se fartavam da oferta singela do rapaz, muitos, ao contrário, sorriam ao perceber no meio da praça oferta tão singela, acompanhada de um sorriso anda mais gratuito do que os abraços da propaganda. Rostos preocupados momentaneamente transformados pela generosidade de um menino que ainda iria conhecer muita cara feia na vida.

Tive inveja do gordinho. Queria eu distribuir sorrisos, andar mais leve pela rua, ter o semblante menos preocupado, perceber mais o dia. Queria eu ter a generosidade de oferecer abraços sem cobrar nada em troca. Simples como um abraço grátis.

Cerejeiras pela rua

Enquanto as pessoas na mesa conversavam com vigor sobre suas vidas, Carolina sentia medo. Calada ao canto, ouvindo histórias magníficas, ela se sentia pequena diante de um arsenal de proezas e falas e vitórias e derrotas e tristezas tristíssimas de pessoas que ela pouco conhecia. Buscando na memória algum resto de acontecimento, alguma máxima popular, Carolina se acabrunhava: podia contribuir muito pouco com aquele cenário em que as pessoas narravam feitos e se engradeciam diante dela, que se apequenava, que se amedrontava, que se emudecia a cada minuto.

Pagou a conta do restaurante e pôs-se a correr pela cidade. Sozinha. Ainda ouvia restos de conversa, de histórias, vozes cheias de certezas afirmando que ela era covarde, que ela era pior, que era feia, que ela era quase imperceptível. Lembrava-se de vozes antigas que diziam fortemente que ela era indefinível: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem loira, nem morena. Indefinível.

Em meio a caminhada as vozes foram silenciando e Carolina passou a perceber árvores rosadas colorindo a rua de uma cidade que ela pouco conhecia. Ela sabia o nome da árvore e ignorava o nome da rua. E num estalo lembrou-se de tantas flores que cultivava no seu quintal – pensou no nome de cada uma delas. Tentou lembrar os nomes das ruas de sua cidade e percebeu que entende mais de flores e plantas do que da situação política e econômica de seu país. Sorriu. Flores e plantas e árvores e frutos ainda lhe interessam mais que as notícias cotidianas, cotidianamente repetidas sobre economia repetida e a vida pessoal repetida dos políticos e celebridades.

É na solidão que Carolina se sente segura. A indefinição que marca sua presença entre as pessoas se transforma em certeza, em doçura, em coragem. Ao estar sozinha Carolina sabe bem o que é que ela é. Entre as pessoas Carolina se perde, e é só quando encontra um lugar vazio que possa ocupar é que ela volta a ser Carolina de novo. Sem adjetivos, apenas Carolina.

Esquecido no meio fio

Não consigo me lembrar de quantas vezes montei naquele leão. Foram muitas, muitas mesmo. Ele não era grande, mas para mim, uma criança de no máximo dez anos, era o suficiente para parecer um leão enorme, cheio de garras que apontavam para a rua. A estátua era a alegria daquele jardim. Foi dia desses que descobri que há muito tempo algumas crianças da rua conseguiram a proeza de dominar o bicho, derrubando a estátua e escondendo seu corpo nalgum canto na frente da casa. Depois disso o leão restou bem preso, com cimento e brita na base, a salvo da molecada da rua.

Enquanto girava a colher na xícara com chá, com as pernas buscando o restinho do sol que entrava na varanda, a velha senhora me contava como o marido encontrou o tal leão, há mais de cinquenta anos. Descendo a rua, quase ali na esquina do quarteirão, existia um depósito com restos de entulhos, restos de construção, restos de casas. Foi ali que o seu Gêro avistou de longe o velho animal, encostado num canto, imponente ainda. Perguntou logo quanto valia o bicho e o vendedor disse que aquilo era lixo, que não valia nada não. Se não vale nada, eu levo de graça! Chegou em casa com o leão e outras quinquilharias catadas às pressas, sem saber o que fazer com tudo aquilo. A senhora se lembrava ainda da sua cara de espanto ao ver a estátua, ao ver os olhos enormes do marido enquanto contava como tinha conseguido o bicho real sem gastar um tostão.

Os tais olhos enormes eu também conheço. Dia desses minha mãe chegou esbaforida: “Me empresta a caminhonete?”. Eu ainda com um pedaço de pão na boca, dei uma golada de café com leite para ver se conseguia digerir aquilo e perguntar alguma coisa antes de indicar onde estavam as chaves do carro e vê-la sair correndo. Claro, mãe, mas por que a pressa? A pressa era uma treliça, avistada no meio de uma caçamba de lixo em uma rua qualquer da cidade. Era preciso usar a caminhonete para trazer aquele pedaço precioso de madeira que algum desconhecido havia recusado. Mal terminei o café, minha mãe e meu pai já tinham saído para fazer o resgate.

Assim como o leão, recebido como uma realeza na casa do seu Gêro, a treliça chegou em casa e ganhou logo lugar próprio. O dia mal clareou e uma trepadeira já tinha sido plantada aos pés do novo móvel, que em poucos dias já seria abraçado pela planta.

Certa vez, na faculdade, me ensinaram o que significa bricolagem: uma espécie de tarefa daquele que tenta criar coisas novas a partir de objetos velhos, me disseram ainda que era isso que eu deveria ser capaz de fazer um dia. Não sei se entendi bem, mas acho que minha mãe e meu pai – e o seu Gêro também – dariam bons bricoleurs, ou no mínimo deveriam ser saudados por algum poeta, por trazerem no peito a capacidade de amar aquilo que foi rejeitado, oferecendo nova vida, nova família, nova existência para aqueles corações partidos esquecidos no meio fio.