Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

De presentes e parábolas

Há muitos e muitos anos, viveu um homem que dizia coisas enigmáticas. Um, porque no lugar de falar claramente, ele contava estórias. Dois, porque a moral da estória que contava era tão enigmática quanto à própria estória. De tão enigmático o que dizia, aquilo ficava na mente. E a gente ficava matutando, matutando. E às vezes, assim, andando na rua, chutando uma pedra, eis que uma ou outra coisa faziam sentido.

Dia desses aconteceu isso, isso de uma coisa enigmática que esse senhor dizia fazer sentido. Ele falava para as pessoas que estavam perto dele que quando fizessem o bem a alguém, ninguém deveria ficar sabendo. Mas ele falava assim: “não deixe que sua mão esquerda saiba o bem que sua mão direta fez”. Enigmático por demais. Não deixar que os outros saibam é uma coisa. Mas e as mãos que, certamente, fizeram trabalho conjunto? Só um maneta é capaz de esconder algo de uma das mãos, pelo simples fato de uma delas não existir.

Pois ontem eu ganhei um presente. Presente mesmo: com embrulho, laço de fita e dizeres singelos me desejando felicidades com o bebê que está quase a nascer. Quem me deu o presente foi uma aluna, uma aluna entre setenta de uma sala que acabei de conhecer. Não sei o seu nome. Nunca a cumprimentei. Antes que eu a agradecesse ela escapou, foi embora, não me deixou dizer nada. É claro que irei encontrá-la nas próximas semanas, vou procurar por ela, dizer que gostei muito do presente e que fiquei tocada com o seu cuidado. Perguntarei seu nome, guardarei este nome na gaveta, passarei a cumprimentá-la com um sorriso todas as vezes que trombar com ela pela faculdade.

Mas se por algum motivo ela abandonar o curso hoje, véspera de prova, véspera de desespero para todos os alunos, eu nunca mais saberei quem me ofertou aquele cuidado singelo de quem esconde o próprio fato de cuidar. Não saberei e não terei como agradecer, não poderei lembrar seu nome, sorrir para ela, oferecer algo, pequeno que seja, em troca de seu gesto grandioso.

Por que dar um presente a quem nunca te deu nada? Ou foi ela ou fui eu que ouvimos demais as estórias daquele homem que viveu há muitos e muitos anos e dizia coisas enigmáticas. Ela, ao me oferecer um presente sem me dar a chance de agradecer ou ao menos saber seu nome, eu, no meu desejo de entender o que não se há para entender. Eu, mão esquerda, querendo agradecer o bem que a mão direita fez. Mas a mão direita nem existe, ela já bateu asas, foi embora, me deixou sozinha, pensando numa bondade que só existe na prática, e não no pensamento. Pensamento ao qual me apego e por isso me afasto cada vez mais das estórias simples que contava aquele homem enigmático que viveu há muitos e muitos anos atrás.

Anúncios

No comments yet»

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: