Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de filhos

Questionário

– Quantas árvores plantadas?

– Até agora, cinco.

– Livros escritos?

– Sim, dois.

– Filhos?

– Três.

– E o que você ainda espera da vida?

– Tudo.

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Celebridades – A Cor Amarela

Estar cara a cara com celebridades é um privilégio. E foi pensando nesse privilégio que o Pequena Flor de Laranjeira idealizou uma série de entrevistas, tendo em mente as curiosidades do leitor, aquilo que ele gostaria de saber da intimidade de tais pessoas – detalhes da infância e adolescência que a mídia, de alguma forma, deixou de perceber, e deixou de contar.

Foi a Cor Amarela a escolhida para inaugurar essa série de entrevistas. Em uma conversa singela, ela nos contou detalhes de sua vida amorosa, da história de sua família, dos anos da adolescência, dos sonhos de menina. Chegamos em sua casa – onde ela mesmo escolheu para nos conceder a entrevista – no meio da tarde, e no momento em que finalizávamos nosso roteiro, a Cor Amarela se retirou. Em poucos minutos éramos banhados pelo entardecer. Frente a tal espetáculo entendemos que a Cor Amarela nos dizia adeus. Foi então que fomos embora sem mais uma única palavra.

Pequena Flor de Laranjeira:  Por muito tempo você foi casada com a Cor Azul, com quem teve um filho, a Cor Verde. Como é se relacionar com uma cor primária, sendo você também uma cor primária?

Cor Amarela: Existe uma lenda de que as cores primárias não gostam de se relacionar com as outras – nenhuma das outras. Dizem que prezamos pela pureza. Isso não é verdade. Desde muito criança sempre gostei de brincar com as outras cores, e íamos sempre experimentando, nos colocando umas sobre as outras, até perceber qual a nova cor sairia dali – mesmo que fizéssemos isso escondido. A diferença é que quando adultas, as misturas eram pra valer, e criavam, de fato, novas cores. Foi assim que aconteceu comigo e com a Cor Azul. Nos apaixonamos ainda jovens, casamos e planejamos ter um filho, apenas um: não queríamos que o mundo fosse povoado de uma imensidão de cores impuras. Foi assim que a Cor Verde nasceu. Quando ela ainda era criança, estávamos sempre juntos, mas como todo filho, ela cresceu, saiu de casa e foi então que perdemos alguma coisa… a minha relação com a Cor Azul já estava abalada, e foi quando nos separamos.

Pequena Flor de Laranjeira: Mas o que se disse na época é que vocês se separaram porque a Cor Azul estava tendo um caso com a Cor Vermelha.

Cor Amarela: Vocês jornalistas não costumam ser discretos! Apesar de nos relacionarmos com outras cores, as cores primárias são muito solitárias. Mesmo entre nós, há sempre o risco da contaminação, da perda da pureza. Uma relação entre mim e a Cor Azul é uma relação que pode dar bons frutos. Poderíamos ter tido uma imensidão de filhos, muitos tons de verde, mais escuros, mais claros, azul piscina, azul pijama, verde bandeira, verde musgo, verde quartel… Mas entre a Cor Azul e a Cor Vermelha… ninguém sabe o que pode acontecer. Então, nesse sentido, me chateia um pouco saber que eles, de alguma forma, se relacionam, mas entendo, por outro lado, já que nós três, a três cores primárias, nos sentimos muito solitárias.

Pequena Flor de Laranjeira: Mesmo que a gente leve em conta as possibilidades de mistura, é a sua pureza que chama mais atenção se formos comparar com a Cor Azul e a Cor Vermelha. Esse fato chegou a gerar problemas entre você e a Cor Azul enquanto vocês eram casados?

Cor Amarela: De fato, não. Quando era pequena, fui educada para a realeza. Estudei em colégios de príncipes e princesas. Tudo ao meu redor era banhado a ouro. Mas minha mente de criança fugia, sonhava com outros lugares, povoados de cores, muitas cores. Me lembro das histórias que a ama contava para mim: princesas que fugiam com meninos azuis e cinzas montados em cavalos alaranjados, e conheciam, em um cidadela muito distante, flores roxas, rosas, frutas cor de carmim… a cidadela era protegida por cavaleiros envoltos em capas de veludo marrom, com botas negras e bigodes castanhos. Apesar da educação que recebi e dos sonhos de meus pais, sempre desejei estar perto de outras cores. E foi em uma viagem que fiz quando era jovem, para uma dessas terras distantes, que conheci a Cor Azul. Me apaixonei de imediato pela sua imensidão. Nem mesmo a pureza da minha família, toda a linhagem real que eu trazia acima de mim seria capaz de sobrepor à beleza daquela imensidão. Não me importava em nada a sua tendência para a impureza. Eu desejava apenas a sua grandeza, meu coração ardia pela capacidade da Cor Azul de ser maior e mais ampla que a própria terra.

Pequena Flor de Laranjeira: Mesmo que a Cor Azul seja grandiosa, ela não é capaz de tingir a terra assim como você faz todos os dias ao entardecer…

Cor Amarela: Sim… mas foi apenas muito tempo depois que descobri que, assim como a Cor Azul, eu poderia também ser grandiosa, não pela imensidão, pela profundidade, mas pela possibilidade de envolver o mundo como em um abraço por apenas alguns minutos, mesmo que o mundo não queira, mesmo que ele não perceba. O entardecer é a coroação de toda cor amarela, é o momento sublime em que dizemos, de forma calada, que a realeza de nossa cor está na capacidade de, todos os dias, envolver a tudo quanto existe na nossa frente, por alguns minutos, e depois nos despedirmos, deixando ao mundo nossa ausência, nossa falta, para retornar depois, de novo e de novo, e banharmos, a cada dia, a terra com a nossa mais pura beleza do entardecer. E isso eu só descobri já bastante madura, e foi então que percebi que eu não precisava ser dependente da Cor Azul, e que nós dois poderíamos ser grandes e inteiros. E é assim que somos hoje. Felizes, imensos e inteiros.

Por um mundo melhor

Prezada Sílvia,

Pode parecer estranho a você estar recebendo uma carta escrita por mim, mas para mim, acostumada com certos desentendimentos em minha casa, percebi que escrever cartas é um meio eficaz de lidar com alguns conflitos. Tendo em vista sua agressividade recente frente a minha presença, acredito que uma conversa cara a cara seria praticamente impossível, para não dizer um pouco perigosa para a minha integridade física. Preferi, então, escrever.

 Em primeiro lugar gostaria de dizer que respeito profundamente seu estado físico de pós parto. Apesar de não ser mãe, eu posso imaginar o cansaço e o nervosismo de ter de cuidar de dois bebês tão pequenos e já tão exigentes: abandonar momentaneamente os filhos para buscar comida para sustentá-los deve ser algo devastador. Posso imaginar também sua alegria ao retornar e encontrá-los em segurança, com a suas bocas escancaradas à espera daquilo que você buscou para eles.

Acredito que esteja passando por um momento delicado, já que seus filhotes cresceram um pouco, o que faz com que não haja mais espaço para você no meio deles, te colocando ao largo, velando por eles de longe, cuidando para que ninguém se aproxime. Talvez seja por isso que você se coloca na árvore em frente, e pia como uma louca quando nos aproximamos da garagem onde o ninho foi construído.

E é por isso que estou te escrevendo, Sílvia, para te dizer que não pretendemos machucar os seus filhotes, e que você pode piar loucamente, mas por favor, pare de nos atacar. Eu me sinto extremamente desconfortável ao pensar que você pode me ferir com seu bico enorme, bico de mãe zelosa que usa as armas que tem para defender uma das poucas coisas que realmente importam na vida. Sei que você é apenas uma beija flor, mas deve de julgar que os filhos são umas das poucas coisas que importam na vida.

No fundo, acho difícil você acreditar em mim. Quando eu digo que não irei machucar seus filhotes, nem destruir o ninho que você construiu com tanto zelo, tenho uma quase certeza de que o que digo não importa. Você me vê ao longe, olha pros seus filhotes, avalia o risco e prefere atacar. E investe contra mim. E tenta me machucar. Mesmo que seja eu quem ofereça toda a possibilidade de um lugar para você gerar seus filhos, mesmo que seja eu quem forneça água para o jardim, garantindo uma vida melhor para vocês. Desconfio que na verdade isso tudo não importa: você se torna cega toda vez que alguém se aproxima das suas crias.

Se nada importa, essa carta é, na certa, inútil. Mas eu, Sílvia, sou uma pessoa apegada às palavras, acredito nelas, acredito no poder que elas carregam em si. Por isso, ainda assim, prefiro te entregar esses dizeres, fazendo a promessa de que não vou machucar os seus filhos. Se te importar, te peço também que pare de nos amedrontar com seus voos rasantes e seu bico afiado. Talvez pudéssemos, assim, viver em maior harmonia, garantindo um mundo melhor para os seus filhos e para todos os moradores desta casa.

Atenciosamente.