Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de vergonha

Canção para moça envergonhada

O que você esconde por trás destes seus óculos, menina? Vergonha de moça? Impressão de cansaço? Por que em todas as fotos que vejo não encontro seus olhos, menina? Há sempre uma lente escura que te escurece, um vidro temperado a te colocar bem depois do infinito.

Tira esses seus óculos, menina. Me deixa entrar em seus olhos, me deixa ver suas mágoas, o olhar triste, a ruga que desde já te acompanha. Me deixa perseguir seu olhar, menina, perceber onde seus olhos pousam, saber o que, no fundo, te chama atenção.

É sempre assim, menina, eu te olho e não sei para onde vão seus olhos. Nem sei se você ri, se chora. Não sei nada de você, menina. Seria melhor se esconder na maquiagem, no perfume, na dança de qualquer movimento. Mas não, menina, são sempre os mesmos óculos, óculos escuros, pretos, duros.

Tira esses óculos, menina. Me deixa entrar na sua vida, descobrir o seu sorriso, fincar em seu rosto mais uma história. Tira esses óculos, menina. Vem ver a vida sem instrumento. Vem ficar do meu lado e deixa eu pegar sua mão e perceber o que brilha no seu olhar. Deixa eu te ver, menina. Deixa eu te ver.

Antônio de Ferraz

Para Natália Corazza

Prefiro corredores. Mesmo que ande desajeitada, mesmo que olhe para o chão. Melhor ter um espaço por onde caminhar, um caminho por onde fugir que ficar parada, perdida, sendo ninguém no meio de uma multidão. O problema é que a multidão sorri, a multidão conversa, troca telefones, inventa ideias. A multidão se conhece, e eu sou ninguém. Continuo sendo ninguém.

Contorno a multidão que se aglomera no saguão. Antes de chegar a novos corredores leio cartazes, anúncios. Vende-se, aluga-se, procura-se, compra-se, inaugura-se. Vende-se de novo, compra-se. Procura-se. Procuro. Procuro sempre. Procuro um corredor. Procuro um vendedor. Procuro um banheiro, um bebedouro. E a multidão ainda falante, ainda sorridente.

Como todos se conhecem? Como é possível conhecer tanta gente? Onde eu estava quando todas estas pessoas passaram a se conhecer e a se telefonar e a se procurar? Como elas sabem tanto de si e eu não sei nada?

Um graçom passa e oferece bebida. Pergunto a ele se sabe onde está sendo o lançamento do livro do Antônio de Ferraz. Ele pede desculpas, diz que não sabe informar mas aponta uma senhora que talvez possa me ajudar. Vou até ela, senhorinha já, pergunto pelo autor, ela responde que não o conhece, como ele se chama mesmo? Antônio de Ferraz. Sabe que meu filho também se chama Antônio? Eu queria muito que ele fosse escritor, assim como meu pai. Seria tão fácil, a editora ali, com tudo prontinho para publicar. No começo era mais dificil, mas aos poucos a editora foi crescendo, agora tudo é mais fácil. Mas ele cismou de ser pintor. Pintor? É, pintor. Agora está no estrangeiro. Meu neto nasceu dia desses, mas ainda não o conheci, acredita? Acredito.

A conversa foi longe. Me esqueci dos corredores, dos anúncios, dos livros, dos bebedouros, da multidão. Me esqueci do meu pânico de congressos e lançamentos e feiras. Não me importava mais como as pessoas se conheciam. As pessoas não me importavam mais. Nem me importava mais Antônio de Ferraz.

Quando me despedi da senhorinha foi que percebi que ela estava sentada na última mesa do saguão, no início de um corredor. Como eu, ela também era ninguém.

Choro de criança

Estava escuro dentro da sala, mas percebi que a moça ao meu lado enxugava discretamente as lágrimas enquanto um menino chorava  na tela do cinema. Seus movimentos eram delicados: o seu choro não era propaganda: talvez apenas emoção retida que escapou aqui e ali, melhor que ninguém percebesse o que acontecia, melhor que ninguém perguntasse.

Ainda me lembro da última vez que chorei de dor: a perna latejava já manchada de sangue depois de um tombo de patins em cimento grosso. Com olhos de menina, eu olhava o machucado, ardente, e lágrimas caíam desobedientes pelo meu rosto.

Depois disso, menina crescida, dor de choro era dor de coração. Certa vez ganhei um travesseiro cheiroso – de presente – mas me tomaram ele de volta. Outra, fui dada como responsável pelo sumiço de alguma coisa, e eu, sem nenhuma culpa, chorava sem respostas também.

Dor de machucado é fácil de explicar. Por que chora, filha? A menina aponta o joelho ralado, abraça a mãe e está tudo entendido. Dor de coração é diferente, enche de vergonha e recato quem a sente. Choro vira cisco no olho, coceira, vergonha de ser pego de surpresa.

Certa vez, um namorado que tive terminou comigo num banco de praça. A sua estratégia era buscar um lugar tranquilo, longe de olhares curiosos. Mas eu, que fui pega de surpresa, precisei tomar um ônibus, aos prantos, enfrentando o cobrador que me inquiria com os olhos o motivo de tanta angústia. Eu corria para casa, em busca de um travesseiro que escondesse a minha dor. Poder esconder a dor deveria de ser direito adquirido de todo aquele que chora, sem importar o motivo.

A moça no cinema chorava baixinho, e ainda suspeito que o filme não tenha lhe trazido lembranças de algum irmão ou parente falecido, como havia acontecido com o menino que chorava dentro da tela. Ela chorava porque o garoto lhe despertava emoções, e são raros os momentos em que podemos chorar livremente, sem motivos, sem explicações. E ela escondia o choro certamente porque como menina crescida aprendeu que só se chora no escuro, por trás dos óculos, sem ninguém por perto.

Eu, companhia silenciosa, me emocionava não pelo choro do menino, mas pela possibilidade e pela singeleza do choro da moça ao meu lado, choro que não pedia explicações.