Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de velhice

Redemoinho

Não, não. É mentira que o tempo voa. Não para quem tem saudades. Não para quem tece, diariamente, fios de espera. Há anos observo minha cerejeira, nos fundo de casa, sozinha no jardim. Levou tempos para fazer brotar uma flor. Uma única flor, pequenina. Nada passa depressa demais. O que envelhece é o seu celular, o modelo do seu carro novo. Minha vida não envelhece.

Encontro velhos conhecidos e ouço que eles me conheceram quando eu era assim, desse tamaninho. Sussuram então, no meu ouvido, que estão ficando velhos. Eu respondo que não. Eu respondo que somos todos, ainda, desse tamaninho. E a vida é tão lenta, e a vida é tão boa. E eu me contorço de saudades, e eu me preencho de espera.

Encontro, também, aqueles que sempre foram menores que eu. Eles eram os pequeninos. Estão hoje maiores, no tamanho e na coragem. Nos abraçamos e lembramos de quando eles eram apenas meus alunos. Agora não são mais. Estamos todos no meio do furacão, carregando sonhos e saudades. Tecendo a espera por aqueles que sempre serão mais pequeninos que a gente.

Não. O tempo não voa. O tempo, mesmo, ele nem existe. O que existe somos nós, corajosos e valentes frente à velocidade com que o mundo se movimenta, frente aos desejos imperiosos de estar aqui e estar lá, de ser um e ser mil. O que existe são pequeninos que crescem e nos ultrapassam, sorriem para nós, nos acenam de longe. E nos fazem lembrar que a vida, essa vida que nos cabe, é assim mesmo, cheia de movimento, cheia de alegria. Cheia de desejos de presença e carregada desses buracos da ausência. E a ausência é essa saudade. Não, o tempo não voa. É só o seu celular que envelhece depressa demais.

Valter Hugo Mãe: A máquina de fazer espanhóis

_maquina_espanhoisValter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis.  São Paulo, Cosac Naify, 2011. 254 páginas.

Não. O livro de Valter Hugo Mãe não fala de espanhóis. Ele fala dos portugueses, e os espanhóis, quando aparecem, é apenas para falar, apontar, refletir os portugueses. Mas também não se engane o leitor. Não é dos portugueses que se trata o livro, mesmo que seja o Fernando Pessoa, ou melhor, o Esteves sem metafísica do poema do Pessoa quem dê o ritmo e o tom do livro. O livro nem é mesmo sobre o Esteves. O livro fala sobre a velhice e, antes ainda disso, fala sobre a amizade na velhice.

Quem narra o livro é antônio jorge da silva, assim mesmo, um antônio em minúsculas, ou melhor ainda, um silva em minúscula, como é a vida de todos os silva. Depois da morte da esposa, silva é internado num lar para idosos e é lá que se passa toda a trama do livro. Num primeiro momento, silva se fecha, se ressente, sente a morte e a ausência da esposa, volta-se contra a filha, contra o diretor, contra o enfermeiro.

Aos poucos, silva conhece um companheiro do lar, depois outro, depois outro. Em todas as histórias e conversas, é a morte quem ronda, o abandono, o desejo de que a vida se encerre como se encerra o dia. Nada a fazer, nada a contar, nada mais a desejar. A vida no lar se mistura com as memórias e saudades do passado com a impotência onipresente do presente. E é nessa mistura, nesse entremeio que silva nos conta suas lembranças, as de agora e as de antes. Histórias de ontem, histórias de muito antigamente.

Se no momento em que chegou no lar silva não queria falar com nenhum de seus semelhantes, no decorrer da trama é no quarto de seus companheiros, nas conversas noturnas, na cama compartilhada de madrugada que silva encontra um sentido para a velhice. Numa das passagens mais lindas e surpreendentes que já li nos últimos anos, silva confessa ao enfermeiro: “precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre tudo na laura e nos miúdos. esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz, não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério.”

Fecha-se o livro com um desejo grave de encontrar os outros. Esse outro que o silva fala, esse outro que justifica a vida, esse outro que não está suficientemente perto, esse outro que por vezes não percebemos ou não queremos perceber, ocupados que estamos da laura e dos miúdos.

O livro de Mãe foi uma homenagem dele a seu pai, que não viveu a terceira idade. O seu legado se parece, no entanto, com uma oração de quem não acredita na vida após a morte, mas acredita no valor do outro, em qualquer idade que seja.

Álbum de fotografias

Foi aos dezoito anos que comecei a contar a minha história. No lugar da antiga agenda de menina, cheia de clips coloridos, tickets de cinema, canetas fosforescentes, dei início à escrita de um diário. Com certo receio de ser tida como menina ainda, a dizer as coisas bobas e boas de menina, contando ao diário sobre o menino que lhe ofereceu uma flor.

Dia desses ouvi que pessoas tiram fotos para se lembrarem, um dia, do que foram. Medo do tempo. As fotografias seriam um bálsamo a nos lembrar que nem sempre fomos velhos, que nem sempre fomos cansados, que nem sempre fomos sozinhos. Medo do tempo. Medo daquilo que a vida vai nos tirar, medo do que seremos quando restarmos sem beleza, sem energia, sem coragem. Tiramos fotos de tanto e de tudo para nos convencer que fomos felizes e que a vida foi, sim, muito boa.

Eu não sei de fotografias mas sei do medo do tempo. Me faltam álbuns de foto mas minhas estantes estão cheias de meus diários a me contar o que um dia eu fui. São meus diários que me contam. E me contam de um jeito diferente. No lugar da foto da menina um pouco ingênua e sonhadora, leio sobre alguém que foi aos poucos perdendo a fé e encontrando as certezas que de certa forma procurava. No lugar do linha do tempo que conta os amigos que tive, as festas, as comemorações, leio aqui e ali sobre as dores de ter ao longe as pessoas que amei e que não me amaram, não do jeito que eu gostaria então.

Ao ver fotografias minhas de dez anos atrás sinto um pontada de tristeza, um medo do que virá, e acredito às vezes que o tempo é mesmo cruel. Mas meus diários me dizem coisa diversa. Eles me lembram que eu amadureci e que hoje, essa que escreve hoje, é sem dúvidas melhor e mais forte e mais Adriana do que aquela que escrevia no início do presente século. É a voz da Adélia ressoando que vinte anos a menos só fariam dela uma mulher mais jovem, nunca mais amorável. Nunca mais amorável.

Pelas fotos eu não sou capaz de reconhecer quem eu era, nunca sei bem quais tristezas o sorriso para a objetiva escondia. São meus diários que me relembram os meus segredos, são eles que me dizem quem eu fui e indicam, às vezes, caminhos para entender quem eu sou hoje, essa de hoje, mais amorável, sem dúvida.

Dez anos a mais certamente me farão ainda mais bem do que esses já vividos.  Poderei escrever melhor, sem dúvida. Poderei estudar mais aquilo que me intessa tanto. Terei conhecido ainda mais lugares e possivelmente serei um pouco mais generosa comigo e com os que me rondam. Porque tudo isso é movimento, e para haver movimento é preciso tempo. E é isso que a fotografia não permite. E é por isso que continuo pedindo câmeras fotográficas emprestadas, já que prefiro desenhar com as palavras aquilo que a imagem na frente dos meus olhos me reserva. E os meus diários continuam sendo, para mim, como um precioso álbum de fotografias a contar os dias e as belezas da minha vida, a contar sobre o menino que um dia me ofereceu uma flor.

Sete e trinta

Aquele era um grande dia. Há quanto tempo não lhe chamavam para bancas mais? Não se lembrava. Havia se preparado por dias para falar naquela ocasião. Ansiosamente. Ali era diferente, ele não havia se inscrito para um congresso, como sempre se faz no mundo acadêmico. Ele não havia proposto uma mesa, um debate. Não. Ele havia sido convidado a avaliar o trabalho de um colega, um colega que ele admirava, um colega que havia dito coisas que ele mesmo gostaria de ter dito. Lembraram dele.

Era ele o mais velho da mesa. Seus colegas, mais jovens, falavam ainda com vigor, ainda com certezas, citavam autores, mexiam com as mãos. As mãos. Suas mãos ficavam sempre debaixo da mesa, sobre os joelhos. Ali estava bom, a mesa estilo colonial escondia as pernas e escondia suas mãos apoiada sobre suas pernas. Os colegas gesticulavam. Ele olhava para suas anotações, olhava para o colega sentado à frente, sendo avaliado. O que diria a ele? Suas anotações, ao final, faziam algum sentido?

As mãos sobre as pernas, o colega dizendo que estaria encerrando, estava chegando sua vez. Ele passaria, então, a falar sobre coisas que falou por toda a vida, os autores que estudou, as descobertas, as conexões entre diversas teorias, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu do que os outros viveram, leram e perceberam. Fazia sentido? Foi preciso trazer as mãos para cima da mesa, virar os papéis onde havia feito anotações. As mãos trêmulas. Ele podia mudar o tom da voz, falar algo quase esbravejante, tirar o foco das mãos, levando a plateia a perceber apenas o timbre, o som. Talvez ninguém percebesse sua dificuldade em virar o papel. Mas ele não sabia esbravejar. A vida toda, o mesmo tom de voz. Feliz, triste, com raiva, com doçura. O mesmo tom. E agora, já velho, as mesmas mãos tremulantes.

Ele parabenizou o colega avaliado, confessou, de maneira sincera como o colega jamais conseguiria acreditar, que ele gostaria de ter descoberto o que o outro descobrira, que ele gostaria de ter escrito o que o outro escrevera. Enquanto confessava o inconfessável, escondia novamente as mãos embaixo da mesa, pensando se tudo aquilo fazia sentido. Aquela sala, aquela mesa, aquela banca, afinal, tinha sido toda sua vida. Aquilo que se estudou, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu.

Terminada a banca, os colegas o convidaram para um confraternização. Ele estava cansado. Ele estava muito cansado. Na confraternização talvez não conseguisse esconder as mãos debaixo da mesa. Talvez não conseguisse falar sobre tudo o que viveu. Talvez só desejasse falar sobre o que não viveu. Fazia sentido? Aquilo fazia sentido?

Ele voltou, então, para o hotel, deixou a mala arrumada e pediu à recepção que o chamassem à cinco da manhã. Seu voo era as sete e trinta, e ele retornaria, então, à sua universidade e aos seus alunos, onde continuaria falando sobre o que se leu, o que se estudou e o que se viveu por tantos e tantos anos de sua vida.