Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de ausência

Vira lata

Ainda me lembro de nosso último encontro. Suas sombrancelhas arqueadas. Sua voz áspera. Suas costas para mim. Ainda era inverno, ainda fazia frio. Suas costas para mim. Você na sala de jantar, você no centro, você gargalhando. Eu ao longe, de longe, sem saber o que te alegrava tanto, o que te alegra tanto. Eu ao longe.

Aos poucos, vão trazendo notícias suas. Um novo emprego. Casa nova. Nova namorada. Pergunto por detalhes, não por curiosidade, mais para manter o assunto e chegar, talvez, ao que meu coração deseja saber. Mas nunca sei, nunca sei se você perguntou por mim. Nunca sei se você quer saber de mim.

E eu com tantas notícias, o coração repleto de novidades. Voltou a chover e o jardim de minha casa ganhou novamente a cor de seus olhos. Abriu uma loja de queijos no quarteirão de baixo de casa, parece que os sócios são mineiros, mineiros como nós. Descobri um novo cantor, desses que a letra corre antes da música, mas que fala muito do mais do mar que das montanhas que preenchem cotidianamente a nossa respiração.

Não. Não te direi nada disso. Não te direi ainda que Maria Eduarda já estica os pés e os força para ficar em pé. Ela, que ainda precisa tanto de nós, já dá sinais de querer o mundo, assim como nós o queremos. Não te direi que sinto saudades, nem que sofro pela sua ausência declarada. Não deixarei você saber que minha raiva é cortina sobre o palco, que se abre e some ao dar lugar a cada novo espetáculo.

É melhor que você não saiba do meu amor vira lata, é melhor que você não desconfie que eu conto os dias em que não te vejo, que cronometro os metros que nos distanciam. Que as coisas fiquem assim, que você também se lembre da minha voz áspera e não saiba da doçura que ela traz por detrás. Que você também pense que meu amor é devotado a outros, e que eu pouco pergunto de você. Que você não saiba do quarto sempre arrumado que tenho em minha casa, esperando pelo dia em que você vai chegar. E nesse dia, mesmo que eu ainda me lembre de suas costas voltadas para mim, vamos nos sentar à mesa, vou te pedir para passar o café, você vai me perguntar se a jaboticabeira já começou a florescer etc etc etc.

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Um corpo que abraça

Foi há alguns dias que perdi, pela primeira vez, uma pessoa importante para mim. Depois que ela se foi ficamos eu e minha família, por dois dias, velando seu corpo. Com 30 anos eu ainda não consigo entender bem do que é feita a morte. Talvez pela minha pouca experiência. Talvez porque não haja muito o que compreender. Eu olhava para minha avó e não entendia que, apesar de seu corpo estar ali, deitado à minha frente, ela já não estava. Ela já não estava.

Para se despedir deste corpo que era mas já não era alguns vieram de longe, de muito longe. E para que fosse possível dizer adeus a este corpo, foi preciso garantir que ele continuasse corpo até o momento da despedida. A funerária fez magias, e lá estava o corpo de minha avó, firme até o último minuto, esperando a família toda reunida para podermos, então, com os nossos corpos nos desperdirmos de seu corpo.

Porque foi assim a vida inteira: é o corpo que abraça, é ele quem beija, é ele quem ama e dá aconchego. E é ele, também, quem se despede. A alma já voa para longe, perdida em mistérios que nem a vida toda nos permite compreender. Mas o corpo está ali, para ser abraçado, acariciado, e por fim, despedido.

É o corpo também que gera outro corpo. Não há outro meio. É o encontro dos corpos que permite o milagre da vida. Podem me dizer dos métodos artificiais de reprodução, de bebês de proveta, de clônes e o que seja. Só o corpo, pelo meio que for, pode gerar outro corpo. E só o corpo pode carregar uma alma que comunica. Depois, bom, depois é mistério. Depois restamos nós, chorosos, abraçados, pedindo aos deuses que nos confortem pela nossa perda, que nos ajudem a viver sem a presença daqueles corpos que amamos por toda a vida e que não existem mais.

Diante do corpo já sem vida de minha avó me pus a lembrar da última vez que a vi. Ela estava sentada no sofá de sua casa, assistindo uma missa pela televisão, e sorria pela minha visita. Eu peguei sua mão e contei a ela que o bebê que estou esperando é uma menina, e que se chamará Maria Eduarda. Ela sorriu de novo, apertou minha mão e disse que aquele era um lindo nome.

Me lembrei também que uns dias depois foi Natal, e pela primeira vez ela não esteve presente, porque já estava cansada e não aguentava acompanhar as festividades de minha família. Eu não liguei e nem lhe desejei Feliz Natal. Eu estive ausente. E não posso, por isso, saber se ela sorria, se ela assistia à missa, se ela dormia. Eu não sei. Eu não estava ali. Nossos corpos estavam distantes e não se abraçaram por ocasião do Natal.

Não, eu não sinto culpa por isso. Há tanto que podíamos ter feito e não fizemos. E se formos contabilizar a vida vira um inferno. Mas aprendi, diante do corpo inerte de minha vó, aquele que eu acariciava enquanto lágrimas gordas escorriam de meus olhos, que é o corpo que abraça, é ele quem cuida, é ele quem ama, e que não vale pedir aos deuses que cuidem de nós. Essa tarefa é nossa, é nosso dever abraçar quem amamos, pegar na sua mão e lhes contar as novidades. O resto é silêncio e vaidade.

Final feliz

Eu quero um texto triste, que funcione como whisky puro e acalme um soluço, um texto que embriague e desobrigue a encher o copo uma, mais uma, mais uma vez. Quero que as palavras escorram pela página borrando as ideias, turvando os sentidos, fazendo latejar a cabeça. Quero que no fim do texto seja preciso beber um gole d’água, acalmando o que ficou desolado.

Um texto que desperte um soluço em quem estava distraído, que fale do amor e da perda como quem reza um terço. Um texto que lembre um mundo povoado de saudade e ausência, que escureça junto com a espera de um telefonema.

Um texto que se pareça com dois olhos que olham e fitam e não são percebidos, que insiste, não desiste e ainda assim não funciona. Um texto que luta e perde. Um texto mal compreendido. Um texto sozinho.

Um texto que grita, esperneia, que chora baixinho com os braços enrolados nas pernas. Um texto que seja repleto de insônia, que toque no músculo que dói nas costas, que arrepie a pele desacostumada ao toque, que lembre o perfume do amor escondido.

A intensidade seria sua marca mais visível: ele fala como quem abraça um abraço forte, e assim, sufoca. Mas é cheio de enganos e desencontros, e ninguém compreenderia que o texto triste apenas pede, apenas suplica. O texto falaria da distância e da ausência como um desejo que aponta para o aconchego, para o carinho. O texto triste é um pedido para que fique.

E como um texto triste que é, termina sem esperanças. Olha ao longe e acredita em algo, mas não sente forças para desejar nada além das próprias palavras e da própria tristeza. Um texto triste não consegue acreditar em um final feliz.

“Você foi marcado em uma foto”

A câmera estava ligada, era preciso pensar rápido, o que, afinal, o repórter esperava que eu respondesse para uma pergunta tão sem propósito?  Enquanto tentava pensar sobre um assunto no qual eu nunca refletira, eu ouvia a respiração do câmera por trás das lentes. Ele, certamente, se deliciava com a minha angústia e estaria, irônico, sorrindo enquanto fechava a imagem sobre meu rosto aflito. Era preciso dizer à população mundial, posicionada atrás daquela câmera, o que eu esperava para o mundo para os próximos dez anos.

O tempo era diminuto e o repórter, cínico, me convidava a refletir sobre o mundo. E o mundo, naquele momento, me parecia minúsculo. Não eram os pobres da Índia ou os escravos bolivianos de São Paulo que apareciam na minha mente. Não eram as empresas farmacêuticas e seus testes em seres humanos que me visitavam. Nem mesmo era a política nacional, com seus escândalos, renúncias de ministros e cortes de orçamento o que me preocupava.

Eu lutava contra o meu egoísmo, mas só fazia pensar nas parcelas do financiamento da minha casa, nos prazos de entrega dos meus projetos, nos lugares do mundo que sonho em ainda conhecer. Eu espero que nos próximos dez anos eu não tenha envelhecido o suficiente para desejar fazer alguma plástica, espero que consiga comprar um carro com ar condicionado – o calor que tem feito na primavera é uma barbaridade. Espero que a malha do metrô de São Paulo triplique de tamanho e espero que o pedágio se torne mais barato no caminho para o litoral.

Perdida nos meus desejos, percebo os olhos do repórter, ainda ali ao lado, demandantes, esperando a resposta definitiva. Pensei então em Minas, pensei em São Paulo, pensei na Fernão Dias e disse, confiante, que gostaria que em dez anos os homens inventassem, finalmente, a máquina de teletransporte. Não era possível acreditar na nossa capacidade humana de desenvolvimento e ainda perder tanto tempo na estrada, no trânsito, no ponto de ônibus, na fila do metrô, na conexão São Paulo – Paris.

Os olhos do repórter sorriam. Eu havia passado no teste. O câmera, para meu alívio, disse corta!, desligou sua lente biônica, interrompeu a transmissão e voltei, então, ao meu lugar no mundo. Já na biblioteca – onde passo boa parte do meu dia – sentia meu telefone vibrando. Eram mensagens recebidas dizendo que haviam me visto na TV, lá no Rio de Janeiro; que eu havia sido marcada em uma foto no Facebook; que me ligariam de Minas na hora em que fossem cantar o parabéns para a bisavó para que eu pudesse, de alguma maneira, estar presente.

De dentro da biblioteca eu povoava o mundo. A minha incapacidade de estar presente em todos os lugares que eu gostaria se transformava em presença. Na hora marcada saí da sala de estudos e cantei parabéns para a bisa, comemorando com ela os seus 95 anos. No final da música, minha avó toma o telefone e diz que naquela hora iriam tirar a foto, e que eu estaria, junto com todos os meu primos, presente no registro daquele momento tão importante para a nossa família.

Ao desligar o telefone pensei nos olhos do repórter, e desejei que ele me abordasse mais uma vez, eu diria a ele que não era preciso inventar mais nada não, que tudo o que eu desejava para o mundo já estava ali: eu estava presente em todos os lugares em que eu desejava estar. E isso é suficiente.

Para Rebeca Campos