Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Janeiro, 2013

Sinto saudades de você

Sinto saudades dos apelidos que você inventava para todos os nossos amigos, principalmente, sinto saudades do apelido que você inventou para mim.

Sinto saudades do seu sorriso em boca larga dizendo que não acreditava na novidade que eu acabava de trazer da rua. Ainda hoje consigo lembrar da melodia da sua frase, que era e foi sempre só sua. Ainda te ouço dizer “não acredito!” do jeito mais lindo que se pode fazer.

Sinto saudades de quando lágrimas gordas caíam de seus olhos e eu me sentia numa intimidade que jamais imaginara, ali, num cinema qualquer na Avenida Paulista. Cada lágrima me fazia acreditar que eu podia ser sua amiga.

Sinto saudades de quando eu imitava o seu jeito de falar porque assim eu me sentia mais próxima de você. Sinto saudades de quando tudo o que eu desejava era estar sempre e um pouco mais mais próxima de você.

Sinto saudades de me sentir a Marilyn Monroe, simplesmente por estar ao seu lado, simplesmente porque você me dizia isso a todo instante. Sinto saudades quando eu, simples, era capaz de acreditar nisso.

Sinto saudades da forma inocente de quando desejávamos mal ao nosso chefe.

Sinto saudades de ouvir você contar de namorados como se contam os dedos da mão.

Sinto saudades de você chegando descabelada em casa, como se o mundo tivesse te recusado a vida naquele dia, e você tivesse lutado bravamente para sobreviver a ele e merecesse, antes de mais nada e acima de tudo, o nosso elogio.

Sinto saudades das cidades que planejamos ir juntos e nunca fomos.

Sinto saudades do seu olhar atento e sério quando eu brotava em choro e não continha minha tristeza. Sinto saudades da paciência com que você me tratava mesmo quando eu te atacava, desconfiada da sua lealdade.

Sinto saudades da alegria que eu sentia quando você vinha de outra cidade só para me ver. Sinto saudades do cheiro da rodoviária, que nunca mais se repetiu.

Sinto saudades de tanto, e o que é possível é fazer com que você saiba que sinto saudades. Sinto saudades de você.

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Poemas num café

O céu chorava suas mágoas raivosamente quando Marcela entrou no café. Eu já a esperava, numa mesa mais ao fundo. Não sabia ao certo o que Marcela queria, mas senti a conversa não seria alegre, como é normalmente. No dia anterior ela me telefonara, disse rapidamente que precisava conversar, eu perguntei o que era, ela me convidou para um café, lá eu te conto. Desligou.

Apesar da chuva, seus cabelos estavam intactos, arrumados num coque alto, com um pequeno adereço de arremate. Vinha numa capa de chuva, botas e sombrinha. Trazia sua pequena bolsa, como de costume, e um livro na mão. Me viu ao fundo, deixou a sombrinha e a capa do chapeleiro, passou rapidamente uma das mãos no cabelo, verificando a exatidão do penteado, olhou para mim e sorriu, vindo na minha direção.

Trouxe esse livro pra você, foi o que ela me disse ao me beijar as bochechas. Me mostrou a capa, delicada como era ela mesma, dizia que trazia poemas que eu iria gostar. Abriu o livro, leu um, leu outro. Eu olhava para Marcela e pressentia que aqueles poemas eram pura metáfora, era o jeito de ela não dizer o que tinha para dizer. Eu esperava. Sorria a cada poema. No próximo ela vai parar, certamente ela vai parar. Eu não queria interromper Marcela. O que ela tinha para me dizer era algo grave e merecia aquela introdução poética.

No meio do quarto poema, Marcela parou no meio. Foi a primeira vez que olhou diramente para mim, olhou nos meus olhos. Eu ainda esperava. Ela baixou os olhos, olhou o livro, passou seus dedos delicados por cima daquele quarto poema. Eu esperava.

E como vão as aulas do doutorado? Ela me perguntou. Vão bem. E os livros, está gostando de lê-los? Não são muito pesados? Não, não são. Eu gosto deles. Gosto mesmo. E a sua orientadora, já conseguiu conversar com ela? Agendamos uma reunião para semana que vem, espero que dê certo. Vai dar, você vai ver, vai dar.

Marcela olhou pela janela para fora do café. Ainda chovia aquela chuva magoada. Achei que ela ia comentar a chuva mas não disse nada. E o Gustavo, como vai? Eu perguntei. Ele foi ontem fazer uma nova entrevista de emprego. Tem outra poesia que eu gosto, posso ler? Eu acenei com a cabeça e ela voltou à leitura dos poemas.

Ela não disse nada sobre o fracasso das entrevistas anteriores, nem do medo que sentia de precisar voltar a morar na casa dos pais. Marcela apenas lia poemas e assim dividia comigo toda a insegurança que sentia na vida. Ela pediu um chá de frutas vermelhas, eu pedi um café sem açúcar. Dividimos depois uma torta de limão, que ela disse, sorrindo, não ser tão boa quanto a que eu costumo fazer. Rimos as duas e aos cruzarmos nossos olhares entendi que uma metáfora vale muito mais cumplicidade que mil palavras ditas sem intimidade.

Marcela ajeitou uma mecha de cabelo que lhe caiu sobre a testa, me pediu um grampo emprestado, arrumou o coque, empurrou o livro para perto de mim e me disse que era um presente. Preciso ir, o Gustavo está me esperando. Pegou sua sombrinha e sua capa no chapeleiro, acenou para mim da porta do café e se foi, com toda a leveza que possui para sofrer e ler poemas nos momentos mais tristes de sua vida.

Aviso

Em cada caixa de lembranças deveria de haver um aviso: CUIDADO! PRODUTO ALTAMENTE TÓXICO.

Dos riscos da terapia

Foi na terceira ou quarta seção que ele me disse o que faria comigo: seguraria o espelho para que eu pudesse me enxergar melhor. O problema é que era ele quem escolhia o ângulo e aquilo que gostaria de ver refletido. Eu apenas iria observar. Quieta, de preferência. E por anos foi isso que meu terapeuta fez. Segurou o espelho. Vasculhou os cantos que gostaria que eu enxergasse. Apontou para o passado, apontou para o presente. Sorria bastante, o que me incomodava. Ficava sério quando eu esbravejava. Empurrava a caixinha de lenços quando eu chorava.

Mas terapeuta é bicho estranho, e se mete às vezes por caminhos obscuros. De tanto segurar o espelho – o que deve às vezes cansar o braço – ele resolve, como por descuido, apontar para o futuro. Não, ele se recusa a dar conselhos ou dizer o que pensa, mas assim, quase sem querer, começ a a prever o que vai acontecer com você daqui uns anos. Ele nunca vai dizer o que vai acontecer amanhã, nem vai afirmar se você deve ou não terminar o namoro, sair ou não do emprego. Essas escolhas são suas. Mas às vezes, sem quase mais, ele vê o futuro, profetiza, adivinha, ou qualquer ação parecida, a depender do gosto ou da religião.

Foi assim na última vez que falei com meu terapeuta. Depois de uma longa conversa em que ele me parabenizava por meu imenso progresso em diversas áreas da minha vida, ele termina dizendo que acreditava que eu continuaria assim, madura e confiante enquanto ainda fosse jovem. Quando a juventude passasse, outras questões viriam, mas, segundo ele, não era o momento de se preocupar com isso. O tempo mesmo se encarregaria quando chegasse a hora.

Mas que raios ele quis dizer com “enquanto eu ainda fosse jovem”? A juventude passa? Como assim, passa? Que outras questões são essas? O que vai acontecer comigo quando essa fase, longa, segundo ele, acabar? Ei! Volta aqui, me diz, me explica!

E ele já se foi. Até a próxima seção. E as palavras a elogiarem meu progresso e minha maturidade ficaram esquecidas. Ele apontou seu seu espelho de condão para o futuro por um segundo, e no seguinte, se foi. As coisas mudarão daqui uns anos. Palavras de cartomante sobre o futuro. Eu serei feliz? Certamente, minha filha. Eu vou estar casada? Sim, vejo um homem que te ama nas cartas. Ele é o meu marido? Sim, é seu marido. Mas ele é o mesmo ou é outro? Minha filha, isso as cartas não dizem, dizem apenas que você estará com o homem que ama. Eu terei filhos? Vejo muitas crianças na sua vida.  Mas são meus filhos ou sobrinhos? Há uma sombra sobre essa questão, não posso te dizer, mas vejo que você ama profundamente essas crianças.

Saio da terapia como quem sai da cartomante. Penso no futuro e suspiro desesperançada. Meu progresso tem um prazo de validade. Depois, segundo o terapeuta, terei começar tudo de novo. O que aprendi hoje não vai valer para a vida toda. As questões da juventude certamente morrerão junto com ela. E hoje, que aprendi a duras penas a ser uma mulher de vinte e tantos anos, terei que aprender a ser, mais adiante, uma mulher de quarenta, depois, uma mulher de cinquenta, e assim por diante.

Custava o terapeuta segurar o espelho apontando só para o passado? Custava se focar nas questões presentes e elogiar meu progresso incrível dos últimos tempos? Custava se controlar e não me deixar saber dos seus poderes de adivinho?Logo eu, que morro de medo do que Bíblia proíbe, que me lembro a cada minuto de Saul perdendo seu reino por uma reles perguntinha a um adivinho qualquer. Eu não quero saber do futuro. É o futuro que nos faz perder reinos, é o futuro que nos faz perder o sono, é o futuro que nos faz esquecer da longa lista de elogios e se por a morrer de medo do que virá amanhã. Amanhã terei trinta, depois, logo depois, quarenta. Se a juventude passa, a terapia há também de passar. E assim ficamos combinados.