Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Outubro, 2013

Vestido cor de rosa

Te vestiram de rosa, menina, te presentearam com bonecas com ares de princesa, preparam sua festa de cinco anos, de dez anos, de quinze anos, pentearam seus cabelos, trabalharam cada cacho, sem deixar um fio fora do lugar. Te ofereceram viagens, te prometeram felicidade, te esconderam da dor. Te deram remédios, te livraram de encrencas, compraram para você tudo o que você queria e pouco precisava.

Mas esqueceram, menina, de te avisar que a luz apaga, que alguém precisa limpar os restos da festa, que o telefone às vezes chama, chama e não atende. Esqueceram, menina, de te expor aos gritos esbravejantes daqueles que têm poder, de te avisar que comida velha cheira mal, de dizer que louça suja não se lava sozinha.

E hoje, menina, você chora, abraçada na velha boneca, que também envelheceu e perdeu seu perfume de princesa francesa. Chora porque não te avisaram que o mundo não se veste de cor de rosa, chora porque desta vez ninguém pôde comprar a vaga que você tanto queria. Chora porque seus amigos se foram e ainda não apareceram novos para preencher o lugar daqueles.

Você se sente sozinha, menina, eu sei. Não desista. O mundo te decepciona uma vez, mais uma vez, mais outra. Vão rir da sua cara ainda, vão te negar oportunidades, vão roubar o seu dinheiro, vão te causar mais e mais dores. Mas olha, menina, não perca esse seu olhar de doçura, esse seu coração de criança. O mundo também é bem colorido às vezes, e você vai aprender que pode usar as cores que quiser, basta aprender a lidar com aquelas mais sombrias desse pantone misterioso.

Mas não desista, menina. Ainda há tempo de descobrir que o mundo é melhor, bem melhor do que te fizeram acreditar quando você era apenas uma menininha.

A lembrança de sua voz

Tenho tantas lembranças suas que de todas não sei qual amo mais. E é estranha essa substância da memória, imagens que por vezes se formam cá dentro mas que eu não vejo mais. Às vezes me esqueço de seu rosto. Procuro, procuro, mas nada vem à mente. E me culpo por me esquecer de um rosto que mirei por toda a vida, que percebo os traços, que vejo envelhecer. Às vezes, por segundos, te perco, te esqueço. Mas basta estar distraída e num instante te vejo de novo, rosto limpo, sorrindo. Não sei do que é feito isso, não sei quais contas o coração realiza para lembrar num instante e no seguinte esquecer.

Se é estranha a memória de seu rosto, mais ainda é a de seu cheiro. O seu perfume predileto colado à pele de uma pessoa alheia me faz recordar lugares distantes que conheci ao seu lado, quando do lado de fora o mundo falava em línguas estranhas e você me dizia boa noite num idioma tão familiar.

Não são só os perfumes que me lembram você. O cheiro da sua roupa em outra roupa, o hálito forte que às vezes percebo em outras bocas. Há ainda os cheiros que não foram trazidos por ninguém, e que estão apenas escondidos na minha memória. Não sei quais mecanismos meu coração realiza para me fazer lembrar do cheiro da sua casa, que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Lembro, apenas.

De todas as lembranças, é a recordação de sua voz o que mais me assombra. Sou capaz de imaginar sua entonação, a voz sempre contida, nunca alta demais. Uma voz que pede licença para falar na própria melodia do que diz. O que meu coração faz para lembrar da sua voz se eu não a ouço em lugar algum? Qual é o timbre que não o trago reproduzido em nenhum aparelho digital? Qual rotação o coração usa para registrar cada uma das vibrações de sua voz?

De todas as lembranças que trago de você, só uma me falta: não me lembro de você dizendo o meu nome. Você não me chama. Você não me nomeia. E então percebo que por faltar a lembrança de você dizendo uma palavra tão pequena, me chamando de Dri, esse nome que gosto tanto, eu te perco de novo e irremediavelmente. Minhas lembranças de seu rosto, de seu cheiro, da sua voz, nenhuma delas te prendem a mim. Eu não tenho lembranças que me façam ter a certeza que você me ama. Eu creio no seu amor, mas minha memória duvida. E percebo então que amo todas as suas lembranças, esse material estranho que trago na memória. Mas percebo de novo, como tanto em minha vida, que estou do lado de fora, e as suas lembranças não pertencem a mim.

Redemoinho

Não, não. É mentira que o tempo voa. Não para quem tem saudades. Não para quem tece, diariamente, fios de espera. Há anos observo minha cerejeira, nos fundo de casa, sozinha no jardim. Levou tempos para fazer brotar uma flor. Uma única flor, pequenina. Nada passa depressa demais. O que envelhece é o seu celular, o modelo do seu carro novo. Minha vida não envelhece.

Encontro velhos conhecidos e ouço que eles me conheceram quando eu era assim, desse tamaninho. Sussuram então, no meu ouvido, que estão ficando velhos. Eu respondo que não. Eu respondo que somos todos, ainda, desse tamaninho. E a vida é tão lenta, e a vida é tão boa. E eu me contorço de saudades, e eu me preencho de espera.

Encontro, também, aqueles que sempre foram menores que eu. Eles eram os pequeninos. Estão hoje maiores, no tamanho e na coragem. Nos abraçamos e lembramos de quando eles eram apenas meus alunos. Agora não são mais. Estamos todos no meio do furacão, carregando sonhos e saudades. Tecendo a espera por aqueles que sempre serão mais pequeninos que a gente.

Não. O tempo não voa. O tempo, mesmo, ele nem existe. O que existe somos nós, corajosos e valentes frente à velocidade com que o mundo se movimenta, frente aos desejos imperiosos de estar aqui e estar lá, de ser um e ser mil. O que existe são pequeninos que crescem e nos ultrapassam, sorriem para nós, nos acenam de longe. E nos fazem lembrar que a vida, essa vida que nos cabe, é assim mesmo, cheia de movimento, cheia de alegria. Cheia de desejos de presença e carregada desses buracos da ausência. E a ausência é essa saudade. Não, o tempo não voa. É só o seu celular que envelhece depressa demais.