Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Agosto, 2013

Para deixar de comer chocolate

A guerra parece perdida antes mesmo de iniciada. Todos os dias a velha promessa de, só por hoje, não comer chocolate. Só por hoje. Não se parece com uma promessa tola exatamente porque começa com a humildade de não prometer o que não é possível cumprir. Não me proponho a nunca mais comer chocolate. Me proponho a não comer chocolate por hoje, apenas por hoje.

E sei que não estou sozinha. No mesmo instante que olho para a caixa de bombons ao lado da mesa do trabalho, alguém em outro andar do mesmo prédio olha para a carteira de cigarros, outra, no apartamento em frente, luta contra o desejo de subir na balança mais uma única vez, outros olham para o celular e se debatem com o desejo compulsivo de enviar mais uma mensagem para alguém, outro se segura na cadeira do escritório para não ir ao banheiro lavar a mão mais uma vez, apenas mais uma vez.

E eu e tantos outros sucumbimos. Perdemos a guerra. Rompemos a promessa. Comemos chocolate, fumamos um e outro cigarro, subimos na balança três, quatro vezes ao dia, esfregamos a mão até sangrar, procuramos mais e uma última vez o amor errado que prometemos nunca mais amar. Perdemos.

Mas se a promessa era só por hoje, a derrota também vale apenas por hoje. Com olhar de cachorro sem vergonha dizemos pra nós mesmos que perdemos mais uma vez, mas vamos continuar tentando. Mesmo que todos os dias sejamos subjugados, mesmo que o vício e o desejo se mostre impetuoso, mesmo que nos sintamos fracos e envergonhados, continuaremos tentando.

Porque ao final, se não vencermos nada, pelo menos não seremos derrotados de todo. E nos resta o dia de amanhã, e depois, e depois. E sempre permanecerá um resquício de desejo, uma lembrança de um gosto doce na boca, um restinho de sujeira na mão, a memória de uma rua, de um beijo, a calça jeans que não serve mais mas não nos desfizemos dela, uma última carteira de cigarros guardada no fundo do armário…

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Canção para moça envergonhada

O que você esconde por trás destes seus óculos, menina? Vergonha de moça? Impressão de cansaço? Por que em todas as fotos que vejo não encontro seus olhos, menina? Há sempre uma lente escura que te escurece, um vidro temperado a te colocar bem depois do infinito.

Tira esses seus óculos, menina. Me deixa entrar em seus olhos, me deixa ver suas mágoas, o olhar triste, a ruga que desde já te acompanha. Me deixa perseguir seu olhar, menina, perceber onde seus olhos pousam, saber o que, no fundo, te chama atenção.

É sempre assim, menina, eu te olho e não sei para onde vão seus olhos. Nem sei se você ri, se chora. Não sei nada de você, menina. Seria melhor se esconder na maquiagem, no perfume, na dança de qualquer movimento. Mas não, menina, são sempre os mesmos óculos, óculos escuros, pretos, duros.

Tira esses óculos, menina. Me deixa entrar na sua vida, descobrir o seu sorriso, fincar em seu rosto mais uma história. Tira esses óculos, menina. Vem ver a vida sem instrumento. Vem ficar do meu lado e deixa eu pegar sua mão e perceber o que brilha no seu olhar. Deixa eu te ver, menina. Deixa eu te ver.

Putas assassinas, de Roberto Bolaño

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BOLAÑO, Roberto. Putas assassinas. São Paulo, Companhia das Letras, 2008, 219 páginas.

Pode parecer grosseiro para alguns, mas para mim, este livro de Bolaño me fez lembrar Doze Contos Peregrinos, de Gabriel García Marquez. Pode ser grosseiro para o Bolaño. Pode ser grosseiro para García Marquez. Talvez se sentissem ofendidos. Não sei. Nada mais distinto que a matéria sobre a qual escrevem. A questão é que a abertura do livro de García Marquez, quando ele explica os motivos de serem doze, de serem contos e de serem peregrinos me parece que caberia também aqui neste livro de contos de Bolaño. Me explico. Não são doze, mas treze contos. Todos eles, no entanto, apontam para paisagens diferentes mas parecidas: o narrador se vê entre o Chile, o México e Barcelona. Poderiam, talvez, ser peregrinos. Cabe ao leitor agora verificar se as explicações de García Marquez para a opção de serem contos caberia também no caso de Bolaño. Fica a critério.

O olhar do narrador – e claro, sempre o narrador personagem B., que nos faz indagar se seria ele mesmo o autor, Bolaño, se seria esse seu alter ego, seu personagem preferido etc – difere em quase tudo dos olhares de García Marquez. As paisagens de Bolaño são marcadas pela desesperança, pelo assombro, pelo susto de se contemplar a natureza humana, a vida humana, o mundo, ao final. Os personagens dos contos de Bolaño transitam por cidades perdidas na poeira do deserto mexicano, por bares duvidosos no DF ou em Barcelona, por povoados miseráveis na Índia, por trens em trânsito pela Europa. Mas não há nada, absolutamente nada de vulgar nos contos de Bolaño. As putas que assassinam ou os filhos de atrizes pornô não estão presentes para montar um cenário carregado de sexualidade ou sensualidade. Não. Os personagens de Bolaño jamais são sorridentes. São personagens assombrados e que desvelam o assombro da existência. Apesar de transitar por lugares tão chulos, tão marginais, nenhum dos personagens do livro pode receber o mesmo adjetivo.

De todas as paisagens do livro, o Chile aparece como o lugar privilegiado de estupefação. O livro se parece como uma evocação dos lugares chilenos, dos eventos passados, da ditadura, da tortura vivida por tantos dali, da história irracional deste país. O narrador dos contos não parece sentir saudades do Chile. Sua casa já não é mais ali. Por isso, talvez, o trânsito contínuo, o assombro do que no México é o Chile, do que em Barcelona é o Chile, do que na Bélgica é Chile. Talvez por isso a recusa a compreender o Chile a partir de Pablo Neruda. Pablo Neruda jamais representou ou representará o Chile, é o que nos diz o narrador do conto Carnê de Baile. Enquanto o nome de Neruda brilhar sobre a rubrica de literatura chilena, todos os poetas, entre eles ele mesmo, o narrador, B., estarão encarcerados em prisões ou manicômios.

Não. Pensando bem, em nada Bolaño se aproxima de García Marquez. E essa pode ser uma das lições de Putas Assassinas.

Árvore genealógica

Nasci Helena. Fui Helena por alguns anos. Até que me transformei em Francisca. Quando era Francisca tinha vários apelidos. Me chamavam de Chica, de Kika, de Tica. Até que um dia também deixei de ser Francisca. Foi quando me passei a chamar Olívia. Não era palito, nem os da minha época se lembravam de Popeye. Era Olívia, simplesmente. E gostava de ser Olívia exatamente porque não me reconheciam como a Olívia do Popeye. Eu podia, então, ser a Olívia de ninguém. Mas um dia também me cansei de ser Olívia e passei a ser Nadir. Nadir, que tanto poderia ser homem como mulher. Eu gostava dessa indefinição, de poder ser mulher quando me queriam homem, de ser homem quando apenas me desejavam mulher. Era sendo Nadir que eu era eu e era outra. Era eu e era outro. Mas viver na corda bamba, sem um prefixo definido, também cansa, e logo cansei de ser Nadir. Cansei de ser Nadir e procurei voltar a ser Helena. Mas era certo que eu não sabia mais quem era Helena. Essa que nasci, a que fui por alguns anos, eu não encontrava mais. Procurei então ser Heloísa Helena, me chamavam apenas de Helô, o que me agradava na sonoridade, na suavidade e na gravidade do pequeno nome.

Hoje sou assim, Helô. Amanhã talvez não seja mais. Os que andam perto de mim se confundem. Reclamam muitas das vezes. Alguns acho que já se acostumaram. Às vezes ouço um grito de desespero perguntando se não dava para ser assim, igual a todo mundo. Eu me calo. Tantas cabem dentro de mim, tantas gritam dentro de mim, que o grito de fora soa pequenino frente a tanta desordem aqui dentro. Não pensem que é fácil trocar de nome, de identidade, de personalidade, de desejo, de amores sempre que alguém dentro de si clama por isso. Hoje sou Heloísa, amanhã talvez Letícia, mas não o faço para ofender. Creiam-me. Perdoem-me a ousadia. Por hoje, podem me chamar de Heloísa.

Ao avesso

A história da quadrilha já ficou mais velha que a vovó. João que amava Maria que amava Pedro que amava Vitória que amava Henrique que não amava ninguém. Este que não amava ninguém namorava todo mundo. Namorou a Maria, a Vitória, semeou discórdia, casou com a Elisa, separou, casou com a Fernanda, teve um filho de cada casamento e, claro, terminou sozinho. Sozinho como queria.

O João, tadinho, sempre o começo de toda quadrilha. O João que amava Maria. O João que não era amado por ninguém. O João. Ninguém diz se ele era feio demais, desajeitado, se tinha mau hálito, se não sabia conversar. O que se sabe dele é que João amava. E isso devia bastar para um coração romântico. Pouco importa se ninguém amava João. Diferente de Henrique, João amava. Mas no fundo ninguém dá bola pra isso. Importa é quem ficou com quem, quem casou com quem, e o João, coitadinho, não casou com ninguém.

O resto da corrente também pouco importa. Sabe-se que as mulheres brigavam entre si. Queriam um homem. Não sei bem se amavam de fato ou se apenas queriam se casar. Algumas casaram, até mais de uma vez. Outras uma vez só. Houve aquelas que fizeram um bom casamento. Pouco se sabe das que foram felizes. Aliás, felicidade é outra coisa que não importa.

O que importa mesmo nessa corrente é que o mundo é sempre o avesso daquilo que se espera. Não se sabe ao certo o que se espera. Mas que o mundo é o contrário do que se deseja, ah, isso é. Então, fica a dica, como dizem os mais jovens: mire no alvo ao lado se quiser acertar em cheio. E jamais ame, para não ficar sozinho igual ao João, tadinho.