Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Maio, 2013

Precisão

A quem você recorre no momento mais difícil? Foi a pergunta que uma aluna fez depois de eu ter desconversado sobre a natureza da minha religião. A quem você procura na hora mais escura? Era a sua inquietação quando eu disse que não tinha muitas certezas sobre essas coisas todas que envolvem a existência ou não de Deus.

Meu ímpeto, como sempre, foi de retrucar e dizer que não se deve procurar a Deus na hora mais escura. Se eu não o procuro nas horas felizes, se não agradeço pelo alimento, por que deveria invocá-lo na fome mais intensa? A resposta talvez seria de que, diferente de mim, Deus não é rancoroso, Ele não me cobraria minhas ausências no momento de precisão. Talvez depois me corrigisse, me iluminasse mostrando que devo estar mais perto dEle do que ando ultimamente. Não respondi.

A verdade, pensei depois, é que não preciso de Deus nas horas mais difíceis, nesses momentos em que me encontro sozinha frente ao universo e a solidão me enche de medo. Preciso dEle é no meio da multidão. São os homens que me enchem de incertezas, dúvidas, assombros. Não é doença que me enverga, é o medo de ladrão, o medo do outro. Doença médico cura, tem medicina, cirurgia. A morte mesmo, tão sem remédio, que teria Deus para fazer frente ela?

Preciso de Deus quando eu estou prestes a desistir do outro. Preciso dEle quando não acredito que vale a pena trabalhar por relações melhores, por justiça. Preciso dEle quando percebo que o homem é sádico, que tem prazer no sofrimento alheio. Preciso dEle quando sinto saudades. Preciso dEle quando o sorriso do meu amigo não me toca, ou quando sua lágrima me passa despercebida. Preciso dEle quando preparo a minha agenda e vejo que separo mais tempo para os afazeres e para o ganhar dinheiro que para o convívio de domingo com a minha família.

Quando estou sozinha, ao contrário, Deus raramente me atinge. Sim, talvez isso seja um grande egoísmo, um orgulho sem fim de pessoa pecadora. É só que quando estou assim, meus fantasmas me amedrontam e eu brigo com eles, briga dura e difícil, mas a noite se encerra e logo vem um novo dia, um dia de luz, de claridade, de esperança. É na rua, no entanto, que sinto o maior medo, o medo da maldade, o medo da recusa, o medo do abandono. É quando fica claro que tenho medo de deixar de amar quem amo por ser essa pessoa egoísta, de deixar de cuidar de quem precisa, porque sempre, afinal, existem urgências maiores, mais importantes, mais urgentes.

No momento difícil eu não faço orações, mas ando por aí pedindo que orem por mim. Digo que preciso. Digo que preciso sempre. E assim, sei que aqueles que têm uma fé muito maior que a minha, aqueles que não procuram Deus só na precisão, vão talvez se lembrar de mim e falar de mim para o seu Deus. E nesse momento, tenho certeza, meu mundo vai se tornar mais claro e bonito.

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Adélia sem poesia

Num dia assim, sem assunto nem poema, Adélia afirma que é Deus quem lhe tira a poesia. O resultado é que seu olho fica torto, o coração caolho, o mundo, nem se fala. Aí ela olha pedra e vê pedra mesmo. Mundo torto. Rua que é rua. Mato que é mato. Feio que é horrível. Cansaço que é dor. Alegria que não encanta. Tristeza que não passa.

Às vezes, no entanto, Deus é generoso e o mundo se colore. Não é torto mais não. A pedra vira amanhecer, o cansaço vira amor, deus é gente, gente é anjo, anjo é você e eu, juntos, caminhando na rua, no mato, na montanha. Pedra é tudo, menos pedra.

Deus é bicho estranho. Num dia dá, noutro tira. E o mundo não nos dá sossego: um dia é pedra, outro, passarinho. E meu coração fica à esmo, cheio de cansaço e esperança. Ainda bem que a Adélia nos avisa que tudo não passa de travessura de Deus, que resolve, às vezes, nos tirar a poesia. Rezemos então, que quem sabe, a poesia volta e o mundo entra nos eixos novamente.