Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Pedido diante de uma pilha de papéis

Por favor, me tragam a Maria Bethânia. Tenho dor nas costas e um profundo mau humor. Tragam a Maria Bethânia. A noite se promete longa, com muitos e muitos papéis à minha frente, um calor daqueles, os bichos que me mordem, me picam. Por favor, a Maria Bethânia. Não importa de qual época. Não importa o acompanhamento. Quero a Maria Bethânia cantando, cantando, cantando. Quero a Maria Bethânia fechando os olhos, apertando as mãos, alisando seu próprio cabelo. Tragam a Maria Bethânia.

Nada me pára no estômago. Não aguento mais beber água ou coca cola. Por isso, a Maria Bethânia. Preciso de algo forte, algo que embriague, que tonteie. Maria Bethânia. Preciso de estímulo e café não me serve. Preciso de carinho, de aconchego. Preciso alguém dizendo coisas que eu gostaria de dizer. Preciso alguém tocando a ferida, cutucando a ferida, dizendo coisas que eu não teria coragem de dizer.

Não adianta mais ninguém. Se não for a Maria Bethânia, quero que o mundo se exploda. Nada de Gal, nada de Mutantes, Vanessa da Matta, Cartola, Elza Soares. Não, nenhum me serve. Quero a Maria Bethânia. Não me venham com o Chico, não me venham com Simonal. Quero companhia, preciso de estar perto de gente, mas agora, justo agora, só quero a Maria Bethânia.

O dia já escureceu lá fora, a noite parece agradável, e aqui, diante de meus muitos papéis, uma sede que não passa, um calor que não cede, um sufoco que não esquenta. Vem, Maria Bethânia, vem me ajudar a vencer a mudice, essa falta de fala, essa falta de sono, essa falta de desejo. Vem me entoar cantigas, declamar poesias. Vem me lembrar de lugares que ando esquecida, paisagens encobertas por tantos e tantos papéis. Vem.

Vem.

Por favor, me tragam a Maria Bethânia.

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4 comentários»

  Flavio D.T wrote @

A autora é professora universitária, possivelmente cheia de trabalho devido ao fim do ano letivo, e provavelmente cansada. Tem que dar conta de uma pilha de papeis, mas preferiria se dedicar à outras coisas. Porém, não pode, pois há prazos a serem cumpridos. Então, busca nas músicas de M. Bethânia um incentivo, um empurrão, algo que a faça fazer o que não quer, mas de forma mais prazerosa.
É isso?

  pequenaflordelaranjeira wrote @

Sim, é quase por aí… mas assim não fica preto no branco demais? E os meios termos? As entrelinhas? Aquilo que diz mas não se diz? É aí que entra a Maria Bethânia…

  Lino wrote @

Maria Bethânia…sempre Maria Bethânia….

  Flavio D.T wrote @

Apesar de cursar medicina, sempre gostei das aulas de Literatura, decifrar os textos, os autores…Acho que é aí que está a semelhança entre as duas ciências, a necessidade de desvendar os sinais ocultos nas entrelinhas para se chegar no desfecho da questão. Continue escrevendo, seu talento é cativante.


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