Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Novembro, 2012

Risqué

Para Juliana

Depois de passado o óleo secante, a manicure segura minhas mãos de jeito delicado, olha para as unhas – bonitas como só seriam depois do fruto de seu trabalho – e diz que aquela não era minha mão. Meu intuito foi dar um puxão, esconder-lhe os dedos, indagar-lhe o que significava tão estranha afirmativa. Como aquela não era minha mão? Mas não puxei. Ela ainda segurava minhas mãos com doçura, percebeu minha perplexidade e explicou que o tom claro do esmalte não combinava comigo. Não, não era que aquela não era minha mão. Era que aquela não era a minha cor. A pergunta evidente era qual seria, então, a minha cor. Mas não perguntei.

Certa vez cheguei às pressas – minto, sempre chego às pressas – na manicure. Com o espírito ainda aturdido, pedi a ela uma cor poderosa, dali a um dia eu teria uma reunião importante, e não podia mais ser chamada de menina. “Menina?” ela me perguntou. Sim, há dois dias me chamaram de menina. Vasculhamos então seu pantone de esmaltes, selecionamos tonalidades, nomes maduros, e saí de seu salão confiante. Com aquelas unhas, o salto alto e uma camisa clássica ninguém ousaria me chamar de criança.

Com poderes de cartomante, iniciada nos mistérios da quiromancia, a manicure lê meu espírito apenas olhando para os detalhes de minha mão. Na semana seguinte, pedi a ela uma cor opaca, desapercebida, encolhida. Cor de quem não vê e não quer ser vista. “Não quer mais parecer poderosa hoje?” ela me pergunta. Dou de ombros. Hoje? Pouco me importa, melhor que nem me vejam.

Sumo por algumas semanas e volto com as unhas em frangalhos. Com a mesma delicadeza de sempre, a manicure pega minhas mãos, lixa as unhas, arruma os cantinhos, tira o excesso de cutícula, passa um creme e me pergunta se estou bem. Digo que estou. Ela insiste, está bem mesmo? Sim, e por que não estaria? Olho para o esmalte que escolhi, a cor quase transparente. Eu, quase transparente. Ela responde que estou sem brilho. Respondo que deve ser impressão. Olho para o esmalte. Não, Ju, não é impressão.

Volto, como toda semana, e trago uma cor nova. Ela olha o roxo intenso e sorri. Sorri aquele sorriso de quem sabe que a Adriana, a Adriana colorida, voltou. “Onde você comprou esse?”, me pergunta. Digo que andei fuçando por aí, e achei que ela não teria aquela cor tão diferente. Não tinha mesmo. Digo a ela para deixar lá, para outras pessoas usarem também. Ela guarda. “Esse é para os dias que você está feliz”, ela pensa, mas não me diz.

Hoje, saí da manicure e cheguei em casa com uma mão que não era minha, pintada de uma cor que não me pertence, trazendo a certeza de que ela é uma artista das cores e das almas, com poderes supremos de ler o meu espírito e de desvendar as cores presentes no meu coração.

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Fernando Vallejo, A virgem dos sicários

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. 111 páginas.

Nada mais atual que este livro de Fernando Vallejo. Se de noite eu lia algumas páginas do livro, em que o narrador vai contando os mortos na cidade de Medellin, pela manhã, ao abrir os jornais, eu lia os mortos da noite anterior na cidade de São Paulo. A Medellin contada pelo narrador me lembrava a cada instante o horror que se tem vivido nos últimos dias na cidade que já foi louvada pela queda brusca dos homicídios em poucos anos. Mas não estou aqui para falar de São Paulo. Estou para falar de Medellín, não a Medellín atual, que não conheço, mas essa que Fernando, o narrador do livro de Fernando Vallejo, nos conta.

Fernando é um gramático que voltou para a cidade de Medellín depois de muitos anos morando no exterior. A cidade que deixou na infância se apresenta agora como um lugar em que o ódio é sentido até mesmo na chuva que cai raivosa e faz transbordar o lixo do esgoto. Em meio a esse cenário, Fernando, já velho, conhece Alexis, um adolescente que trabalha como sicário, o nome dado para os matadores de aluguel. É Fernando, no entanto, que passa a nos contar os assassinatos cometidos por Alexis. Enquanto os dois caminham a via sacra em que Fernando busca conhecer as mais de cem igrejas católicas de Medellín, muitos vão sendo os mortos no meio do caminho, todos pelas mãos alvas e inocentes de Alexis, o menino anjo de Fernando.

As mortes causadas por Alexis são banais, como todas as mortes em Medellín. Um taxista que não abaixa o volume do rádio, um mendigo folgado, um menininho que desafia o guarda local, uma garçonete que se recusa a servir um café. Todos morrem pelas balas do revólver de Alexis enquanto eles caminham em direção às igrejas. E não há nada a fazer. Ninguém reclama seus mortos, nenhuma polícia aparece para investigá-los. E se segue, então, a caminho da igreja.

É Fernando, no entanto, quem conta os mortos e tenta justificá-los. Alexis não precisa justificar nada, é sua profissão, matar é a única coisa que sabe fazer, não é preciso pensar sobre isso. Mas as justificativas para tanta morte ou tão pouca vida não valem a pena. Morreu porque merecia. Melhor morrer do que viver reclamando. Pelo menos agora o primeiro inferno passou, agora só lhe resta o segundo. E assim Fernando vai nos dizendo que a vida, essa vida humana, vale mesmo muito pouco, e o melhor que se faz a um ser humano é lhe oferecer a morte.

Esse cenário de violência nos é apresentado juntamente com uma miséria completa que ronda Medellín. As comunas, algo como as favelas brasileiras, rodeiam a cidade e a vigiam com seus olhos de morte. Ali a vida vale nada, a morte é o que se espera, a vingança é o que movimenta o cotidiano, e os mortos vão sendo jogados em terrenos baldios em que urubus se encarregam de levar a alma para outro lugar.

Fernando, no entanto, é quem nos conta a história e por meio dele sabemos que poucos sobrevivem e chegam à velhice. Ele é um deles, velho que caminha sobre os mortos de sua cidade. A morte não lhe enlaça e ele vai também contando seus próprios mortos. Morre Alexis, morre Wílmar, morre outro. Sua sina é viver e pensar e tentar justificar aquilo que não ocupa a cabeça dos jovens de Medellín, que trocam a vida por um par de tênis, por um café mal servido.

A narrativa ácida de Fernando nos atinge em cheio. Ao mesmo tempo em que a ironia fina com que justifica as mortes nos prende na narrativa, as mortes contadas aos quilos em cada página nos fazem fechar o livro. O livro é um sufoco, uma falta de ar, uma raiva que contagia, ao mesmo tempo em que clareia um tanto da miséria cotidiana do dia a dia. Ainda bem que o livro é curto e nos livra rapidamente de olhar de frente para a culatra estampada em sua capa.

Resta agora voltar ao noticiário e pensar na nossa realidade cotidiana, na São Paulo contando seus mortos, na culatra que nos assombra e afirma que a vida, também por aqui, vale pouco, muito pouco.

Garota Fantástico

Nem a mais bela escapa: chega sempre um dia em que você corre para atender o telefone e na primeira vez é sua vó, na segunda, a gerente do banco, na terceira perguntam se é da farmácia. O resto do dia é silêncio.

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa

 

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa. Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 460 páginas.

Em qualquer resenha sobre o livro Trem noturno para Lisboa é possível saber que se trata da história de Gregorius, um professor de filologia de Berna que se apaixona pela sonoridade da palavra “português” e parte, então, para uma viagem rumo a Lisboa onde procura aprender essa nova língua.

Há dias terminei a leitura deste livro e desde então fico me rebatendo, tentando encontrar o que dizer sobre ele. O básico já foi dito em todos os lugares: se trata da história de um homem que abandona sua vida regrada num liceu de Berna e parte para o improvável em sua busca por uma nova língua.

O que mais, então, pode ser dito? Certa vez, um amigo antigo me falou, em voz baixa, que não se deve contar o seu poema favorito a ninguém. Seu poema favorito é o seu maior segredo. O que dizer então do livro que te tirou o conforto diário, te jogou na tempestade, arrancou as raízes calmas do cotidiano?

Não, eu não teria muito a dizer sobre Trem Noturno para Lisboa. A não ser que se é fisgado pelo livro no momento exato em que Gregorius se apaixona pela sonoridade da palavra “português” cantado pela voz de uma estrangeira desconhecido numa ponte de Berna. E isso acontece nas primeiras dez páginas. Da estrangeira que entregou essa bela palavra a Gregorius não sabemos mais nada, só a devastação que ela causou na vida dele. Depois deste encontro, Gregorius decide aprender português, vai até uma livraria e o livreiro lhe apresenta um livro nesta língua, de um médico de um livro só, Amadeu Prado. Gregorius, já apaixonado pela palavra português, se apaixona uma segunda vez por tudo aquilo que é dito no livro daquele autor desconhecido. Num impulso, ele abadona sua vida e parte para Lisboa, numa tentativa de conhecer esse médico que diz coisas sublimes num idioma sublime.

O livro nos leva, então, a conhecer diversos personagens. Adriana, Mariana, Mélodie, João Eça, Silveira, Jorge, Cecília, Maria João, Estefânia, todos eles acompanham, de algum modo, Gregorius em sua tentativa de conhecer a história de Amadeu.  Há uma semana terminei o livro e ainda me espanto com a vivacidade de cada um desses personagens na minha memória. Ainda me assusto com eles, com a profundidade com que são desenhados, é como se estivessem do outro lado da sala, me observando enquanto vou desvendando aquilo que eles sabem sobre Amadeu.

De todos os personagens, no entanto, é Amadeu, o médico das palavras de ouro, quem conduz toda a trama do livro. É por Amadeu que Gregorius modifica sua vida, avança, tropeça, muda, por fim. O livro possuiu três tramas narrativas: o livro de Amadeu, a língua portuguesa e o xadrez. Eles estão presentes em quase todas as páginas. Os personagens transitam por esses lugares, as conversas versam sobre os três temas. As escolhas são feitas a partir deles. As partidas de xadrez aparecem como um descanso na trama pesada, um alívio para a fumaça que é levantada em cada página. A língua portuguesa traz a beleza e a sonoridade da história, as últimas letras comidas, o chiado no final das palavras. E o livro de Amadeu, com seus questionamentos intermináveis, lança Gregorius e a nós, leitores, num redemoinho de perguntas e sensações e descobertas que nos levam quase ao torpor.

Entre um e outro tema encontramos ainda resquícios da ditadura de Salazar, mãos trêmulas após anos de tortura, desaparecidos, doentes, velhos moribundos, estratégias de combate, resistência entremeados na memória de agora e na memória de antes. Nenhuma página é escrita com ares de espetáculos, antes, cada evento – o de agora e o de antes – é narrado por palavras exatas, tranquilas de estarem no lugar exato onde deveriam, sem exagero nem excesso.

É tudo que posso falar sobre Trem Noturno para Lisboa. Todo o resto ainda está preso em mim, ou eu nele. Esse livro que deveria trazer na capa um aviso: “CUIDADO, PRECIPÍCIO!”.

Quem tem medo dos tempos verbais?

A etapa mais difícil de aprendizagem de uma nova língua são os tempos verbais. No básico um aprendemos, geralmente, os pronomes, um pouco de vocabulário, os números, aprendemos a nomear as coisas. No básico dois  falamos tudo no presente. Eu sou. Você é. Eles são. Tudo é certeza e, mesmo quando duvidamos da nossa capacidade de nos expressar na nova língua, ainda assim seguimos afirmando tudo o que aparece à frente: a casa é amarela, eu sou feliz, o livro está sobre a mesa, eu amo você.

No nível intermediário as coisas começam a complicar e o mundo fica mais incerto. Quando se passa a olhar para o passado as certezas se vão. Eu fui. Eu era. Eu teria sido. Eu fui e ainda sou. Eu fui mas não sou mais. É quando começamos a pensar naqueles que amamos e o coração bate num soluço. Eu amei. E eles, me amaram? Me amaram e ainda me amam? Ou não amam mais? Olhando para o passado, nos enchemos de dúvidas. Há o passado perfeito, o mais que perfeito, o imperfeito. O que já terminou, o que perdura, aquele pelo qual não há mais nada a se fazer. E ficamos ali, diante da nova língua, angustiados, o peito repleto de dores passadas, gritando para que sejam expressas no presente, aquele presente convicto de nível básico, presente do indicativo. Eu te odeio. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu quero ir embora. Eu preciso respirar.  Eu gosto de chocolate. Você gosta de mim. Eu tenho saudades. Eu acredito em Deus.

No presente do indicativo tudo volta à normalidade. Nos lembramos de quem somos, do que gostamos, nomeamos as pessoas que estão por perto. É no nível básico que encontramos essa segurança preciosa do cotidiano que nos ajuda a continuar vivendo o que vivemos até aqui.

Avançar é preciso. Se o nível intermediário nos lança nessa areia movediça do passado, arrancando aos poucos nossas lembranças e dores e culpas esquecidas, é no nível avançado, no entanto, que somos jogados no precipício: é hora de aprender sobre o futuro. Num primeiro momento, o futuro do indicativo, ingênuo como no nível básico, carregado de ares de certeza: eu serei feliz, você será rico, nós venceremos, a casa será construída em dez meses, sua família terá saúde. Nesse momento chegamos até a esquecer as agruras do intermediário, deixando para trás as tristezas do passado.

Mas a língua, essa língua que ansiamos aprender, não dá tregas ao coração. Depois da aparente certeza do futuro do indicativo, abre-se à nossa frente um abismo de novas incertezas, nomeado das mais diversas formas: futuro do pretérito, futuro do presente, futuro composto, futuro do subjuntivo. Frente a tamanha dificuldade, nossa crença em qualquer futuro se esvai. Mesmo esfraquecidos, no entanto, nos esforçamos para continuar o aprendizado daquela língua, temerosos do que esse futuro pode nos reservar.

O maior de todos os problemas se dá quando percebemos que o futuro está irremediavelmente ligado ao passado. Futuro do pretérito. Se eu tivesse prestado mais atenção, se tivesse sido mais presente, se tivesse trabalhado menos, se tivesse sido menos egoista, se tivesse me importado menos com meus sonhos e sonhado junto, ah, se tivesse feito tudo diferente, certamente eu seria mais feliz.  Seria, num futuro que não existe, poderia ter sido, mas não sou, não serei. Não há mais certezas, não estamos no reino do indicativo.

E o coração de novo soluça, se aperta no peito, odiamos aquela língua que nos lembra fracos e impotentes frente ao passado e ao futuro. Desejamos ardemente o simples do nível básico, o presente cheio de certezas, mesmo que seja para ser triste, mesmo que seja para ser sozinho. Mesmo que seja para viver caindo num precipício, mesmo que seja para fazer do abismo o nosso cotidiano. O que importa é a certeza do presente. Talvez por isso gostemos tanto do nível básico e nos acovardemos frente ao avançar do estudo de novas línguas. Os tempos verbais nos assombram, de forma completamente definitiva. De forma indicativa.

A amante que eu gostaria de ser

É inútil pensar no que eu gostaria que você fosse. Você simplesmente é. Às vezes realiza meus desejos, às vezes me deixa à mingua. Por vezes te amo inteiro, por vezes te odeio por completo. Num segundo e noutro. É inútil pensar em qualquer coisa em você que fosse um milímetro diferente. Em mim, no entanto, percebo uma eternidade de vários quilômetros repletos de desejos de mudança.

Se eu pudesse, por pelo menos um instante, duvidaria menos. Você então não precisaria lidar cotidianamente com a minha constante variação de humor. Eu te amaria, simplesmente, e isso bastaria. Você dormiria e acordaria todos os dias na certeza do meu amor. Quando então você me perguntasse se eu ainda te amo, eu não veria nos seus olhos uma tristeza de quem brinca com toda a seriedade.

Há muito que poderia ser mudado. Para ser a amante que eu gostaria de ser eu deveria aprender a controlar menos. Não se trata de ciúmes, mas de algo muito mais devastador. Eu deveria não arquear as sombrancelhas num olhar explicitamente superior quando você expõe uma opinião radicalmente contrária à minha. Eu seria uma amante melhor se te deixasse livre para ser e para querer ser quem você quisesse.

Há, ainda, as pequenas mudanças no dia a dia. A amante que eu gostaria de ser é carinhosa, implora seu amor e carinho a cada minuto ao invés de se calar num canto e se ressentir, silenciosamente, da sua falta de atenção. Ela é daquelas que te abraça de noite e não desgruda. Faça calor, frio, ventania.  Ela manda mensagens dizendo que sente saudades e que espera de um jeito ansioso o seu retorno. Ela toma cinco banhos ao dia só para estar fresca e cheirosa toda vez que você se aproxima.

A amante que eu gostaria de ser não tem medo de gastar dinheiro, não vasculha seus pensamentos para descobrir a sua próxima surpresa, não se cala quando você ainda quer conversar, não apaga a luz enquanto você ainda está chorando.

Essa amante, certamente, é mais verdadeira. Não diz que sente o que não sente, nem diz que não sente o que lhe arranca pedaços. Ela espalha seus presentes pela casa para que em cada canto possa encontrar a sua lembrança. Ela cuida dos seus pertences como se pertencessem a ela mesma.

A amante que eu gostaria de ser não vive alheia, distante num mundo negado a você. Ela te convida a cada instante a entrar na sua história, mostra os caminhos, te conta segredos, inventa passagens secretas, te oferece o cargo de general.

Não faço ideia se um dia você já sonhou com essa amante que eu sonho cotidianamente. Talvez você não queira mudar um milímetro do que eu sou. Talvez você me queira, às vezes, tão distante quanto distante estou desta que eu gostaria de ser. Talvez você me queira apenas pequena enquanto nos seus braços eu sonho sonhos cheios de grandiosidade.

Corda Bamba

Ele pressentiu o perigo assim que a mulher fez a pergunta:

– A amarela ou a rosa? Indagou, enquanto segurava, numa das mãos, uma camisa de babados e, na outra, uma bata florida.

O marido olhava para as peças de roupa dançando nas mãos da esposa enquanto pensava na melhor resposta. Dizer que as duas eram bonitas criaria o pior cenário imaginável. A mulher bradaria que preferiria ter pedido opinião ao porteiro, ao entregador de pizza, ao caixa da padaria, mas não a ele. E pensar no caixa da padaria, com aquele cabelo ralo e seboso era algo que sempre lhe ofendia. Era preciso pensar numa resposta mais cabível.

Nesse exato minuto, a mulher para de dançar com as mãos e suspende as peças na altura da cintura. Ela esperava. Ele pensava. Sinceridade também não era viável. A bata era o que mais lhe agradava, era a peça que mais escondia as curvas da esposa, não permitindo que olhos quaisquer desenhassem aquele desenho perfeito que ele preferia que fossem acessíveis apenas a seus olhos. Mas se fosse sincero ouviria os piores julgamentos. Dessa vez seria a mulher quem se sentiria ofendida, perguntando se ele achava mesmo que ela não compreendia a sua estratégia, que bem sabia que no fundo ele não a queria bonita, que ele sente ciúmes, que ele é imaturo, infantil. Melhor não escolher a bata.

Ele, então, se aproxima da mulher, toma as peças de sua mão, traz cada uma delas para perto de si, analisa. Enquanto olha as roupas tenta se lembrar do amigo gay mais próximo. O que o Jorge diria? Só ele seria capaz de acertar essa resposta. Era difícil, no entanto, pensar como o Jorge. Ele se esforça, mas vê apenas as duas peças à sua frente, tão iguais, tão indiferentes, tão perigosas para si. Ele não era o Jorge, ele não era gay, e era para ele que a mulher perguntava com que roupa ela deveria sair aquela noite.

Foi nesse momento, exato, tardio, que ele compreendeu que ela queria ouvir a opinião dele. Ele olhou então as peças por uma última vez, olhou para a mulher, abandonou as roupas sobre a cama, colocou as mãos agora livres na cintura dela, desenhou sua silhueta com as mãos, trouxe-a para perto de si, afastou a mecha de cabelo que cobria parte do seu rosto, aproximou-se de seu ouvido e sussurrou aquelas poucas palavras que ela, desde o primeiro momento, desejava de ouvir. E assim ele encerra o jogo perigoso que a mulher havia iniciado. Vencedor, pelo menos desta vez, vencedor.

Conto publicado no site Mundo Mundano.