Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de São Paulo

Para escrever um texto pessoal

Se eu escrevo “eu odeio beterraba”, você, que também odeia, lê a frase e se identifica. Ao lê-la, você afirma “eu odeio beterraba”. Neste momento acontece algo mágico: eu e você somos um, somos apenas eu, numa identificação completa.

E quando eu escrevo “eu amo São Paulo” você, que não ama, que detesta São Paulo, que escapa da cidade assim que tem oportunidade, ao ler a frase “eu amo São Paulo” não se reconhece, mas imagina, é capaz de se colocar no meu lugar, pensa na possibilidade de você mesmo dizer “eu amo São Paulo”, e revê, então, cada faísca de amor: uma caminhada à tarde nos morros da Vila Madalena, um passeio pelo Jardim da Luz e a visita à Pinacoteca, a estreia de uma turnê derradeira da Fernanda Montenegro, a vista ao longe da cidade no alto da Pedra Grande. É bem possível que você também comece a amar São Paulo, do jeito que dá, mas pode bem ser amor. E assim, mais uma vez, temos a possibilidade de sermos um, eu e você, sendo apenas eu.

As possibilidades são muitas. Quantas vezes posso tocar no fundo da sua alma ao dizer exatamente o que sinto? Inúmeras, inúmeras vezes. E a cada vez compartilhamos um pouco mais da alegria das palavras, que comunicam, que expressam, que nos aproximam.

O problema é que quando escrevo na primeira pessoa do singular eu me coloco perto de você, mas dificilmente você estará perto de mim. Se eu digo “eu me sinto só”, o que você pode fazer? Como me curar dessa solidão? O que você me dá em troca por essas palavras tão tristes? Melhor não escrever.

Talvez seja esse o mal que aflige os escritores: a ânsia em dizer o que os outros querem ouvir, em contraponto, o silêncio dolorido, vazio de qualquer resposta. O que você tem a me dizer? O que você sente e eu posso sentir junto a você? Por que você não diz nada? Me diga, por favor, me diga.

Me escreva um texto bem pessoal, cheio de eus em que eu também possa ser um com você. Me diga que você odeia beterraba, que você sonha com a Europa, me diga que você está prestes a desistir do seu grande sonho, me diga que está exausto, me diga que tem medo de trovão, de perereca, de fantasma em noite de lua cheia. Me diga tudo isso e ainda me diga mais. Me diga que se apaixonou, me diga que sofre por um amor perdido, me diga que tem calafrios toda vez que seu superior se aproxima, me diga que você tem vergonha de suas pernas finas, que não consegue terminar o mês sem estar no vermelho. Me diga que tem uma família louca, que tem ciúmes da sua melhor amiga. Me diga qualquer coisa, por favor, me diga.

Espero o seu texto, e espero que ele seja bem pessoal. Pode mandar por e-mail, por carta, por publicação no jornal. Pode jogar debaixo da porta, pode pixar no muro, imprimir em pequenos folhetos e espalhar pela cidade. O que importa é que o texto seja seu, e que eu possa me reconhecer nele, e assim eu possa estar próximo a você. Obrigada.

“Você foi marcado em uma foto”

A câmera estava ligada, era preciso pensar rápido, o que, afinal, o repórter esperava que eu respondesse para uma pergunta tão sem propósito?  Enquanto tentava pensar sobre um assunto no qual eu nunca refletira, eu ouvia a respiração do câmera por trás das lentes. Ele, certamente, se deliciava com a minha angústia e estaria, irônico, sorrindo enquanto fechava a imagem sobre meu rosto aflito. Era preciso dizer à população mundial, posicionada atrás daquela câmera, o que eu esperava para o mundo para os próximos dez anos.

O tempo era diminuto e o repórter, cínico, me convidava a refletir sobre o mundo. E o mundo, naquele momento, me parecia minúsculo. Não eram os pobres da Índia ou os escravos bolivianos de São Paulo que apareciam na minha mente. Não eram as empresas farmacêuticas e seus testes em seres humanos que me visitavam. Nem mesmo era a política nacional, com seus escândalos, renúncias de ministros e cortes de orçamento o que me preocupava.

Eu lutava contra o meu egoísmo, mas só fazia pensar nas parcelas do financiamento da minha casa, nos prazos de entrega dos meus projetos, nos lugares do mundo que sonho em ainda conhecer. Eu espero que nos próximos dez anos eu não tenha envelhecido o suficiente para desejar fazer alguma plástica, espero que consiga comprar um carro com ar condicionado – o calor que tem feito na primavera é uma barbaridade. Espero que a malha do metrô de São Paulo triplique de tamanho e espero que o pedágio se torne mais barato no caminho para o litoral.

Perdida nos meus desejos, percebo os olhos do repórter, ainda ali ao lado, demandantes, esperando a resposta definitiva. Pensei então em Minas, pensei em São Paulo, pensei na Fernão Dias e disse, confiante, que gostaria que em dez anos os homens inventassem, finalmente, a máquina de teletransporte. Não era possível acreditar na nossa capacidade humana de desenvolvimento e ainda perder tanto tempo na estrada, no trânsito, no ponto de ônibus, na fila do metrô, na conexão São Paulo – Paris.

Os olhos do repórter sorriam. Eu havia passado no teste. O câmera, para meu alívio, disse corta!, desligou sua lente biônica, interrompeu a transmissão e voltei, então, ao meu lugar no mundo. Já na biblioteca – onde passo boa parte do meu dia – sentia meu telefone vibrando. Eram mensagens recebidas dizendo que haviam me visto na TV, lá no Rio de Janeiro; que eu havia sido marcada em uma foto no Facebook; que me ligariam de Minas na hora em que fossem cantar o parabéns para a bisavó para que eu pudesse, de alguma maneira, estar presente.

De dentro da biblioteca eu povoava o mundo. A minha incapacidade de estar presente em todos os lugares que eu gostaria se transformava em presença. Na hora marcada saí da sala de estudos e cantei parabéns para a bisa, comemorando com ela os seus 95 anos. No final da música, minha avó toma o telefone e diz que naquela hora iriam tirar a foto, e que eu estaria, junto com todos os meu primos, presente no registro daquele momento tão importante para a nossa família.

Ao desligar o telefone pensei nos olhos do repórter, e desejei que ele me abordasse mais uma vez, eu diria a ele que não era preciso inventar mais nada não, que tudo o que eu desejava para o mundo já estava ali: eu estava presente em todos os lugares em que eu desejava estar. E isso é suficiente.

Para Rebeca Campos

Café com leite

Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não sinto cheiro de café coado vindo da cozinha. Em São Paulo nem mesmo existe um coador. Sinto saudades de Minas porque a cama em São Paulo é baixa – mentira dizer que tem cama: o colchão fica colado ao chão. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não existe um canto de silêncio: mesmo à noite sou acordada com buzinas e alarmes de carros. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não há cozinha grande que me acolha: não há como fazer bolos, risotos, omeletes.

Em Minas, sinto saudades de São Paulo. Em Minas, depois das seis da tarde, a cidade se encolhe, se recolhe, se refugia em um lugar qualquer que me escapa. Ninguém passeia pela Vila, pela avenida, pelo entardecer. Em Minas falta a padaria aberta, o armazém vinte e quatro horas, a possibilidade de ir a um bar sozinha e poucas pessoas, talvez, repararem na minha falta de companhia.

Em Minas me falta a livraria enorme, com uma infinitude de livros e o sonho de um dia ver meu nome num canto qualquer de uma estante. Em Minas me falta o chopp no final da tarde, o cinema quase no término da noite, o show que eu poderia ter ido na sexta à noite se não tivesse esticado até tão tarde aquela reunião.

Em São Paulo me falta a grama que eu piso todas as vezes que o trabalho me enfastia. Me falta a primavera no fundo do quintal, que insiste em forrar meu jardim de flores vermelhas que eu insisto em limpar com o meu rastelo. Em São Paulo me falta o espaço, apesar de toda sua amplitude. Em Minas me falta amplitude, com seus espaços sem fim.

Em Minas, minha voz sai anasalada. Em São Paulo, falo como quem canta e entoa cantigas da roça. Procuro em São Paulo o cheiro do café coado. Em Minas, procuro um chopp na calçada e uma conversa regada a sereno. E vivo, assim, semana após semana, dividida pela saudade, desejando o outro estado assim que atravesso a linha que separa o trabalho daquele lugar dominado pelo meu coração.