Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de amizade

Festa de aniversário

Numa roda de amigos, uma mulher que não estava presente foi elogiada por ter, no seu rol de conhecidos, pessoas muito importantes. Se semelhante atrai semelhante, a conta, então, fechava exata: tal mulher só poderia ser ela também alguém capaz de influenciar nas decisões que afetam a vida de milhares de pessoas. Digna, portanto, dos elogios que recebia sem saber.

Enquanto discursavam sobre os conhecidos desta mulher, lembrei que no meu último aniversário ninguém importante escreveu para me dar os parabéns. Ninguém com influência na política, nenhum líder de instituição importante, nem a gerente do banco, que não guarda informações pessoais de clientes tão sem importância como eu.

Lembrei de um tempo em que sim, em que era comum eu conhecer pessoas de renome, que saíam nos jornais, assinavam colunas, escreviam livros e discursavam sobre a realidade do país com autoridade reconhecida por todos que os ouviam. Não me lembro bem, talvez eles me desejassem felicidades. Não me lembro.

Agora, as felicidades vêm de pessoas tão sem importância quanto eu. Alunos que não sei filhos de quem são. Gente que colhe morangos enquanto o sol está no alto e colhe leituras quando é preciso acender a luz. Gente que erra nas palavras. Gente que crê em Deus. Gente que se desespera com as contas no final do mês. Gente que sonha com dias melhores. Gente que planeja ter um bom emprego quando chegar aos 40. Gente sem nenhum influência.

Às vezes me pego com um ponta de inveja dos elogios oferecidos àquela mulher: quisera eu ter importância, conhecer gente influente, ter algum poder. Ser reconhecida por muitos, discursar verdades, não temer jamais a solidão. Não, aquela mulher não é fútil. Nem posso dizer que suas amizades não são verdadeiras. Só posso admitir que a distância entre aquela mulher, as suas amizades e a minha realidade me mostram que deve haver espaço, nas nossas agendas pessoais, para todo tipo de gente, mesmo que nos falte recursos, financeiros e sociais,  para comemorações com inúmeros convidados.

Me alegro, então, com todos os desejos de feliz aniversário. Gente como eu, que deseja felicidades. Gente que comemora. Gente que se alegra e sofre. Gente que sonha. Gente que faz aniversário.

Desnecessidade

Eu não preciso que você goste de mim. Já precisei, hoje não preciso mais. Já fiz de tudo para conseguir um sorriso seu, perdia noites interpretando seus gestos, buscando compreender se você estava zangado comigo, ou se aquilo não passava da minha imaginação. Se você andava triste, eu achava que a culpa era minha. Se estava feliz, era certo que eu não fazia parte da sua felicidade. Você era o centro da minha vida, e eu andava às voltas, próxima ou distante, mendigando carinho e atenção.

Às vezes você partia para tão longe que eu te perdia de vista. Às vezes, estando do meu lado, fazia questão de demonstrar que eu não era o centro de nada. Eu te amava e você deixava claro que não se importava. Você me acudia, mas só quando era completamente necessário. E nessas horas eu acreditava que você me amava. E nessas horas eu te amava, mais.

Hoje não sei bem por onde você anda. Mas te percebo numa cara fechada, num bom dia não correspondido. Numa recusa a ir comigo ao cinema. Te percebo no falatório cotidiano que diz e diz e nem se preocupa em perguntar como estou me sentindo. Te percebo no silêncio do telefone, que por dias e dias não toca, não chama.

Te percebo, mas não me importo mais. Não preciso mais que você goste de mim. Nem mesmo penso que não preciso, mas seria bom se você gostasse. Não me importo mais. Eu continuo podendo amar a quem eu quiser. E amo. Amo muito. Amo a muitos. E minha sina continua sendo amar, mesmo que os outros não me amem de volta. Mas não sofro mais. Não preciso mais. Hoje aprendi que o amor é bênção para quem o tem, para quem o cultiva. E que sempre haverá um sorriso inesperado, um convite no meio da tarde, um abraço que acolhe naquele lugar que a gente pouco espera.

Hoje não preciso mais que você goste de mim, porque aprendi a perceber que não amo sozinha e que sempre há uma mão estendida, que de tanto olhar para você eu não percebia. Hoje aprendi que há sempre alguém à espera, que deseja me transformar no seu objeto de amor. E são essas pessoas que hoje recebem os meus sorrisos e desejos de bom dia. E então, eu não preciso mais que você goste de mim.

Precisão

A quem você recorre no momento mais difícil? Foi a pergunta que uma aluna fez depois de eu ter desconversado sobre a natureza da minha religião. A quem você procura na hora mais escura? Era a sua inquietação quando eu disse que não tinha muitas certezas sobre essas coisas todas que envolvem a existência ou não de Deus.

Meu ímpeto, como sempre, foi de retrucar e dizer que não se deve procurar a Deus na hora mais escura. Se eu não o procuro nas horas felizes, se não agradeço pelo alimento, por que deveria invocá-lo na fome mais intensa? A resposta talvez seria de que, diferente de mim, Deus não é rancoroso, Ele não me cobraria minhas ausências no momento de precisão. Talvez depois me corrigisse, me iluminasse mostrando que devo estar mais perto dEle do que ando ultimamente. Não respondi.

A verdade, pensei depois, é que não preciso de Deus nas horas mais difíceis, nesses momentos em que me encontro sozinha frente ao universo e a solidão me enche de medo. Preciso dEle é no meio da multidão. São os homens que me enchem de incertezas, dúvidas, assombros. Não é doença que me enverga, é o medo de ladrão, o medo do outro. Doença médico cura, tem medicina, cirurgia. A morte mesmo, tão sem remédio, que teria Deus para fazer frente ela?

Preciso de Deus quando eu estou prestes a desistir do outro. Preciso dEle quando não acredito que vale a pena trabalhar por relações melhores, por justiça. Preciso dEle quando percebo que o homem é sádico, que tem prazer no sofrimento alheio. Preciso dEle quando sinto saudades. Preciso dEle quando o sorriso do meu amigo não me toca, ou quando sua lágrima me passa despercebida. Preciso dEle quando preparo a minha agenda e vejo que separo mais tempo para os afazeres e para o ganhar dinheiro que para o convívio de domingo com a minha família.

Quando estou sozinha, ao contrário, Deus raramente me atinge. Sim, talvez isso seja um grande egoísmo, um orgulho sem fim de pessoa pecadora. É só que quando estou assim, meus fantasmas me amedrontam e eu brigo com eles, briga dura e difícil, mas a noite se encerra e logo vem um novo dia, um dia de luz, de claridade, de esperança. É na rua, no entanto, que sinto o maior medo, o medo da maldade, o medo da recusa, o medo do abandono. É quando fica claro que tenho medo de deixar de amar quem amo por ser essa pessoa egoísta, de deixar de cuidar de quem precisa, porque sempre, afinal, existem urgências maiores, mais importantes, mais urgentes.

No momento difícil eu não faço orações, mas ando por aí pedindo que orem por mim. Digo que preciso. Digo que preciso sempre. E assim, sei que aqueles que têm uma fé muito maior que a minha, aqueles que não procuram Deus só na precisão, vão talvez se lembrar de mim e falar de mim para o seu Deus. E nesse momento, tenho certeza, meu mundo vai se tornar mais claro e bonito.

Senha de acesso

São muitas as senhas. Banco, e-mail do google,  login nas lojas do Ponto Frio, Paypal, Programa Multiplus Fidelidade, Facebook, e-mail do yahoo, Twiter, senha de acesso, senha de resgate, senha da rede doméstica da internet. É preciso misturar números e letras, para dificultar o acesso. Essa está curta de mais. Não passe de trinta caracteres. Use símbolos, de preferência. Símbolos? Sim, “$” por exemplo.

É melhor que sejam muitas senhas. Uma única seria como uma chave mestra, que abre todas as suas portas, te devasta, rouba seu dinheiro, sua conta, seus amigos, sua privacidade. Uma senha para cada conta. Não use a data de nascimento. Nem a de casamento. Nem a do aniversário do seu filho. Não anote em nenhum lugar. Não divida sua senha com ninguém.

E de tanto decorar senhas esqueço os aniversários. Esqueço os amigos. Esqueço que já é outono e posso tirar os casacos do armário e colocá-los ao sol. Esqueço, às vezes, que gosto de poesia, que o Drummond está sempre à espreita no alto da estante. Esqueço que existe um jardim nos fundos de casa, que as flores ainda não fugiram de seus vasos e esperam uma visita minha.

De tanto tentar dificultar o acesso dos outros, me esqueço de procurar o caminho para o coração de quem amo. Há quanto tempo não ligo para a Malu, minha prima, a mesma com quem eu gastava horas ao telefone quando era adolescente? Há quanto tempo não escrevo para minha avó, mesmo sabendo que uma carta frente e verso fará com que ela sorria durante um mês inteiro?

Mas é preciso estar atento, cuidar para que ninguém tenha acesso aos seus dados, aos seus segredos. Os caminhos abertos perdem importância, é preciso, antes, fechá-los. Afastar os outros. Dificultar. A maldade está sempre à espreita e não se sabe ao certo quem são as pessoas que estão ao seu lado. Dificulte. Não conte. Não diga. Se cale. Se cale sempre. E não se esqueça nunca daquilo que apenas você sabe. Essa é a sua riqueza. Riqueza que você não pode e não deve jamais dividir com ninguém. O Drummond que fique na beira da estante, afinal, poesia não é senha.

A distância de duas xícaras de café

Fazia meses que eu não o encontrava. Era preciso dizer algumas coisas, ajeitar os sentimentos, falar de nós. Nós? Eu nem sabia mais se era possível falar em nós. Eu sentia saudades, eu morria de saudades, meu corpo doía a cada dia a sua ausência, a sua distância. E agora ele ali, à minha frente, duas xícaras de café e uma distância de milhares de quilômetros.

Era preciso falar de nós. Comecei, então, a falar de mim.

Comecei um curso semana passada, de escrita criativa, a professora é uma escritora, meio famosa, meio estranha. Também fui no cinema e vi um filme que me lembrou você. É. O filme era com aquele ator que você gosta, ele estava deslumbrante, misterioso, a trama era fantástica, deixava a gente submerso do começo ao fim. O filme é baseado num livro, acho que você conhece esse livro, me lembro uma vez você falando que queria ler esse escritor. O nome do escritor? Puxa, era um alemão, acho que era alemão. Você não se lembra? Não tem problema, eu vou procurar na internet e te mando por e-mail. Falando nisso, você viu o último e-mail que te mandei? Não viu? Será que foi pro spam? Estranho… bom, não era nada, era pra te falar sobre uma peça que estreiou dia desses, pensei que a gente podia tentar ir juntos.

Ele afastou as xícaras e pegou minha mão. Os milhares de quilômetros diminuiram para centenas. Nesse instante eu parei de desfiar a ladainha vazia sobre minha vida vazia. Ele procurou os meus olhos e eu tive a certeza que ele falaria mais uma vez que era por isso, que era exatamente por isso que não dava certo, que a gente não dava certo. Mas não disse. Dessa vez ele não disse. Em silêncio ele aproximou o dorso da minha mão de seus lábios, beijando-o com toda a delicadeza e afeto que lhe eram tão comuns. Afastou novamente minha mão, olhou-a e disse que minha mão era uma das coisas lindas de todas as coisas lindas que eu trazia na vida.

Enquanto ele devolvia minha mão à mesa se construía em mim a certeza dolorosa que era por isso que eu amava aquele homem, por ele saber o momento exato de segurar a minha mão e me fazer calar diante do falatório alucinante que nos afasta de qualquer pessoa que esteja sentada à nossa frente.

Eu seguia seus movimentos vagarosos, suas mãos agora na xícara de café, a xícara entre seus lábios, suas mãos pousando a xícara de volta à mesa, como há pouco fizera com minhas mãos, o guardanapo sobre seus lábios, os lábios que há pouco tocaram minha pele. E então, ele disse, o que você mais gostou nesse filme?

Foi quando finalmente entramos nessa esfera em que o nós existe, em que não havia mais nenhuma distância nos separando, em que as xícaras nos eram intimidade e segurança. Esse lugar em que eu me permitia também tocar a sua mão, olhar seus olhos, dizer que tenho saudades etc.

Itens de primeira necessidade

Eu preciso que você goste de mim, que me ache divertida, inteligente, interessante. Eu preciso que você goste de conversar comigo, se interesse por tudo aquilo que tenho a dizer. Eu preciso que você não duvide de minha ideias, que discorde, até, mas que não diga que o que penso não tem fundamento.

Eu preciso que você me convide para suas festas, viagens, projetos. Eu preciso que você faça publicidade sobre nossa amizade: que se lembre de me citar como amiga, que fale de mim para os outros. Nada melhor do que saber que você andou me elogiando para conhecidos e desconhecidos.

Eu preciso que você me dê presentes às vezes, que se lembre de mim quando der de cara com um botton da Mafalda, que me mande um link com uma música nova que você acabou de conhecer e achou que eu iria gostar. Eu preciso que você me convide para ir à sua casa, e me ofereça um bolo que acabou de fazer.

Eu preciso que você me convide para um passeio no final da tarde, que divida comigo seus planos para o próximo verão, que me conte o que anda acontecendo no seu trabalho.

Mas de tudo, o que mais preciso é que você continue por perto mesmo quando eu me calo, que você não se afaste nos momentos em que me recuso a atender ao telefone. Eu preciso que você não desista de perguntar como eu estou mesmo quando digo que estou bem e coloco um ponto final na conversa. Eu preciso que você permaneça ao meu lado e segure minha mão quando eu tenho medo das pessoas. Eu preciso que você insista em me convidar para sair mesmo que eu tenha recusado os últimos três convites.

Eu preciso que você se lembre da minha cor favorita, que respeite o meu silêncio e que compartilhe comigo a difícil tarefa de continuar sendo gente nesse mundo cada vez menos povoado de pessoas.

Eu preciso que você me ajude, sempre e a cada dia, a amar as pessoas e a viver mais próxima delas. Essa é a maior de todas as necessidades.

Receita de felicidade

Da noite para o dia ele perdeu todo o seu dinheiro. Parece que houve um incêndio que tomou as plantações de um lado da fazenda, no outro, uma peste atacou a criação de galinhas, os peixes apareceram mortos e os funcionários todos fugiram por medo da represália. Devia de ser mau olhado. Lá se foi trator, estaleiro, caminhonetes, gado, os chalés da fazenda, tudo. Tudo. Só podia ser mau olhado.

João, sereno, se entristeceu, pensou no trinta anos de trabalho para construir o patrimônio, pensou depois que ainda era jovem e poderia, com esforço, resconstruir, não tudo, mas alguma coisa. Já na cama, se agitava preocupado, mas caiu no sono na esperança de tudo se acertar. Amanhã ele veria o que fazer.

A manhã, no entanto, acordou cinza. O telefone da fazenda toca e ele descobre que o filho, em intercâmbio lá do outro lado do mundo, sofreu um acidente e está em coma. Não é nem possível falar com ele. A mulher se desespera. Eles procuram às pressas uma passagem aérea. Quando voltam a ligar no hospital, uma enfermeira, em língua estrangeira, diz que não adianta mais. Os procedimentos já estão sendo tomados para o envio do corpo de volta à terra natal.

João pensou no filho, ele sempre foi melhor que eu, sempre viveu melhor que eu. De tudo o que João trabalhou, foi o filho quem melhor aproveitou. Viveu, viajou, conheceu gente e o mundo. Era um rapaz alegre, corajoso, confiante na vida. João sentia que, de tudo, era o filho o seu maior tesouro, e que este também tinha se ido.

Sem dinheiro e sem o filho, João só tinha a esposa e a vontade de continuar vivendo. E viveu. Triste, mas viveu. Até que descobriu um câncer de próstata já avançado. Sem recursos, foi internado no SUS e lá passou a conviver com 3 outros senhores que também estavam em tratamento de câncer.

De todos, a história de João era a mais triste. Seus companheiros, também sofrendo, buscavam animá-lo. Um deles pensou que aquilo poderia ser uma prova divina, um teste de fé. João já não queria mais ter fé, acreditar num Deus que lhe roubou os bens, a família e agora a saúde. Para ele, não fazia mais sentido lutar por uma vida tão ausente de qualquer alegria. Outro falava de bênçãos futuras, dizia que a vida talvez pudesse ainda melhorar, e João lembrava dos lugares longíquos que o filho conheceu, e ele sempre sem poder estar perto, sem poder apertar a sua mão. O terceiro, ao ouvir as histórias do filho de João, disse que ele era um homem abençoado, que ele tinha algo que ninguém lhe roubaria jamais, que era essa saudade que lhe enchia o peito, trazia lágrimas aos olhos, o homem dizia que era ela, era essa saudade o que lhe traria a saúde, a riqueza e a alegria que um dia lhe roubaram.

O primeiro disse que aquilo tudo era uma bobagem, que saudade não curava ninguém. O segundo pensou, ficou quieto por um tempo, lembrou dos netos que não via há anos, e acenou com a cabeça. O terceiro já estava com o olhar lá fora, longe, sorrindo. João fechou os olhos, amaldiçou uma divindade qualquer e fez uma promessa de que nunca ninguém jamais lhe roubaria sua saudade. Em quatro meses todos morreram, o primeiro infeliz, o segundo com alguma esperança, o terceiro com alegria. João morreu carregado de saudades de tudo o que teve e tudo o que viveu.