Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Outubro, 2011

Por um mundo melhor

Prezada Sílvia,

Pode parecer estranho a você estar recebendo uma carta escrita por mim, mas para mim, acostumada com certos desentendimentos em minha casa, percebi que escrever cartas é um meio eficaz de lidar com alguns conflitos. Tendo em vista sua agressividade recente frente a minha presença, acredito que uma conversa cara a cara seria praticamente impossível, para não dizer um pouco perigosa para a minha integridade física. Preferi, então, escrever.

 Em primeiro lugar gostaria de dizer que respeito profundamente seu estado físico de pós parto. Apesar de não ser mãe, eu posso imaginar o cansaço e o nervosismo de ter de cuidar de dois bebês tão pequenos e já tão exigentes: abandonar momentaneamente os filhos para buscar comida para sustentá-los deve ser algo devastador. Posso imaginar também sua alegria ao retornar e encontrá-los em segurança, com a suas bocas escancaradas à espera daquilo que você buscou para eles.

Acredito que esteja passando por um momento delicado, já que seus filhotes cresceram um pouco, o que faz com que não haja mais espaço para você no meio deles, te colocando ao largo, velando por eles de longe, cuidando para que ninguém se aproxime. Talvez seja por isso que você se coloca na árvore em frente, e pia como uma louca quando nos aproximamos da garagem onde o ninho foi construído.

E é por isso que estou te escrevendo, Sílvia, para te dizer que não pretendemos machucar os seus filhotes, e que você pode piar loucamente, mas por favor, pare de nos atacar. Eu me sinto extremamente desconfortável ao pensar que você pode me ferir com seu bico enorme, bico de mãe zelosa que usa as armas que tem para defender uma das poucas coisas que realmente importam na vida. Sei que você é apenas uma beija flor, mas deve de julgar que os filhos são umas das poucas coisas que importam na vida.

No fundo, acho difícil você acreditar em mim. Quando eu digo que não irei machucar seus filhotes, nem destruir o ninho que você construiu com tanto zelo, tenho uma quase certeza de que o que digo não importa. Você me vê ao longe, olha pros seus filhotes, avalia o risco e prefere atacar. E investe contra mim. E tenta me machucar. Mesmo que seja eu quem ofereça toda a possibilidade de um lugar para você gerar seus filhos, mesmo que seja eu quem forneça água para o jardim, garantindo uma vida melhor para vocês. Desconfio que na verdade isso tudo não importa: você se torna cega toda vez que alguém se aproxima das suas crias.

Se nada importa, essa carta é, na certa, inútil. Mas eu, Sílvia, sou uma pessoa apegada às palavras, acredito nelas, acredito no poder que elas carregam em si. Por isso, ainda assim, prefiro te entregar esses dizeres, fazendo a promessa de que não vou machucar os seus filhos. Se te importar, te peço também que pare de nos amedrontar com seus voos rasantes e seu bico afiado. Talvez pudéssemos, assim, viver em maior harmonia, garantindo um mundo melhor para os seus filhos e para todos os moradores desta casa.

Atenciosamente.

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Por andar distraída

Era o primeiro dia de aula na quinta série, e diferente das meninas de sua idade, ela caminhava tranquila em direção ao colégio. Tudo tinha mudado: professores, colegas, horário e matérias, na mochila o cheiro do novo: sonhos, cadernos, lapiseiras. As outras meninas corriam apressadas para o colégio, queriam logo conhecer a nova classe, os novos amigos, as novas paqueras.

A movimentação começou cedo em todos os lares da quinta série. Com o novo horário, quase de madrugada, foi preciso acordar muito cedo para que nada saísse atrasado. Ela também fez assim. Acordou cedo, se arrumou, pegou a mochila já preparada de véspera, beijou o pai que lia na sala, e se foi a caminho do colégio. O caminho, no entanto, foi mais longo que nos outros dias. A sensação de estar se dirigindo a um mundo novo precisava ser aproveitada: ela chegaria ao colégio e conheceria tudo que era novo, o novo se tornaria velho, o velho se transformaria em tédio, e ela nunca mais teria a sensação de descoberta que aquele caminho lhe dava. Era preciso aproveitar o caminho, o velho caminho já conhecido mas que levava a lugares novos.

E ela aproveitou tanto o caminho que se esqueceu da escola. Parou para indicar a direção para uma senhora que passava, parou para ver um ninho de passarinho caído no caminho, parou para catar um jornal jogado na rua, parou para pegar a bola que rolou na sua direção. E o dia tão esperado durante as férias foi trocado por alguns instantes de surpresa.

Chegou atrasada e perdeu as boas vindas da diretora. Chegou atrasada e já no primeiro dia foi repreendida. Chegou atrasada e já lhe passaram a lição de que não se deve ter muitos sustos pela vida. Mas diferente das meninas da sua idade, ela não aprendeu a lição, e durante muitos anos de sua vida continuou recusando os prazeres calculados, os sonhos previsíveis, durante muito anos continou cultivando pequenas surpresas, e se encantando com os sustos que causava em pessoas ou lugares onde menos esperava.

Cheiro de geleia

Para Aline Izabel

Ando à procura de uma palavra bonita e cheia de alegria para
colocar em minha estante. Uma palavra-fotografia que me lembre, todas as vezes
que eu pronunciá-la, uma imagem que me acalme, que me farte, que me alivie do
peso da vida. Procuro uma palavra-senha, palavra-chave, que me permita adentrar
por lugares secretos, carregados de um perfume que me aqueça a alma nos dias
chuvosos.

Quero uma palavra que seja farta de significado, de memória,
de cor e de movimento. Uma palavra que traga a bênção para titubear menos
frente ao dia que nasce de novo azul. Palavra-amuleto que me acompanhe quando
sinto medo.

Entre tantas palavras, gostaria de encontrar uma que unisse
em si o amarelo, o entardecer, o cheiro de terra molhada da chuva, o sorriso de
quem amo, o sabor do salmão cru, a grama tocando meus pés descalços, a água
escorrendo pela boca depois da sede maior, o corpo descansado depois de uma
longa noite de sono profundo, a surpresa de encontrar um fruto ainda pequeno no
quintal de casa, a lágrima daquele que se emociona ao ler um escrito meu, o
sabor do brigadeiro assim que ele toca a língua.

Gostaria ainda que essa palavra-mantra fosse sonora e cheia
de movimento. Palavra-canção, que encha a boca de quem a pronuncia e convide
para uma passo de dança. Palavra-insinuação.

Procuro uma palavra que seduza, que prenda a atenção num
átimo, que enlace quem a escuta como um encantamento. Palavra que seja repleta
de paixão e recuse para sempre a monotonia. Palavra-veneno.

E como se fosse impossível encontrar uma palavra que tocasse
com leveza a minha alma, fazendo com que ela dance de forma suave, sorrindo
apesar da chuva, apesar do mundo sombrio que se apresenta lá fora, lá está ela,
sobre a minha estante: palavra-redonda, palavra-cor, palavra-doçura, palavra-memória,
palavra-explosão, palavra-segredo, palavra-convite. Jabuticaba.

Final feliz

Eu quero um texto triste, que funcione como whisky puro e acalme um soluço, um texto que embriague e desobrigue a encher o copo uma, mais uma, mais uma vez. Quero que as palavras escorram pela página borrando as ideias, turvando os sentidos, fazendo latejar a cabeça. Quero que no fim do texto seja preciso beber um gole d’água, acalmando o que ficou desolado.

Um texto que desperte um soluço em quem estava distraído, que fale do amor e da perda como quem reza um terço. Um texto que lembre um mundo povoado de saudade e ausência, que escureça junto com a espera de um telefonema.

Um texto que se pareça com dois olhos que olham e fitam e não são percebidos, que insiste, não desiste e ainda assim não funciona. Um texto que luta e perde. Um texto mal compreendido. Um texto sozinho.

Um texto que grita, esperneia, que chora baixinho com os braços enrolados nas pernas. Um texto que seja repleto de insônia, que toque no músculo que dói nas costas, que arrepie a pele desacostumada ao toque, que lembre o perfume do amor escondido.

A intensidade seria sua marca mais visível: ele fala como quem abraça um abraço forte, e assim, sufoca. Mas é cheio de enganos e desencontros, e ninguém compreenderia que o texto triste apenas pede, apenas suplica. O texto falaria da distância e da ausência como um desejo que aponta para o aconchego, para o carinho. O texto triste é um pedido para que fique.

E como um texto triste que é, termina sem esperanças. Olha ao longe e acredita em algo, mas não sente forças para desejar nada além das próprias palavras e da própria tristeza. Um texto triste não consegue acreditar em um final feliz.

“Você foi marcado em uma foto”

A câmera estava ligada, era preciso pensar rápido, o que, afinal, o repórter esperava que eu respondesse para uma pergunta tão sem propósito?  Enquanto tentava pensar sobre um assunto no qual eu nunca refletira, eu ouvia a respiração do câmera por trás das lentes. Ele, certamente, se deliciava com a minha angústia e estaria, irônico, sorrindo enquanto fechava a imagem sobre meu rosto aflito. Era preciso dizer à população mundial, posicionada atrás daquela câmera, o que eu esperava para o mundo para os próximos dez anos.

O tempo era diminuto e o repórter, cínico, me convidava a refletir sobre o mundo. E o mundo, naquele momento, me parecia minúsculo. Não eram os pobres da Índia ou os escravos bolivianos de São Paulo que apareciam na minha mente. Não eram as empresas farmacêuticas e seus testes em seres humanos que me visitavam. Nem mesmo era a política nacional, com seus escândalos, renúncias de ministros e cortes de orçamento o que me preocupava.

Eu lutava contra o meu egoísmo, mas só fazia pensar nas parcelas do financiamento da minha casa, nos prazos de entrega dos meus projetos, nos lugares do mundo que sonho em ainda conhecer. Eu espero que nos próximos dez anos eu não tenha envelhecido o suficiente para desejar fazer alguma plástica, espero que consiga comprar um carro com ar condicionado – o calor que tem feito na primavera é uma barbaridade. Espero que a malha do metrô de São Paulo triplique de tamanho e espero que o pedágio se torne mais barato no caminho para o litoral.

Perdida nos meus desejos, percebo os olhos do repórter, ainda ali ao lado, demandantes, esperando a resposta definitiva. Pensei então em Minas, pensei em São Paulo, pensei na Fernão Dias e disse, confiante, que gostaria que em dez anos os homens inventassem, finalmente, a máquina de teletransporte. Não era possível acreditar na nossa capacidade humana de desenvolvimento e ainda perder tanto tempo na estrada, no trânsito, no ponto de ônibus, na fila do metrô, na conexão São Paulo – Paris.

Os olhos do repórter sorriam. Eu havia passado no teste. O câmera, para meu alívio, disse corta!, desligou sua lente biônica, interrompeu a transmissão e voltei, então, ao meu lugar no mundo. Já na biblioteca – onde passo boa parte do meu dia – sentia meu telefone vibrando. Eram mensagens recebidas dizendo que haviam me visto na TV, lá no Rio de Janeiro; que eu havia sido marcada em uma foto no Facebook; que me ligariam de Minas na hora em que fossem cantar o parabéns para a bisavó para que eu pudesse, de alguma maneira, estar presente.

De dentro da biblioteca eu povoava o mundo. A minha incapacidade de estar presente em todos os lugares que eu gostaria se transformava em presença. Na hora marcada saí da sala de estudos e cantei parabéns para a bisa, comemorando com ela os seus 95 anos. No final da música, minha avó toma o telefone e diz que naquela hora iriam tirar a foto, e que eu estaria, junto com todos os meu primos, presente no registro daquele momento tão importante para a nossa família.

Ao desligar o telefone pensei nos olhos do repórter, e desejei que ele me abordasse mais uma vez, eu diria a ele que não era preciso inventar mais nada não, que tudo o que eu desejava para o mundo já estava ali: eu estava presente em todos os lugares em que eu desejava estar. E isso é suficiente.

Para Rebeca Campos