Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Setembro, 2011

Café com leite

Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não sinto cheiro de café coado vindo da cozinha. Em São Paulo nem mesmo existe um coador. Sinto saudades de Minas porque a cama em São Paulo é baixa – mentira dizer que tem cama: o colchão fica colado ao chão. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não existe um canto de silêncio: mesmo à noite sou acordada com buzinas e alarmes de carros. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não há cozinha grande que me acolha: não há como fazer bolos, risotos, omeletes.

Em Minas, sinto saudades de São Paulo. Em Minas, depois das seis da tarde, a cidade se encolhe, se recolhe, se refugia em um lugar qualquer que me escapa. Ninguém passeia pela Vila, pela avenida, pelo entardecer. Em Minas falta a padaria aberta, o armazém vinte e quatro horas, a possibilidade de ir a um bar sozinha e poucas pessoas, talvez, repararem na minha falta de companhia.

Em Minas me falta a livraria enorme, com uma infinitude de livros e o sonho de um dia ver meu nome num canto qualquer de uma estante. Em Minas me falta o chopp no final da tarde, o cinema quase no término da noite, o show que eu poderia ter ido na sexta à noite se não tivesse esticado até tão tarde aquela reunião.

Em São Paulo me falta a grama que eu piso todas as vezes que o trabalho me enfastia. Me falta a primavera no fundo do quintal, que insiste em forrar meu jardim de flores vermelhas que eu insisto em limpar com o meu rastelo. Em São Paulo me falta o espaço, apesar de toda sua amplitude. Em Minas me falta amplitude, com seus espaços sem fim.

Em Minas, minha voz sai anasalada. Em São Paulo, falo como quem canta e entoa cantigas da roça. Procuro em São Paulo o cheiro do café coado. Em Minas, procuro um chopp na calçada e uma conversa regada a sereno. E vivo, assim, semana após semana, dividida pela saudade, desejando o outro estado assim que atravesso a linha que separa o trabalho daquele lugar dominado pelo meu coração.

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Pés de bailarina

O velho artesão contava histórias para a plateia que se exprimia em uma sala pequena. Cada homem esculpido na madeira trazia um nome, uma história, um motivo. O olhar daquele velho dava vida e movimento aos homens inertes, presos em base firme: todos os pés pisavam firme um velho jacarandá.

No canto da sala, a menina olhava a janela. Lá fora montanhas altas, o céu azulado, o desejo de passear, de ter os pés empurrados por correntezas, livres do jacarandá que o velho tanto falava. A menina esperava pelas cachoeiras, prometidas pelos pais no café da manhã assim que visitassem o velho artesão que talhava sapatinhos nas madeiras da região.

Em meio a histórias que falavam de trabalho, de lutas na terra, de foices e bananeiras, o velho percebe a menina segurando firme um dos seus sapatinhos de madeira no. Ainda desinteressada, a menina pergunta por que ele insistia em fazer sapatos que ninguém poderia calçar. O velho, aprendido a olhar para a natureza, aprendido a olhar para os homens, percebe o porte de bailarina da menina – a coluna ereta,  altiva no canto da sala, os pés calçando sapatilhas, pousados no chão em movimento perpendicular, prontos para o salto.

Foi quando ainda era moço, trabalhava na roça, que encontrou lá no meio do arroz, um pedaço de madeira. Tão bonito que brilhava, tão cheio de forma que não se adivinhava se era uma girafa ou um tamaduá. Botou logo o naco da madeira no imborná e guardou para mostrar para a mãe. Ela logo disse que não era nada daquilo, que o pedaço de madeira era uma sapatilha de moça bailarina que fora perdido enquanto ela colhia arroz. Tanto tempo esquecida, a sapatilha se esquecera o que era. Cabia a ele, agora, relembrar a ela o seu estado de graça, talhando movimentos, reitrando todo o excesso do esquecimento.

Durante a noite, a mãe iluminava com lamparina para que o filho pudesse esculpir de novo a madeira, encontrando a forma, o movimento, a leveza perdida. Iluminando, a mãe dançava com a lamparina, em um jogo de luz e sombra, oferecendo ao filho claridade e som, enquanto ela própria sonhava.

No fim de uma semana, toda feita de dança e luz, lá estava o sapatinho de novo descoberto. A mãe ainda dormia, sonhando  com passos e danças, o filho lhe oferta o pequeno mimo e volta ao campo em busca de novas formas, novas descobertas. Em todas as madeiras em que descobriu formatos infinitos, o velho sempre encontrou o pequeno sapato, envolvendo os pés de cada homem, mulher, bicho, esperança.

A menina, ouvindo o velho, respirava pouco, apertava forte o sapatinho nas mãos, esquecida das cachoeiras, esquecida das pessoas na sala, os pés já nas pontas dos dedos, prontos para o próximo movimento. Durante a tarde, enquanto sentia a água tentando levar seus pés para longe, ainda lembrava do balanço daquela senhora bailarina, que se movia toda para dar luz ao filho que criava, na madeira, a peça que ela sempre sonhou em executar.

Antes da primavera

Eu ainda trazia os restos de uma conversa difícil quando entrei na garagem. E foi enquanto opiniões severas sobre meus últimos escritos ainda ressoavam em minha cabeça que percebi os rastros de meu pai em minha casa: as flores do jardim foram todas podadas, e só restaram restos de tocos de caules sem nenhuma beleza, sem nenhuma novidade. A desolação dentro do peito parecia refletida em meu jardim.

Desolação que logo virou revolta: passo a mão no telefone e disco depressa o número de meu pai. Ele não tinha o direito de podar todas as flores de uma só vez, deixando meu jardim deserto. E ainda me restava a dúvida se ele havia feito correto, se não tinha passado do ponto, cortando muito mais do que deveria, comprometendo assim toda a vida das minhas plantas.

O telefone chamou, chamou. Não atendeu. Volto para o jardim, me sento ao lado dos caules carecas e choro com eles nosso espaço desolado. Meu pai com o tesourão. Meus textos rabiscados de vermelho por um especialista. O jardim quase deserto. Meu coração quase vazio. A revolta se desfazendo em choro, os rasbiscos em meus textos se desfazendo no jardim, o choro se desfazendo no vento.

De súbito me levanto, busco o velho regador e me coloco a aguar todas as plantas, saciando a sede que era delas, que era minha. Nada se altera, apesar da água. As flores não estão mais ali, tudo é deserto, tudo é ausência de esperança.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito perto de mim. Enquanto me quedo esquecida de meu pai, esquecida dos rabiscos vermelhos, esquecida dos meus escritos, algo acontece no jardim. Dias depois percebo uma haste – tenra, pequenina – se arriscando para além do caule que ficou seco. Em todas as plantas que foram violentamente podadas era possível perceber um anúnico de vida. Vida que renascia, apesar da insegurança, apesar da fragilidade, apesar da incerteza.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito dentro de mim. Enquanto me quedo esquecida no meu jardim, esquecida em meio a tantas novidades e hastes novas e folhas hesitantes e perfumes ainda frágeis, percebo uma fisga de esperança. Não penso mais em brigar com meu pai. Não julgo mais aqueles que rabiscaram meus escritos. A primavera se aproxima, as flores começam a brotar mais uma vez. Meu coração, imagem refletida do jardim, começa a palpitar forte novamente. É hora de voltar a escrever.

Boas vindas

Prezada Nara,

Só hoje me dei conta de que você é mais uma moradora de nossa casa. De todas as outras vezes que nos encontramos, no susto que levava, eu não percebia que eram sempre os mesmos olhos a me encarar. Eu não percebia que era sempre você. E hoje, enquanto eu aguava o tomilho, você não pulou na minha direção – o que me colocaria, mais uma vez, em estado de pânico – mas me olhou quieta enquanto eu despejava borbotões de água sobre você.

Meu primeiro intuito foi te enxotar da horta a vassouradas, mas você me olhava com olhos tão fixos, tão certos. Hesitei. Você teve a coragem que me falta: olhou o inimigo nos olhos e não recuou enquanto não reconheceu naquele olhar a piedade e a bondade de quem escolhe não liquidar uma pequena perereca que lhe incomoda. Eu era infinitamente maior do que você, mas o seu olhar me encarou com coragem até reconhecer uma fisga de esperança nos meus olhos. Foi quando decidi recuar e deixar de lado minhas estratégias de guerra contra você.

E já que agora sei onde você mora e posso te reconhecer transitando pela minha casa – não são inúmeras pererecas, é apenas você – é necessário, em primeiro lugar, que você ganhe um nome. E ao te dar um nome, Nara, eu te aceito e te reconheço como única. Não que todas as pererecas do mundo possam se aproximar de mim a partir de agora, mas você, com o seu olhar, abriu fendas no meu universo até então interditado para as pererecas.

Em segundo lugar, é preciso estabelecer algumas regras. Eu sei onde você mora – no tomilho – e você também deve saber onde eu moro. Eu, sinceramente, não gostaria de te encontrar no meu quarto ou no meu banheiro. Se assim acontecer, desconfio que nem sequer seu olhar será capaz de abrandar a minha fúria.

A casa é grande, eu sei, mas eu também não gostaria que você fizesse festas e nem recebesse visitas. É preciso, antes de tudo, manter a ordem e a intimidade do nosso lar. Se você se sentir muito sozinha, te peço encarecidamente que saia um pouco, vá dar uma volta, passear pela cidade. Sabe, Nara, a cidade é bonita, cheia de gente, muitos carros, as possibilidades são enormes.

Por fim, reconheço que foi com alívio que te encontrei hoje. Não por saber agora que não são muitas as pererecas, mas porque de certa forma você me faz companhia. Você ama o jardim e suas flores tanto quanto eu. Você se regozija com a água caindo sobre a terra, e sente, como eu, o perfume que ela exala ao ser regada.

Espero que a convivência possa ser boa, e te peço que, sempre que preciso, antes de sair pulando por aí, me entregue sempre esse seu olhar.

Atenciosamente