Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Setembro, 2012

Temperatura ambiente

Meus olhos se perdem na janela. Será que faz frio ou calor? É dia de ódio ou de amor?

Novelo de lã

“Você terá uma vida longa, bastante longa” foi a primeira coisa que me disse uma cartomante. De todo o resto não me lembro. Não me lembro bem quais eram os obstáculos na minha vida, algo sobre dificuldades profissionais e desavenças amorosas. Não me lembro. Tinha a ver com dinheiro, com sucesso, com conquistas. Não me lembro.

Mas a vida longa, bastante longa, me trouxe todas as seguranças que eu procurava. Não preciso mais morrer de medo de estrada, caminhão, acidente. Uma dor de barriga não me traz mais medo. Dor de cabeça, então, não passa de enxaqueca. Não preciso ter medo.

Posso, ainda, ter esperanças de ter tempo, todo o tempo do mundo, para amar ainda mais aqueles que já amo, e amar de novo alguns que se perderam. Posso também amar aquelas pessoas que acabei de conhecer e aquelas com as quais vou, um dia, me encontrar.

Vou ter tempo para errar, chorar, xingar, esbravejar. Vou ter tempo para perdoar, fazer as pazes, amar de novo. Vou ter tempo para ter um filho, dois, três. Vê-los crescer, ensiná-los a fazer bolo, comer pipoca, dar comida aos pássaros. Vou ter tempo para esperar os netos, vê-los crescer, ensiná-los a fazer bolo, comer pipoca, dar comida aos pássaros.

Vou poder construir uma casa, uma família, uma profissão. E depois, vou ter tempo para reformar a casa, a família, mudar de profissão. Vou poder trabalhar e sonhar com a aposentadoria. Vou poder escolher com calma o lugar ideal para abrir um café e oferecer os melhores quitutes para os mais novos clientes sem nem mesmo pensar em ganhar dinheiro. Vou poder esperar de novo e de novo aquele olhar que me acalma a alma.

E se a vida é longa, vou ter tempo para aprender a espera. Espera pela resposta do emprego, espera pelo final do ano, espera pela casa nova, espera pelo telefonema. Espera pela alegria e espera pela tristeza. Espera pelos sonhos, espera pelas visitas. Espera pelo retorno daquele que amo, espera pelo inverno. Espera pela vida e espera pela morte.

Não me lembro bem do que mais a cartomante disse. E no final, importa apenas isso. Que a vida seja longa e o tempo bem vivido, a morte chegando, assim, como alegria. A alegria de se ter vivido tudo, a todo instante.

Despedida

Amanhã quando eu acordar você não estará mais conosco. Nos últimos dias já era possível pressentir a sua partida: seus olhos baixos, seu silêncio, sua fraqueza. Os dias estavam quentes, os pernilongos voltaram as nos perturbar o sono. O céu já não reluzia do azul frio e brilhante dos seus melhores dias. Mas amanhã, definitivamente amanhã, você não estará mais conosco.

E antes de sua partida já pressentimos a chegada de uma senhora gloriosa. Senhora que de tão velha não envelhece nunca. Senhora perfumada de perfume da terra e colorida de cores inomináveis. Senhora que não se esconde, que não aceita tristezas, que fala da vida e cobra da vida que lhe sirva de espelho. E na presença desta senhora tão garbosa nos esqueceremos completamente de você.

Nesta nova presença tudo é fala, é dança, é diálogo. O que era cinza se torna chumbo, chão, terra, flor, fruta, vitamina, alegria. O que era silêncio na sua presença se transforma em nada, nem mesmo em lembrança. Tão logo você se vai e nos esquecemos de você.

Mas hoje, ainda, você está aqui. Trazendo chuva, trazendo umidade, refrescando meus olhos secos, me saciando de melancolia, me aquecendo com o crepitar da madeira no fogo. E é só nesses dias que me alimento de silêncio, que relembro que também sou terra, que me transformo a cada estação e que me reencontro contigo sempre a cada ano, no mesmo silêncio, na mesma reconstrução, no mesmo esconderijo da terra quando fujo do frio e me protejo, silenciosamente, no calor da solidão. Vá, meu amigo. Estarei te esperando no próximo ano, na próxima temporada, com um cobertor nos ombros, uma taça de vinho na mão, e um nó apertado no coração.

Partilha

Tento dizer mas, como eu mesma, as palavras também ficam pela metade.

Dias a fio

De todos os seus talentos, era a sua capacidade mágica de fazer chover nos dias secos o que mais me acalmava o coração. Sereno que vinha do céu e de seus olhos cansados, cansados de velar, dias a fio, a terra seca e o meu amor sem direção.

Desamor

Uma cidade florida com rosas nos canteiros das praças só pode ser uma cidade doente. Seria preciso investimento maciço em novas unidades de saúde para tratar um povo tão perdidamente convalescente de falta de amor.

Contardo Calligaris, O conto do amor

Contardo Calligaris, O conto do amor. São Paulo, Companhia das Letras, 2008, 124 páginas.

Este é um livro de amor, um livro que fala do amor. Amor moderno e caduco, ao mesmo tempo. A velha história dos amores impossíveis, das vidas idealizadas, do cotidiano empobrecido, dos sonhos que arrebatam e levam para longe das dores rotineiras. Uma história contada pelas palavras de um terapeuta, que às vezes nos faz perguntar se não seria essa a história do próprio escritor, já que a orelha do livro nos conta que Calligaris é, também ele, psicanalista e psicoterapeuta.

Seja como for, as marcas do psicanalista aparecem de cara no enredo: doze anos depois da morte do pai, o protagonista do livro, Carlo Antonini, decide ir atrás dos significados das últimas palavras ditas por seu pai, que afirmavam que ele, o pai, havia vivido em outra época, tendo sido um dos ajudantes de Sodoma, um importante pintor renascentista, e que ele havia ajudado a pintar os afrescos de um mosteiro italiano em Monte Oliveto Maggiore.

Para tanto, Antonini sai de Nova Iorque, onde trabalha como psicoterapeuta, e inicia uma viagem pela Itália, em busca de pistas ou indícios sobre quem teriam sido os ajudantes de Sodoma. A busca do personagem o faz mergulhar num universo renascentista parecido com aquele no qual seu pai viveu submerso durante toda a vida: é pelas lembranças de Antonini que ficamos sabendo que seu pai vivia à parte da vida familiar, que pouco falava, que pouco se ouvia dele, que passava a maior parte do tempo em sua escrivaninha, debruçado sobre livros do Renascimento.

Em seu trajeto de busca, Antonini conhece Nicoletta, uma jovem especialista em arte renascentista, que o ajuda a encontrar diversas das pistas que ele procurava. A principal delas, no entanto, é o sentimento de paz que o inunda quando está ao seu lado. É a presença de Nicoletta, muitas vezes, que o faz continuar em suas buscas pela lembrança do pai. De volta a Nova Iorque, o personagem passa a ler os diários de seu pai, e é nele que encontra diversas cartas de amor que foram enviadas por uma mulher que não sua mãe.

É a partir destas cartas que Antonini começa a compreender o alheamento do pai, sua imersão completa nas pinturas renascentistas e sua recusa em participar da vida real, aquela em que era necessário conversar com o filho, fazer compras de supermercado, elogiar a esposa, dizer a ela que a amava. Um amor impossível havia levado o pai a viver num outro plano, perto da sua amada, aquela que pintava quadros e afrescos e os vendia a quem bem entendesse, assim como amava e se dava para quem bem entendesse. Como o pai não podia fazer parte desta vida real, preferiu, então, criar sua própria realidade, viver dentro do seu amor impossível.

Se o amor do pai era algo impossível de ser vivido, certamente que o de Antonini também o era. Quando descobre a verdade sobre seu pai, descobre, também, a verdade que o separa de Nicoletta. E a vida sem a sua amada é uma volta para Nova Iorque, pacientes, cinema sozinho às sextas-feira, frio, a visita do filho, as poucas conversas com os poucos amigos.

Como disse no início, no entanto, este é um livro de amor. Trágico como deve ser, e bonito como se espera. E se é assim, certamente é na primavera que os ânimos renascem, e a esperança faz com que Antonini busque mais uma vez a paz que sentia em Florença, junto aos mesmos afrescos que embriagavam seu pai. O personagem volta para a Itália, e é tudo que ficamos sabendo. O que aumenta em nós a vontade de irmos também para a Itália, se hospedar na mesmas hospedarias em que Antonini e Nicoletta estiveram, e viver um amor impossível rodeado de afrescos e pinturas da renascença.