Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de surpresa

Sexta-feira

Era sexta-feira, e como todas as sextas-feiras, ela começou a se arrumar às sete da noite. Como de costume, se demorou vinte minutos no banho, gastando mais vinte para se vestir. No cabelo, já arrumado de véspera, ela colocou uma flor, e se perfumou com o perfume de sempre. Partiu. Chegou no cinema às oito e quinze, a sessão era as oito e quarenta, como todas as sextas-feiras. Comprou dois bilhetes, um refresco e se sentou em um dos bancos na entrada do cinema, para esperar o namorado, como toda sexta-feira.

Sexta-feira costumava ser o dia de maior movimento no cinema, enquanto ela esperava, a fila da bilheteria se encheu e se esvaziou, pessoas entraram e saíram do cinema, casais abraçados, casais não abraçados, grupos de amigos, pessoas sozinhas, mulheres arrumadas, adolescentes falando alto. Ela observava o movimento, sentada no banco do cinema com o refresco na mão e a flor no cabelo. Às vezes se perdia ouvindo alguma conversa por perto dela, as pessoas se afastavam e ela voltava a si, esperando o namorado, como toda sexta-feira.

A bilheteria já estava vazia de novo, as pessoas já entraram para o filme, algumas sairiam de outra sala dentro de quinze minutos. O refresco demorava para acabar e ela se deliciava percebendo a ansiedade das pessoas antes de entrar na sessão, ou tentava decifrar o olhares saindo da sessão: teriam gostado do filme? Teriam se surpreendido? Teriam namorado dentro do cinema? Teriam descoberto algo de novo dentro de si?

Por fim, o refresco acabou, já se passava das nove da noite e ela perdera a sessão. Como toda sexta-feira, ela percebeu que já era tarde, que o namorado não tinha vindo, e que era hora de voltar para casa.

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Por andar distraída

Era o primeiro dia de aula na quinta série, e diferente das meninas de sua idade, ela caminhava tranquila em direção ao colégio. Tudo tinha mudado: professores, colegas, horário e matérias, na mochila o cheiro do novo: sonhos, cadernos, lapiseiras. As outras meninas corriam apressadas para o colégio, queriam logo conhecer a nova classe, os novos amigos, as novas paqueras.

A movimentação começou cedo em todos os lares da quinta série. Com o novo horário, quase de madrugada, foi preciso acordar muito cedo para que nada saísse atrasado. Ela também fez assim. Acordou cedo, se arrumou, pegou a mochila já preparada de véspera, beijou o pai que lia na sala, e se foi a caminho do colégio. O caminho, no entanto, foi mais longo que nos outros dias. A sensação de estar se dirigindo a um mundo novo precisava ser aproveitada: ela chegaria ao colégio e conheceria tudo que era novo, o novo se tornaria velho, o velho se transformaria em tédio, e ela nunca mais teria a sensação de descoberta que aquele caminho lhe dava. Era preciso aproveitar o caminho, o velho caminho já conhecido mas que levava a lugares novos.

E ela aproveitou tanto o caminho que se esqueceu da escola. Parou para indicar a direção para uma senhora que passava, parou para ver um ninho de passarinho caído no caminho, parou para catar um jornal jogado na rua, parou para pegar a bola que rolou na sua direção. E o dia tão esperado durante as férias foi trocado por alguns instantes de surpresa.

Chegou atrasada e perdeu as boas vindas da diretora. Chegou atrasada e já no primeiro dia foi repreendida. Chegou atrasada e já lhe passaram a lição de que não se deve ter muitos sustos pela vida. Mas diferente das meninas da sua idade, ela não aprendeu a lição, e durante muitos anos de sua vida continuou recusando os prazeres calculados, os sonhos previsíveis, durante muito anos continou cultivando pequenas surpresas, e se encantando com os sustos que causava em pessoas ou lugares onde menos esperava.

Alaranjado

Apesar de mal cheiroso, o cenário era encantador: em uma mesa enorme se viam peixes grandes, pequenos, esguios, gorduchos. Uns portavam bigodes estranhos, havia os curiosos, de olhos arregalados, uns eram coloridos, outros definitivamente não se importavam com a beleza exterior. Mas estavam todos ali, à espera de alguém que os escolhesse, que os desejasse, para que então pudessem sair da vitrina e se dirigir para as mãos do peixeiro – o grande mestre dos peixes do supermercado.

Influenciada que sou pelos hábitos de consumo, quis escolher um salmão, afinal, dizem que é um peixe bom, faz bem para o colesterol e para o coração, e mais afinal ainda, estava em promoção. A escolha não foi simples: eu procurava um peixe com aspectos alaranjados, talvez as escamas, ou os olhos. Mas o danado se esconde por traz de uma pele grosa, cinza, impenetrável. Depois de algumas dificuldades, lá se foi o salmão eleito para as mãos do peixeiro, que se pôs a realizar um doce trabalho.

Com uma escova grosa – de aço, certamente – ele alisava o corpo do peixe, no sentido contrário das escamas, e ia liberando meu salmão de um pouco daquela pele que o escondia. Nesse momento o peixe já era outro, mais brilhante, mais suave. Depois de limpar a mesa de trabalhos com uma mangueira de esguicho, o mestre dos peixes afiou o facão, seu olhar se alternando, com certa doçura, entre o brilho da lâmina e a crista do salmão. O corte foi certeiro: com apenas um movimento o salmão se viu livre da cabeleira que lhe pesava a nuca.

De todos, o momento seguinte foi o mais sublime: lâmina mais uma fez afiada, o peixeiro-coiffeur deitou a faca na direção do peixe, fez uma incisão suave na sua barriga, e com um movimento paralelo à mesa, foi tirando, aos poucos, a pele do salmão. E foi ali que meu coração tremeu: seu interior era inteirinho de um laranja forte, sensual, amolengado, sem sangue, sem nada. Quanto mais o peixeiro ia levando a faca da direita para a esquerda, mais o ambiente ia sendo inundado por aquela cor que eu só via nos desenhos da minha infância. Então é verdade, meu coração dizia, é verdade que o salmão é rei e senhor de todo o laranja que existe nesse mundo! Certamente eu não piscava, tamanha a falta de ar que senti diante do espetáculo. Só percebi meu espanto quando o peixeiro se voltou pra mim, já impaciente, perguntando se eu queria em postas ou em filé.

Eu queria dizer a ele que não importava, que era o peixe quem decidia, que era ele quem me dominava, que aquilo era todo o espetáculo da natureza, e que ele, o peixeiro, era, sem dúvida alguma, o profeta que trazia ao mundo a mensagem que eu queria. Disse a ele tanto faz, do jeito que você achar melhor.

Devo de ter esquecido minhas postas de salmão em alguma gôndola do supermercado. Cheguei em casa ainda estupefata, sem sacola nas mãos e com todo o laranja do mundo em meu coração.

Esquecido no meio fio

Não consigo me lembrar de quantas vezes montei naquele leão. Foram muitas, muitas mesmo. Ele não era grande, mas para mim, uma criança de no máximo dez anos, era o suficiente para parecer um leão enorme, cheio de garras que apontavam para a rua. A estátua era a alegria daquele jardim. Foi dia desses que descobri que há muito tempo algumas crianças da rua conseguiram a proeza de dominar o bicho, derrubando a estátua e escondendo seu corpo nalgum canto na frente da casa. Depois disso o leão restou bem preso, com cimento e brita na base, a salvo da molecada da rua.

Enquanto girava a colher na xícara com chá, com as pernas buscando o restinho do sol que entrava na varanda, a velha senhora me contava como o marido encontrou o tal leão, há mais de cinquenta anos. Descendo a rua, quase ali na esquina do quarteirão, existia um depósito com restos de entulhos, restos de construção, restos de casas. Foi ali que o seu Gêro avistou de longe o velho animal, encostado num canto, imponente ainda. Perguntou logo quanto valia o bicho e o vendedor disse que aquilo era lixo, que não valia nada não. Se não vale nada, eu levo de graça! Chegou em casa com o leão e outras quinquilharias catadas às pressas, sem saber o que fazer com tudo aquilo. A senhora se lembrava ainda da sua cara de espanto ao ver a estátua, ao ver os olhos enormes do marido enquanto contava como tinha conseguido o bicho real sem gastar um tostão.

Os tais olhos enormes eu também conheço. Dia desses minha mãe chegou esbaforida: “Me empresta a caminhonete?”. Eu ainda com um pedaço de pão na boca, dei uma golada de café com leite para ver se conseguia digerir aquilo e perguntar alguma coisa antes de indicar onde estavam as chaves do carro e vê-la sair correndo. Claro, mãe, mas por que a pressa? A pressa era uma treliça, avistada no meio de uma caçamba de lixo em uma rua qualquer da cidade. Era preciso usar a caminhonete para trazer aquele pedaço precioso de madeira que algum desconhecido havia recusado. Mal terminei o café, minha mãe e meu pai já tinham saído para fazer o resgate.

Assim como o leão, recebido como uma realeza na casa do seu Gêro, a treliça chegou em casa e ganhou logo lugar próprio. O dia mal clareou e uma trepadeira já tinha sido plantada aos pés do novo móvel, que em poucos dias já seria abraçado pela planta.

Certa vez, na faculdade, me ensinaram o que significa bricolagem: uma espécie de tarefa daquele que tenta criar coisas novas a partir de objetos velhos, me disseram ainda que era isso que eu deveria ser capaz de fazer um dia. Não sei se entendi bem, mas acho que minha mãe e meu pai – e o seu Gêro também – dariam bons bricoleurs, ou no mínimo deveriam ser saudados por algum poeta, por trazerem no peito a capacidade de amar aquilo que foi rejeitado, oferecendo nova vida, nova família, nova existência para aqueles corações partidos esquecidos no meio fio.