Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Doriana

É abrir os olhos e percebê-la ao lado. Não, ao dormir ela não estava ali, o quarto silencioso, a luz branda, o coração leve. Mas acordo apertada, ela me abraça, me sufoca, me maltrata. Levanto, o espelho me acusa. Meu guarda roupa me acusa. Meus sapatos velhos me acusam. E ela ao lado, sorri, acha graça do meu desespero.

Enquanto trabalho ela tamborila os dedos na mesa. Eu peço um café, outro e mais outro. Ela sorri. Ela sabe que eu duvido. Duvido de tudo. Ela sorrindo. As notificações de e-mail me estremecem. O toque do celular. Notícias ruins vão chegar, cedo ou tarde irão descobrir que não passo de uma farsa. Nem bela, nem culta, nem elegante.

Vou às lojas, ensaio comprar roupa nova, sapato, bolsa, perfume. Tudo se parece tão mais belo do que eu poderia ser, tão mais feliz do que eu seria capaz, tão mais eficiente do que eu conseguiria. Desanimo.

Volto para casa, retiro a maquiagem, ela ao lado. Visto moletom, prendo o cabelo no alto da cabeça, coloco meias e chinelo de dedo. Feia. Deselegante. Cansada.

Vou dormir assim, sem belezas nem certezas. Apago a luz desta vez, talvez assim a dúvida não tenha coragem de dormir ao meu lado, nem me agarre durante a noite, nem me grite em pesadelo que não passo de uma farsa. Amanhã, talvez, eu acorde de novo bela, de novo confiante, de novo um pouco feliz.

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