Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Agosto, 2012

Entardecer

São cinco da tarde e ainda sinto sua presença. Não me importa que em meia hora tudo desapareça, que você suma, que o céu se torne escuro, que apenas o silêncio me seja companhia. Importa a sua presença, amarelando o final da tarde, me abrançando e tornando o mundo à minha volta amarelo, todo amarelo.

São cinco e meia da tarde e ainda sinto a sua presença. Mesmo que a luz vá enfraquecendo, ainda sinto sua presença. Tudo em minha volta é banhado de toda paz que tenho quando você ainda está por perto, me aquecendo, me envolvendo, me trazendo o silêncio e o desejo de que você fique um pouco, só um pouco mais, um pouquinho mais.

São seis da tarde e quase não percebo mais sua companhia. É no final do horizonte que vejo seu rastro, sua despedida. Você acena, cantarola, faz charme. Diz que volta amanhã e eu duvido. No escuro eu sempre duvido. No escuro eu sinto frio, sinto medo. Peço que você fique, mas você não fica. Você vai embora todos os dias. Você me deixa. Você me deixa mesmo sabendo que me desespero na sua ausência, que perco o sono, que perco o rumo. Você acena e diz que volta.

E amanhã você volta, para de novo às cinco da tarde eu sentir um soluço no coração. De novo, cinco e meia, a hora mais sublime em sua companhia. Cinco e meia e você ali, segurando minha mão, me convidando para seu banho – banho amarelo, cheio de luz. Cinco e meia e eu já pressentindo sua partida, sua despedida, seu aceno, seu espetáculo. Às seis e você já se foi. Às seis e não tenho mais nada de sua companhia. E de novo sinto medo, e de novo sinto frio.

E desejo com desejo ardente que chegue logo o verão, e você atrase seu relógio, e me abandone só as oito da noite. Hora do jantar, hora em que o mundo noturno precisa ser organizado, as visitas daqui a pouco estão chegando e eu nem mesmo percebi que você me abandonou. E eu nem preciso implorar por mais cinco minutos, cinco minutinhos da sua companhia. E é quando eu acredito mesmo que é você quem gosta de mim, e fica mais um pouco, fica mais um pouquinho. E sou eu quem te aqueço, quem te revelo toda a beleza do mundo escondida por traz do amarelo que trago dentro de mim.

Calendário escolar

Sou secretária de mim mesma. Na falta de alguém mais competente, logo de manhã repasso comigo os afazeres do dia. É preciso montar aula, é preciso ir ao mercado, é preciso não esquecer a entrega dos doces, é preciso passar no banco, ir buscar a roupa que ficou para passar. É preciso não esquecer a consulta médica, é preciso pagar o pedreiro. É preciso comprar algo para o almoço, é preciso não se esquecer de comer frutas. É preciso enviar aquele e-mail, aquele não, aqueles: há dias tenho enrolado para responder as mensagens que recebo. É preciso fazer a inscrição naquele curso, é preciso escrever um projeto para aquele edital.

Como boa secretária de mim mesma, lembro que preciso, urgente, comprar filtro de café. Preciso encontrar um encanador que resolva o problema da torneira do banheiro. Preciso podar a hera que cresce grande no muro do quintal. Lembro, ainda cedo na cama, que preciso ganhar dinheiro, e que pra isso tenho que fazer uma enormidade de coisas. Tantas que é preciso enumerá-las, nomeá-las, namorá-las e, acima de tudo, desejá-las.

E de tanto desejá-las deixo de lado o papel de secretária de mim mesma e começo a me dar ordens. E as ordens são tantas que por vezes perco o sono, perco a fome. E ao tentar cumpri-las todas, perco o encanto. É quando me percebo triste. É quando descubro que o desejo foi tanto que foi capaz de matar o próprio desejo. E é nesse momento que sinto as costas envergadas das tantas ordens que recebo de mim mesma.

E o dia que começou veloz encontra-se de repente paralisado. Volto à minha lista e não encontro um item sequer que seja urgente. Um item sequer que seja necessário. Respiro fundo, procuro um horizonte para pousar os olhos. É preciso esperança. Em vermelho. Esperança de que eu seja mais que uma lista de afazeres, mais que uma lista exasperada de afazeres. Só assim é possível voltar ao orçamento do portão, aos custos da pesquisa, aos contratos de serviços a serem prestados e ao calendário escolar para o próximo semestre.

Banana split

Agora parecia definitivo. Há cinco anos havia encontrado um tufo de cabelos brancos no alto da cabeça. Olhou bem, chamou o namorado. Ele confirmou. Desgraçado. Ligou pra mãe, ela disse que quando encontrou seu primeiro fio já tinha 29 anos. Cinco anos de antecedência. Não pode ser. Pensou que aos 24 já tinha começado a se deteriorar. Depois disso a morte sempre lhe acompanharia, de perto, à espreita.

Foi ao cabelereiro e nada. A mocinha, simpática, não encontrou um único fio. Olha bem, vai. Estou olhando, você não tem cabelos brancos. Certeza? Certeza. Melhor assim. Voltou pra casa, procurou, procurou, e nada. Chamou de novo o namorado. Que estranho, semana passada eles estavam aqui, agora não estão mais. Bendito. Deu-lhe um beijo e se esqueceu da morte.

No último ano passou a procurar novamente. Pressentia. Todos os dias de manhã olhava no espelho, revirava o cabelo. Sabia que o primeiro fio viria bem perto da testa, com a mamãe é assim, aquele branco que vem vindo pertinho da pele. Às vezes encontrava algo suspeito, olhava, analisava e por fim se sentia vencida: era apenas mais um fio louro nascendo fraquinho no início da testa.

Até que o dia chegou. Não foi preciso procurar. O fio despontava, sorridente, no mesmo lugar que ela procurava todos os dias, no canto direito da testa, bem início do cabelo. Não, dessa vez não era louro, era um pedaço branco num fio marrom. Era um fio já sem cor, já sem vida. Um fio sem esperanças.

Ela ficou calada o dia todo. Só contou ao marido na manhã seguinte. Ele quis ver, ela mostrou, ele não conseguiu enxergar. Maldito, agora você não enxerga. Olha bem, ele está aqui! E nada. Ela voltou-se ao espelho e de longe via o fio. O marido não via. Não lhe importava. A ela importava. Estava envelhecendo. O corpo já começava a dar sinais de rebeldia. A morte agora a acompanharia.

Ligou pra mãe, ela lhe lembrou que só encontrou o primeiro fio aos 29. Ela suspirou. Tenho apenas 28. Tenho apenas 28 e já estou envelhecendo. Desligou o telefone, se arrumou e foi à cidade tomar um sorvete. Já que se há de envelhecer e morrer, que pelo se aproveite a vida. Pediu uma banana split com calda dupla de caramelo. Depois disso ficou sorridente o resto do dia.

 

Conto publicado no site Mundo Mundano.

Fim de inverno

Passarinho, passarinho, que notícias você tem pra mim? Por que pia tão alto bem ao lado da minha janela? Por acaso algum político já foi condenado? Ou você já sabe quem será o próximo presidente dos Estados Unidos? A primavera já chegou, passarinho? As flores já voltaram a florir no meu quintal? É por falta de água, por falta de sol?

Passarinho, passarinho, que notícias você tem pra mim? Descobriu um novo rio? Arrumou namorada, passarinho? Por que tanto pia, o que tem pra me contar? Ainda não é tempo de ovos, passarinho, os filhotes ainda não vieram. Mas por que tanto pia, passarinho? A chuva não veio? O vento não veio? O amor não veio?

Passarinho, por que tanto pia? Assim você atrapalha meu sono, atrapalha meu sonho. Você veio trazer esperança, passarinho? Veio me contar que o mundo anda mais calmo, que o homem anda mais calmo, que a vida ainda pode ser vivida?

Passarinho, passarinho. Não pie, passarinho. Assim você me acorda, assim você me irrita, assim você me lembra que veio um novo dia, que é preciso trabalhar, ler, estudar, correr, melhorar, crescer. Passarinho, passarinho. Fique quieto, passarinho. Não quero saber do mundo lá fora, não quero saber do homem, não quero saber de solidão. Se a primavera ainda não veio, não me atazane, passarinho.

Passarinho, não vou abrir a janela. Volte depois. Quem sabe o inverno termine ainda essa semana. Volte depois.