Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Abril, 2011

Vestido branco e lamparina

Eu estava dormindo, mas posso afirmar com toda certeza que cavalos-fantasmas vieram me visitar essa noite. Não sei dizer quantos eram: mais de um, não mais que dois. No meio do meu sono, ouvi lá longe os passos de alguns deles, aquelas patas duras fazendo barulho no asfalto da rua. Eu dormia e mesmo assim me perguntava que raios aqueles cavalos faziam ali, àquela hora, no meio da cidade, em uma rua movimentada que me dá tanto trabalho para dormir à noite. Meio-acordada-meio dormindo, concluí que eram cavalos-fantasmas – cavalos reais nunca apareceriam na minha rua, na minha noite, nos meus sonhos.

Os tais cavalos eram fantasmas e se aproximavam, aquele barulho das patas no asfalto aumentando cada vez mais: pararam bem embaixo da minha janela. Foi o momento em que pensei adivinhar a xarada: eles vieram comer a grama na frente de casa! O som das patas se transformou em som de grama sendo arrancada por aquelas bocas enormes que os cavalos-fantasmas têm. É claro! Só podia ser isso! Eles vieram atormentar meu sono em busca de grama fresca para continuarem a jornada dos cavalos-fantasmas.

Se o barulho fosse só o da grama, tudo bem, mas eles pareciam um pouco ansiosos, comiam, andavam, comiam de novo, andavam, e aquilo tudo atrapalhava o meu sono: quando eu estava quase dormindo ou quase acordando, lá vinha a pata do cavalo-fantasma contra o asfalto e eu levantava num susto. O jeito era acordar de vez e ir espantar os cavalos que insistiam em pastar na calçada em frente de casa. Mas aí, no meio do meu sono, veio outro pensamento: se os cavalos eram de fato fantasmas, como eu já havia provado por meio da minha própria argumentação, como espantá-los da frente de casa? Foi quando me senti ridícula, me imaginei saindo na rua de roupão branco, uma lamparina na mão, gritando eia! eia! sozinha, para o nada.

Mas aí estava de fato a xarada: se eu saísse na rua, àquela hora da noite, vestida de branco com uma lamparina na mão, em busca de cavalos-fantasmas, meus vizinhos certamente acordariam também, com um grito de eia! eia! na rua, olhariam pela a janela, veriam uma louca vestida de branco até os pés, e teriam a mesma certeza que eu tive – eu seria uma mulher-fantasma a lhes atrapalhar o sono. Agora tudo estava claro: os cavalos-fantasmas vieram me chamar, na certeza de que eu me uniria a eles a importunar os sonos e os sonhos dos moradores da minha cidade.

Eu resisti bravamente, fiz que não ouvi aquelas patas estalando no asfalto, nem o barulho da grama sendo triturada por aqueles dentes enormes. Repeti cinco vezes que aquilo era um sonho e acho que voltei a dormir e sonhar com qualquer outra coisa. Na mesa do café, na manha seguinte, meu marido pede para eu passar o leite, e pergunta, como quem não quer nada, se eu ouvi de noite o barulho de cavalos andando na nossa rua. Eu disse não, não ouvi nada não, devia de ser impressão dele.

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Vida dividida

Vida de retirante deve de ser assim: a mãe cata as roupas dos meninos, põe as tralhas num saco, e leva pra outro lado, pra outro canto, prum novo lugar que de certo vai ser por um tempo, tempinho curto, sua nova casa. A mãe pode ser mulher simples, com pouquinha coisa, os pertences todos da família toda num saco só. Pode também ser mulher rica, e viver a encaixotar quilos de roupas e cristais enrolados naqueles sacos com bolhas de ar que a gente adora estourar: vida de retirante não é privilégio de nenhuma classe social.

O pai de uma amiga trabalhou por anos como gerente de banco. Quando criança, ela mal sabia em que cidade morava – de tanto o pai ser transferido. Hoje, com casa fixa na capital, conhece meio mundo: cada cidade que vai é capaz de lembrar de um velho amigo e logo consegue companhia para os jantares solitários daqueles que viajam a trabalho. Passado de retirante faz crescer a agenda de contatos e diminuir a solidão de alguns compromissos.

Outra conhecida era filha de diplomata. Nasceu na França mas tinha nacionalidade brasileira. Nunca entendi como alguém nascido numa cidade francesa qualquer pode ser brasileiro. Antes mesmo de se alfabetizar, mudou-se para os Estados Unidos; já crescida, foi estudar na Suíça. Quando a conheci, tinha acabado de voltar de Londres, com alguma especialização na London School of Econimics. Seu currículo era notável, assim como eram notáveis suas dificuldades em se relacionar, articular bem as palavras ou traçar uma linha de raciocínio. Não sei bem se sua depressão tinha raízes em sua vida de retirante. O que sei é que ela parecia uma mulher solta, desamarrada, sendo levada pelo vento dentro do próprio coração.

De mim, desde que saí de casa pela primeira vez, com meus 18 anos a tiracolo, nunca mais criei raízes. Aprendi a carregar pouca coisa na mala, a ter duas casas, a dividir o quarto com diversas mulheres, a viver com muito pouco espaço. Percebi que aquilo que preciso num certo momento está sempre em outra cidade. Entendi que muitas vezes estou aqui enquanto o mundo acontece lá. Vivi, desde então, cheia de saudades. Vida dividida.

Hoje minha vida de retirante se resume a uma busca de espaço. Vivo em duas casas dividas por uma centena de metros. Em uma delas deixo apenas o que eu preciso para viver com dignidade o dia a dia: algumas panelas vermelhas, a chaleira de cerâmica, uma mesa pequena de madeira, assinada por minha mãe, a batedeira que me ajuda nas receitas de bolo, assim como as forminhas para fazer os muffins. Ali a biblioteca é pequena: dois livros de poesia, o último romance que comecei a ler há mais de ano, alguns livros de antropologia e a Mafalda da primeira à última tira. Existe um colchão atrás da porta, caso uma visita inesperada chegue no meio da noite, e tenha que dormir no chão da sala.

Na outra casa eu deixo o quintal, todo verde com o seu gazebo, os livros de fotografia, as três panelas de pressão que ganhei de casamento, os passos calmos de quem tem de atravessar toda a casa para chegar até o portão quando alguém toca o sino, minhas roupas de banho para tomar sol logo quando começa o dia, minhas lembranças e memórias de quem cresceu neste lugar.

Uma casa é oficial, a outra é invadida todas as vezes que meus pais saem para viajar. Mal eles viram a primeira curva da estrada, eu ponho meus trecos na sacola, junto restos de trabalho e de comida, me mudo para lá. Não atendo o telefone porque afinal a casa não é minha. Mas converso com as plantas, vigio a grama que cresce lá atrás, procuro pelos passarinhos que estão sempre na árvore da frente. E assim sigo a minha vida de retirante, carregando minha sacola por poucos metros, mas ainda assim marcada pela vida dividida, essa vida com uma coceira eterna de saudades.

Quem não gosta de Suflair?

“Brigada, eu não como chocolate” foi a resposta que dei ao moço que vendia Suflair no sinal. Na primeira vez que ele me ofereceu, eu disse um simples não, obrigada, seguido de um sorriso. Mas ele insistiu, disse pra levar só um, só hoje. Ele retrucou a minha resposta com uma oferta ainda mais gentil. Eu não tinha saída e fui obrigada a mentir, gentilmente. Eu poderia dizer a ele a verdade: eu não como este chocolate que você vende. Mas certamente isso não caberia naquele jogo de sutilezas que a gente havia se envolvido. Com a minha renúncia categórica a todos os chocolates ele se viu vencido, sorriu, agradeceu e foi vender chocolates e delicadezas para alguém no carro atrás de mim.

Quando arranquei com o carro me senti derrotada pela minha própria mentira. Certamente que ganhei o jogo com o vendedor, mas perdi para os chocolates mais uma vez. É verdade que o Suflair é chocolate que não me agrada: aquela textura areada não permite que ele se derreta na minha boca, alcançando lentamente todas as minhas papilas gustativas, me ganhando o amor aos poucos, até me levar às alturas com a sensação de alívio por aquele sabor ter atingido, finalmente, a totalidade das minhas sensações.

Se comprasse o Suflair do tal vendedor o pobre chocolate quedaria esquecido nos cantos do meu carro, amassado, derretido, envelhecido. É verdade que não gosto de chocolates assim. E me incomoda qualquer chocolate ultrajado dessa maneira. Sendo assim, fiz eu um favor aos chocolates e ao vendedor ao não comprá-los, permitindo que eles chegassem a mãos e lábios mais generosos, dispostos a envolvê-los em um beijo mais ardente e não indiferente – como seria o meu naquele caso.

Mas é certo que perdi para os chocolates. Uma semana de abstinência é o suficiente para uma entrega completa que começa com apenas um pedacinho, em instantes se transforma em um naco, vira uma caixa, um turbilhão, um êxtase completo que termina, invariavelmente, com uma culpa que grita por tamanha fraqueza e tamanha entrega. Nova promessa. Nunca mais se aproximar daquilo que me domina.

Sendo assim, sigo repetindo sozinha no carro para o meu vendedor, que a essa altura já se tornou um gentil senhor imaginário, que eu não como chocolates, que eu não gosto de chocolates, que eu não como chocolates, que não, eu não gosto de chocolates, eu não gosto de chocolates, eu não gosto, eu não.