Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

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Satanás, de Mário Mendoza

Satanás, Mário Mendoza

MENDOZA, Mário. Satanás. Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2009. 279 páginas.

Quando terminei de ler o livro Satanás, de Mário Mendoza, achei que a vida não prestava. Fiquei desanimada, abatida. Tive que sair de casa, tomar um ar. Mas ao sair,encontrava com gente, e a gente toda me desanimava ainda mais. Voltei pra casa. Me fechei. Melhor ficar sozinha, tentando pensar que o mundo não existe, que não há maldade, não há violência, não há medo. Há apenas a segurança do meu lar, aqueles que amo, o cheiro do aconchego, a vida sem conflitos, sem dores, sem doenças.

O livro de Mendoza é diferente de outros colombianos que já li. É diferente, ainda, de outros livros que tratam a temática da violência, tanto colombianos quanto não colombianos. Primeiro, porque trata não da violência, mas da existência do mal. Por isso o nome, Satanás. O que rege a trama do livro são as histórias em que cotidianamente o mal trinfa, e triunfa em todas as esferas: na vida cotidiana de um padre caridoso, nas relações confusas de um pintor jovem e talentoso com sua ex namorada, nos sonhos de uma moça órfã que procura sobreviver na selva da sociedade colombiana. O mal triunfa na vingança, na culpa, na luxúria, nos ciúmes. O livro é uma falta completa de qualquer esperança.

Ler o livro de Mendoza me ajudou, no entanto, a compreender um pouco mais a natureza humana, ao tratar da ambiguidade do mal que existe em cada um. A vítima que se torna agressor, e que noutro momento se torna vítima novamente. Ninguém está a salvo. Nem de um lado, nem de outro. O agressor que implora para não ser torturado. A vítima que ri da covardia de seu agressor.

Todas essas questões se encontram mescladas nas diversas tramas presentes no livro Satanás. São três histórias aparentemente diferentes que culminam num único desastre: o livro de Mendoza se reporta a um acontecimento real na Bogotá dos anos 1980. Campo Elías, um reformado da Guerra do Vietnã, numa noite sai de seu apartamento, onde assassinou a mãe e pôs fogo no cadáver e se dirige a um restaurante de alto luxo num bairro de Bogotá. Lá, depois de jantar, ele saca seu revólver já armado e dispara contra os demais clientes. Quase 30 pessoas morreram neste massacre e quando a polícia chegou, o atirador supostamente se matou.

Essa história pode ser encontrada nos jornais da época. Mendoza conheceu o atirador, foi seu colega na faculdade. Ele afirmou em entrevistas que Campo Elías era um homem estranho, como todos eram na faculdade naquele tempo. Um pouco solitário demais, apenas isso. Mendoza levou mais de quinze anos para escrever o livro e conseguir resolver a história que ficou dentro de si. A narrativa, portanto, é o resultado de um esforço de Mendoza por contar a história que lhe coube, da maneira como a imaginou. Mendoza recriou as vítimas do massacre a partir de diversas personagens.

O incrível do livro de Mendoza, no entanto, é exatamente as personagens que ele recria e que transitam ao largo de Campo Elías, aparentemente a personagem principal do livro. Campo Elías seria um psicopata, um agressor definitivo. Não há nada de ambíguo nele, não se duvida do que ele seria capaz, ainda que o final do livro surpreenda pela capacidade do mal. As demais personagens, no entanto, vivem um cotidiano trespassado pela violência, transitando entre o bem e o mal, a certeza e a culpa, o amor e o ódio. Uma moça que foi violentada e que manda executar seus agressores, sente alívio com a morte deles e em seguida vai se confessar com um padre católico. Um pai de família que se encontra frente à mais vil miséria e executa suas filhas e esposa por não suportar mais vê-las em total sofrimento. Um padre caridoso que se encontra em constante conflito com sua sexualidade.

Apesar do final desastroso, do massacre no restaurante Pozzetto, são as personagens e seu cotidiano no decorrer da trama que experimentam o mal que ronda, que sussurra, que se apodera das pessoas. São essas personagens que vivenciam a falta de esperança, que lutam para sobreviver e para resistir ao mal.

Não é possível ler Satanás sem se sentir desanimado com a raça humana, sem se questionar sobre esse mal que ronda, que espreita. E depois, bom, aí é melhor tomar uma boa dose de cachaça, procurar ouvir uma música do Tom, ler Vinícius, pedir proteção a qualquer santo, acender uma vela, tomar um banho demorado e tentar pensar que a vida, pelo menos por alguns instantes, pode sim ser boa, e desejar, de coração, que ela o seja para o maior número de pessoas possível. 

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Pedras que a gente encontra no caminho

Aconteceu com a minha vizinha. Ao voltar da praia, após uma semana de férias, ela passou aqui em casa, para um café. Assim que entrou me espantei com o hematoma que trazia perto do olho, desses bem roxo. Na hora pensei no velho filme batido: minha vizinha e seu marido na praia, ele bebendo o dia inteiro, ela, bonitona, estirada ao sol, passa um mais abusadinho, mexe com a vizinha e logo vem o marido, já alcoolizado, arrumar briga. A praia vira um fuço, aparecem os amigos do aproveitador, o marido precisa se conter mas ao chegar em casa, é a mulher que leva uns safanões. Ninguém mandou desfilar de fio dental por aí.

O problema é que a vizinha e o seu marido se davam bem, bem demais até. Ia ser preciso, então, acreditar na versão dela. E a versão era essa: ela e o marido caminhavam no calçadão quando aparece, vindo na direção dela, uma mocinha sorridente com panfletos na mão. Assim que minha vizinha percebe o movimento da mocinha, larga instantaneamente a mão do marido e inicia um movimento contrário à mocinha de panfletos na mão. Simpática que é, não tenho dúvidas de que a vizinha continua a caminhada – em direção contrária – também sorrindo para a mocinha sorridente, bem assim, como quem agradece com os olhos e rejeita com o sorriso. Enquanto sorri para a mocinha sorridente com os panfletos, paf! Eis que um orelhão se coloca no trajeto da minha vizinha, que dá de bochecha no telefone. Desatordoada com o barulho e com a pancada, ela dá um passo atrás e se vê envolvida examente nos braços da mocinha sorridente etc. O marido vem em socorro da vizinha que, ainda sem entender o orelhão e a pancada, percebe apenas o abraço caloroso da mocinha, e ouve dela que era preciso tomar mais cuidado, andar mais atenta, e ah, inclusive, fique com um panfleto, estaremos hoje fazendo a inauguração do residencial Beira Mar, lá você encontra apartamentos de dois ou três dormitórios com preços a partir de não sei quantos reais o metro quadrado.

Ainda perplexa, minha vizinha vê a mocinha sorridente com um panfleto a menos na mão se afastar. Corre as mãos pelo rosto e percebe um calombo perto do olhos. O marido lhe abraça e sussurra em seu ouvido que poderia ter sido pior, que ela podia ter encontrado um carro no meio da rua em sua fuga desenfreada da mocinha sorridente com panfletos na mão.

Aconteceu com minha vizinha. Mas poderia ter acontecido com qualquer um. Quem nunca abraçou um orelhão? Quem nunca quis se desvencilhar de um vendedor insolente que prometia o paraíso caminhando exatamente na direção do inferno? Quem nunca se afastou tanto que acabou agarrado nas asas do inimigo? Quem nunca vivenciou uma história tão absurda que ninguém acreditaria se lhe fosse contada? Aconteceu com ela, mas poderia ter acontecido com qualquer um.